• Nenhum resultado encontrado

Tipologia textual

No documento Livro Professor Plural 12 (páginas 106-108)

Os textos, para além das propriedades fundamentais da textualidade, apresentam estruturas verbais peculiares, semânticas e formais, e marcas pragmáticas que possibilitam a sua classificação em tipos ou géneros. As características dos tipos ou géne- ros constituem indicadores importantes para a produção e para a interpretação dos textos.

A retórica clássica distinguiu três géneros de discursos: a. o género deliberativo ou político, que compreende os discursos proferidos perante a assembleia que representa uma comunidade política e que têm como objetivo conduzir a uma deliberação quanto aos problemas políticos em debate; b. o género judicial ou forense, que compreende os discursos proferidos no tribu- nal, onde se julga alguém por atos cometidos, havendo um orador que acusa e outro que defende o réu, procurando um e outro, com a sua argumentação, persuadirem o juiz a tomar uma decisão que seja justa; c. o género epidíctico ou demonstra- tivo, que compreende os discursos de encómio ou de acusação relativamente a alguém ou a algo.

No plano literário, a poética clássica, desde Platão a Aristóteles, estabeleceu os fundamentos semânticos (mundo represen- tado), enunciativos, estilístico-formais e pragmáticos para construir a famosa tripartição de géneros que ainda hoje perdura na

género épico ou narrativo e o género dramático. Cada um destes géneros compreende diversos subgéneros, resultantes nal- guns casos da sua mescla ou do seu hibridismo. Na época contemporânea, foi acrescentado aos três géneros tradicionais um quarto género – o género didático-ensaístico –, no qual cabem subgéneros como o diálogo de ideias, o ensaio propriamente dito, o livro de viagens, o sermão, a biografia, as memórias, etc.

Nas últimas décadas, análise do discurso e a linguística textual têm proposto diversas classificações dos tipos de textos, com base em critérios de vária ordem. Um princípio fundamental subjacente a estas classificações tipológicas é o de que “um género é o que liga um texto a um discurso”, ou seja, a afirmação de que um texto, sempre singular, está ligado pelo género a uma família de textos.

Uma classificação tipológica suficientemente compreensiva é a seguinte: a. textos conversacionais, que abarcam a conversa usual, a entrevista, a tertúlia, etc., com funções lúdicas, de intercâmbio de ideias, de comentário de acontecimentos, de agradeci- mento, etc.; b. textos narrativos, nos quais se relata um evento ou uma cadeia de eventos, com predominância de verbos que indicam ações e de tempos verbais como o pretérito perfeito e o pretérito imperfeito e com abundância de advérbios com valor temporal ou locativo; c. textos descritivos, nos quais se informa como é alguém ou algum estado de coisas, com sequências pre- dominantemente construídas com o verbo ser e outros verbos caracterizadores de propriedades, de qualidades e de aspetos de seres e de coisas, com os tempos verbais dominantes do presente e do pretérito imperfeito, com abundância de adjetivos quali- ficativos e de advérbios com valor locativo; d. textos expositivos, nos quais o referente é a análise ou síntese de ideias, conceitos e teorias, com uma estrutura verbal em que figuram predominantemente o verbo ser com um predicativo do sujeito nominal ou o verbo ter com complemento direto, e apresentando como tempo peculiar o presente; e. textos argumentativos, que têm como funções persuadir, refutar, comprovar, debater uma causa, etc., estabelecendo relações entre factos, hipóteses, provas e refuta- ções, com abundância de marcadores e conectores discursivos que articulam com rigor as partes do texto, e apresentando como tempo dominante o presente; f. textos instrucionais ou diretivos, que têm como função ensinar ou indicar como fazer algo, enu- merando e caracterizando as sucessivas operações, tendo como estrutura verbal dominante o imperativo; g. textos preditivos, que têm como função informar sobre o futuro, antecipando ou prevendo eventos que irão ou poderão acontecer, tendo como estrutura verbal dominante o futuro; h. textos literários, com uma semântica fundada na representação de mundos imaginários, com a utilização estética, retórica e não raro lúdica dos recursos da linguagem verbal, e com uma pragmática específica.

Cada tipo de texto pode configurar-se prototipicamente, no sentido do termo protótipo na linguística cognitiva – isto é, o exemplar mais característico, o modelo idealizado, de uma categoria –, ou pode apresentar uma prototipicidade atenuada ou difusa, sobretudo através da sua combinação ou mescla com outros tipos.

Jean-Michel Adam, um linguista que se tem ocupado detidamente dos problemas da tipologia textual, defende que um texto é uma entidade demasiado complexa e heterogénea para se poder afirmar que pertence prototipicamente, na sua totalidade, a um tipo, devendo antes a análise tipológica processar-se a um nível menos elevado, através da identificação, delimitação e caracterização das sequências textuais prototipicamente narrativas, descritivas, argumentativas, etc., que permitem classificar, quando dominantes, um texto como narrativo, descritivo, argumentativo, etc. Este enquadramento flexibiliza a classificação tipo- lógica dos textos e permite uma análise mais compreensiva e matizada das suas componentes tipológicas constitutivas.

Sequência textual

No quadro teórico da linguística textual elaborado por Jean-Michel Adam, unidade textual relativamente autónoma e dotada de uma organização interna própria, tanto de ordem semântica como formal, hierarquicamente situada entre o nível inferior dos períodos e o nível superior e englobante do texto. Estas unidades de textualização podem ser narrativas, descriti- vas, argumentativas, explicativas e dialogais.

Autor

Termo que designa o produtor de um texto, oral ou escrito, literário ou não literário. O autor é geralmente um indivíduo singular, mas há casos em que a instância autoral é dual e até mesmo plural. Há textos de autor anónimo – a anonímia é fre- quente na literatura oral e na literatura popular, bem como na literatura sujeita a regimes de censura severa –, há textos de autores que se ocultam sob pseudónimos – nomes falsos, inventados por razões de vária ordem –, há textos de autores que se abrigam sob criptónimos – nomes disfarçados, construídos com elementos gráficos do nome verdadeiro – e há textos de auto- res heterónimos, isto é, como no caso de Fernando Pessoa, autores que se denominam com nomes diferentes do nome verda- deiro, aos quais correspondem máscaras (personae) poéticas múltiplas, com biografias próprias e com conceções estético-lite- rárias e com estilos distintos.

Exemplos: O autor, singular, dual ou plural, tem uma existência real, num tempo, numa sociedade, numa altura e num lugar determinados. É o chamado autor real ou empírico, que existe fora do texto. Mas o autor tem também uma existência no âmbito do texto, é também uma instância intratextual, que só é possível conhecer através do texto. É o chamado autor textual ou autor implícito ou implicado. Entre o autor real e o autor textual podem existir relações de similitude ou de disse- melhança – a voz da persona poética das cantigas de amigo é uma voz feminina, mas o autor real é um homem –, se bem que entre os dois existam sempre, manifestas ou rasuradas, relações de implicação.

Leitor

Pessoa existente na realidade, historicamente determinada, que lê um texto e que constitui uma das suas instâncias inter- pretativas. Este é o leitor real ou leitor empírico, que é uma entidade extratextual. O leitor pode existir, porém, no próprio texto,

ter uma existência intratextual, como o leitor – ou a leitora – ao qual se dirigem e com o qual dialogam o autor e o narrador. O leitor implícito, na estética da receção, é uma função existente no próprio texto, que orienta no processo de leitura e de inter- pretação o leitor real. O leitor modelo é o leitor que o próprio texto, nas suas estratégias discursivas e na sua intencionalidade, prevê e convoca como o interlocutor adequado para cooperar na construção do sentido textual, atualizando as potencionalida- des inscritas no próprio texto. O leitor ideal é o leitor com uma enciclopédia e dotado de um conjunto de competências de lei- tura e de interpretação que o autor elege como o destinatário apropriado e exemplar do seu texto.

No documento Livro Professor Plural 12 (páginas 106-108)

Documentos relacionados