APÊNDICE I Modelo de equações estruturais estimado
3 TESE, PROBLEMA DE PESQUISA, MODELO, OBJETIVOS E
Neste trabalho, define-se, provisoriamente, compatibilidade P-O percebida como a
percepção do indivíduo de que ele é compatível com seu ambiente organizacional. Na
compatibilidade P-O percebida, considera-se: o ambiente psicológico, que inclui apenas os
objetos
29que têm existência para o indivíduo (KANTOR, 1924; LEWIN, 1935;
CARTWRIGHT, 1951; BRUNER, 1973) e como os objetos se parecem para o indivíduo
30(ALLPORT, 1955) ou o que representam para ele (BRUNER; POSTMAN, 1948; BRUNER,
1957). O indivíduo percebe a situação influenciado pelo contexto (KANTOR, 1924; LEWIN,
1935; DEMBER, 1960), como um todo com significado (MURRAY, 1938).
Entende-se que o indivíduo não é um receptor passivo de experiências sensoriais
(PRENTICE, 1958). A experiência sensorial (BRUNER; GOODMAN, 1947; BRUNER, 1957;
HIGGINS; BARGH, 1987; FISKE, 1993) faz parte da percepção, assim como também a
estrutura cognitiva (LEWIN, 1935; BRUNER; 1957; BOWERS, 1973; BRUNER, 1973;
EKEHAMMAR, 1974; PERVIN; LEWIS, 1978; KRISTOF-BROWN et al., 2005) e conteúdos
internos do indivíduo o fazem, não sendo possível separar completamente o ambiente da pessoa
que o percebe (BOWERS, 1973; NUTTIN, 1977).
A percepção é vista como um processo de categorização (BRUNER, 1957) e, logo, o
indivíduo é capaz de comunicá-la. Entre os conteúdos internos que influenciam a percepção,
destacam-se: necessidades (MURRAY, 1938; BRUNER; GOODMAN, 1947;
MCCLELLAND; LIBERMAN, 1949; MCGINNIES, 1949; BRUNER, 1957; BRUNER, 1973;
HIGGINS; BARGH, 1987; FISKE, 1993; HERNANDEZ; CALDAS, 2001; HUFFMAN et al.,
2003), motivações (MCCLELLAND; LIBERMAN, 1949; BRUNER, 1973; HENTSCHEL et
al., 1986; HIGGINS; BARGH, 1987; FISKE, 1993; HERNANDEZ; CALDAS, 2001;
HUFFMAN et al., 2003), metas (CARTWRIGHT, 1951; BRUNER, 1973; HIGGINS;
BARGH, 1987; FISKE, 1993) e valores (HIGGINS; BARGH, 1987; FISKE, 1993;
HERNANDEZ; CALDAS, 2001). Referindo-se especificamente ao ambiente organizacional,
Leiter et al. (2008, p. 43, tradução do pesquisador) afirmam que os indivíduos “entram na
29 Inclui não somente objetos e/ou acontecimentos físicos, mas também sociais (KANTOR, 1924; CARTWRIGHT, 1951; EKEHAMMAR, 1974), tais como econômicos, politicos e legais (CARTWRIGHT, 1951). 30 Nesta pesquisa, estuda-se a compatibilidade P-O como é percebida pelo indivíduo. Embora o foco resida na experiência fenomenológica do indivíduo e não na realidade objetiva (ALLPORT, 1955), isso é diferente e não implica a utilização de métodos de investigação apoiados na fenomenologia.
organização com um conjunto de valores e perspectivas, os quais utilizam para dar sentido às
suas experiências, às estruturas e aos processos que encontram”.
Alguns pesquisadores que se voltam ao estudo de compatibilidade P-O percebida,
destacam seu caráter afetivo, indicando a tendência para considerá-la como uma resposta
afetiva (EDWARDS et al., 2006; HARRISON, 2012; JUDGE, 2012; KRISTOF-BROWN;
BILLSBERRY, 2013). O referencial teórico considerado neste trabalho sobre o fenômeno da
percepção identifica a influência de emoções na percepção (MURRAY, 1938), mas não permite
chegar ao raciocínio de que uma percepção, como a compatibilidade P-O percebida, seria uma
resposta afetiva. Em vez disso, ressalta-se o estudo de Gabriel et al. (2014), no qual os autores
encontram evidências de que a compatibilidade P-O percebida antecede afetos positivos no
trabalho.
Tendo apresentado uma definição genérica de compatibilidade P-O, é necessário
estabelecer o conteúdo substantivo em que a compatibilidade será investigada
(KRISTOF-BROWN; JANSEN, 2012). Nota-se, no entanto, que alguns pesquisadores não o estabelecem,
avaliando a compatibilidade P-O percebida como impressão geral de compatibilidade
(KRISTOF-BROWN; JANSEN, 2012; KRISTOF-BROWN; BILLSBERRY, 2013).
Piasentin e Chapman (2006) também recomendam que cada item de questionários de
compatibilidade P-O percebida avalie apenas um conteúdo, tornando possível compreender a
contribuição daquele conteúdo para a compatibilidade. Nota-se que os questionários mais
utilizados nos estudos sobre compatibilidade P-O percebida (ver Quadro 5) incluem mais de
um conteúdo no mesmo item (por exemplo, valores, personalidade, cultura e mesmo
compatibilidade geral).
Neste estudo, considerando-se a falta de compreensão sobre compatibilidade P-O
percebida (KRISTOF-BROWN; BILLSBERRY, 2013) e a relevância de valores para os
estudos em compatibilidade P-O, tendo sido esses eleitos como conteúdo em 81% (n = 127)
dos estudos (ver seção 2.2.5), decide-se focar em valores como conteúdo de compatibilidade
P-O percebida. Aqui, apoia-se na teoria de valores pessoais de Schwartz (1992) e em sua versão
refinada (SCHWARTZ et al., 2012) para apresentar uma medida de compatibilidade P-O
percebida que considera a multidimensionalidade de valores.
Neste trabalho, defende-se, com base em French Jr. et al. (1974) e em Edwards e
Billsberry (2010), que a avaliação de compatibilidade P-O percebida por componentes
contribuirá para uma melhor compreensão do que compatibilidade P-O percebida vem a
ser. A tese do presente estudo é de que RVP é um componente de compatibilidade P-O
percebida. Entendendo-se valores pessoais como metas motivacionais (SCHWARTZ, 1992),
propõe-se que os indivíduos se percebem compatíveis com as organizações quando eles
percebem realizar seus valores no ambiente organizacional.
Defende-se que RVP não é algo que acontece objetivamente, mas é a percepção do
indivíduo sobre algo que acontece, a realização de seus valores pessoais no ambiente
organizacional. RVP é proposto como um componente de compatibilidade P-O percebida
porque traz, em si, a interação entre conteúdos internos do indivíduo e algo que acontece no
ambiente organizacional: os valores pessoais, sendo abstratos, só podem se realizar em um
contexto, na proposta de Maurino e Domenico (2012), o ambiente organizacional.
Não se defende aqui que a organização preencha os valores do indivíduo. Com base em
autores da abordagem interacionista, mas também em Allport (1961), em Vroom (1966) e em
Schwartz e Bilsky (1987), defende-se que o indivíduo possui um papel ativo em busca da
realização de seus valores.
A partir do que foi apresentado, o problema de pesquisa deste estudo é assim redigido:
A percepção de realização de valores pessoais no ambiente organizacional, entendida
como componente de compatibilidade P-O percebida, influencia na intenção do indivíduo
em sair da organização em que trabalha?
Para o delineamento teórico desta pesquisa, com base na teoria ASA (SCHNEIDER,
1987, p. 443, tradução do pesquisador), segundo a qual “os indivíduos são atraídos pelas metas
[pessoais], é com as metas que eles interagem e, se não forem compatíveis, saem”. Ao revisar
tal teoria, Schneider et al. (1995) incluíram os valores pessoais entre as características pelas
quais os indivíduos buscam compatibilidade com a organização; Billsberry (2003), Morley
(2007) e Maurino e Domenico (2012) entenderam os valores pessoais como as metas no centro
da teoria ASA; e, Maurino e Domenico (2012) defenderam que os indivíduos que realizavam
seus valores pessoais nas organizações em que trabalham eram os que permaneciam nelas.
Assim, defende-se nesta pesquisa que os indivíduos que percebem baixos níveis de realização
dos seus valores pessoais no ambiente organizacional apresentam níveis altos de intenção de
saída, e vice-versa (ver Figura 10).
O objetivo geral desta pesquisa consiste em verificar se a percepção de realização
de valores pessoais no ambiente organizacional, proposta aqui como componente de
compatibilidade P-O percebida, influencia na intenção de saída da organização.
Para o alcance desse objetivo geral, têm-se os seguintes objetivos específicos:
2. Identificar a percepção de realização, no ambiente organizacional, de valores pessoais
de segunda ordem; e,
3. Identificar os níveis de intenção de saída dos respondentes.
Figura 10. Modelo teórico
Fonte: Elaborado pelo autor.