CAPÍTULO 3 REGIME DE COMPENSAÇÃO
3.2 Tipos de danos e perdas cobertos
A Convenção de 1992 (CLC 1992) e os Fundos (de 1992 e 2003) cobrem incidentes ocorridos com óleo mineral persistente derramado de um navio marítimo construído ou adaptado para carregar petróleo enquanto carga (normalmente os chamados petroleiros) ou o combustível desse navio operando o transporte do óleo. Incidente é qualquer ocorrência, ou série de ocorrências que tenham a mesma origem, que cause danos por poluição.
Os danos por poluição cobertos em tais acidentes estão definidos pela Convenção de 1992, em seu Artigo I - 6:
(a) perda ou dano causado fora do navio por uma contaminação resultante de um derramamento ou de uma descarga de óleo do navio, onde quer que possa ocorrer esse derramamento ou essa descarga, ficando estabelecido que a compensação pelos prejuízos causados ao meio ambiente, que não a perda de lucros decorrentes daqueles prejuízos, será limitada aos custos
decorrentes de medidas razoáveis de recuperação realmente realizadas ou a serem realizadas;
(b) os custos de medidas preventivas e de outras perdas ou danos causados por medidas preventivas.
Surgem, assim, algumas hipóteses factuais de abrangência da convenção. Os tipos de danos por poluição cobertos pelo regime são:
1) Limpeza e medidas preventivas: engloba quaisquer medidas de limpeza ou de prevenção tomadas razoavelmente por qualquer pessoa diante da ocorrência de um incidente com o objetivo de impedir ou minimizar os danos causados por poluição. Por exemplo, se uma resposta foi tomada em alto mar ou na área do mar territorial de um Estado não contratante das convenções com o objetivo de prevenir ou reduzir a poluição dentro do mar territorial ou ZEE de um Estado parte, o custo de resposta seria, em princípio, apto a pedido de compensação. Despesas com medidas de prevenção são recuperáveis mesmo que não haja derramamento de petróleo, desde que haja um grave e iminente risco de dano por poluição. 7
Operações de limpeza no mar ou em terra, como as realizadas nas praias, são, geralmente, consideradas como medidas preventivas, segundo o posicionamento dos Fundos IOPC. 8 Além disso, custos com “medidas preventivas e de limpeza” também incluem compensações associadas à captura, limpeza e reabilitação da vida selvagem, em particular de pássaros, mamíferos e répteis. 9
2) Danos à propriedade: compensação disponível para custos tomados de forma razoável com limpeza, reparação ou reposição de propriedade que tenha sido contaminadas pelo petróleo. A regra é que caso o bem não possa ser limpo ou reparado, então é passível compensação pelos custos da reposição. Cumpre notar, no entanto, que o montante devido a ser ressarcido corresponde ao valor do bem quando da ocorrência da contaminação, não o valor de um mesmo bem em condição nova.
3) Perda conseqüente ou lucros cessantes (consequential loss):compensação pelas perdas de rendimento ou lucros cessantes sofridos pelos proprietários de bens contaminados pelo petróleo resultante da um derramamento. Por exemplo: perdas de rendimento suportadas por um pescador como resultado de contaminação por petróleo de suas redes de pesca ou do
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IOPC FUNDS. Claims Manual. London, 2013. p. 14. Disponível em: <http://www.iopcfunds.org/uploads/ tx_iopcpublications/claims_manual_e.pdf>. Acesso em: 1 out. 2015.
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UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT. Liability and compensation for
ship-source oil pollution: an overview of the international legal framework for oil pollution damage from
tankers. New York: United Nations, 2012. (Studies in transport law and policy, n. 1). p. 44. Disponível em: <http://unctad.org/en/PublicationsLibrary/dtltlb20114_en.pdf>. Acesso em: 21 abr. 2017.
9 Ibid.
motor de um barco de pesca, o que impossibilita a pesca até que tais bens de trabalho sejam limpos ou substituídos.
4) Perda econômica pura (pure economic loss): aqui se encaixam os pedidos de compensação para as situações em que não houve poluição dos bens por poluição por petróleo, mas ainda assim a pessoa sofreu perdas econômicas em decorrência da poluição. Dois exemplos recorrentes envolvem pescadores e donos de hotéis costeiros. No caso dos pescadores, ao contrário do que ocorre na perda consequente ou lucros cessantes, seus bens, como redes e barcos, não são contaminados, mas ainda assim ficam impossibilitados de trabalhar porque a área em que normalmente pescam foi contaminada e não há outro local para pescarem. Quanto aos donos de hotéis costeiros, o que ocorre é que, embora o hotel em si não tenha sido contaminado, podem sofrer perdas devido à diminuição no número de hóspedes em decorrência da poluição da praia em que se localizam ou que se encontram perto. O mesmo ocorre com restaurantes, pousadas e outros empreendimentos que sofrem perdas devido à contaminação do local que exploram. Os Fundos IOPC também elencam nessa categoria os custos com marketing e propaganda que tenham o propósito conter os efeitos negativos, reverter a visão negativa dos consumidores ou recuperar a clientela e, assim, minimizar ou prevenir perdas econômicas. 10
5) Prejuízos causados ao meio ambiente
A questão dos pedidos relacionados ao meio ambiente é a mais complicada e controversa. Primeiramente é preciso notar que o dispositivo fala em “prejuízos” e não em compensação pelos danos ao meio ambiente por si. O texto ainda completa que o valor da indenização será limitado “Artigo I - 6 (a) [...] aos custos decorrentes de medidas razoáveis de recuperação realmente realizadas ou a serem realizadas.” Estas medidas abrangem operações com o intuito de acelerar a recuperação natural frente ao dano ambiental e incluem, por exemplo, gastos com estudos pós derramamento, estudos de avaliação da extensão dos danos e estudos para determinar as melhores ações e até mesmo avaliar se são necessárias.
No entanto, o problema é que os Fundos IOPC exigem que os pedidos por prejuízo ambiental sejam fundamentados em uma perda econômica quantificável. Ou seja, requerimentos generalizados por danos no meio ambiente marinho ou terrestre não serão admitidos. Esse posicionamento foi definido com a Resolução 3 adotada pela Assembleia do Fundo de 1971 que dispõe que “[...] a avaliação da compensação a ser paga pelo Fundo internacional de compensação por poluição por petróleo não deve ser efetuada com base numa
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IOPC FUNDS. Claims Manual. London, 2013. p. 14. Disponível em: <http://www.iopcfunds.org/uploads/ tx_iopcpublications/claims_manual_e.pdf>. Acesso em: 1 out. 2015.
quantificação abstrata dos danos de acordo com modelos teóricos.” 11 Portanto, os pedidos de compensação por prejuízos ao meio ambiente devem ser de natureza exclusivamente econômica e devem ser pleiteados com base em valores concretos e que possuam prova palpável.
Há casos significativos em que o Fundo IOPC declarou o pedido de danos ambientais inadmissível por terem apresentado cálculos de maneira “abstrata”: o caso com o navio Patmos, em 1985, em que foram pedidos 5.000 milhões de liras por danos ao meio ambiente; o caso Haven, em 1991, onde foram negados 100.000 milhões de liras ao governo italiano; e o caso Evoikos, em 1997, em que o governo indonésio pleiteou sem sucesso 3,2 milhões de dólares.12