• Nenhum resultado encontrado

3. Anatomia de um género performativo: estruturas narrativas, sonoras e visuais do

3.2. Análise musical do batuque

3.2.1 Tipologia das letras e textos cantados no batuque

O batuque constitui um género performativo que expressa e veicula importantes mensagens, simbólicas ou explicitas, de grande significado social e cultural. A partir das histórias e sentenças? a que se associam essas mensagens, deduzem-se regras morais, normas de comportamento individual e social, e juízos de valor sobre atitudes e pessoas. É por isso que o batuque se estrutura, antes de mais, num “texto cantado” em crioulo. Este texto pode ser organizado de diferentes formas o que me permite considerá-lo, por vezes, “letra” e outras vezes apenas “texto cantado”52. Em muitos casos o texto cantado não tem forma fixa, veiculando as ideias e as palavras organizadas em frases sem ordem pré-definida e sem autonomia do ponto de vista literário. As frases cantadas podem não surgir sempre na mesma

51

O conceito de "musical change "discutido por John Blaking refere-se a "significant changes that are peculiar to musical systems, and not simply the musical consequences of social, political, economic or other changes (1977:2)."

52

ordem, podem repetir-se, mudar apenas algumas palavras ou nomes, enfim, podem reconfigurar-se permanentemente. Além disso, o texto cantado pode apoiar-se em vocalizações sem palavras e contribui, nessa altura, para dar forma à melodia. Noutros casos o texto cantado adquire uma forma cristalizada, fixa e estruturada em estrofes, com ou sem refrão, que sempre se repete em cada performance. O texto, nestas circunstâncias torna-se autonómo do ponto de vista literário e configura-se numa estrutura do tipo “letra”, tal como é concebida no domínio da “popular music” ou mesmo da música erudita. Este é o argumento que torna admíssivel falar-se diferenciadamente de “texto cantado” ou de “letra” no caso das cantigas de batuque.

Embora as letras e os textos cantados de batuque tenham às vezes 3 ou 4 palavras, na relação com a performance podem formar muitas variantes na sua estrutura. Como mostro mais à frente as cantigas de batuque estruturam-se em duas partes: cantiga e rabira - contudo a letra surge quase sempre na totalidade durante a primeira parte, a cantiga. A segunda parte geralmente apenas utiliza as frases já cantadas na primeira parte e não apresenta palavras novas, ou, quando o faz, reforça a semântica inicial.

Não obstante o grande número de variantes, é possível encontrar três tipos principais quanto à organização das letras em refrão e estrofes. Designa-se a composição literária do batuque por “cantiga”, ou seja, uma peça individual, com princípio, meio e fim, caracterizada por uma unidade de letra e música, independentemente da sua forma. Contudo o termo “cantiga” também é usado pelas batucadeiras para designar apenas uma estrofe ou o refrão, ou seja, uma secção da cantiga de batuque. Em todos os casos existe uma alternância entre um(a) solista e um coro – de acordo com o princípio “pergunta e resposta (“call-and-response”, como é designado na literatura etnomusicológica por Nketia (1974) e Kubik (2010), por exemplo) – em que o coro pode manter um refrão fixo mais ou menos longo e a(o) solista vai cantando as estrofes. Um dos apêndices desta tese apresenta diversas transcrições de letras e alguns esquemas das três tipologias das cantigas.

A partir da minha análise, proponho uma classificação que se baseia em três tipos53: A, B e C. No primeiro tipo de letras (TIPO A –

refrão fixo e estrofes diferenciadas

) existe um refrão fixo que alterna com uma ou várias estrofes diferentes, com a mesma base musical. A cantadeira solista54 não apresenta variações na performance de umas ocasiões para outras e a letra é passível de ser escrita ou decorada. O refrão é, regra geral, a primeira das estrofes. Em alguns casos há apenas uma estrofe que se repete sempre. Num segundo tipo (TIPO B –

sem

refrão e estrofes improvisadas

) não existe refrão e o coro nas suas intervenções em alternância com a (o) solista, repete sempre a estrofe acabada de cantar. Finalmente no terceiro tipo (TIPO C

com ou sem refrão e estrofes improvisadas

)) a letra cantada pela solista apresenta-se quase toda improvisada no momento da performance embora possa organizar-se em torno de certas estrofes fixas que funcionam como âncoras. Neste tipo varia o conteúdo das letras cantado de estrofe para estrofe, podendo ou não manter-se um refrão fixo. Numa mesma cantiga, contudo, podem coexistir, em diferentes partes, mais do que um tipo de letras. Este tipo (TIPO C) inclui também a variante designada por finaçom, em que o acompanhamento sonoro do canto é distinto. A finaçom é um longo discurso entoado pela(o) solista, num estilo quase recitado, acompanhado por percussão (em palmas, geralmente) em que o refrão pode ou não ser omitido. O discurso está recheado de referências a pessoas, histórias, juízos de valor sociais, culturais e, frequentemente, religiosos.

Independentemente da fixação dos textos das cantigas é habitual as cantadeiras realizarem pequenas variantes de entoação e de encadeamento das palavras, nas sucessivas repetições do texto, criando assim variedade. Hurly-Glowa nota “a good batuko leader will subtely change the melody, text, and rhythm that she sings during the repetitions to keep the song exciting as it continues” (1997:123).

Em seguida apresento exemplos destes três tipos de cantigas. Como exemplo do primeiro tipo (TIPO A), na cantiga, Mininu nobu na mo, do grupo Finka-Pé, há apenas uma estrofe, que

53

Estas três tipologias de letras encontram-se noutros géneros musicais da música popular. Na visão das batucadeiras existe mesmo um paralelo formal e semântico entre o batuque e o rap. Não só as letras podem ser improvisadas – tal como na variante “freestile” do rap – como o conteúdo literário pode ser fortemente contestatário. Na realidade a improvisação, seja literária ou musical, é também um processo de composição que se socorre frequentemente de técnicas pessoais e artifícios criativos que permitem estender temporalmente o discurso e a duração da música.

54 Nos contextos de batuque em que há apenas uma voz solista, esta designa-se por cantadeira. Ocorre com alguma

também é refrão, e se repete continuamente. Os carateres em negrito indicam as respostas do coro, e os carateres normais a intervenção da cantadeira solista55:

Crioulo Português

Oia ia oia ia oia oia ia hum mi ku nha mininu nobu na mó

Oia ia oia ia oia oia ia hum mi ku nha

mininu nobu na mó

Oia ia ia oia ia oia ia hum eu com o meu filho no colo

Oia ia ia oia ia oia ia hum eu com o meu filho no colo

Transcrição Musical 1 - Transcrição da melodia de “minino nobo na mó” cantada pela solista, respondida pelo coro, com acompanhamento rítmico da tchabeta. Fonte: Gravação de campo do grupo Finka-Pé, Lisboa, Estufa Fria, novembro de 1993.

Para ilustrar o segundo tipo (TIPO B), em que a cantiga não tem um refrão fixo embora tenha uma frase fixa, transcrevo o exemplo Nós ké grupu di Buraca:

Crioulo Português

Oia oia oia, oia nós ké grupu di buraka mé

Oia oia oia, oia nós ké grupu di buraka

Oia oia oia oia, oia óh dinheru ma mi nca tene, nós ké grupu di buraka

Oia oia oia oia, oia óh dinheru ma mi n

ka tene, nós ké grupu di buraka

Oia oiam oiam oiam,oiaia óh Cova da mora , nós ké grupu di buraka mé

Oia oiam oiam oiam,oiaia óh Cova da

mora , nós ké grupu di buraka mé

Oia oiam oiam oiam, oiaia óh mudjeres, oia mudjeres nós ké grupo di buraka

Oia oiam oiam oiam, oiaia óh

mudjeres, oia mudjeres n´s ké grupo di

buraka

Oia oia oiam oiaia óh juventudi, nós ké grupu di buraka mé

Oia oia oiam oiaia óh juventudi, nós ké

grupu di buraka mé

Oia oia oiam oiaoiam, inda nka bai buraka, nós ké grupu di buraka mé

Oia oia oiam oiaoiam, inda nka bai

buraka, nós ké grupu di buraka mé

Oia oai oia, oia nós somos o grupo de Buraca

Oia oai oia, oia somos grupo de Buraca

Oia oia oia oia, oia ó dinheiro eu não tenho, somos grupo de Buraca

Oia oia oia oia, oia ó dinheiro eu não tenho, somos grupo de Buraca

Oia oiam oiam oiam, oiaia ó Cova da Moura, somos grupo de Buraca

Oia oiam oiam oiam, oiaia ó Cova da Moura, somos grupo de Buraca

Oia oiam oiam oiam, oiaia ó mulheres, oia mulheres somos grupo de Buraca

Oia oiam oiam oiam, oiaia ó mulheres, oia mulheres somos grupo de Buraca

Oia oia oiam oiaia ó juventude, somos grupo de Buraca

Oia oia oiam oiaia ó juventude, somos grupo de Buraca

Oia oia oiam oiaoiam, ainda não fui a Buraca, somos grupo de Buraca

Oia oia oiam oiaoiam, ainda não fui a Buraca, somos grupo de Buraca

Transcrição Musical 2 - “Nos ke grupo di Buraka”: melodia cantada e acompanhamento rítmico da

tchabeta. Fonte: Gravação de campo do grupo de batuque Finka-Pé, outubro de 2008. Aveiro, Portugal

Como representativa do terceiro tipo de cantigas (TIPO C), em que a letra é quase toda improvisada no momento da performance, transcrevo o exemplo “Bolama” composto pelo cantador Antóni Denti D’Oro:

Crioulo Português

Oh Bolama, eh Bolmana, eh Bolama holandesa O Bolama si-m ba Guiné pa-m bai Bissau, arrebenta Bolama

O nha mai, oh Afonso, Afonso bu rebenta Bolama

Si-m tchom Ano Nobo, el qui bem, N ca fazé nada, deta note, N ca dormi, e si-m odja Bolama

Ó Atónio Jorzi, Ó Jorzi Carvalho, Ó Jorzi Ribeiro, Bolama

Ó Bolama, si-m odja Toda co Betinho, a mi m- odja Bolama

Ah quase qué di bebe nu rebenta Bolama O si-m bá Guiné, si-m ba Bissau N rebenta Bolama

Oh Pitchiu, que qui bu fazê bu fidjo, que bu fazê, bu rrebenta Bolama

Oh Mário Suaris, Mário Suaris, manda-l mantenha arrebenta Bolama

O nhã mãi si-m ba Buraca, nôs e qui-m odja Bolama

Ó Bolama, eh Bolmana, eh Bolama holandesa Ó Bolama se eu for para a Guiné se eu for para Bissau, arrebenta Bolama

Ó minha mãe, oh Afonso, Afonso tu rebentas Bolama

Se eu chamar Ano Nobo, ele virá, eu não faço nada, deito-me à noite, eu não durmo se vejo Bolama

Ó António Jorge, Ó Jorge Carvalho, Ó Jorge Ribeiro, Bolama

Ó Bolama, se eu olho para a Toda e o Betinho, eu vejo Bolama

Ah já quase que está grávida, nós arrebentamos Bolama

Ó se eu for para a Guiné se eu for para Bissau, arrebenta Bolama

Oh Pitchiu, que é que faze, filho, que estás a fazer, tu rebentas Bolama

Oh Mário Soares, Mário soares, mando cumprimentos, arrebenta Bolama

Ó Bolama,

Ó minha mãe, se eu for à Buraca, nós é que vemos Bolama

Porto, m-odja Bolama

Ai oh Benfica, finca-pé, finca-pé bô bu odja Bolama, Benfica

Ai o Porto, Oh Porto, nhô é qui ta mata-nu rebenta Bolama, Porto

A mi qu’e Ntoni Denti D’oro, o nha mãi, salom di Benfica nu rebenta Bolama

Oh nha mãi, si es chama esses guentis na Buraca, Oh Senhora Livi, rebenta Bolama Eh mudjeris di Buraca, a mantenha dja bai, nhô Mário suaris nho odja Bolama

Ma-m tá na Cabo Verdi na mundo manda busca Ntoni nhu rebenta Bolama, dja-m bai Arriba San Domingu, riba tchão di San Domingu, rebenta Bolama

Ma-m ta bai Ngola baxo, N ta bai San Tomé, mocinhu oh na mundi e que rebenta Bolama

Oh ai Bolama dja-m odja um figueirinha nu rebenta Bolama

Oh nho Jorzi, preto co branco ajuntá, preto cum branco adjunta, o Jorzi

Or qui nhôs tchega Portugal, flá mantenha, fla qui Ntonim e sta bedjo ma ca more ainda Jorzi prumero, Jorzi sugundo, me rebenta Bolama

O Jorzi tercero, bu rebenta Bolama O primeiro Jorzi mi-m rebenta Bolama E a cachucha mão na coxa Bolama (…)

Ó Bolama,

vejo Bolama

Ai ó Benfica, Finca-Pé, tu vez Bolama, Benfica Ai ó Porto, tu estás a dar cabo de nós, rebenta Bolama, Porto

Eu sou António Denti D’ouro, o minha mãe, no salão do Benfica, nós rebentamos Bolama O minha mãe, se chamarem estas pessoas para a Buraca, Oh senhora Lieve, rebenta Bolama Eh mulheres da Buraca, aqui vão cumprimentos, senhor Mário Soares, olha para Bolama

Eu estou em Cabo Verde e no mundo, mandem buscar António e rebentam Bolama

Viva São Domingos, viva a terra de São Domingos, rebenta Bolama

Eu vou por Angola abaixo, eu vou a São Tomé, meninas, e no mundo arrebento Bolama

O ai Bolama, vejo uma figueirinha, nós rebentamos Bolama

Ó Senhor Jorge, junta os pretos com os brancos, ó Jorge

Quando chegares a Portugal, manda cumprimentos, diz que Antonim, ele está velho mais não morreu ainda

Jorge primeiro, Jorge segundo, eu rebento Bolama Ó Jorge terceiro, tu rebentas Bolama

Ó primeiro Jorge, eu rebento Bolama E a cachucha mão na coxa.

(…) Ó Bolama

Fonte: Gravação de campo do grupo de Antoni Denti D’oro. fevereiro de 1998. S. Domingos, Santiago, Cabo Verde

Os três tipos de cantigas coexistem nos mesmos contextos de performance. Porém, enquanto o primeiro e o segundo assentam em estereótipos performativos pré-definidos, o terceiro tipo (TIPO C) depende da experiência pessoal da(o) solista e da maior ou menor interação que consegue estabelecer com o contexto da performance. Por essa razão, o TIPO A adequa-se muito aos grupos que envolvem jovens com pouca prática porque é o mais fácil de aprender e de performar.

As cantigas com letra improvisada são muito menos frequentes nas atuações dos grupos observados em Portugal. Observei-o em certas performances de caráter familiar ou

doméstico, em alguns ensaios dos grupos Finka-Pé e Netas de Bibinha Cabral e raramente em atuações públicas. Nas atuações ocorrem mais frequentemente próximo do final da atuação, sobretudo quando a atmosfera entre os músicos e o público é de intensa excitação.