3. DOCUMENTÁRIO
3.3. TIPOS DE VÍDEO DOCUMENTÁRIO
Segundo o autor Bill Nichols, existem duas maneiras de dividir os
documentários: modelos e modos. Na categoria modelos, é possível afirmar que são distinguidos por modelos de não-ficção pré-existentes ele aponta onze exemplos:
1. Investigação/reportagem: esse modelo é caracterizado por defender um argumento, reunir provas ou oferecer uma perspectiva. 2. Defesa/promoção de uma causa: segundo o autor, a característica principal é que este induz o espectador à um ponto de vista especifico trazendo e enfatizando provas que convencem e comovem.
3. História: reconta a história como realmente aconteceu com a perspectiva ampla dos fatos.
4. Testemunho: é o documentário produzido conforme as experiências e relatos pessoais com a união de histórias.
5. Relato de expedição/viagem: busca repassar os espaços e experiências únicas e a singularidade dos encantos de lugares afastados.
6. Sociologia: este retrata as subculturas e frequentemente é realizado com base em “trabalho de campo, observação participante com as pessoas filmadas descrição e interpretação” (Nichols, 2016, p. 161). 7. Antropologia/etnografia visual: é semelhante ao modelo sociologia,
porém neste caso o documentarista precisará de informantes para o acesso à essa cultura além de ter de acrescentar aquisição de linguagem.
8. Ensaio na primeira pessoa: este o autor define como “relato pessoal de algum aspecto da experiência ou ponto de vista do autor/cineasta; a autobiografia é semelhante, mas enfatiza o desenvolvimento individual” (Nichols, 2016, p. 162)
9. Diário: relatos do dia a dia do documentarista, este tem total controle sobre o começo e o fim dessas impressões diárias.
10. Perfil individual ou coletivo/biografia: neste modelo, o autor retrata a história da vida e das experiências de uma pessoa ou de determinado grupo.
11. Autobiografia: narra os acontecimentos e o amadurecimento de sua própria vida, um relato pessoal de suas experiências.
Já a segunda divisão é composta por seis modos cinematográficos diferentes de documentários, que segundo ele, auxiliam na definição da forma e do estilo deste gênero. São eles: expositivo, poético, observativo, participativo, reflexivo e performático. Enquanto na primeira divisão o foco era o assunto abordado no documentário, na segunda o foco é dado à forma do documentário, à produção e aos elementos desta produção. As definições dos modos a seguir são conforme aponta o autor Bill Nichols.
O Modo Expositivo é aquele que usa da técnica voice over – narração gravada sobre a faixa original de áudio do vídeo, para falar diretamente com o espectador. O autor afirma que “esse modo prioriza a palavra falada para transmitir a perspectiva do filme vinda de uma fonte única, unificadora. Isso, por sua vez, facilita a compreensão” (Nichols, 2016, p. 163).
Além disso, Nichols aponta ainda outra característica deste modo, a junção de segmentos do mundo histórico. Esse modo é objetivo em seus temas
e possui uma perspectiva bem embasada. Características como distância, neutralidade, onisciência ou indiferença são primordiais no tom da narração de documentários deste modo para passar credibilidade.
Imagem 14. Joris Ivens e Ernest Hemingway durante as filmagens de Tierra de
España, em 1937.
Fonte: Arquivo histórico29
O Modo Poético é caracterizado pela ênfase nos padrões visuais e acústicos, além do ritmo e a forma em geral do documentário. Segundo o autor:
Esse modo enfatiza mais o estado de ânimo, o tom e o afeto do que as demonstrações de conhecimento fatual ou os atos de persuasão retórica. [...] Aprendemos, nesse caso, por afeto ou sentimento, por adquirir a percepção de como é ver e experimentar o mundo de um modo poético, singular. NICHOLS, 2016, p. 170.
Como o próprio nome já diz, as características poéticas predominam, mesmo quando o assunto abordado é um acontecimento ou uma experiência
29 Disponível em: <http://www.ultrajano.com.br/tierra-de-espana-ivens-hemingway- e-guerra/> Acesso: 26 abr. 2020
específica. O subjetivismo está presente desde as imagens utilizadas, até os sons e as falas. Não busca transmitir argumentos, mas sim sentimentos.
Imagem 15. Chuva, (Joris Ivens, 1929)
Fonte30: Arquivo histórico
O Modo Observativo busca retratar a forma como os atores sociais vivem, neste modo o cineasta é apenas um observador. O autor afirma que por se tratar de uma produção de apenas observação, o resultado é de filmes sem efeitos sonoros complementares, sem voice over, sem reencenações, sem comportamentos repetidos para as câmeras e em muitos casos sem entrevistas. O que diferencia totalmente este modo dos modos poético e expositivo.
Segundo Nichols “o isolamento do cineasta na posição de observador pede que o espectador assuma um papel mais ativo na determinação da importância do que se diz e faz” (NICHOLS, 2016, p. 183). Os filmes observativos tendem a ter uma preocupação maior com a ética.
30 Imagem disponível em: <https://www.planocritico.com/critica-chuva-1929/> Acesso: 26 jul. 2020
Imagem 16. Grey Gardens, 1975. Albert e David Maysles
Fonte:.31 Arquivo histórico
O Modo Participativo é o oposto do modo observativo, onde o cineasta interage com os atores sociais ao invés de observá-los de forma discreta. As entrevistas são um exemplo deste modo, onde se torna possível ao cineasta conversar e se envolver com os atores sociais e com as cenas. A perspectiva do cineasta contribui significativamente no impacto que o filme trará aos espectadores. O tema será retratado por alguém que estará envolvido e engajado com os outros.
Esse modo modula a formula “eu falo deles para você” em algo que frequentemente está mais próximo de “eu falo com eles por nós (eu e você)”, conforme as interações do cineasta nos abrem uma janela singular sobre uma porção especifica do nosso mundo. NICHOLS, 2016, p. 188
Nichols afirma ainda que a entrevista é uma das formas mais usuais da relação entre o cineasta e o personagem no documentário. Segundo ele “Elas
31 Imagem disponível em: <https://www.tiff.net/the-review/the-enduring-wisdom-of- grey-gardens> Acesso: 26 jul. 2020
diferem da conversa corriqueira e do processo mais coercitivo de interrogação, em razão do quadro institucional em que ocorrem [...] As entrevistas ocorrem num campo de trabalho antropológico ou sociológico” (Nichols, 2016, p.196).
Imagem 17. Takeover (David e Judith MacDougall, 1981)
Modo Reflexivo é caracterizado pelo envolvimento do cineasta com o espectador. Neste modo, o documentarista não apenas aponta os momentos históricos, mas traz com eles os problemas desse mundo histórico. Como o nome diz, faz o espectador refletir sobre o tema abordado, seja através de entrevistas ou até mesmo das imagens apresentadas.
O autor define: “esses filmes tentam aumentar nossa consciência dos problemas da representação do outro, assim como tentam nos convencer da autenticidade ou da veracidade da representação em si” (Nichols, 2016, p 202). Além disso, o modo reflexivo aborda questões do estilo do realismo, desafiando esse estilo e suas convenções. Nichols afirma ainda que “o modo reflexivo é o modo de representação mais consciente de si mesmo e aquele que mais se questiona” (Nichols, 2016, p 203).
Imagem 18. There Is No Tomorrow (Dermot O’Connor, 2012)
Fonte: 32 Arquivo histórico
No Modo Performático a clareza com que o cineasta se dirige ao público é uma das principais características. Segundo o autor, esse modo aponta questões sobre o que de fato é o conhecimento. Nichols afirma que o significado é “claramente um fenômeno subjetivo, carregado de afetos [...] o documentário performático sublinha a complexidade de nosso conhecimento do mundo pela ênfase em suas dimensões subjetivas e afetivas” (Nichols, 2016, p. 208). Isto é, uma cama, um quarto, uma televisão, um revólver, terão significados diferentes para pessoas distintas. Isso devido às experiências únicas vividas por cada pessoa. Esse tipo de documentário enfatiza experiências e memórias. Seu objetivo é mais relacionado ao afetivo do que ao persuasivo.
32 Imagem disponível em: <http://noticias-
alternativas.blogspot.com/2013/02/documentario-there-is-no-tomorrow-nao.html> Acesso em: 27 jul. 2020
Imagem 19. Paris Is Burning (Jennie Livingston, 1990)
Fonte: 33 Arquivo histórico