CAPÍTULO I A IMPORTÂNCIA DA RENÚNCIA SEXUAL PARA
1.2 COMPOSIÇÃO E ENREDO DOS ATOS DE PAULO E TECLA
1.2.2 Testemunhos, manuscritos e local de origem
Uma das primeiras pessoas a fazer qualquer menção ao APT foi Tertuliano. Em um aviso sobre os AP, Tertuliano escreveu um tratado intitulado “De Batismo” e menciona, principalmente, o APT, que, portanto, já deve ter sido uma parte integrante do AP em seu tempo. Neste, ele tentou resolver o erro que tinha sido estabelecido por certa mulher gnóstica ou Marcionita da seita Cainita, cujo argumento era o de que o batismo não era um sacramento necessário da fé cristã. De interesse para o leitor dos AP é sua afirmação no capítulo 17:
“Mas, se certos Atos de Paulo, que são falsamente assim chamados, alegam o exemplo de Tecla para permitir que as mulheres ensinem e batizem, que os homens sabem que na Ásia o presbítero que compilou o documento, adicionando o seu próprio pensamento como sendo a reputação de Paulo, foi encontrado, e ele professava ter feito isso por amor de Paulo, foi deposto de seu cargo. Como podemos acreditar que Paulo deveria dar um poder feminino para ensinar e batizar, quando ele não permitiu que uma mulher aprendesse por seu próprio direito? Guardem silêncio, ele diz, e peçam aos seus maridos em casa”51.
Em relação ao local de origem do AP, Tertuliano atribuiu o trabalho para a Ásia Menor. A terminologia social utilizada pelo autor na definição de seus protagonistas como “a primeira da cidade” (ou a primeira da Icônio ou Antioquia) indica que o lugar de origem do AP deve ser buscado no sudoeste da Ásia Menor, tal como o nome Falconilla. A menção de Eustáquio de Sebaste se encaixa perfeitamente com esta região. Ambos, Icônio e Antioquia, seriam possibilidades, mas o nome da rainha Trifena aponta fortemente para Icônio. É certamente iluminado com este local que, com diferentes graus de probabilidade, uma série de romances pagãos foram identificados como sendo compostos ou destinados para um público na região oeste da Ásia Menor. Assim, Tertuliano estava bem informado sobre a autoria do AP e não há motivo para duvidar de sua informação, a qual sugere que o autor do AP era um presbítero homem52.
A posição de destaque ocupada por Tecla no AP prova que virgens e mulheres da elite eram alvos importantes de sua obra. Recentemente, o debate sobre o problema “como em que medida as mulheres constituíam o público pretendido dos romances
51 BARRIER, 2008, p. 44. 52 Cf. BARRIER, 2008, p. 61
pagãos” foi reaberto. A representação das mulheres nos Atos de João e Atos de Paulo sugere a consciência que os homens tinham sobre o status elevado e independência que elas possuíam. Estudos recentes demonstraram que as mulheres da classe alta da Ásia Menor se reuniam, e estas possuíam grande riqueza e influência nos primeiros séculos do Império Romano, sugerindo que neste período de escrita do AP as mulheres já possuíam certo grau de liberdade, pelo menos nessa época53.
A situação foi, talvez, não tão diferente de algumas outras áreas do Império Romano. Por exemplo, as mulheres de famílias de elite na África do Norte também foram extremamente ricas, como algumas inscrições locais mostram abundantemente. Uma vez que os AP viajaram pelo Mediterrâneo, fora do sudoeste da Ásia Menor, estas mulheres poderiam apropriar-se do exemplo de Tecla e aspirar à mesma independência. E, de fato, o aviso de Tertuliano já mencionado nos informa que o comportamento de Tecla havia inspirado as mulheres cartaginesas para solicitar o direito de batizar e instruir.
De acordo com Barrier54 as possibilidades de datação seguem: O Texto do Batismo foi escrito em algum momento entre os anos 196 e 206 d.C., este texto fornece o ponto final para o AP. Por outro lado, é uma datação incerta. Gutschmidt observou que a rainha Trifena existiu, sendo ela viúva do rei Cotys da Trácia, mãe do rei Polemon II, rei do Pontus, e uma parente de César (possivelmente ela tenha vivido em Icônio) em torno de 38-63 d.C., que aumenta (mas, de nenhuma maneira confirma) a probabilidade de historicidade de Tecla e fornece um ponto inicial, de volta ao tempo em que os eventos foram relatados.
Bremmer55 sugere uma data muito mais estreita de 160 d.C., por causa da evidência em uma inscrição romana de Pompeia sobre Falconilla, a esposa de um cônsul romano na Sicília, por volta do ano 169 d.C. Bremmer está convencido de que esta é Falconilla mencionada no APT, que é filha da rainha Trifena. Se isso for verdade, então a data para escrever o APT cai dentro de um espaço de 30-40 anos, com a AP sendo compilada no auge da popularidade da novela antiga. Por outro lado, Hilhorst56 sugere que a passagem de Jerônimo, onde ele está comentando sobre as críticas da Acta Pauli de Tertuliano, é significativa em relação à composição do AP. Além de repetir
53 Cf. BARRIER, 2008, p. 46 54 BARRIER, 2008, p. 46.
55 BREMMER , Jan N. “The Apocryphal Acts: Authors, Place, Time and Readership,” The Apocryphal
Acts of Thomas. Leuven: Peeters, 2001, p. 153.
essencialmente o que Tertuliano tinha a dizer, Jerônimo acrescenta: “conuictum apud Iohannem” (condenado com João). Se Jerônimo não está errado em seu acréscimo ao comentário de Tertuliano, com esta adição Hilhorst leva a concluir que o AP deve ter sido escrito após a morte de Paulo e antes da morte do apóstolo João, colocando o ponto final entre 68 d.C. e 98 d.C..
Peter Dunn57 faz vários cálculos sobre a idade de Tecla, que teria conhecido Paulo no final dos anos 40, e por sua vez o APT se instala na data de 120 d.C. como ponto inicial. O problema desta avaliação é que a historicidade de Tecla é altamente improvável. Bodmer X58 sugere que o texto circulou independente, antes de sua incorporação no AP, o que permite a possibilidade de que as diferentes partes do AP foram escritas em momentos diferentes. Portanto, é possível que a escrita e a compilação do AP abranja um período de mais de 100 anos. Parece provável que a compilação final venha em direção aos últimos 30 - 40 anos do segundo século, devido ao conteúdo e questões que serão abordadas. O fato é que o texto relata uma possível descrição da missão de Paulo durante o segundo século d.C.