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Capítulo 4: Análise das provas

4.4 Vestibular 2002

4.4.2 Texto de referência para a questão 24

Em 25 de setembro de 2001, o jornal norte-americano Free-Lance Star publicou o trabalho do cartunista Clay Jones reproduzido abaixo. Considere-o para responder à questão 24.

24. De que maneira a fala do personagem no segundo quadrinho se relaciona com sua ação no primeiro? E como ela se relaciona com o último? Justifique sua resposta.

Resposta esperada pela banca: A fala do personagem é coerente com sua ação no primeiro

que devemos usar de racionalidade e ser tolerantes para com a diferença. Essa sua fala é coerente com o que ele faz no primeiro quadrinho, já que aí ele evita uma agressão aparentemente irracional a um outro que é diferente; no último quadrinho, no entanto, ele se contradiz pois, sem nenhuma justificativa racional, pratica, ele mesmo, o tipo de agressão que condenara.

A) Relação ilustração texto:

Dado que histórias em quadrinhos são, via de regra, visuais, espera-se que neste gênero textual a orientação de compreensão ativada principalmente pela leitura do aspecto visual seja contemplada. Se analisarmos unicamente a parte ilustrada do cartoon, percebemos que a ação que o personagem do segundo quadrinho condena no primeiro quadrinho é justamente a que ele adota no último quadrinho. Mesmo que não haja compreensão lingüística da história, pelas imagens pode-se perceber que há uma incoerência na atitude adotada pelo personagem principal no primeiro e no quarto quadrinho. Analisando as figuras, notamos que este personagem evita (com os braços esticados para frente) um ato de violência contra alguém de outra etnia no primeiro quadrinho, mas é violento contra alguém de ideologia diversa da sua no último. Além do componente visual das ilustrações, há um número grande de cognatos no texto verbal, tais como rationality, differently, chance, bem como palavras inglesas bastante conhecidas no contexto brasileiro, tais como peace e stop, que poderiam auxiliar na construção de sentido. Dessa forma, nossa primeira expectativa em relação ao desempenho dos candidatos na tarefa proposta foi bastante positiva.

B) Relação questão/cartoon (texto)

Considerando nossa previsão inicial, a questão, como podemos constatar pelos comentários da prova presentes no site da COMVEST (http://www.comvest.unicamp.br), não obteve o índice de notas esperado:

“Muito embora apenas um número inexpressivo de candidatos tenha deixado de propor algum tipo de resposta à pergunta (3,9% de respostas em branco), o índice de notas 5 foi apenas 0,9%. Esse resultado deveu-se à grande dificuldade dos candidatos em entender o que se pedia na primeira parte do enunciado da questão: a explicitação da relação de coerência entre o que se diz e o que se faz. Apenas isso já garantiria 2 pontos”

(http://www.comvest.unicamp.br, 2002).

De fato, pelo que mostra o gráfico de distribuição de notas para a questão, mais do que 50 por cento dos candidatos obtiveram menos do que 2 pontos nas suas respostas:

nota zero 30% branco 3% nota um 24% nota dois 23% nota três 13% nota quatro 6% nota cinco 1%

Distribuição de freqüência de notas da questão 24, Vestibular 2002.

Como podemos constatar pelos dados, essa questão obteve um índice de desempenho muito baixo – algo surpreendente em se tratando de uma história em quadrinhos na qual a linguagem verbal é, não raro, coadjuvante da linguagem visual. Embora esse resultado imprevisto possa ser em parte

atribuído à já comentada dificuldade de compreensão do próprio enunciado da questão, acreditamos que o que mais comprometeu o desempenho dos candidatos foi o fato de terem se esforçado para interpretar a história em quadrinhos como se ela não fosse cômica, e tendo, via de regra, um final inusitado e muitas vezes nonsense. Embora a história em quadrinhos seja um gênero que faz parte do conhecimento dos candidatos, estes sabem que cartoons seguem, em geral, uma lógica linear na qual o sentido pode ser apreendido na seqüência dos acontecimentos, a partir da percepção da coerência nas ações das personagens. Pelos exemplos de respostas abaixo destacados, é possível perceber que ao não depreender o humor implícito nos quadrinhos e ao fazer uma leitura literal de um texto cômico, os candidatos tentaram explicar o inexplicável, impondo uma coerência e produzindo, eles próprios, respostas nonsense:

Exemplo 1: “Ao afirmar que deve-se prevalecer a racionalidade, o personagem não permite que o

rapaz agrida o outro de descendência árabe, pois, o descendente de árabe nada fez. No último quadrinho o personagem agride o pacifista porque acredita que pedir paz não está de acordo com a racionalidade, e sim, é um ato insano” (L. 045, S.20).

Exemplo 2: “O personagem diz que se deve preservar as pessoas que pensam diferente deles, por isso

ele impediu que um dos personagens batesse no outro, porém quando chegou um personagem que pensava igual a ele, o personagem o agrediu, ou seja, sua fala quer dizer “não bata nos que pensam diferente de você , porém nos que pensam da mesma maneira, pode bater””(L.048, S.042).

Exemplo 3: “Ele explica porque não deve-se utilizar a violência por causa de simples diferenças, já

que ele impede o outro personagem de violentar outro personagem. Esta fala relaciona-se unicamente com o último quadrinho, no qual mostra-se a violência conseqüente do modo de ser e pensar diferentes” (L.041, S.033).

Exemplo 4: “Não atacar um muçulmano sem ele está fazendo nada. É o conselho que se dá no 2º

quadrinho. Mas quando aparece alguém pedindo paz e levando uma vela tratam os dois de agredi-lo, tomando uma decisão precipitada de que aquele era mais um terrorista” (L.004, S.067).

Exemplo 5: “A do segundo quadrinho com o primeiro: uma outra pessoa impede que o americano

bata no outro homem só por ele pensar diferente deles. E com o terceiro: eles batem no hippy porque acham que ele não pensa” (L.002, S.055).

Como pôde ser visto a partir dos exemplos acima citados, as incorreções nos modos de interpretação dos candidatos não se deveram, no caso em questão, à falta de integração entre o verbal e o visual. Analisando a resposta/exemplo 1, é possível perceber que houve leitura de ambos os aspectos, verbal e visual. Ainda que nos demais exemplos os candidatos tenham se ancorado quase que somente na seqüência visual das ilustrações, no geral o fato que mais comprometeu a compreensão foi justamente os candidatos terem ignorado que o cartoon era burlesco, não havendo, portanto, razão em tentar explicar a lógica da ação da personagem no último quadrinho. Na verdade, o objetivo da questão proposta era justamente fazer com que os candidatos encontrassem a incoerência que torna o cartoon cômico, uma meta não alcançada pelos candidatos que buscaram encontrar coerência na história.

Duas explicações podem ser oferecidas para esse baixo desempenho. A primeira delas diz respeito justamente ao gênero de humor, que demanda uma ativação de esquemas mentais mais complexa, não somente em língua estrangeira como também em língua materna. Para que a piada se concretize, o leitor deve perceber que a quebra da coerência de um determinado raciocínio é o que provoca o humor. Talvez em língua estrangeira isso tenha demandado dos candidatos um esforço adicional que comprometeu o desempenho de alguns. Outra explicação, ainda relacionada com a primeira, diz respeito à própria situação de vestibular a qual os candidatos estavam submetidos. Essa situação é, via de regra tensa, e exige seriedade. É provável que essa atmosfera tenha provocado uma certa dificuldade nos candidatos de se envolver com uma situação oposta: uma piada.