A modo de exemplificação do material didático utilizado nas experiências realizadas, incluímos, a seguir, textos didáticos
TEXTOS DE NIETZSCHE
I. Instinto de rebanho
Onde encontramos uma moral, encontramos uma avaliação e uma classificação das
ações e instintos humanos. Essas valorações e classificações são expressões das necessidades de uma comunidade ou de um rebanho. Aquilo que é em primeiro lugar útil ao rebanho - e também em segundo e terceiro lugares - é também a medida superior para a determinação do valor de todos indivíduos. Para a moral o indivíduo é instruído em função do rebanho, não se atribui valor a não ser como função. As condições de manutenção de uma comunidade são muito diferentes em outra, e é em conseqüência disto que existem morais diferentes. Tendo em vista as transformações importantes dos rebanhos, dos Estados, das Sociedades, pode-se profetizar que ainda
existam morais divergentes. A moralidade é o instinto de rebanho no indivíduo. A gaia ciência, §.116
II. A maior utilidade do politeísmo
Que o indivíduo possa edificar seu próprio ideal, para daí deduzir sua lei, seus prazeres e seus direitos, creio que é o considerado, até o presente momento, a mais monstruosa de todas as humanas aberrações (...) o pequeno número daqueles que ousaram isso necessitou sempre de uma apologia diante de seus próprios olhos e geralmente nestes termos: - Não fui eu! Não fui eu! Um deus agiu por mim!
Foi nesta arte maravilhosa, a força de criar deuses - o politeísmo - que este instinto pode se descarregar, se purificar, se enobrecer, pois primitivamente era um instinto vulgar, pobre, parente da teimosia, da desobediência e da inveja. Combater esse instinto de um ideal pessoal foi antigamente a palavra de ordem de toda moralidade. Havia então apenas um modelo: “o homem”. E cada povo acreditava
possuir esse único e último modelo. Mas acima de si e fora de si, em um longínquo
mundo superior, podia ser vista grande quantidade de modelos; nenhum deus era a negação ou a blasfêmia do outro! Pela primeira vez foram admitidos indivíduos, pela primeira vez foi honrado o direito dos indivíduos. (...) a liberdade dada a um deus relativamente aos outros deuses acabou sendo concedida a si mesma pela sociedade através das leis, dos costumes dos vizinhos.
O monoteísmo, pelo contrário, esta conseqüência rígida da doutrina de um "homem normal" - donde a fé em um deus normal ao lado do qual só existem falsos deuses mentirosos - foi talvez até agora o maior perigo da humanidade a estagnação prematura (...) acreditando em um animal normal, em um ideal de sua espécie que se identificou definitivamente com a moralidade dos costumes.
No politeísmo se encontra a imagem primeira do livre pensar e do pensamento múltiplo do homem: a força de criar novos deuses, olhos sempre mais novos (...) de tal modo que apenas para o homem, entre todos os animais, não existem mais horizontes e perspectivas eternos. A gaia ciência §143
III. Aos professores de desinteresse
Dizemos que são boas as virtudes de um homem não pelos resultados que possam propiciar a ele, mas sim pelos resultados que podem ter para nós e para a sociedade; no elogio da virtude nunca se foi muito “desinteressado”, nunca se foi muito altruísta! Ter-se-ia observado, se assim não fora, que as virtudes (como a aplicação, a obediência, a castidade, a piedade, a justiça) são geralmente prejudiciais a seu possuidor, uma vez que são instintos que reinam com muita violência , muita avidez e que não querem de modo algum deixar-se contrabalançar razoavelmente pelos outros. (...) A educação procede geralmente desta maneira: tenta determinar no indivíduo, com o engodo de inúmeras vantagens, maneira de pensar e de agir que tornada finalmente hábito, instinto, paixão, dominará nele e sobre ele, contra seus interesses
supremos, mas “em benefício de todos”.
A gaia ciência, §21 IV. Aquilo que conserva a espécie
Os espíritos fortes e os espíritos malignos, os mais fortes e os mais malignos foram os que obrigaram a natureza humana aos maiores progressos: reacenderam constantemente as paixões adormecidas – as sociedades policiadas fazem-nas dormir – despertam constantemente o espírito de comparação e de contradição, o gosto pelo novo e pelo arriscado; obrigaram o homem a opor incessantemente opiniões a opiniões, ideais aos ideais. Na maior parte das vezes pelas armas, derrubando os marcos das fronteiras, violando as crenças, mas também fundando novas religiões, criando novas morais! Essa “malignidade” é encontrada em todo professor do novo (...). O novo, de qualquer forma, é o mal, pois é o que se quer conquistar, derrubar os limites, destruir antigas crenças, só o velho é o bem! Os homens de bem de todos os tempos são aqueles que plantam profundamente as velhas idéias a fim de fazê-las frutificar. A gaia ciência, §4
V. Do caminho do criador
Queres procurar o caminho de ti mesmo? O rebanho fala que: "Quem procura, facilmente se perde a si mesmo". E tu, durante muito tempo pertenceste ao rebanho. A voz do rebanho ainda ecoará dentro de ti. E quando disseres: "Eu não tenho mais a
mesma consciência que vós", tuas palavras serão lamento e mágoa. Queres seguir o caminho no rumo de ti? É só seguir o caminho da tua angústia. Livre de que? Que importa isso a Zaratustra! A claridade do teu olho deve informar-me: Livre para que? Podes ser o teu próprio juiz e vingador da tua lei?
Algum dia sentirás cansaço da tua solidão e a tua coragem rangerá os dentes, algum dia gritarás: "Estou só!". Há sentimentos que querem matar o solitário; se não o conseguem devem eles mesmos morrer! Solitário, percorres o caminho de quem cria: um deus, queres criar para ti. Solitário, percorres o caminho de quem ama. Criar, quer o que ama. Vai para a tua solidão com o teu amor e com tua atividade criadora: e somente mais tarde a justiça te seguirá, capengando.
Assim falou Zaratustra, Parte I