E essa tal
Interdisciplinaridade?
Joélcio Rosa da Silva Júnior
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática - UFPel
Esse texto tem como objetivo, motivar a reflexão a respeito de um “termo” muito discutido nas últimas décadas, principalmente no contexto da educação. Além disso, a proposta é apresentar diferentes aspectos e perspectivas que envolvem as discussões em torno da interdisciplinaridade.
Introdução
Devido a novas exigências, a sociedade vem passando por inúmeras mudanças, relacionadas a diversos aspectos, como as de cunho epistemológico, as relações sociais e a ascendente expansão da tecnologia (SANTOS, 2008). Nesse sentido, nas últimas décadas, aumentam as discussões e os anseios em torno de um ensino que acompanhe e contemple as transformações do mundo contemporâneo.
Um aspecto bastante debatido é a organização curricular caracterizada pela fragmentação e isolamento dos conhecimentos historicamente sustentado pela ciência moderna, que, compartimentados em disciplinas, se isolam, distanciando-se da complexidade de um mundo em que os conhecimentos se complementam e são cada vez mais interligados. Para muitos especialistas, esta lógica dificulta a apropriação do conhecimento e a construção de uma visão contextualizada que permita uma percepção crítica da realidade.
Essas discussões em torno da educação, ao longo da história da produção de conhecimento, trazem determinadas expressões, terminologias ou noções que
“entram em moda” (RODRIGUES, 2007, p.19), e passam a serem utilizadas com
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frequência. Para esse autor, a necessidade de emprego de novos termos anuncia importantes mudanças de natureza epistemológica e política (RODRIGUES, 2007).
Um dos termos bastante presente nas discussões nos espaços de produção de científica e educativa é o termo ”interdisciplinaridade”, termo que, de acordo com Rodrigues (2007), ao ser utilizado por diferentes áreas, acaba assumindo uma polissemia de significados culminando na dificuldade de um consenso na tentativa de significa-lo. Além da interdisciplinaridade, termos como multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade e, mais recentemente, transdisciplinaridade também passam a ser utilizados em outras áreas do conhecimento, como na educação e na saúde.
Em relação a esses termos, Rodrigues (2007) entende que o emprego das noções de multidisciplinaridade e pluridisciplinaridade convergem para a ideia de diversos, de vários, e faz referência ao currículo acadêmico, já as noções de interdisciplinaridade e transdisciplinaridade são caracterizadas pela polissemia de significados, envolvendo aspectos epistemológicos e filosóficos do fazer científico.
Importante destacar que o anúncio de mudanças na educação, em torno da dimensão interdisciplinar, implica em mudanças epistemológicas, mas, também, em transformações sociais e políticas.
Dito isso, a proposta deste texto é apresentar reflexões sobre a Interdisciplinaridade, um enfoque muito presente na sociedade, principalmente no que se refere ao contexto da educação, seja em nível acadêmico ou escolar. Mas o que podemos falar sobre interdisciplinaridade? Como surge e em que contexto?
Interdisciplinaridade em contraposição à hiperespecialização
Segundo Rodrigues (2007), o termo “interdisciplinaridade” pode ser observado em um contexto histórico, social e epistemológico. A interdisciplinaridade surge em oposição à disciplinarização do conhecimento, que, segundo esse autor, foi um processo que, em fins da metade do século XX, compreendeu a institucionalização de muitas disciplinas, sobretudo as vinculadas às ciências sociais, sendo essas reconhecidas e integradas às grades curriculares.
Assim, foi diante desse processo de fragmentação do conhecimento que o conceito da interdisciplinaridade passou a apontar transformações de diferentes ordens, pois,
se a fragmentação do conhecimento em subcampos disciplinares, produzidos no interior das universidades, pode ser considerada recente, a noção de
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interdisciplinaridade é ainda mais jovem, e, evidentemente, o surgimento desse conceito apontava (e tem apontado) para transformações tanto de ordem epistemológicas como de ordem institucional na produção do conhecimento científico. (RODRIGUES, 2007, p.31).
Para esse autor, a visão da ciência na lógica da epistemologia pontual do conhecimento científico e na lógica do contexto sócio-político-cultural, se interfecundam por quem produz ciência e não podem ser separadas. A partir dessa perspectiva, ainda na segunda metade do século XX, a noção de interdisciplinaridade teria começado a ganhar espaço, ao mesmo tempo que avançava o processo de
“hiperespecialização” do conhecimento científico, este impulsionado pelas transformações sociais, políticas e econômicas, que remodelaram a sociedade, após a Segunda Guerra Mundial.
O autor argumenta que essa hiperespecialização, assim como a especialização do conhecimento científico que deu origem as disciplinas tradicionais, também teve seu desenvolvimento envolvendo aspectos epistêmicos e político-institucionais.
Segundo Rodrigues (2007), a abordagem que permeia a ciência moderna, muito mais focada numa epistemologia de repartição, do que numa episteme de síntese (unificação), levou o conhecimento disciplinar a confrontar-se com as próprias fronteiras, levando a uma aproximação para o termo “interdisciplinar” e desencadeando o surgimento de novas disciplinas.
Rodrigues (2007) afirma que o gradativo aumento populacional urbano anunciava novas necessidades e, com isso, a remodelação do mundo do trabalho. O surgimento de novas profissões e o avanço do ensino técnico e universitário, fizeram as novas disciplinas encontrarem espaço epistemológico e político para se institucionalizar, provocando a necessidade de uma reorganização da ciência. Nesse sentido, a interdisciplinaridade foi tomada como um “conceito” útil para suprir a
“desordem” contemporânea do campo científico, e passou a ser discutida nas reflexões acadêmicas.
Interdisciplinaridade: diferentes perspectivas e compreensões
Ivani Fazenda (2011) foi uma das precursoras das pesquisas sobre a interdisciplinaridade no Brasil. Ela aponta que interdisciplinaridade vem sendo referida como a “cura para os males” da fragmentação dos saberes, porém, destaca que a
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interdisciplinaridade se constitui através da relação de reciprocidade entre os sujeitos, o que implica na tomada de novas atitudes diante do problema do conhecimento, efetivando, “a substituição de uma concepção fragmentária para unitária do ser humano” (FAZENDA, 2011, p.11).
Na concepção da autora o desenvolvimento da sensibilidade é uma das primeiras condições para a efetivação da interdisciplinaridade, sendo necessário uma formação que contemple o desenvolvimento de aspectos relacionados a arte de reflexão, criação e imaginação. Nesse sentido, segundo Fazenda (2011) a interdisciplinaridade é uma questão de postura e atitude:
É uma atitude coerente, que supõe uma postura única diante dos fatos, é na opinião crítica do outro que se fundamenta a opinião particular. Somente na intersubjetividade, num regime de copropriedade, de interação, é possível o diálogo, única condição de possibilidade da interdisciplinaridade. Assim sendo, pressupõe uma atitude engajada, um comprometimento pessoal (FAZENDA, 2011, p.11).
No sentido pedagógico e metodológico, Fazenda (2001) entende que a humildade, a coerência, a espera, o respeito e o desapego são os princípios que sustentam a prática docente interdisciplinar, sendo “a afetividade e a ousadia que impelem às trocas intersubjetivas, às parcerias” (FAZENDA, 2001, p.12).
Segundo Fazenda (2001), um procedimento interdisciplinar envolve muitos aspectos e ajuda na identificação do campo e do discurso e na escolha do objeto de pesquisa:
Um procedimento interdisciplinar de Educação envolve outras dimensões, como as da vontade, as normativas, as ideais, as políticas, as projetivas e as científicas. Tal procedimento também ajuda a discernir a que campo nos referimos (inicial, continuada, do sujeito, do cidadão, do profissional etc.), a identificar o discurso (ético, normativo, voluntarista etc), a escolher o processo ou objeto de pesquisa capaz de produzir novos conhecimentos (FAZENDA, 2002, p.21).
Para a autora, a interdisciplinaridade se constitui nas ações e no desenvolvimento de uma atitude interdisciplinar a ser assumida no sentido de alterar os hábitos e acentuar o gosto pela pesquisa e busca frente ao conhecimento.
Fazenda (2012) também entende que a interdisciplinaridade se constitui através da interação entre indivíduos que possuem vivências diferentes e através das trocas de experiências surjam novos olhares e novas possibilidades, sendo estes aspectos indispensáveis na busca de um ensino interdisciplinar, dessa forma, para a
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Fazenda, a interdisciplinaridade não pode estar associada ao mero encontro de disciplinas.
Já, Demo (2001) defende que a interdisciplinaridade possa se constituir através da pesquisa como um princípio educativo e científico, nesse sentido, atribui a importância da pesquisa no processo de ensino e aprendizagem. Para o autor, disseminar informação, conhecimento e patrimônios culturais é fundamental, no sentido de uma aprendizagem enquanto fenômeno reconstrutivo e político, nunca apenas reprodutivo.
Morin (2005), um dos teóricos do movimento da organização do saber no pensamento contemporâneo, entende que só o pensamento complexo sobre uma realidade complexa pode avançar na reforma do pensamento na direção da contextualização, da articulação e da interdisciplinarização do conhecimento produzido pela humanidade.
Thiesen (2008) faz uma síntese das diferentes compreensões acerca da interdisciplinaridade, reunindo ideias de teóricos, no texto que segue:
(...) a interdisciplinaridade será articuladora do processo de ensino e de aprendizagem na medida que se produzir como atitude (Fazenda, 1979), como modo de pensar (Morin, 2008), como pressuposto na organização curricular (Japiassu, 1976), como fundamento para as opções metodológicas do ensinar (Gadotti, 2004), ou ainda como elemento orientador na formação dos profissionais da educação (THIESEN, 2008, p.546).
O autor ainda entende que as discussões em torno da interdisciplinaridade têm sido tratadas por dois grandes enfoques: o epistemológico, quando envolve as questões sócio históricas culturais e filosóficas da construção e organização dos conhecimentos científicos, e o pedagógico, quando discute questões de natureza curricular, de ensino e de aprendizagem escolar que geralmente são associadas a uma perspectiva teórico-metodológica.
Thiesen (2008) reconhece a escola como um lugar legítimo de aprendizagem e produção de conhecimento, e que precisa acompanhar as transformações da ciência contemporânea, apoiar as exigências interdisciplinares que hoje participam de novos conhecimentos. Além disso, a escola precisará acompanhar o ritmo das mudanças que operam em todos os segmentos da sociedade. Para Thiesen, embora haja um esforço institucional, o desenvolvimento de exercícios interdisciplinares ainda é muito embrionário, razões que podem estar associadas ao modelo disciplinar e
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desconectado de formação presente nas universidades, e também a forma fragmentária da estrutura dos currículos escolares.
Rodrigues (2011) aponta que o surgimento da noção de interdisciplinaridade, ao longo da história do conhecimento, representa um modo de lidar e compreender o processo de instabilização epistemológica e institucional do conhecimento científico, decorrente do desenvolvimento da ciência, não se constituindo no processo de formação de novas disciplinas, mas surgindo a partir do enfrentamento ao problema relacionado ao processo de fragmentação disciplinar (RODRIGUES, 2007).
Nesse sentido, o autor entende que os aspectos relacionados a polissemia de compreensões, e que acarreta na ausência de uma definição concreta do termo interdisciplinaridade, estão associados com entraves epistemológicos e sociológicos estabelecidos ao longo da história. Para Rodrigues (2007), o conhecimento teórico tornou-se vasto e disciplinarmente fragmentado, necessitando um enfrentamento com novas posturas dos agentes e produção da ciência, exigindo uma perspectiva de mudança cultural, o que caracteriza um grande obstáculo (RODRIGUES, 2007).
Para Lenoir e Hasni (2004), a interdisciplinaridade pode ser observada pelas perspectivas epistemológica, instrumental e subjetiva. Para os autores, as diferenciações conceituais e usuais estão relacionadas principalmente com a cultura dos locais onde se inserem os sujeitos “em cada cultura existe um vínculo com seu mundo específico, que estabelece um vínculo com seu próprio conhecimento”
(LENOIR, HASNI, 2004, p.168).
A perspectiva epistemológica, vinculada às concepções de interdisciplinaridade no continente europeu, é influenciada pela ação de filósofos através do desenvolvimento do pensamento racional, surgido para confrontar o obscurantismo, a ignorância, a opressão social, caracterizada pela Igreja Católica, realeza e aristocracia. (LENOIR, HASNI, 2004). Em suma, para esses autores, a interdisciplinaridade, sob de influência europeia, teria caráter reflexivo e crítico em um cenário de unificação do conhecimento científico, quando visto sob a ótica acadêmica, e em um cenário de debate relacionado à prioridade e às conexões entre os saberes disciplinares, quando visto em nível escolar.
Com relação a perspectiva instrumental, essa se baseia nas concepções norte-americanas que teriam se originado através de um conjunto de fatores que rejeitavam o modelo europeu. Para os autores, a interdisciplinaridade pela lógica norte-americana teria caráter instrumental, estando vinculada a uma concepção
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baseada da hipótese que “o que leva o ser humano a liberdade não está diretamente relacionado ao conhecimento, mas com a capacidade de agir no e sobre o mundo”
(LENOIR, HASNI, 2004, p.173, tradução nossa37).
Os autores entendem que a interdisciplinaridade sob essa perspectiva, se dá através do ponto de vista sociológico e cultural e pode ser compreendida como um instrumento que deve contemplar a prática através das relações humanas e sociais, resultando numa “preocupação central para a inserção e integração do ser humano em uma sociedade jovem e multiétnica, com diversas culturas e crenças religiosas”
(LENOIR, HASNI, 2004, p.173, tradução nossa38). Essa perspectiva implica na garantia da produção de um ser humano capaz de conviver e participar das atividades sociais, políticas e econômicas de uma sociedade marcada pela diversidade.
A terceira perspectiva, chamada por Lenoir e Hasni (2004) de lógica subjetiva, está associada a interdisciplinaridade no Brasil, onde as discussões estão apoiadas na fenomenologia e nas interações entre as subjetividades dos sujeitos, “o fator social é constituído principalmente por intersubjetividades que vêm das interações que os atores sociais produzem entre eles” (LENOIR, HASNI, 2004, p.177, tradução nossa).39
Segundo esses autores, apesar de apresentarem diferenças, as três concepções se complementam e são indispensáveis umas para as outras. Nesse sentido, de forma metafórica, os autores a associam a características humanas da razão que analisa e que reflete, a da mão que age e executa, e a do coração que expressa afeto e sentimentos. Entendem que as três concepções tratam de conceber e atualizar uma abordagem interdisciplinar inovadora, orientada para a formação integrada, e dessa forma, razão, mão e coração constituiriam três modos inseparáveis de compreender a abordagem interdisciplinar.
Até aqui discutimos compreensões e aspectos envolvendo a interdisciplinaridade, que, por vezes, é tratada em relação à integração entre disciplinas, por isso, consideramos importante fazer algumas considerações sobre o que vem sendo tratado nas políticas curriculares como “Integração Curricular”.
Seriam, interdisciplinaridade e integração curricular sinônimos ou equivalentes?
37 Lo que lleva al ser humano a la libertad no está relacionado directamente con los conocimientos, sino con la capacidad de actuar en y sobre el mundo.
38 Preocupación nuclear por la inserción y la integración del ser humano en una sociedad joven, multiétnica, y de diversas culturas y creencias religiosas.
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Para Aires (2011), interdisciplinaridade e integração curricular não podem ser considerados sinônimos, pois são divergentes em suas concepções, pertencendo a campos de estudo diferentes. A Interdisciplinaridade estaria relacionada com a epistemologia das disciplinas científicas, com o ensino e com a pesquisa, enquanto a integração curricular, estaria relacionada com a epistemologia das disciplinas escolares, com o ensino médio e fundamental.
Partindo da ideia de que conhecimento escolar e conhecimento científico são constituídos por epistemologias distintas, a autora aponta diferenças entre interdisciplinaridade e integração curricular, dizendo que a interdisciplinaridade está relacionada com o problema da fragmentação do conhecimento e no excesso de especialização, entendendo assim que a crítica a esses aspectos se refere ao conhecimento científico, e a ciência como referência e não ao conhecimento ou disciplina escolar (AIRES, 2011). Mesmo assim, para essa autora, a ideia de interdisciplinaridade teria sido transferida para o meio escolar, em um segundo momento, em meio a interpretações de discussões iniciadas no final da década de 1960, por Gusdorf e outros filósofos.
Já, no caso da integração curricular, atualmente está sendo considerada como princípio em políticas curriculares para a educação escolar, não tendo como preocupação a reunificação de um conhecimento cientifico fragmentado, mas, sim, a integração do conhecimento escolar, visando "aumentar as possibilidades para a integração pessoal e social através da organização do currículo em torno de problemas e de questões significantes" (BEANE, 1997, p.10, apud Aires, 2011, p.226).
Em síntese, para Aires (2011) a principal diferença entre interdisciplinaridade e integração curricular consiste no fato de que a primeira estaria relacionada ao aspecto interno da disciplina, ou seja, ao conteúdo, enquanto a segunda estaria relacionada ao aspecto externo à disciplina, ou seja, à problemática da falta de integração entre os diferentes conhecimentos escolares. Mas a autora concorda que, embora o conceito de integração curricular, assim como o de interdisciplinaridade, seja polissêmico, eles têm como ponto convergente a crítica ao currículo disciplinar e suas limitações.
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