B (a): Ele (avô) ficou quase um ano, eu acho que um ano e pouco voltando, indo pescar, só pra não desgrudar o umbigo da terra. Depois a DESENVALE proibiu permanentemente, se não ele estava lá até hoje (B (a), 35 anos, atingida/deslocada pela barragem de Pedra do Cavalo, entrevista em 28/02/2011, 2a geração).
***
O reservatório terá uma extensão de cerca de 48km, ao longo do curso d'água, atingindo áreas de vários municípios […]. O aproveitamento visa à regularização do rio para controle de enchentes, o abastecimento de água da Grande Salvador, Feira de Santana e Região Fumageira, irrigação agrícola e geração de energia elétrica, para o que foi produzido um estudo de otimização desses usos múltiplos para a sua compatibilização (DESENVALE, Aproveitamento múltiplo Pedra do Cavalo – impactos ambientais, 1984).
IV.01) Questões territoriais
Há muitas formas de se perceber o território. Alguns autores ou vertentes costumam trabalhar com os aspectos materiais e econômicos, e neste caso enfatizam o território como fonte de recursos disputado por diferentes grupos. Outros autores, têm uma concepção mais política ou jurídica e, por isso, abordam as formas de controle do espaço, através das fronteiras que os grupos estabelecem entre si, sejam elas mais ou menos formalizadas. Há também aqueles que se interessam pelo território numa perspectiva cultural e desta forma preocupam em entender como o espaço é apropriado e, sobretudo, vivido pelos diferentes grupos sociais (HAESBAERT, 2006).
O fato de haver tantas formas de interpretar o território pode ser entendido de duas formas. Por um lado, como uma questão disciplinar – cada campo recortando seu objeto de estudo – por outro, como uma propriedade do território que, não sendo apenas um instrumento analítico, mas também uma realidade empírica, é multidimensional, ou seja, vinculado às diversas dimensões da vida social – econômica, política, cultural, ambiental, afetiva (FERNANDES, 2008).
Para Haesbaert (2006), as abordagens que focalizam apenas uma ou outra dimensão do território produzem uma “concepção parcial” do mesmo e por isso propõe o que denomina de visão integradora, na qual deve-se considerar essas diversas dimensões, de preferência de maneira articulada.
Para Santos (1994) citado por Fernandes (2008), longe de ser uma questão aleatória ou apenas fruto das separações disciplinares, esta forma parcial de conceber o território oculta interesses antagônicos que estão no cerne das disputas territoriais. Para eles, é preciso que se trabalhe com o território de maneira histórica, multidimensional e política, incorporando-se as conflitualidades existentes também em nível conceitual, evitando assim que certas territorialidades dominantes tornem-se também, em muitos casos, definições dominantes (FERNANDES, 2008).
O conceito de “atingido” é um bom exemplo disso, já que na visão do Estado costuma- se considerar como território apenas as áreas visivelmente inundadas e os atingidos como aqueles que dispunham de documentação. Focaliza-se neste caso, apenas os aspectos materiais, produtivos e jurídicos das relações com a terra, limitando-se o impacto da barragem a perda de um espaço físico, “facilmente” resolvido com o pagamento de indenizações.
Diferente desta perspectiva, pretende-se aqui considerar as diversas facetas do território e as outras dimensões do território que nesse conflito foram negligenciadas ou ignoradas. Embora este trabalho não tenha a pretensão de discorrer sobre a bibliografia de território, que além de vasta não se restringe ao âmbito acadêmico49, serão destacadas a seguir algumas perspectivas conceituais que convergem para construção de uma análise mais
integradora, multidimensional e interdisciplinar.
Um primeiro ponto a se destacar neste esforço, é que o território será considerado em sua materialidade e sendo assim será entendido como substrato da vida social. Neste caso, destacamos os autores que entendem os processos de territorialização como formas de demarcar, controlar e defender determinadas porções do espaço e os recursos a ele referidos, definindo as formas de posse e usufruto (SACK citado por LITTLE 2002). Godelier por exemplo, trabalhando com comunidades cuja relação com os recursos naturais é central compreende território como:
[...] uma porção da natureza e, portanto, do espaço sobre o qual uma determinada sociedade reivindica e garante a todos ou a parte de seus membros direitos estáveis de acesso, de controle e de uso com respeito à totalidade ou parte dos recursos que aí se encontram e que ela deseja e é capaz de explorar (GODELIER, 1984, p. 112 citado por HAESBAERT, 2006 p. 56)
Mas essas dimensões materiais, econômicas e políticas de modo algum existem desprovidas de sentidos e por isso, neste ponto, a antropologia contribui para evidenciar a dimensão cultural, já que num mesmo território podem se inscrever perspectivas identitárias diferentes e mesmo antagônicas. Segundo Haesbaert (2006) “o poder do laço territorial releva que o espaço está investido de valores não apenas materiais, mas também éticos, espirituais, simbólicos e afetivos. É assim que o território cultural precede o político e com ainda mais razão precede o espaço econômico” (HAESBAERT, 2006, p. 72)
Para avançar na integração destas perspectivas, Haesbaert usa as noções de domínio e
apropriação, sendo que a primeira destacaria mais a natureza política, econômica e produtiva
da relação com o espaço, enquanto a segunda os aspectos mais afetivos e simbólicos do território entendido como espaço de pertença. A aproximação de um ou outro pólo conceitual
49 Diversas instituições e políticas públicas têm cada vez mais incorporado a noção de território. Embora já
usado há muitos anos nas políticas de desenvolvimento territorial ou agrária, tem-se hoje áreas como a saúde incorporando este termo não apenas na organização “territorial” dos serviços, mas como uma dimensão de análise dos processos de saúde coletiva. Um bom exemplo desta tendência é o livro: MIRANDA, Ary Carvalho de; BARCELLOS, Christovam; MOREIRA, Josino Costa (Org.).Território, ambiente e saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2008.
variaria conforme a dinâmica do conflito e, mais ainda, daquilo que se elege para analisar num dado momento.
Mas Maldonado (1994), trabalhando com comunidades de pescadores vai além, incorporando essas dimensões numa única perspectiva, considerando tanto a noção de domínio quanto a de apropriação, tanto os mecanismos de controle e quanto o sentimento de pertença, tanto a economia quanto a cultura.
Tomemos a territorialidade como os processos e mecanismos pelos quais os grupos estabelecem, mantêm e defendem o usufruto ou a posse de espaços interessantes. Trata- se de uma significativa dimensão do comportamento humano que se orienta implícita ou explicitamente para apropriar-se do espaço e dividi-lo em territórios fazendo deles recursos como o seu interesse, a sua ação e seus esforços para mantê-los. Esses territórios tanto podem corresponder a realidades geográficas concretas quanto a representações que frequentemente se estendem às relações sociais, na medida em que a territorialidade humana encompassa amplo leque de dimensões como status, identidade e prestígio, não raro podendo constituir-se em ordenações simbólicas em cujo bojo se dão relações de poder e dominação, eventos de linguagem e ideologia.
A territorialidade se desenvolve através do tempo, passando de uma geração para outra nos processos de socialização e de transmissão da tradição como uma relevante dimensão da capacidade do homem de conferir significado simbólico ao espaço, inclusive o espaço social em que ocorrem as suas relações, construindo lugares. Estes comportamentos levam a fenômenos da ordem da ocupação e da posse, de exclusão, de distanciamento e de pertencimento que constituem elementos fundamentais a cada cultura e a todo ser (MALDONADO, 1994, p.35).
Outro autor que elabora um conceito bastante útil e multidimensional sobre territorialidade é Paul Little (2002), que busca abarcar as dimensões anteriormente citadas através do conceito de Cosmografia. Segundo ele, a cosmografia envolveria
Os saberes ambientais, ideologias e identidades − coletivamente criados e historicamente situados − que um grupo social utiliza para estabelecer e manter seu território. A cosmografia de um grupo inclui seu regime de propriedade, os vínculos afetivos que mantém com seu território específico, a história da sua ocupação guardada na memória coletiva, o uso social que dá ao território e as formas de defesa dele (LITTLE, 2001, citado por LITTLE, 2002).
Mas pretendemos aqui ir um pouco além e considerar também os processos subjetivos na relação com o território. Neste caso, pensamos que o território (em suas múltiplas dimensões, material e simbólica, real e e imaginária, coletiva e individual) pode ser pensado como elemento da subjetividade. Esta discussão será realizada não de uma perspectiva estritamente teórica, como alguns autores vem fazendo50, mas a partir das memórias dos atingidos, analisando de que forma o território foi vivenciado não como algo externo, mas como partes dos sujeitos, que ficaram mais evidentes com a experiência de ruptura.
50 FISCHER, Gustave-n..Psicologia Social do Ambiente.2. ed. Lisboa: Instituto Piaget, 1994. (Perspectivas
Na primeira parte do capítulo então, abordaremos os aspectos mais evidentes do conflito, a partir da questão fundiária. Depois, apresentaremos os aspectos da culturais do campesinato de modo a evidenciarmos que a terra para o Estado não era a mesma terra dos atingidos. A partir dai veremos como os diferentes grupos sociais, com suas diferentes relações com a terra, deram sentidos muito próprios a esta situação. Na segunda parte abordaremos três aspectos que se destacaram nas memórias após a mudança para o novo ambiente: a relação com as águas, a separação das famílias e a afetividade na relação com o lugar. Ao final do capítulo, teremos passado pelas diversas dimensões do território buscando a visão multidimensional, integradora e interdisciplinar que nos propomos.
a) Questão fundiária: a terra como elemento central do conflito
D (a): O pequeno com o grande não leva vantagem
O primeiro aspecto a ser analisado no conflito territorial em Pedra do Cavalo é a questão da terra, tratada neste caso em seus aspectos mais visíveis, materiais e legais. O enchimento do lago serviu para escancarar o caos da estrutura fundiária, evidenciando que o título de terra tinha mais valor na comprovação da propriedade do que a sua posse, o trabalho nela realizado e a história das pessoas que ali viviam (GERMANI, 1993, p. 561). Se no capítulo anterior vimos o tratamento desigual entre as questões técnicas da barragem e a questão social, neste veremos que este “social” não era um todo homogêneo, e que havia tratamentos distintos conforme a condição social ou legal de cada família.
Em primeiro lugar, as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores rurais para serem reconhecidos como atingidos e terem uma política social por parte da DESENVALE, não foram experimentadas pelos grandes proprietários, que tiveram uma atenção especial por parte da empresa desde o começo51. Mais que isso, na opinião dos entrevistados e das técnicas sociais, esses grandes proprietários teriam sido beneficiados de diversas formas com a Barragem.
Entre os documentos da empresa, encontramos um relatório da Comissão de Auditoria da DESENVALE, de 1987, que constatou, dentre outras coisas, que houve favorecimento aos grandes proprietários e que este favorecimento era um traço da política institucional da
51 O único grupo que foi entendido como atingido desde o começo sendo previstas indenizações financeiras
empresa, que respeitava ou transgredia certas normas conforme o grupo que estava sendo atendido.
- As Resoluções de Diretoria (RD'S) privilegiaram e favoreceram os grandes proprietários. […]
- Para os privilegiados (com condições de constituir advogados), as RD(S) autorizaram indenizações cujos valores situaram-se bem acima daqueles estipulados pela Tabela de Avaliação da DESENVALE, enquanto que para a maioria dos pequenos proprietários, posseiros, meeiros, etc..., que ignorava até o termo de “Imissão de Posse” e, sequer, tinha acesso a um Defensor Público, a indenização de seus bens foi altamente injusta. (DESENVALE, Relatório Final da Comissão de Desapropriação, Relocação e Reassentamento. Item: Conclusão a nível das áreas-chave, 1987)
Conforme explicita o próprio documento, umas das formas mais evidentes de beneficiamento ocorria através das indenizações, que no caso dos grandes proprietários eram consideradas adequadas ou acima do valor, gerando enriquecimento. Em algumas situações teria sido pago 30 vezes mais do que o valor de estipulado pela tabela da empresa, dado trazido tanto pelas técnicas entrevistadas, quanto pela documentação analisada:
Após análise efetuada em 30% dos 170 cadastros de Desapropriação correspondentes a área da Adutora de Água Bruta, conclue-se que:
• a constatação de distorções, no que diz respeito aos Valores de Avaliação e Valores de Indenização indicam, desde já, que em parte não foram obedecidas as diretrizes propostas na implantação da Sistemática de Desapropriações; • calculando-se o percentual de variação do valor de avaliação para o valor de
indenização, mesmo considerando o índice inflacionário correspondente ao período de andamento do processo, observa-se oscilações que vão de 101% a
22.533%;
• em alguns casos percebe-se a existência de favorecimento político, como no cadastro AD-150, cujo valor da indenização é 30 vezes superior ao de
avaliação, sem incluir os valores das casas (02 tipo II) construídas em favor do
mesmo (DESENVALE, Relatório Final da Comissão de Desapropriação Relocação e Reassentamento, 1987, p. 20).
Outra forma de beneficiamento que também foi utilizado ocorria pela oferta dos melhores terrenos, nas áreas próximas ao futuro lago, onde era possível incrementar a produção através do desenvolvimento da piscicultura, irrigação, construção de marinas e criação de espaços de lazer (como restaurantes e hotéis) usando as águas do reservatório da barragem52.
Z (a): Era completamente diferente, claro. Eles eram privilegiados, os grandes ficaram com regiões geralmente próximas aos lagos e ganhavam indenização muito superior, entendeu? (Z (a), ex-técnica da área social da DESENVALE, entrevista dia 25/10/2011)
52Segundo Palma (2007), nestes e no caso de muitos reassentamentos houve um desrespeito por parte do Estado a
dispositivos legais já existentes como a Lei Federal 4771 de 15 de Setembro de 1965, conhecida como Código Florestal.
C (a): Do ponto de vista econômico, serviu muito bem pros grandes empresários, pras marinas da vida, lá pra Santo Estevão, pro pessoal do Paraguaçu, porque eles instalaram vários viveiros de criação de peixe. Enfim, pra quem tinha grana, se aproveitou desse momento e estabeleceu inclusive uma unidade produtiva extremamente econômica. Para os pequenos, que foram desabrigados e reassentados, você pode rodar a barragem toda, que você não encontra uma família bem sucedida. Você não encontra uma! (C(a), Liderança do Pólo Sindical de Feira de Santana, 31/10/2011)
Um dado sintomático dessa desigualdade é que nos documentos da área social da DESENVALE os grandes proprietários são invisíveis, ou seja não eram encontradas informações sobre eles. As técnicas entrevistadas esclareceram essa invisibilidade informando que eles não eram acompanhados pelo setor de desapropriação da empresa, mas pela própria Diretoria. Com isso fica claro que o setor e a política social da DESENVALE tinha como foco um “social” bem preciso:
X(a): A gente nem tinha conhecimento. Os grandes proprietários não passavam por a gente. Y(a): Direto no jurídico, não passavam nas nossas mãos.
F (pesquisadora): Então, a área social ficava com o quem? Y(a): Ficava com aquele que não tinha para onde ir.
X(a): Os pequenos (X(a) e Y(a), ex-técnicas da área social da DESENVALE, 11/10/2011) ***
J: A gente recebia o pessoal que ia ser desapropriado. A gente recebia o pessoal e orientava eles. Mas foi um trabalho muito difícil, porque a indenização era muito baixa. Tipo assim: o cara que era desapropriado ganhava três mil hoje em dia pela casa com benfeitoria e tudo. Porque era cadastrado tudo, a casa, benfeitoria. E um cara que tinha pistolão, que era mancomunado com o governo, fazia o acordo na diretoria da própria empresa, da Desenvale, entendeu? Esse era beneficiado com a barragem (Z, ex-técnica da área social da DESENVALE, 18/10/2011)
Já do outro lado da história, ou seja, para com os “pequenos” a situação era bem diferente. Primeiro, que inicialmente não havia reconhecimento de muitos grupos sociais como atingidos, já que no entendimento da empresa apenas os proprietários com títulos e alguns posseiros com quantidade de terras significativa poderiam ser considerados atingidos.
Em se tratando de estrutura fundiária brasileira, isso significava que a maior parte das pessoas não seria contemplada, gerando o empobrecimento quase imediato das famílias que passariam a não ter terra nem trabalho. Este público representava justamente a maioria dos que viviam na área a ser inundada, já que conforme a documentação do setor social de 1983, 70% dos atingidos eram formados por “pequenos proprietários que se dedicam à lavoura de subsistência e à referida criação [...] e de ocupantes rurais de terras e/ou domicílio [...]” (DESENVALE, 1983).
Em relação aos pequenos proprietários que dispunham de documentação, a saída oferecida também não era interessante, pois as indenizações oferecidas tinham valores bem abaixo do valor das terras na região. E não era só através da desvalorização financeira na
tabela de preços das terras que se atuava de maneira perversa com essas populações mais pobres. Segundo Germani (1993), que também trabalhou como técnica social na DESENVALE, havia outras estratégias para reduzir os preços que serviam ao mesmo tempo pressionar as famílias a decidirem com rapidez a saída da área do lago.
Todavia mais maquiavélica foi a prática que por algum tempo se adotou na expropriação da área de Pedra do Cavalo, na Bahia. Neste caso, se elaborou uma tabela com preços da terra e das benfeitorias, mas no momento da negociação se apresentava outra com um valor 50% menor que o valor total. O expropriado dizia que não, que o valor oferecido era muito pouco, que não era possível aceitá-lo. O responsável pela negociação então fazia uma proposta de que se aceitasse naquele momento, o valor pago seria aumentado em 50%, isto é, chegaria ao valor real da tabela. O que se observa é que o valor da expropriação, isto é, o preço justo, longe de ser estipulado como uma garantia de que o expropriado pudesse restabelecer-se o mais breve possível, era manipulado segundo as conveniências tanto no sentido de fazê-la mais barata como de mais fácil execução (GERMANI, 1993, p. 564, grifo meu. Tradução livre)
Uma outra estratégia de desvalorização também foi localizada, ocorrendo neste caso pelas vias institucionais formais, através do não reajuste da “Tabela de Avaliação e Indenização”. De acordo com o Relatório da Comissão de Auditoria, apesar das normas da empresa recomendarem claramente a necessidade de atualização dos preços da tabela através de “correção trimestral, tendo como base os valores de mercado e índices de correção da FGV”, na prática “verificou-se, que esse princípio não foi observado, e que, durante todo o processo desapropriatório, ocorreram apenas 02 reajustes” (DESENVALE, 1987, p.14).
Tabela 3: Histórico de reajustes da DESENVALE
Período Reajuste
De 02.02.1982 a 28.02.1983 Nenhum reajuste De 01.03.1983 a 31.07.1984 Reajuste de 20% A partir de 01.08.1984 Reajuste de 150%
Fonte: DESENVALE (1987).
Os dados trazidos pela tabela 03 ilustravam duas outras questões: que os reajustes ocorreram entre 1983 e 1984, justamente quando a organização dos atingidos pressionava o Estado e que no último reajuste houve um aumento de 150%, sugerindo que os valores pagos até então estavam bem abaixo do que era recomendado.
A situação, portanto não era muito favorável “aos pequenos”. Primeiro, porque precisavam lutar para serem reconhecidos como atingidos. Segundo, porque os que eram reconhecidos recebiam indenizações irrisórias. Terceiro, porque havia uma grande quantidade
de trabalhadores que, sendo ligados a grandes proprietários perderiam acesso a terra sem receber parte das indenizações.
Em meio a tantas configurações de trabalho e relações com a terra mais ou menos formais, mais ou menos legitimadas pelas políticas da empresa, a tarefa dos sindicatos se tornava complexa: precisavam transformar essas pessoas anteriormente dispersas, com diferentes condições sociais em um grupo organizado com pautas comuns.
L(o): Esses arrendeiros, essa pessoas pequenas que não tinha terra, naquela época eu era o presidente do sindicato, eu ia para a comunidade junto com outros companheiros do sindicato, eu ia pra rua fazer reunião com eles, nas comunidades Coqueirinho, Mamona, Batizal, Trapiá nos lugares que pertencessem a área de barragem. A gente tinha que fazer reunião, o sindicato ia fazer reunião pra levar eles para a luta, pra conseguir os direito deles. Porque se eles não fossem empenhados também na luta, que direito que eles iriam ter? Defender o sindicato sozinho sem eles tarem na frente? Sindicato, ele vive através de seus associados. Então o quê que acontece, a gente mantinha a reunião marcada naquele dia e depois a gente repassava. Repassava lá em Feira de Santana juntamente com outros sindicatos como estava ocorrendo, e engajava e marcava as datas […] não era fácil não! (L (o), 66 anos, ex-sindicalista, atingido/deslocado pela barragem de Pedra do cavalo, 03/03/2011).
Assim, um dos primeiros aspectos destacados entre as revindicações foi a bandeira
Terra para Todos. Os STRs passaram a defender que todos os que viviam da terra e teriam