(RES)SIGNIFICADOS DO TEMPLO NA LITERATURA APOCALÍPTICA JUDAICA
3.4 Enoque, Levi e Baruch: Livros e testamentos
3.4.3 Testamento dos Doze Patriarcas – O Testamento de Le
Um texto pseudoepígrafo de grande consumo na Antiguidade que retrata visões supostamente atribuídas a Levi, terceiro filho do patriarca Jacó, quando este ainda estava em vida. A ascensão ocorre em sonho após o visionário entrar num longo período de orações após o estupro da sua irmã Diná, que fora retratado no livro de Gn.
A opinião de consenso entre os pesquisadores é que o Testamento de Levi é uma obra cristã com elementos tradicionais das correntes filosóficas e culturais do judaísmo, sendo assim uma ascensão baseada no texto de 1 En com fragmentos do testamento foram encontradas nas cavernas de Qumram, escritos em aramaico e com elementos peculiares ao judaísmo antigo (NICKELSBURG, 2003).
175 “E o Senhor Deus disse a Miguel: ‘Tome Enoque, e dispa suas vestes terrenas e o ungia com óleo suave, e o
vista com vestimenta celestial’. E Miguel tomou minhas vestimentas, e me ungiu com óleo suave e a feição deste óleo é mais intensa que a maior luz e sua unção como o suave orvalho, e o seu cheiro como a mirra e brilhante como os raios do sol. E olhei para mim mesmo, tornei-me como um dos gloriosos, e não havia diferença observável entre nós" (2 En 22:8-10, tradução nossa).
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Para Adella Collins (1996), muitos dos fragmentos encontrados em aramaico coincidem com a versão grega proveniente do cristianismo antigo, sendo assim é possível que exista uma provável reapropriação cristã de uma obra judaica escrita em aramaico. A sua provável datação está no séc. II d.C. da era cristã, porém segundo os especialistas existe uma clara dependência da Vorlage judaica proveniente dos relatos em aramaico que serviu de base para o texto cristão que traz uma datação dos primeiros textos do testamento de Levi para o séc. II a.C. (SCHÄFER, 2009).
Nos sonhos ele vê um monte que liga o céu e a terra com os céus abertos e um anjo do Senhor o chama para adentrar ao universo celestial. Levi chega ao segundo céu e olhando para cima contempla através dos portões abertos a habitação sagrada de Yahweh. O anjo instrui o visionário sobre os céus que são demonstrados de formas distintas, o que leva a crer que foi compilado de forma aleatória pelo editor. O anjo, que não é identificado na narrativa, faz algumas considerações sobre o terceiro céu que o visionário em breve vai adentrar, com uma mensagem incomum, informando que Levi será o sacerdote de Deus que revelará os mistérios divinos aos homens e redimirá Israel.
And behold, the heavens were opened, and an angel of Lord spoke to me: "Levi, Levi enter!". and I entered the first heaven, and saw there much water suspended. And again I saw a second heaven much brighter and more lustrous, for there was a measureless height in it. And I said to the angel, "Why are these thing thus?" And the angel said to me "Do not be amazed concerning this, for you shall see another heaven more lustrous and beyond compare. And when you have mounted there, you shall stand near the Lord. You shall be his priest and you shall tell forth his mysteries to men. You shall announce the one who is about redeem Israel (TLev 2:6-10)176.
Se num primeiro momento Levi é um mero receptor dos mistérios divinos, ao longo da sua viagem ao além vai sendo capacitado e orientado a ser o transmissor dos mistérios celestiais que deveriam ser compartilhados com os humanos. O visionário se tornar um mensageiro de Deus na terra, elemento que liga a tradição dos apocalipses de viagem ao além (DEAN-OTTING, 1984).
Na sua viagem o primeiro céu (TLev 3) é descrito como céu negro, pois é o local de revelação de todas as injustiças cometidas pela humanidade, referente à
176 “E vejam os céus se abriam, e um anjo do Senhor disse pra mim: ‘Levi, Levi, entre!’. E eu entrei no primeiro
céu e vi muitas águas suspensa, após no segundo céu muito mais luminoso e lustroso, visto que havia uma altura incontável ali. E disse ao anjo: ‘Por que essas coisas são assim?’. E o anjo disse para mim: ‘Não fique maravilhado com o que viu, pois você vera outro céu ais lustroso e incomparável a qualquer destes anteriores. E quando você tiver subido, ficará perto do Senhor, será seu sacerdote e passará adiante os seus mistérios aos homens. Você anunciará aquele que está para redimir Israel” (TLev 2:6-10, tradução nossa).
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própria natureza corrupta e pecadora dos homens. Este céu contém gelo e fogo que são elementos utilizados no julgamento divino como forma de punição aos homens perversos. No segundo céu se encontram os exércitos celestiais aguardando o comando divino para punição das nações ímpias. Por sua vez, no terceiro céu está presente a habitação divina retratada como a Grande Glória no Santo dos Santos. A descrição dos céus é um tanto turbulenta com variações de 3 céus a 7 céus nos manuscritos com um suposto desdobramento judaico de uma ideia possivelmente reapropriada da babilônia (ADELLA COLLINS, 1996).
Segundo Himmelfarb (1993), o foco do Testamento de Levi é a corrupção do sacerdócio com claras alusões aos descendentes de Levi. O céu é visto e compreendido como o Templo físico de forma bem clara na sua visão. Com os portões dos céus abertos demonstrando Yahweh no seu trono de glória e Levi sendo ordenado sacerdote que vai punir os transgressores com uma espada dada diretamente pelo Senhor. Dentre esses transgressores estava Siquém, que foi o estuprador da sua irmã Diná.
Observa-se que a legitimação de Levi como sacerdote escolhido diretamente por Deus evoca a tradição do Tabernáculo e do Templo por seus descendentes - os responsáveis pelo cuidado e ritos simbólicos envolvendo a religião judaica no espaço sagrado -, outorgando também à sua descendência poder e autoridade sobre o serviço do Templo material.
A ideia do sacerdócio eterno aparece no capítulo 8, quando ocorre uma visão da investidura do rei Davi como sacerdote com os anjos ungindo-o, com uma clara alusão ao sacerdócio eterno segundo a ordem de Melquisedeque (Sl. 110:4). Uma exortação de Levi a sua descendência pelos futuros pecados cometidos frente à ordem do Templo. Novamente, há uma mescla de elementos envolvendo a forma do Templo material e do Templo Celestial na visão atribuída a Levi como forma de demonstrar que há uma ligação entre as ordens celestiais e que somente o sacerdócio exercido pela ordem de Levi na forma do Templo seria o elemento unificador de céu-terra e terra-céu, sendo necessária uma limpeza da corrupção no próprio sacerdócio terreno.
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