3.2 Dos discursos em sala de aula
3.2.1 Texto 1: Culture shock
Esse artigo foi lido em uma aula, do nível intermediário, observada em maio de 2012 (Anexo 4). Na análise a seguir, buscamos discutir as representações e ideias incorporadas assim como a reação-resposta do professor e alunos aos discursos do texto.
Artigo extraído do New English File, nível avançado, p. 38
Objetivo e relevância do texto
O tipo de discurso do texto é uma narrativa de não-ficção, sendo que relata eventos em forma de narração. A voz narrativa é de uma inglesa, Miranda Ingram, que exprime o sentimento de choque cultural que vivenciou com o marido russo e ao viajar para Rússia.
O tema do artigo é Choque Cultural, e aborda a questão de boas maneiras [good manners]. A princípio, a narradora pretende discorrer sobre as boas maneiras, ilustrando por meio de sua história que o conceito de boas maneiras não é universal, “Good manners are always good manners. That’s what Miranda Ingram, who is English, thought, until she married Alexander, who is Russian (cf. introdução do artigo).”
A história é contada na primeira pessoa e a narradora relata que seu marido, assim como os russos, raramente usam frases educadas como, “Você poderia…?”, “Por favor”, “Obrigado”, “Desculpa” (primeiro parágrafo), e assim por diante. Os ingleses, por outro lado, além de utilizar
sempre essas frases, procuram agradar outras pessoas, por exemplo, por comer comida ruim e dizer “delicioso” ao anfitrião, ou “sorrir continuadamente para todos, mesmo para desconhecidos”.
Pensamos que o objetivo do texto é demonstrar a concepção inglesa a respeito de polidez ao contrastá-la com outra nacionalidade. A princípio, o artigo tem função pedagógica relevante, pois se constitui de conteúdo cultural que poderia ser benéfico ao aprendizado da LI.
Significado e forma
À primeira vista, o texto parece apresentar uma mera comparação do conceito das boas maneiras nas perspectivas dos ingleses e dos russos. Entretanto, se olharmos de forma mais crítica, vemos que a narradora julga a perspectiva dos russos, a nacionalidade que nesse contexto representa o Outro (ou seja, a nacionalidade que não é inglesa), com base na perspectiva dos ingleses. Vamos considerar algumas palavras e frases a seguir.
A narradora diz que quando seu marido lhe pede favores sem acrescentar ‘Por favor’ e ‘Obrigado’ à frase, traduzida para o inglês, parece bem rude, “Translated into English [...] It really
sounded rude to me” (l. 4-5). As palavras “translated” e “sounded” destacam que a narradora está julgando o modo russo com base no inglês. A frase, “It really sounded rude to me”, estabelece uma relação de poder na qual a inglesa está superior.
Também, a frase, “But in Russian it was fine, you don’t have to add any polite words” (l. 5-7) minimiza a maneira de ser do marido (e dos russos). Esta frase sugere, ainda, que quando se usa a LI é preciso acrescentar determinadas palavras ‘educadas’. Isto minimiza a Outra língua, insinuando a ideia que a LI é uma língua que requer que o sujeito aja de forma ‘educada’.
A palavra “However [when I took Alexander home to meet my parents in the UK...]” (l. 8- 9), traz um contraste contundente entre os ingleses e essa Outra nacionalidade. E “he just couldn’t
understand” (l. 14-15) constrói e enaltece uma relação de Diferença/Outrização. A afirmação de que seu marido (com quem tem uma história de convivência) não consegue entender a maneira de ser dos ingleses, sugere que os ingleses “são tão educados” de uma maneira que a Outra (e nenhuma outra) nacionalidade nunca poderia compreendê-la. Isto é uma forma de exagero, que de fato é um modo de argumentação neste texto, pois a narradora relata a historia de uma maneira muito persuasiva. Por exemplo, ela diz que no Reino Unido se pede desculpas e sorri, mesmo se outra pessoa pisou no seu pé, “[...] in the UK [...] say sorry even if someone else stepped on your toe, and to smile, smile and smile” (l. 9, 12-13).
A anedota justaposta ao artigo com o título, “Get around in
ENGLISH
, how to be polite” ilustra também o exagero do artigo. As imagens mostram um menino que está se afogando e que grita “Socorro!” para um inglês que está passando, que em turno o ignora. O menino então grita,“Com licença senhor. Desculpe-me por perturbá-lo. Será que o senhor não se incomodaria em ajudar-me um momento, desde que não seja um problema, claro.” Aí, o inglês o ajuda, jogando uma boia salva-vidas. Esta imagem pressupõe que os ingleses são tão ‘educados’ que mantêm as ‘boas maneiras’ mesmo em situações de vida ou morte.
O título desta anedota, “Se virando em
INGLÊS
, como ser educado” é ideológico, pois reforça a ideia de que usar palavras “educadas” é uma característica própria da língua inglesa. A palavra ‘inglês’, que está em maiúsculo e negrito pressupõe uma diferenciação e separação entre a LI e as Outras línguas.No último parágrafo do artigo, a narradora reforça a superioridade da ‘polidez’ dos ingleses. Ela diz que agora tem um acordo com o marido, se estão falando em russo, ele pode dizer, “Sirva- me um chá”, e apenas fazer um grunhido quando lhe serve. Mas, quando eles estão falando em inglês, ele tem que acrescentar um ‘por favor’, um ‘obrigado’ e um sorriso”: “If we’re speaking Russian, He can say ‘Pour me some tea’, and just make a noise like a grunt when I give it to him. But when we’re speaking English, he has to add a please, a ‘thank you’, and a smile.”
Nesse trecho, as palavras “just make a noise like a grunt” minimizam a Outra maneira de ser, nesse caso, do russo. Isto faz essa Outra maneira, de não ser inglesa, parecer inferior. Mais uma vez, o uso do “But” traz um contraste contundente, separando e diferenciando a LI de Outras línguas, fazendo-a parecer superior.
Portanto, o texto acaba atribuindo o conceito de “boas maneiras” à LI, como se fosse característica própria dela. A mensagem ao leitor, nesse caso o aprendiz da LI, é que quando se fala inglês, deve-se comportar de determinada maneira diferente de quando usa outras línguas.
Talvez se a narradora explicasse mais sobre a maneira de socializar dos russos com exemplos adicionais, não haveria a focalização do ponto de visto dos ingleses, deixando o texto mais imparcial.
As Práticas Discursiva e Social
O artigo discutido acima manifesta as três funções textuais: ideacional, identitária e relacional, conforme Fairclough (2001). A voz da narradora estabelece sua representação social/cultural acerca da polidez e dos ingleses. Isto lembra a concepção de Comunidade imaginada segundo Hall e Silva (2000) de que o indivíduo constrói a imagem de sua comunidade ou nação a partir do que pensa/imagina que ela seja. No caso do artigo, a narradora acredita que os ingleses têm uma maneira determinada de comportar-se e que essa maneira está ligada a língua que usam. Pensamos que a representação dos ingleses e da LI por meio da perspectiva dessa narradora remete à função ideacional do texto.
Vimos que essa representação é feita por meio da delineação de uma diferença com Outra nação, aquela que não é (SILVA, 2000) inglesa. Isto manifesta as funções identitária e relacional.
Após a leitura desse texto em aula de ensino da LI, pensamos que é necessário que professor e alunos deveriam discutir sua autoimagem, já que foram posicionados como o Outro pelo texto, por aproximação com a nacionalidade russa representando qualquer nacionalidade que não seja inglesa. É importante que discutam também as representações dos ingleses e da LI incorporadas no texto e suas próprias visões de “boas maneiras”.
Entretanto, registramos durante a observação de aulas que tanto professor quanto alunos tomaram como padrão a concepção de ‘boas maneiras’ com base na visão construída no artigo. Compararam- se com os ingleses e concluíram que os brasileiros não eram tão educados quanto estes.
Um aluno salientou que os brasilienses nunca utilizam palavras ‘educadas’ como 'por favor' e 'obrigado/a' quando pedem favores simples. Outro aluno disse que “os brasileiros ricos não são como os ingleses ricos que são sofisticados e educados”. O interessante é que essa aluna traça um paralelo entre polidez, riqueza e sofisticação. Tais discursos podem ter contribuído para a percepção da realidade social e a (re)construção de identidades sociais dos sujeitos inseridos nesse contexto, sendo que não houve contra-discursos, nem pela parte do professor, que poderiam construir uma imagem positiva dos brasileiros perante a dos ingleses.
Pode-se dizer que o que sucedeu nessa aula foi a anglocentricidade, termo utilizado por Phillipson (1992), para referir-se à prática de julgar outras culturas com base na cultura inglesa, a qual está estabelecida como padrão para avaliar as demais línguas e culturas. O autor ressalta que a anglocentricidade desvaloriza outras línguas e culturas de forma explícita ou implícita, mantendo a hegemonia da LI (ibid).