“Missão: Formar profissionais capacitados, socialmente responsáveis e aptos a promoverem as transformações futuras”.
ANE BEATRIZ HORST
SONHOS QUE VÃO, VOZES QUE FICAM: UM VIDEODOCUMENTÁRIO SOBRE A VIDA DE MÃES DE JOVENS NEGROS ASSASSINADOS PELA
POLÍCIA
FOZ DO IGUAÇU 2020
“Missão: Formar profissionais capacitados, socialmente responsáveis e aptos a promoverem as transformações futuras”.
SONHOS QUE VÃO, VOZES QUE FICAM: UM VIDEODOCUMENTÁRIO SOBRE A VIDA DE MÃES DE JOVENS NEGROS ASSASSINADOS PELA
POLÍCIA
Trabalho de Conclusão de Curso, submetido à banca examinadora do curso de graduação, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Jornalismo pela Instituição Centro Universitário Dinâmica das Cataratas – UDC.
______________________________________ Orientador: Prof. Anderson Frigo.
FOZ DO IGUAÇU 2020
Este Trabalho de Conclusão de Curso foi apresentado às 19h do dia 30 de novembro 2020 como requisito para a obtenção do título de Bacharel em Jornalismo, do Centro Universitário Dinâmica das Cataratas. O candidato foi arguido pela Banca Examinadora composta pelos professores abaixo assinados. Após a deliberação, a Banca Examinadora considerou o trabalho _______________________.
__________________________________________ Prof.º Anderson Frigo
(orientador)
__________________________________________ Prof. Luciano Villela
(avaliador)
__________________________________________ Prof. Anne Carolina Festucci
Resumir o sentimento que cresce dentro de mim tanto no decorrer das pesquisas quanto na finalização deste projeto é difícil. A gratidão com certeza é o sentimento que reina dentre tantos outros. Gratidão a Deus, que através de minhas crenças me auxiliou nesta longa jornada de quatro anos de estudos e na produção deste projeto que se tornou, para mim, mais do que uma pesquisa. Agradeço também a Nossa Senhora Aparecida que intercedeu por mim junto ao Deus Pai.
Gratidão aos meus pais, Vanilda Luzia Horst e Marcos Roberto Horst, que não apenas nesses quatro anos de faculdade, mas em toda a minha vida estudantil me ajudaram das mais diversas formas possíveis, com os meios de locomoção, me incentivando e me mostrando que sou capaz de realizar aquilo o que quero, além de me mostrar o caminho da ética e empatia para com o próximo. Agradeço imensamente a eles, que me auxiliaram financeiramente nessa viagem para produção deste videodocumentário e me motivaram a seguir firme neste estudo. Agradeço também à minha irmã, Bruna Horst Camargos, razão pela qual escolhi o jornalismo como minha profissão, ela que sempre me incentivou e me deu o pontapé para ingressar nesse curso que me encontrei, ela que é além de minha irmã, minha amiga e companheira que está sempre ao meu lado, nos momentos alegres e tristes. Ao meu sobrinho e minha afilhada, Heitor Horst Camargos e Helena Horst Camargos, que tanto amo, agradeço pelos momentos que me proporcionaram que nas fases difíceis me deram forças para continuar. Agradeço ao meu cunhado, Clayton Souza Camargos que sempre esteve disposto a me auxiliar no que precisasse. E não poderia deixar de agradecer também o meu namorado, João Eduardo Constâncio de Oliveira que esteve sempre do meu lado nesses quatro anos, auxiliando na minha locomoção até a universidade, sempre me incentivando e me acolhendo nos momentos difíceis, ele que me acompanhou nessa viagem dedicando seu tempo nas gravações, e que vibra comigo nas minhas conquistas, como este trabalho.
Não poderia deixar de expressar minha gratidão também a aquelas que sempre estiveram ao meu lado, minha amiga Aline Victória Davalos, que trago comigo desde o ensino médio e que me ajudou a superar muitas barreiras
momentos incríveis, e outros nem tanto, mas que juntas completamos mais essa jornada e comemoraremos juntas essa vitória. Amizades que levarei por toda a minha vida.
Gratidão ao Centro Universitário União Dinâmica das Cataratas, que trouxe para minha vida profissionais que dedicaram seu tempo a nos ensinar o verdadeiro sentido da profissão e se tornaram mais do que professores, amigos. Cito aqui, três nomes que foram de extrema importância para conclusão desse trabalho, Luciano Villela, Anne Carolina Festucci e Anderson Frigo, que não mediram esforços para transmitir todo conhecimento que auxiliou neste processo. Minha gratidão a todos os professores que fizeram parte dessa jornada.
Por último, mas não menos importante, agradeço às Mães (personagens), pois sem elas nada disso seria possível. Elas que tiraram um tempo para contar suas histórias e tornar este meu sonho realidade, e que mesmo com o sofrimento em relembrar mais uma vez o acontecido, não deixaram de ser a voz dos meninos e lutar pela justiça da morte de seus filhos.
Externo esses sinceros agradecimentos à essas pessoas que transformam minha vida. Agradeço também aqueles que não citei, mas que tem um espaço reservado em meu coração e fazem parte dessa minha jornada, pois estarão sempre em minhas memórias.
Eu tenho um sonho de que um dia meus quatro filhos vivam em uma nação onde não sejam julgados pela cor de sua pele, mas pelo seu caráter.
É possível depreender que ao longo da história as condições sociais de determinados grupos foram prejudicadas. Este é o caso dos negros que no decurso de sua trajetória tiveram sua imagem estereotipada. Jovens negros são vítimas constantes de policiais que estabelecem pré-conceitos para definir quem é bandido na sociedade. Por ano, mais de 4,6 mil negros perdem a chance de realizar seus sonhos quando suas vidas são tiradas por policiais. E a pergunta que vem à cabeça: não eram esses os responsáveis pela segurança? Os jovens não são as únicas vítimas desses assassinatos, mas também as mães dos mesmos, quando são obrigadas a seguir suas vidas carregando consigo um sentimento tão grande de perda, e estas, com suas dores, são esquecidas pela sociedade e pelo governo. Em razão disso, este trabalho busca demonstrar por meio de um vídeo documentário os sentimentos das mulheres que perderam seus filhos negros assassinados por policiais. Para obter os resultados esperados, o estudo será realizado com base em uma pesquisa básica, não tendo aplicação prática de soluções para o problema, de abordagem qualitativa visando obter informações subjetivas, além de ser exploratória contemplando o estudo de casos para reportar dificuldades enfrentadas pelas personagens após terem seus filhos assassinados. As pesquisas bibliográficas foram fundamentais para comprovar a presença de racismo e discriminação na sociedade atual, assim como apresentar a história do preconceito, da discriminação social e do racismo, além de apontar os dados da violência que acompanha essas formas de discriminação. Dentre os autores presentes nesta pesquisa destacam-se Santos (2013) e Lara (1988). Com os resultados desta pesquisa, foi produzido um vídeo documentário designado a promover visibilidade para o tema, tanto em relação aos anseios e lutas das mães quanto ao fato que o preconceito ainda está presente em nossa sociedade, visto que o tamanho do problema que a população negra enfrenta cotidianamente não é de conhecimento amplo da sociedade.
Palavras Chaves: Mães; negro; discriminação; violência; policiais; vídeo documentário.
It is possible to conclude that throughout history the social conditions of certain groups have been impaired. This is the case of blacks who, in the course of their trajectory, had their image stereotyped. Young blacks are constant victims of police who use preconceptions to define who is a criminal in society. Every year, more than 4,600 blacks lose the chance to fulfill their dreams when their lives are taken by police. And the question that comes to mind: weren't those responsible for security? Young people are not the only victims of these murders, but also their mothers, when they are forced to go on with their lives carrying such a great feeling of loss, and these, with their pains, are forgotten by society and the government. As a result, this work seeks to demonstrate through a documentary video the feelings of women who lost their black children murdered by police officers. To obtain the expected results, the study will be carried out based on basic research, with no practical application of solutions to the problem, with a qualitative approach aimed at obtaining subjective information, in addition to being exploratory, contemplating the case study to report difficulties faced by the characters after having their children murdered. Bibliographic research was essential to prove the presence of racism and discrimination in today's society, as well as to present the history of prejudice, social discrimination and racism, in addition to pointing out the data on the violence that accompanies these forms of discrimination. Among the authors present in this research, Santos (2013) and Lara (1988) stand out. With the results of this research, a documentary video was produced designed to promote visibility for the theme, both in relation to the mothers' wishes and struggles and to the fact that prejudice is still present in our society, since the size of the problem that this class faces it is not widely known to society.
Es posible comprenderse que a lo largo de la historia las condiciones sociales de determinados grupos fueron perjudicadas. Este es el caso de los negros que en el transcurso de su trayectoria tuvieron su imagen estereotipada. Jóvenes negros son víctimas constantes de policiales que establecen preconceptos para definir quién es bandido en la sociedad. Por año, más de 4,6 mil negros pierden la chance de realizar sus sueños cuando sus vidas son tomadas por policiales. Y la pregunta que viene a la cabeza: ¿no eran esos los responsables por la seguridad? Los jóvenes no son las únicas víctimas de esos asesinatos, pero también las madres de los mismos, cuando son obligadas a seguir sus vidas cargando con ellas un sentimiento tan grande de perdida, y estas, con sus dolores, son olvidadas por la sociedad y por el gobierno. En virtud de ello, este trabajo busca demonstrar por medio de un vídeo documental los sentimientos de las mujeres que perdieron sus hijos negros asesinados por policiales. Para obtener los resultados esperados, el estudio será realizado con base en una investigación básica, no teniendo aplicación práctica de soluciones para el problema, de abordaje cualitativa visando obtener informaciones subjetivas, además de ser exploratoria contemplando el estudio de casos para reportar dificultades enfrentadas por los personajes después de que tuvieron sus hijos asesinados. Las investigaciones bibliográficas fueron fundamentales para comprobar la presencia de racismo y discriminación en la sociedad actual, bien como presentar la historia del perjuicio, da discriminación social y del racismo, además de apuntar los datos de la violencia que acompaña esas formas de discriminación. Entre los autores presentes en esta investigación se destacan Santos (2013) y Lara (1988). Con los resultados de esta investigación, fue producido un vídeo documental designado a promover visibilidad para el tema, ya sea a lo relacionado a los anhelos y luchas de las madres cuanto al hecho que el preconcepto aún está presente en nuestra sociedad, visto que el tamaño del problema que esa población negra enfrenta en lo cotidiano no es de conocimiento amplio de la sociedad.
Palabras Clave: Madres; negro; discriminación; violencia; policiales; vídeo documental.
Imagem 1. Negros cangueiros -: Rio de Janeiro (1832-36) ... 21
Imagem 2. Slave Market, London – 1822 ... 22
Imagem 3. Recibo de venda de escravo - Rio de Janeiro - 15/12/1858 ... 23
Imagem 4. Pintura: 'Negros no Fundo do Porão' – 1830 ... 24
Imagem 5. Registro de entrada de navios negreiros em um porto. ... 25
Imagem 6. Entrada de navios negreiros em um porto – 1813 ... 26
Imagem 7. Escrava negra sentada com frutas e escravo homem segurando carro de mão - Rio de Janeiro, entre 1864 e 1866 ... 28
Imagem 8. Decreto isentando de direitos os escravos transportados de Angola para o Pará - s.n: Lisboa, Portugal, 1798 ... 29
Imagem 9. Crioulo fugido: desde o dia 18 de outubro de 1854, de nome Fortunato: RS 50U000 de Alviçaras ... 30
Imagem 10. Punishments (Castigo) - Rio de Janeiro – 1846 ... 31
Imagem 11. L'exécution de la punition du f – Paris 1835 ... 34
Imagem 12. Instrumentos de tortura - S.l, s.d ... 35
Imagem 13. - Carta de Alforria - Rio de Janeiro – 1855 ... 38
Imagem 14. Joris Ivens e Ernest Hemingway durante as filmagens de Tierra de España, em 1937. ... 70
Imagem 15. Chuva, (Joris Ivens, 1929) ... 71
Imagem 16. Grey Gardens, 1975. Albert e David Maysles ... 72
Imagem 17. Takeover (David e Judith MacDougall, 1981) ... 73
Imagem 18. There Is No Tomorrow (Dermot O’Connor, 2012) ... 74
Imagem 19. Paris Is Burning (Jennie Livingston, 1990) ... 75
Imagem 20. Capa Extra (Web) ... 86
Imagem 21. Capa O Globo (Web) ... 88
Imagem 22. Cristo Redentor - Rio de Janeiro ... 117
Imagem 23. Comunidade no Rio de Janeiro ... 117
Imagem 24. Bairro de Copacabana - Rio de Janeiro ... 118
Imagem 25. Gravação da entrevista com a personagem Rosângela ... 119
Imagem 26. Glaucia dos Santos ... 120
Imagem 27. Rosangela Flora Machado e Marcos Francisco Machado ... 121
Imagem 31. Areia na mão, praia de Copacabana ... 124
Imagem 32. Viatura da polícia, bairro Copacabana ... 125
Imagem 33. Grupo Mães de Manguinhos no memorial de Manguinhos ... 126
Imagem 34. Lettering com o título do videodocumentário. ... 127
Imagem 35. Arte para apresentação dos jovens assassinados. ... 128
Imagem 36. Plano com a apresentação das mães entrevistadas. ... 128
Tabela 1. Resultados da análise dos jornais Extra e O Globo ... 85 Tabela 2. Quadro de apresentação das entrevistadas ... 91 Tabela 3. Tabela de gastos para a produção do documentário ... 115
Gráficos 1. Evolução das taxas de homicídios de negros e não negros no Brasil (2004-2014) ... 55 Gráficos 2. Probabilidade de um indivíduo sofrer homicídio no Brasil por idade e raça (2010) ... 56 Gráficos 3. Mortes decorrentes de intervenções policiais (em serviço e fora de serviço) ... 57 Gráficos 4. Mortes decorrentes de intervenções policiais, por raça/cor. Brasil, 2017-2018 ... 58 Gráficos 5. Composição demográfica e mortes decorrentes de intervenções policiais no Brasil ... 59 Gráficos 7. Mortes Decorrentes de intervenções policiais, por idade, Brasil, 2017-2018 ... 60
1. INTRODUÇÃO ... 17
2. A PRESENÇA ENRAIZADA DO RACISMO NA SOCIEDADE CONTEPORÃNEA E NA POLÍCIA ... 20
2.1. HISTÓRIA DOS NEGROS NO BRASIL ... 20
2.2. O PRECONCEITO, A DISCRIMINAÇÃO E O RACISMO ... 41
2.3. HISTÓRIA DA POLÍCIA BRASILEIRA ... 49
2.4. A VIOLÊNCIA EM DADOS ... 54
3. DOCUMENTÁRIO ... 61
3.1. DEFINIÇÃO ... 61
3.2. A HISTÓRIA DO VÍDEO DOCUMENTÁRIO NO BRASIL ... 64
3.3. TIPOS DE VÍDEO DOCUMENTÁRIO ... 68
3.4. O DOCUMENTÁRIO E O JORNALISMO ... 75
3.5. PRÉ-PRODUÇÃO, PRODUÇÃO E PÓS-PRODUÇÃO ... 78
3.5.1. Pré-produção ... 78 3.5.2. Produção ... 80 3.5.3. Pós-produção ... 80 4. METODOLOGIA ... 82 4.1. TIPO DE PESQUISA ... 82 4.2. ANÁLISE SITES ... 84
4.2.1. Análise Jornal Extra ... 86
4.2.2. Análise O Globo ... 88
4.2.3. Conclusão da análise ... 90
4.3. VARIÁVEIS DA PESQUISA ... 90
4.3.1. Delineamento ... 90
4.3.2.2. Critérios de exclusão ... 92
4.3.3. Procedimentos e instrumentos para coleta de dados ... 92
4.3.3.1. Procedimentos preliminares ... 93
4.3.3.2. Instrumentos... 93
4.4. ENTREVISTAS ... 94
4.4.1. Considerações sobre os dados coletados ... 108
5. O PRODUTO: VIDEODOCUMENTÁRIO “SONHOS QUE VÃO, VOZES QUE FICAM”... ... 109 5.1. DEFESA DO PRODUTO ... 109 5.2. ROTEIRO ... 109 5.3. GASTOS ... 115 5.4. DISTRIBUIÇÃO/DIVULGAÇÃO ... 116 5.5. PROCESSO DE PRODUÇÃO ... 116 5.5.1.Cenário ... 116 5.5.2. Personagens ... 120
5.5.3. Captura de imagem, áudio e iluminação ... 123
5.5.4. Processo de edição ... 123
5.5.5. Direção de arte ... 124
5.5.6. Trilha sonora e letterings ... 126
5.5.7. Título... 129
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 131
7. REFERÊNCIAS ... 133
1. INTRODUÇÃO
Preconceito e racismo, duas problemáticas que estão enraizadas na sociedade há muitas eras. A escravidão dos negros existiu com a justificativa de que estes eram diferentes e inferiores aos brancos. Com isso, a elite (branca e rica) assumia o direito de propriedade dos negros e os escravizavam. Quem acredita que esse pensamento acabou juntamente com o fim da escravidão, se engana. Em pleno século 21 ainda é possível encontrar o racismo com raízes fortes na sociedade, desde expressões como “mercado negro”, “serviço de preto”, até agressões diretas verbais e físicas.
Logo, se o racismo e o preconceito ainda são vigentes, eles estão presentes nas mais diversas profissões, incluindo serviços públicos prestados à sociedade. Assim, é possível encontrar o denominado racismo institucional também em cargos destinados à proteção de todos. O racismo leva indivíduos a cometerem crimes, e estes crimes, muitas vezes, são irreversíveis.
A média de assassinatos cometidos pelas mãos de policiais em 2019 ultrapassou o número de 17 pessoas por dia, as vítimas, em sua maioria, homens jovens e negros. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2019 foram 6.375 assassinatos em ações policiais, deste número, 79,1% eram negros, 99,2% homens e 31,2% possuíam idades entre 20 e 24 anos.1
Os que sofrem com esse ato não são apenas as vítimas, mas também pessoas próximas das mesmas, e, principalmente, as mães. Segundos elas, a dor ao se perder um filho não se compara com a dor de perder um amigo ou um ente querido. O sacrifício feito ao dedicar parte da vida para ver alguém crescer e ser feliz é tragicamente interrompido. Vivenciar a perda de um filho traz, além de tristeza, uma dor, angústia e revolta incessante. Essas mães dificilmente têm visibilidade e oportunidade para contar suas histórias e todo sofrimento vivido.
1 Disponível em: <https://forumseguranca.org.br/anuario-brasileiro-seguranca-publica/>. Acesso em: 17/11/2020 às 22h
De acordo com as mães entrevistadas nesta pesquisa, grande parte dos casos não tem resolução, seguem por anos arquivados e sem investigação.
Diante deste fato, o presente Trabalho de Conclusão de Curso busca, por meio de pesquisas, relatar a história das mães de jovens assassinados pela polícia, que sofrem e sofrerão para o resto de suas vidas com a perda de alguém tão importante para elas, e junto disso, analisar a visibilidade dada a elas pela mídia jornalística e meios de comunicação.
O problema estabelecido para esta pesquisa foi: Como um vídeo documentário pode contribuir para retratar as consequências enfrentadas pelas mães que têm seus filhos assassinados por policiais além de evidenciar a forte presença do racismo na sociedade atual?
Como consequência, o objetivo geral deste trabalho está relacionado a demonstração, por meio de um vídeo documentário, dos sentimentos das mulheres que perderam os filhos assassinados por policiais, os quais agiram desta forma por racismo e preconceito. Visando dar voz e visibilidade para essas mulheres que tanto sofrem e são deixadas de lado pelo estado, além de compartilhar informações que possam contribuir para que as pessoas entendam que o racismo ainda está presente em nossa sociedade e precisa da contribuição de todos para que seja extinto. Como objetivos específicos, apresentar as consequências trazidas às mães pelo fato de os policiais assassinarem os filhos das mesmas, reportar e identificar a falta de cobertura midiática sobre as consequências enfrentadas e revelar a forte presença de discriminação entre classes sociais e raças através de pesquisas e entrevistas.
Os capítulos dois e três formam o referencial teórico. São constituídos de fundamentos essenciais para esta pesquisa, onde os principais autores citados são os que escreveram sobre a escravidão e a forte presença do racismo, como Santos, Lara e André, além de autores que abordam a história da polícia brasileira, como Crespo e Bretas. Outra fonte de dados foram os estudos nacionais como o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Já o capítulo quatro contém a metodologia utilizada para realizar este trabalho e os modelos de pesquisas utilizados, que foram: pesquisa qualitativa
através das entrevistas e obtenção de informação subjetiva e exploratória, onde contemplou o estudo de caso e pesquisas bibliográficas.
Este trabalho está dividido em seis capítulos: iniciando com a apresentação de informações a respeito da história dos negros no Brasil, diferenciação de preconceito, racismo e discriminação, a história da polícia brasileira além de apresentar dados a respeito das mortes ocasionadas por policiais no Brasil. Seguindo está o capítulo que apresenta as definições de videodocumentário, a história desse gênero no Brasil e como se dá o processo de produção do mesmo.
O sexto capítulo apresenta a produção completa do videodocumentário “Sonhos que vão, vozes que ficam”. Concluindo o presente trabalho com as considerações finais desta pesquisa, além da lista de referências e imagens em anexo.
2. A PRESENÇA ENRAIZADA DO RACISMO NA SOCIEDADE CONTEPORÂNEA E NA POLÍCIA
Neste capitulo você irá encontrar retratos da história dos negros no Brasil, relacionando a mesma com a consequência trazida pela escravidão, que é a luta diária dos negros no enfrentamento de situações de racismo, preconceito e discriminação que perduram desde os tempos escravocratas. Será abordado também a história da polícia, para demonstrar que esta é direcionada à proteção da elite e não à proteção do pobre, além do fato de possuírem atitudes racistas, que virão a ser comprovadas por meio de dados e estatísticas presentes neste estudo.
2.1. HISTÓRIA DOS NEGROS NO BRASIL
A história dos negros no Brasil já se inicia com sofrimento. Ainda na época do Brasil-colônia, os portugueses exploravam as terras brasileiras e buscavam uma mão de obra barata para o serviço pesado, isto é, os escravos. Abdias Nascimento, em seu livro “O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado”, afirma:
O ponto de partida nos assinala a chamada “descoberta” do Brasil pelos portugueses, em 1500. A imediata exploração da nova terra se iniciou com o simultâneo aparecimento da raça negra, fertilizando o solo brasileiro com suas lágrimas, seu sangue, seu suor e seu martírio na escravidão. [...] em 1535 o comércio escravo para o Brasil estava regularmente constituído e organizado, e rapidamente aumentaria em proporções enormes. (NASCIMENTO, 2016)
Imagem 1. Negros cangueiros -: Rio de Janeiro (1832-36)
Fonte: Frederico Guilherme Briggs2.
Segundo Maria da Consolação André em seu livro “O Ser Negro” (2008) – tendo como base registros de pesquisadores – para que fosse possível atingir os objetivos comerciais da colonização era necessário uma mão-de-obra que se adequasse ao trabalho nas grandes fazendas de plantação de cana-de-açúcar, e esta, era a escravista.
Assim, conforme os registros desses pesquisadores, a mão-de-obra africana, considerada de baixíssimo custo e de fácil acesso foi trazida ao país para suprir os postos de trabalho exigidos para o empreendimento idealizado pelos donos do poder à época. (ANDRÉ, 2008, p. 34)
2 Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/galerias.html>. Acesso em 22/09/2020.
Marcia Santana em “Escravidão no Brasil” também articula sobre o assunto: “Chegaram ao Nordeste do Brasil em levas crescentes para viabilizar a introdução e a exploração da cana de açúcar e da criação de gado na colônia”. (SANT’ANNA)
Imagem 2. Slave Market, London – 1822
Fonte: Henry Alken.3
3 Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/galerias.html>. Acesso em 22/09/2020.
Imagem 3. Recibo de venda de escravo - Rio de Janeiro - 15/12/1858
Fonte: Francisco Xavier Dias da Fonseca.4
4 Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/galerias.html>. Acesso em 22/09/2020.
Assim que iniciado o comércio negreiro ganhou forças, como citado acima por Abdias Nascimento. O transporte dos escravos era desumano e muitos morriam antes mesmo de chegar ao destino final. Em navios negreiros, (nome dado aos navios cargueiros que carregavam os africanos até a América)5,
os escravos eram trazidos acorrentados nos porões e em condições medíocres, como retrata Johann Moritz Rugendas, pintor alemão, em sua obra “Negros no
Fundo do Porão”, publicada no livro “Viagem Pitoresca Através do Brasil”, de
1835. André (2008) descreve a situação enfrentada pelos escravos:
Homens, mulheres e crianças de várias idades eram amontoados nos porões dos navios negreiros, sem mínimas condições de sobrevivência. Viajavam dois, três meses, tendo no final uma baixa por morte de alguns e invalidez de tantos outros, por doenças graves ou outros motivos genéricos. (ANDRÉ, 2008, p. 34)
Imagem 4. Pintura: 'Negros no Fundo do Porão' – 1830
Fonte: Johann Moritz Rugendas, Voyage Pittoresque dans le Brésil.6
5 Definição obtida através do dicionário online de português, disponível em: https://www.dicio.com.br/navio-negreiro/
6 Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/galerias.html>. Acesso em 22/09/2020.
Imagem 5. Registro de entrada de navios negreiros em um porto.7
Fonte: Site Tráfico de escravos no Brasil
7 Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/galerias.html>. Acesso em 22/09/2020.
Imagem 6. Entrada de navios negreiros em um porto – 18138
Fonte: Site Tráfico de escravos no Brasil
8 Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/galerias.html>. Acesso em 22/09/2020.
Segundo Rainer Gonçalves Sousa, mestre em história, no texto “Os negros no Brasil Colonial”, publicado no site Mundo Educação, as justificativas para a escravidão africana foram além da demanda econômica. Ele explica que a religião cristã, à época, apontou a escravidão como um “castigo” para aproximar os negros do cristianismo. André (2008) também defende esta tese:
De acordo com registros de viajantes à África negra, essa população foi considerada impura. Essa ideia era reforçada pela igreja, que portadora da autoridade da obra divina, considerava o negro como herdeiro de Cam. (ANDRÉ, 2008, p. 35).
André (2008) para reforçar a afirmação cita ainda Santos (2003): “Sua terra natal ‘era considerada como a terra do pecado e de imoralidade geradora de homens corrompidos’ e ‘a cor que os distinguia dos brancos era estranha e pedia explicação’”. (SANTOS, 2003, p. 55).
No mesmo contexto, Silvia Hunold Lara descreve em seu livro, “Campos da Violência”, que a escravidão era defendida e justificada “enquanto proselitismo, movimento de conversão e catequese. Diríamos melhor, porém, que assim se justificava a escravização, não a escravidão” (LARA, 1988, p.42).
Imagem 7. Escrava negra sentada com frutas e escravo homem segurando carro de mão - Rio de Janeiro, entre 1864 e 1866
Fonte: Christiano Junior.9
Os senhores de engenho, donos dos escravos, tinham o poder de fazer o que quisessem com os mesmos. Evandro Raimundo Souza, em “O vale dos esquecidos: 388 anos de escravidão, a morte não vem só do tronco”, afirma: “388 anos de escravidão. Durante todo esse período o ser humano, todo ser humano, inclusive a pior espécie dele, era protegido por lei para ser o dono e fazer o que quisesse com a vida dos negros em suas mãos.” (SOUZA, 2015).
9 Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/galerias.html>. Acesso em 22/09/2020.
Imagem 8. Decreto isentando de direitos os escravos transportados de Angola para o Pará - s.n: Lisboa, Portugal, 1798
Fonte: Site Tráfico de escravos no Brasil10
10 Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/galerias.html>. Acesso em 22/09/2020.
Imagem 9. Crioulo fugido: desde o dia 18 de outubro de 1854, de nome Fortunato: RS 50U000 de Alviçaras
Fonte: Universal de Laemmert: Rio de Janeiro, 185411
11 Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/galerias.html>. Acesso em 22/09/2020.
Uma das consequências dessa posse era o uso da tortura como forma de castigo aos negros escravos. Essa violência deixou cicatrizes na história brasileira. Vilson Pereira dos Santos em seu artigo, “Técnicas da tortura: punições e castigos de escravos no Brasil escravista”, relata:
A escravidão negra no Brasil foi um dos episódios mais marcantes do país, uma vez que marcou a história pela forma como foram tratados homens e mulheres negros escravizados que viveram entre o trabalho forçado, a resistência e os castigos físicos a que eram submetidos. (SANTOS, 2013)
Imagem 10. Punishments (Castigo) - Rio de Janeiro – 1846
Fonte: Site Tráfico de escravos no Brasil12
12 Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/galerias.html>. Acesso em 22/09/2020.
Ainda segundo a fonte, “Acredita-se que a prática da violência foi imposta com o intuito de submeter e controlar as ações de negação dos cativos frente à sociedade que os oprimia e os dominava” (SANTOS, 2013).
Santos (2013) sustenta o fato de que esse poder detido sobre o escravo tinha como objetivo potencializar a produção econômica e evitar possíveis respostas negativas ao sistema dominante. Lara (1988) retrata como era, nos trinta anos que antecedem a obra a abordagem dos estudos relacionados ao tema:
Nos últimos 30 anos, a maior parte dos estudos que participam desse debate tem empreendido uma revisão sistemática das teses da benevolência e suavidade da escravidão, enfatizando não só que a realidade da escravidão era dura, bárbara e cruel, mas também que a própria violência era inerente ao sistema escravista, constituindo uma de suas principais formas de controle social e manutenção. (LARA, 1988, p.20)
Lara (1988) afirma ainda que na visão de textos coloniais da época, escritos para ensinar os senhores a desempenhar suas funções para obter “sucesso”, os escravos necessitavam de castigo para gerar resultados:
Alimentado, vestido, doutrinado, o escravo existia para trabalhar, para produzir. Mas isto não era uma decorrência natural. Era preciso incitá-lo ao trabalho: era preciso castigá-incitá-lo. Castigar era submeter, dominar; castigar era domar a rebeldia, manter o escravo na sua condição de escravo. (LARA, 1988, p. 74)
Segundo Santos (2013) amparados por lei e permitidos pela Igreja Católica, os castigos corpóreos eram habituais e executados em estágios segundo um regimento de 1633 citado por Lara (1988):
[...] depois de bem açoitado, o senhor mandará picar o escravo com navalha ou faca que corte bem e dar-lhe com sal, sumo de limão e urina e o meterá alguns dias na corrente, e sendo fêmea, será açoitada à guisa de baioneta dentro de casa com o mesmo açoite. (LARA, 1988, p. 74-75).
Santos afirma ainda, com base no autor do livro “Crime e escravidão: trabalho, luta e resistência nas lavouras paulistas (1830-1888)” (Machado. 1987), que também existia violência exagerada, e essa se dava, na maior parte das vezes, como forma de mostrar aos demais escravos um exemplo e, em geral, cabia aos cativos mais velhos e de pouco valor econômico sofrerem com as punições.
Existiam também leis que determinavam limites para as “correções” expressadas em forma de violência, um exemplo dado por Lara (1988) é a que estabelecia um número máximo de chicotadas permitidas de uma só vez em um escravo, mas estas, conforme Santos (2013), não eram exercidas, pois, muitas vezes, eram desconhecidas. Portanto:
[...] o castigo e os maus tratos resultantes do capricho e da crueldade do senhor só encontravam limites no medo destes perderem os seus escravos pela morte, pela fuga ou na perda de respeito à opinião pública. (SANTOS, 2013).
Os mecanismos de tortura eram os mais diversos, Santos (2013) apresenta alguns deles:
Várias foram as técnicas e instrumentos de torturas criadas para castigarem os escravos, que se traduziam não em excepcionalidades, mas direitos e práticas costumeiras e muito frequentes e habituais. O chicote, o tronco, a máscara de ferro, o pelourinho eram recursos utilizados pelos senhores de escravos para manterem a disciplina e obediência de seus cativos. (SANTOS, 2013).
Imagem 11. L'exécution de la punition du f – Paris 1835
Fonte: Jean Baptiste Debret.13
De acordo com Lara (1988, p. 74) diversos instrumentos utilizados para castigar escravos, principalmente os de ferro, são facilmente encontrados nos patrimônios de vários museus brasileiros.
13 Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/galerias.html>. Acesso em 22/09/2020.
Imagem 12. Instrumentos de tortura - S.l, s.d
Fonte: Site Tráfico de escravos no Brasil14
Os homens não foram os únicos a enfrentarem os castigos. As mulheres negras e escravas sofriam com o abuso sexual dos senhores, que muitas vezes também as usavam como forma de renda. Nascimento (2016) afirma: “O costume de manter prostitutas negro-africanas como meio de renda, comum entre os escravocratas, revela que além de licenciosos, alguns se tornavam também proxenetas”. O autor cita ainda um trecho do Manifesto das Mulheres Negras que foi apresentado ao Congresso das Mulheres Brasileiras em 1975 no Rio de Janeiro.
14 Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/galerias.html>. Acesso em 22/09/2020.
As mulheres negras brasileiras receberam uma herança cruel: ser o objeto de prazer dos colonizadores. O fruto deste covarde cruzamento de sangue é o que agora é aclamado e proclamado como “o único produto nacional que merece ser exportado: a mulata brasileira”. Mas se a qualidade do “produto” é dita ser alto, o tratamento que ela recebe é extremamente degradante, sujo e desrespeitoso. (NASCIMENTO, 2016).
Segundo Nascimento (2016) a ideia de que a construção do Brasil se deu sem a representação de qualquer tipo de preconceito é oposta a essa realidade vivenciada pelos escravos e escravas e:
Liquida certos argumentos considerando que aquela ausência de preconceito teria permitido ao colonizador engajar-se numa saudável interação sexual com a mulher negra: não só brasileiros, como latino-americanos. (NASCIMENTO, 2016).
De acordo com o autor, essa violência deixou cicatrizes que perduram até os dias atuais:
O Brasil herdou de Portugal a estrutura patriarcal de família e o preço dessa herança foi pago pela mulher negra, não só durante a escravidão. Ainda nos dias de hoje, a mulher negra, por causa da sua condição de pobreza, ausência de status social, e total desamparo, continua a vítima fácil, vulnerável a qualquer agressão sexual do branco. (NASCIMENTO, 2016).
Segundo Márcia Sant’anna em seu livro “Escravidão no Brasil”, a escravidão no decorrer de mais de 388 anos fez com que diversos grupos étnicos, muitos destes nativos da costa ocidental da África, fossem trazidos para o Brasil. “Os primeiros escravos vieram do Senegal e de Serra Leoa – que formavam a região então chamada da Guiné Portuguesa – diretamente para os canaviais de Pernambuco e Bahia”, afirma Sant’anna.
A quantidade de escravos no Brasil superou a de qualquer outro país no continente americano, contabilizando mais de um terço de todo o comércio negreiro, mais de quatro milhões de escravos foram trazidos entre os
séculos XVI e meados do XIX, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE.15
O resultado não poderia ser outro além da forte influência da cultura africana na sociedade brasileira. Ainda segundo o texto Brasil: 500 anos de povoamento:
Os escravos africanos e seus descendentes crioulos e mestiços influenciaram em profundidade a formação cultural do País, desde a época em que este era América portuguesa. Raros serão os aspectos de nossa cultura que não tenham sido moldados com a ajuda da mão e da inteligência africanas e afro-brasileiras. Na religião, música, dança, alimentação, língua, temos a influência negra, apesar da repressão que sofreram as suas manifestações culturais mais cotidianas. (IBGE, 2000)
15 Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro, 2000. Disponível em: https://brasil500anos.ibge.gov.br/. Acesso em: 25 abr. 2020.
Imagem 13. - Carta de Alforria - Rio de Janeiro – 1855
Fonte: José Martiniano de Alencar16
Em 1865, “O Brasil era, também, uma flagrante anomalia econômica e social – uma economia essencialmente agrária que continuava a tolerar escravidão, apesar do fim do tráfico, em 1850.” (SKIDMORE, 1974). Segundo o autor, Brasil, Porto Rico e Cuba eram os únicos países que ainda admitiam a
16 Disponível em: <http://bndigital.bn.br/projetos/escravos/galerias.html>. Acesso em 22/09/2020.
escravidão, já que os Estados Unidos a aboliram em 1865. Nesse contexto o movimento favorável à abolição emergiu e ganhou força.
A calma foi quebrada em 1866, uma vez mais por pressão do exterior. Um grupo de abolicionistas franceses apelou para o imperador, pedindo-lhe que exercesse sua autoridade no sentido de acabar com a escravidão no Brasil. Em sua reposta, D. Pedro II fez a primeira promessa formal de abolição ao observar que a emancipação era apenas uma questão de tempo. (SKIDMORE, 1974, p. 30)
Ainda segundo Skidmore (1974) ao final da Guerra do Paraguai o governo encarou o obstáculo da abolição, mas, na época, ainda não haviam movimentos abolicionistas, sem, portanto, grupos para pressionar resultados sobre a questão. De acordo com o autor, os reformadores liberais em suas declarações mostravam apoio à abolição, de forma gradual.
O primeiro passo legal no sentido da abolição, anterior a formação do movimento abolicionista, foi dado pelo Ministério do Visconde do Rio Branco (1971-75). Em 1871, o Visconde conduziu até a aprovação a Lei do Ventre Livre que declara livre todas as crianças daí por diante nascidas de mães escravas. (SKIDMORE, 1974, p. 32).
No entanto, o autor afirma que a lei não foi tão eficaz, já que ainda existia a possibilidade de o senhor não aceitar o pagamento de indenização do Governo e continuar tendo posse da criança nascida escrava até os 21 anos. Oito anos se passaram até que a abolição voltasse a ser debatida pelo Parlamento, conforme relata Skidmore.
Em 1884, Ceará e Amazonas conseguiram libertar todos os escravos. Em 1885 foi aprovada a lei que decretava livre os escravos com idade entre sessenta e sessenta e cinco anos, no entanto, os mesmos ainda eram obrigados a prestar mais três anos de serviço aos ex-senhores. Já em 1887, a escravatura estava sendo considerada, em todos os aspectos, em falência social, onde a fuga de escravos era constante. O exército já se negava caçá-los e os senhores tinham suas reclamações desprezadas pelos juízes. (SKIDMORE, 1974, p.32).
Apenas em 13 de maio de 1888 a abolição se tornou realidade no Brasil, quando os conservadores perceberam que esse processo era inevitável
e existia ainda a possibilidade de os mesmos saírem beneficiados com a situação.
No curso dos acontecimentos, em sequência às campanhas redentoras, veio a terceira e definitiva lei emancipadora, a de 13 de maio de 1888, obra também de um gabinete conservador, chefiado por fazendeiros (principalmente de São Paulo), que tinham lutado anteriormente para preservar a escravidão. Convenceram-se, afinal, de que a substituição do escravo pela mão de obra assalariada era inevitável e poderia ser até benéfica: os trabalhadores livres seriam menos caros e mais eficientes que os escravos. (SKIDMORE, 1974, p. 32).
A Lei Áurea foi então assinada pela princesa Isabel, em nome do pai, Don Pedro II, que estava enfermo. E isso apenas resultou em uma nova etapa de exclusão dos negros africanos.
Atirando os africanos e seus descendentes para fora da sociedade, a abolição exonerou de responsabilidades os senhores, o Estado, e a igreja. Tudo cessou, extinguiu-se todo o humanismo, qualquer gesto de solidariedade ou de justiça social: o africano e seus descendentes que sobrevivessem como pudessem. (NASCIMENTO, 2016)
Mesmo com a abolição, a hierarquia onde a classificação social se dava dependo da cor do indivíduo continuou e deixou os negros à margem da sociedade, na periferia. Junto com a economia colonial desenvolvida com o sistema escravista e implantada nos escravos vinha essa hierarquia. Os grupos sociais mais baixos da população, incluindo brancos pobres e as pessoas de cor, já haviam se adaptado ao sistema de submissão aos brancos ricos. (SKIDMORE, 1974, p.55).
Não apenas eles se autocaracterizavam, como também eram caracterizados por quem os visse. Os negros, aqui no Brasil, ficaram marcados por serem escravos e de baixa renda, por isso seus traços definiam a qual categoria eles pertenciam.
A cor da pele, a textura do cabelo, e outros sinais físicos visíveis determinavam a categoria racial em que a pessoa era posta por aqueles que ficava conhecendo. A reação do observador poderia ser também influenciada pela aparente riqueza ou provável status social
da pessoa julgada então, pelas suas roupas e pelos seus amigos. (SKIDMORE, 1974, p.55).
Os brancos pressionaram e fizeram com que os negros almejassem “pertencer” a sociedade e para que isso acontecesse precisavam negar a si mesmos para serem aceitos dando origem à ideologia de branqueamento social e ao anseio em ser “mestiço” ou “moreno” ao invés de negro (menos negro e mais branco). (CARONE; BENTO, 2002).
2.2. O PRECONCEITO, A DISCRIMINAÇÃO E O RACISMO
Antes de iniciar o importante debate sobre o tema, é necessário salientar a diferença de significados dessas três palavras. Com base no dicionário Aurélio online as definições são, respectivamente:
Preconceito: “Juízo de valor preconcebido sobre algo ou alguém; prejulgamento. Opinião ou pensamento acerca de algo ou de alguém, construída a partir de análises sem fundamento, conhecimento nem reflexão”.
Discriminação: “Ação de discriminar, de segregar alguém, tratando essa pessoa de maneira diferente e parcial, por motivos de diferenças sexuais, raciais, religiosas; ato de tratar de forma injusta: discriminação racial. Ação de afastar, segregar ou apartar”.
Racismo: “Preconceito e discriminação direcionados a quem possui uma raça ou etnia diferente, geralmente se refere à segregação racial. Comportamento hostil dirigido às pessoas ou aos grupos sociais que pertencem a outras raças e/ou etnias”.
Santos reforça ainda a definição:
Adota-se como conceito, portanto, que o preconceito é a formulação de ideia ou ideias (que por vezes alicerçam atitudes concretas), calcadas em concepções prévias que não foram objeto de uma reflexão devida ou que foram elaboradas a partir de ideias deturpadas. É, em suma, um “pré-conceito” algo intelectualmente não maturado ou objeto de falsa racionalização. (SANTOS, 2010)
De acordo com essas definições, o preconceito é uma opinião prévia sobre alguém sem o uso da razão, imposto pela intolerância e pode ser direcionado a todos. A discriminação é o preconceito transformado em atos, seja por meio da fala, gestos ou violência. Já o racismo é o preconceito e a discriminação feitos ambos contra raças e etnias.
Segundo Santos (2010) desde os primórdios da existência da humanidade o preconceito se faz presente com a existência de ódio de indivíduos para com indivíduos e de grupos para com outros grupos distintos e diferentes.
O preconceito pode ser evidenciado de diversas maneiras, Santos (2010) apresenta quais:
[...] pela exteriorização das ideias preconceituosas oralmente expressas (faladas), ou por representações gestuais (como passar o dedo indicador sobre a pele do braço, por exemplo), ou, obviamente, por escrito. Também se exterioriza o preconceito por atos de cunho discriminatório, o que faz da discriminação, nestes casos, espécie do gênero preconceito, que a antecede. (SANTOS, 2010)
No entanto, os autores Marcus Eugênio Oliveira LimaI e Jorge ValaII, em seu artigo “As novas formas de expressão do preconceito e do racismo”, consideram o racismo algo com raízes mais profundas, sendo definido por eles como:
O racismo, por sua vez, diferentemente do preconceito, é muito mais do que uma atitude. O racismo constitui-se num processo de hierarquização, exclusão e discriminação contra um indivíduo ou toda uma categoria social que é definida como diferente com base em alguma marca física externa (real ou imaginada), a qual é ressignificada em termos de uma marca cultural interna que define padrões de comportamento.
Como foi possível perceber no capítulo anterior, o racismo no Brasil está diretamente relacionado com a história dos negros no país. Paula e Santos (2015) descrevem: “Pode-se também perceber que o racismo é fruto de um
processo de abolição da escravidão sem planejamento prévio, transformando os negros em cidadãos marginalizados na sociedade”.
Elas ainda afirmam que no pós-abolicionismo são frequentes os pensamentos que inferiorizam a raça negra, subentendendo que:
[...] o negro ficaria sem lugar, sem destino, excluído do mercado de trabalho, analfabeto, ou realizando serviços braçais que foi o que, por um longo período, a única função que exercia, oferecendo sua mão de obra sem inserção social, parecendo despreparado para o mundo “civilizado” e, carregando sobre si, um complexo de inferioridade. (PAULA, J. N.; SANTOS, M. P, 2015)
De acordo com Chiavenato (1987), citado por Santos em seu livro “Crimes de preconceito e de discriminação”, “Não houve um genocídio maior na história da humanidade, nem em número nem em brutalidade, do que o cometido contra os negros africanos — incluídos aí os fornos crematórios do nazismo”.
A consequência das discriminações na escravidão foi o aumento do sentimento do branco como um ser superior às outras raças no centro econômico. Paula e Santos em “A cor da ternura": O desafio de ser professor negro na educação atual do sudeste goiano” (2015), apresentam um argumento que condiz com o pensamento de Santos: “Lida-se com uma cultura na qual o branco representa uma perspectiva dominante da cultura Europeia, é o sujeito que se impõe sobre os outros”.
Além das autoras, o IBGE, por meio do texto “Brasil: 500 anos de povoamento. A herança cultural negra e racismo”17 afirma:
Na sociedade brasileira do século XIX, havia um ambiente favorável ao preconceito racial, dificultando enormemente a integração do negro. De fato, no Brasil republicano, predominava o ideal de uma sociedade civilizada, que tinha como modelo a cultura europeia, onde não havia a participação senão da raça branca. (IBGE)
17 Disponível em: <https://brasil500anos.ibge.gov.br/territorio-brasileiro-e-povoamento/negros/a-heranca-cultural-negra-e-racismo.html> Acesso em: 22 jul. 2020.
Este fato favoreceu o crescimento do sentimento contrário aos negros e seus descendentes, sejam eles mestiços, pardos ou crioulos, e este sentimento trazia consequências à cultura negra impedindo atividades culturais. Outras formas de manifestações dos sentimentos negativos eram: “restrição de acesso a certas profissões, as ‘profissões de branco’ [...], também pela restrição de acesso a logradouros públicos, à moradia em áreas de brancos, à participação política, e muitas outras formas de rejeição ao negro”. (IBGE)
As autoras Paula e Santos (2015) afirmam ainda que os indivíduos têm, até os dias atuais, dificuldade de reconhecer o negro como sujeito e de aceitá-lo na sociedade. Além disso, criticam a mídia que, constantemente, não apresenta de forma evidente a realidade que os negros vivenciam diariamente, ocultando as dificuldades enfrentadas por eles na sociedade.
O racismo no Brasil se tornou algo comum e constante, mesmo que muitos tentem fechar os olhos para essa realidade enraizada em nossa sociedade. “É curioso notar que tal sofisticada espécie de racismo é uma perversão tão intrínseca ao Brasil a ponto de se tornar uma qualidade, diríamos, natural, do ‘branco” brasileiro’”. (NASCIMENTO, 2016)
Para aqueles que ainda acreditam que não existe racismo no Brasil, é preciso que tirem a venda dos olhos. A discriminação de negros pelos brancos está presente na atualidade, e não são poucos os que cometem esse ato. Santos (2010) afirma:
Muito se fala em cordialidade racial e democracia racial e de crença no Brasil. Tende-se a negar a existência das discriminações e dos preconceitos, ou minorar suas consequências, atribuindo os atos deles decorrentes a obra de pequenos grupos, ou entendendo as ocorrências como casos isolados [...] Falsas, contudo, são tais acepções. (SANTOS, 2010)
Essa crença de que o racismo não existe – ou existe, mas com poucas manifestações – pode ser justificada pelo fato de que essa realidade não acomete aos brancos, sendo estas informações distantes quando não procuradas e analisadas. De acordo com LimaI e ValaII:
Apesar da sua relevância enquanto problema social, o preconceito e o racismo quase sempre foram percebidos como sendo um problema do outro e, portanto, distante de cada um de nós. Seja porque nós, enquanto atores sociais e imbuídos dos valores do igualitarismo e da justiça que compõem a nossa formação democrática, analisamos o racismo na maior parte das vezes como um problema do outro "xenófobo". Seja ainda porque as vítimas de preconceito são quase sempre outros que não nós mesmos. (LIMAL; VALALL, 2004)
Os autores citam Turra & Venturi (1995) com uma pesquisa realizada no Brasil, onde uma amostra representativa da população, quase 90% dos entrevistados, afirmam não se considerarem racistas, porém a mesma porcentagem de brasileiros admite a presença do racismo no Brasil.
A existência do racismo no Brasil foi reconhecida pelo estado quando, por meios formais, homologou a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, publicada oficialmente pelo Decreto n. 65.810, de 08 de dezembro de 1969.
Mesmo que tenha sido reconhecida, a presença do racismo ainda faz com que os negros não possam assumir seu papel diante da sociedade. As diferenças entre funções e escolaridade são significativas quando comparadas aos brancos. Assim como na escravidão, atualmente os negros ocupam profissões de baixíssima qualificação.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE 2018)18, os negros e pardos representam 55,8% da população no Brasil,
porém, as estatísticas apresentam que, em média, os negros são os mais afetados com o desemprego, possuem o menor salário e são minoria no ensino superior. Em muitas das profissões de alta qualificação, como engenheiro mecânico, dentista, arquiteto, psicólogo, etc., o negro representa uma porcentagem inferior a 10%. Enquanto a média do rendimento real da população branca no Brasil é de R$ 2.796,00, a dos negros e pardos é de R$ 1.608,00. Ainda segundo o IBGE, os negros representam 75,2% dos indivíduos que estão na categoria de 10% da população brasileira com menores rendimentos. Enquanto na categoria dos 10% com maiores rendimentos, os
18 Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/25844-desigualdades-sociais-por-cor-ou-raca.html?=&t=resultados. Acesso em: 25 abr. 2020.
brancos representam 70,6%. E pra quem acredita que o número vem diminuindo ao longo dos anos, o IBGE mostra o contrário, já que em 2012 o percentual era de 75%. Além de o fato de que a presença dos negros na política, mais especificamente na Câmara dos Deputados de todo o Brasil, representa apenas 25% do número total.19
Além dos dados estatísticos, diversos autores também confirmam o fato. Mattos (2007), citado pelas autoras Paula e Santos, argumenta:
Após a abolição da escravidão, os negros africanos e seus descendentes tiveram que enfrentar a dificuldade de ingressar no mercado de trabalho, pois, nesta mesma época, o governo republicano promoveu uma campanha de branqueamento, que visava eliminar a herança biológica africana do país. [...] A partir de então o negro se vê numa luta constante por espaço e aceitação na sociedade. (PAULA; SANTOS, 2015)
Nascimento (2016) aponta ainda o fato de que os candidatos negros, mesmo possuindo habilitação para trabalhar em escritórios, comércio, hospitais entre outros estabelecimentos que requisitam “boa aparência”, não são aceitos para o trabalho. “É o preconceito de cor que se encontra em primeiro lugar como o fator do desemprego, em seguida vêm a idade e a nacionalidade”. (NASCIMENTO, 2016).
E ainda, Santos descreve:
A verificação de condições de moradia, taxa de mortalidade infantil, taxas de analfabetismo e desemprego, o percentual de negros nas universidades e, por fim, até́ mesmo o número de vítimas de homicídios sempre apontam o negro e o pardo em situação mais desfavorável que o branco, proporcionalmente ao número de habitantes. (SANTOS, 2010)
Quando se trata de educação, o negro não recebeu nenhuma atenção no processo educacional. Paula e Santos (2015) para tratar do assunto citam em seu artigo o autor Ribeiro (2012): “A discriminação educacional juntamente com
19Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/25844-desigualdades-sociais-por-cor-ou-raca.html?=&t=resultados. Acesso em: 19 abr. 2020.
a discriminação social exterior produziram uma exclusão dos afrodescendentes do sistema escolar”. E até hoje vemos o reflexo deste cenário, como é possível concluir de acordo com os dados do IBGE.
A ponte que fará com que as realidades dos brancos e negros no Brasil se assemelhem é a elaboração de políticas públicas que façam com que o reconhecimento do negro na sociedade seja, de fato, efetivo. Algumas já elaboradas, como a implantação de cotas para negros no ensino superior.
Já o direito ao reconhecimento requer medidas de enfrentamento da injustiça cultural, dos preconceitos e dos padrões discriminatórios, por meio da transformação cultural e da adoção de uma política de reconhecimento. É à luz dessa política de reconhecimento que se pretende avançar na reavaliação positiva de identidades discriminadas, negadas e desrespeitadas; na desconstrução de estereótipos e preconceitos e na valorização da diversidade. (SANTOS, 2010)
Luiz Fernando Martins da Silva, em “Políticas de ação afirmativas para negros no Brasil: Considerações sobre a compatibilidade com o ordenamento jurídico nacional e internacional”, afirma que: “No campo jurídico a questão está distante de pacificação e de consenso, haja vista, especialmente, a existência de ações judiciais que contestam a constitucionalidade dessas medidas afirmativas”. (SILVA, s.d.)
Ele aponta ainda a carência em escolas de direito de teses, artigos ou dissertações sobre o tema como um dos motivos para o “pouco desenvolvimento direito - relações raciais”. Silva cita em seu artigo o argumento da jurista Dora de Lima Bertúlio, que pontifica:
[...] a carência de estudos e trabalhos sobre racismo, discriminação racial e direitos raciais da população negra permite perpetuar: a) os estereótipos racistas de incompetência do povo negro para se autogerir e desenvolver adequadamente nas sociedades contemporâneas (socialistas ou capitalistas); e b) o descaso do setor jurídico, na sociedade brasileira, para implementar direitos específicos que diminuam impacto do racismo na qualidade de vida de quase 50% da população nacional. (SILVA, s.d.)
As poucas políticas públicas no Brasil voltadas para a igualdade racial estão longe de conseguirem alcançar seu objetivo. Para que isso fosse possível, seria necessário atingir a raiz do problema, que, segundo as autoras Paula e Santos (2015) “é pensar os negros brasileiros como sujeitos portadores de uma cultura, que não raro, coincide com a dos brancos, mas que estão na mesma condição de homens e mulheres inferiores”. (PAULA; SANTOS, 2015)
Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling no pós-escrito de “Brasil: Uma biografia”, asseguram que a república no Brasil é falha quando se trata da garantia de direitos principalmente em relação aos direitos civis, pois possuem manifestações de racismo.
Há ainda aqueles que acreditam que as políticas públicas são para favorecer os negros e criar um abismo maior entre as raças, Cristina Charão em “O longo combate às desigualdades raciais”20 publicado no site do Ipea, Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada, cita a fala de Tatiana Dias Silva, coordenadora de Igualdade Racial do Ipea, especialista em análises da questão racial, em que ela afirma: “Temores de que as ações afirmativas criariam um ‘racismo ao contrário’ ou ‘reduziriam o nível das universidades’ desapareceram. Os dados disponíveis desmentem tudo isso”.
E com isso, consequentemente, a dificuldade para extinguir ou apenas diminuir a forte presença do racismo e do preconceito na sociedade aumenta.
Lutas entre católicos e protestantes no Reino Unido, entre judeus e muçulmanos no Oriente Médio, ataques entre etnias nos Bálcãs, dentre inúmeros conflitos, fazem com que se perceba a complexidade da questão do preconceito e da discriminação e a dificuldade de eliminá-los ou, ao menos, de diminuí-eliminá-los entre os homens. (SANTOS, 2010)
O sentimento de um negro discriminado apenas pode ser descrito por ele mesmo, pois ninguém além dele saberá o peso carregado por ser um negro no Brasil, e somente ele entende como é a dor de estar em uma sociedade que
20 Disponível em:
<https://www.ipea.gov.br/igualdaderacial/index.php?option=com_content&view=article&id=711> Acesso em: 19 abr. 2020.
não o aceita, que pratica o racismo e o priva de viver em liberdade apenas por ser alguém de cor. (PAULA; SANTOS, 2015).
2.3. HISTÓRIA DA POLÍCIA BRASILEIRA
Com a vinda da família real para o Brasil, mais especificamente ao Rio de Janeiro, em 1808, a necessidade por proteção à elite cresceu, e com isso, a Guarda Real Brasileira, hoje conhecida como Polícia Militar, começou a dar seus primeiros passos. Instituições que já funcionavam em Lisboa (Portugal) foram tomadas como exemplo na criação da polícia brasileira. Marcos Luiz Bretas, em “A Polícia Carioca no Império”, confirma tais informações:
A formação do que viria a ser conhecido como polícia militar tem origem na vinda da família real para o Brasil em 1808. Adaptando instituições já experimentadas em Lisboa, o príncipe regente cria no Rio de Janeiro uma Intendência Geral de Polícia [..]. (BRETAS, 1998)
Criada, segundo Thomas Holloway (1981), citado por Daniele dos Reis Crespo (2005), com “ampla autoridade para manter a ordem e perseguir criminosos”, a Guarda Real atuava com violência e repressão fazendo com que as instituições policiais posteriores herdassem dela traços violentos.
Bretas (1998) comenta que a origem da polícia brasileira teve como base a tradição patrimonial portuguesa, em que os homens com maior poder aquisitivo ocupavam os cargos superiores e tinham o poder e privilégio de comandar um corpo policial.
De acordo com Holloway (1981), as principais atribuições da Guarda Real supriam uma rede de serviços que deveriam ser exercidos por diferentes funcionários, como a fiscalização e autorização das obras públicas, o abastecimento da cidade, entre outros, como o auxílio na extinção de incêndios e no exercer da censura prévia da imprensa.
O comandante da Guarda Real, Miguel Nunes Vidigal, é conhecido até hoje por ter sua atuação violenta lembrada no folclore como “ceias de
camarão” (CRESPO, 2005). Segundo o autor, o principal alvo do comandante e da guarda real eram os pobres e escravos, onde qualquer banalidade tornava-se motivo para uma repressão violenta.
Se realmente existia uma alta probabilidade da “ordem pública” ser perturbada por esse tipo de confraternização onde se dançava e bebia, existia também uma profunda incompreensão do diferente e de abuso de poder, sendo a polícia um instrumento para fazer cumprir as regras que uma determinada classe decidia serem as que deviam ser seguidas. (CRESPO, 2005).
Concordando com a afirmação acima, Marcos Luiz Bretas e André Rosenberg, em “A história da polícia no Brasil: balanço e perspectivas” citam:
Nesse momento começa a se afirmar uma vertente historiográfica que faz da repressão uma peça fundamental na compreensão do Estado brasileiro, e com isso coloca a polícia entre os agentes mais importantes. Controle da pobreza urbana — nesse momento o papel da polícia se afasta da tradição de Vítor Nunes, quase sempre deixando de lado a questão do mundo rural —, repressão a tentativas de organização e manifestação, mas também repressão a práticas culturais, festas, cultos, diversões, representando a polícia como agente produtor de uma modernidade pela força. (BRETAS; ROSENBERG, 2013)
Crespo (2005) complementa afirmando que a relação que ficou estabelecida entre a Guarda e a população nos primeiros anos do exercer deste serviço policial foi de um medo profundo, que era complementado por um enorme descontentamento e falta de justiça.
Segundo Crespo, em 1831 a Guarda Real foi abolida e sucedida pela Guarda Municipal, que teve uma breve duração, já que era apenas um recurso temporário para aguardar a organização completa da Guarda Nacional que, no mesmo ano, substituiu todas as outras forças existentes. “Ainda na década de 30 surge a necessidade da criação de um mecanismo para a aplicação do Código Criminal, nascendo assim a Secretaria de Polícia, que daria origem a Polícia Civil que conhecemos”, acrescenta a autora.
Ainda de acordo com Crespo, a desconfiança na Guarda Nacional fez com que surgisse o Corpo de Guardas Municipais permanentes nesse mesmo
ano, que em 1866 alterou o nome da instituição para Corpo Militar de Polícia da Corte.
A polícia passou a ser uma esfera que percorreria o cotidiano da população, onde poderia exercer e cumprir com suas obrigações fazendo o uso legalmente da violência e da força, afirma Crespo.
Segundo a autora: “Existe na verdade um caráter de parcialidade muito forte no esforço para o cumprimento das leis e até mesmo no tratamento dispensado para determinados membros da sociedade” (CRESPO, 2005). Ela complementa ainda citando o autor Marcos Luiz Bretas, onde argumenta que “As classes abastadas deviam ser protegidas enquanto as classes pobres deviam ser policiadas, logo o uso da força só seria utilizado para o tratamento com a segunda” (CRESPO, 2005).
Mesmo com oitenta anos passados após a criação da polícia, no final do império, ela continuou a utilizar da força e violência para com os desfavorecidos. “A hostilidade e o medo agora cediam lugar também para a violência recíproca entre público e polícia através de revoltas como a do Vintém, pela prática de capoeiragem, pelo desrespeito tácito ao toque de recolher [...] a resistência começava a se avultar” (CRESPO, 2005).
De acordo com a autora, alguns anos após, por volta de 1889, o Corpo de Polícia da Corte alterou seu nome para Brigada Policial da Capital Federal. Este permaneceu até 1905, onde mais uma vez foi substituído pelo nome Força Policial do Distrito Federal.
Em 1889, a proclamação da República Brasileira era vista como um degrau para o Brasil onde uma grande transformação era necessária, e tinha como objetivo fazer com que o país entrasse para o clube seleto de grandes nações. Uma das medidas adotadas neste novo regime, para que isso fosse possível, foi a transfiguração da capital (Rio de Janeiro) para ser o cartão postal do Brasil, tirando sua aparência de cidade atrasada. Com isso, as reformas urbanas na cidade começaram. Crespo apresenta uma citação da Revista Renascença:
Entretanto o Rio de Janeiro é o Brasil. O estrangeiro que aqui desembarca, de passagem num transatlântico, leva de sua rápida visita à nossa desprovida cidade uma triste ideia de todo nosso país. E esse estrangeiro, como milhares de outros que por aqui passam, é uma voz a proclamar nos serões de família e nas rodas de amigos o nosso descrédito.(...) Procurar tornar o Rio de Janeiro, pois uma cidade moderna, confortável, e civilizada, é a necessidade indeclinável e inadiável do nosso problema econômico(...). E quando o Rio de Janeiro deixar de ser a cidade que ainda hoje é, eu lhes direi o que será o Brasil. (CRESPO, 2005)
A autora afirma ainda que essas reformas trouxeram mudanças para a vida da classe baixa e pobre tornando-a mais difícil, além de serem “responsáveis por uma repressão sufocante que visava enquadrar toda aquela plebe na agora “civilizada” cidade do Rio de Janeiro”. (CRESPO, 2005)
O plano reformista teve como um de seus primeiros alvos de ataques a habitação dos populares. A população pobre, em sua maioria, era abrigada nos grandes casarões coloniais, de habitação coletiva. Segundo a autora, nesses locais as condições eram nocivas e insalubres, com falta de saneamento, alimentação precária, etc. fatores que contribuíam para o alastramento e a disseminação de doenças.
A febre amarela, a varíola, a peste bubônica, a tuberculose eram responsáveis por muitos óbitos, que além de amedrontar a população e os estrangeiros, inibia novos investimentos, fazendo propaganda negativa da recém proclamada República. (CRESPO, 2005).
E com isso, a extinção dessas moradias e a expulsão dos pobres era necessária para que a imagem da cidade se tornasse agradável aos olhos dos estrangeiros e o progresso iniciasse. Além disso, esses locais impediam a construção do símbolo da modernidade na cidade, a Avenida Central, de acordo com a autora. Crespo cita mais uma vez a Revista Renascença para confirmar o fato:
Este é o primeiro passo; o mais virá depois. Numa cidade onde as casas não sejam acachapados barracões indecentes e infectos, e as ruas não sejam esburacadas aglomerações de pedras e lajedos, a população deixará de ser esse ajuntamento de maltrapilhos em mangas de camisa e pés descalços, com que nos acotovelamos a cada instante. (CRESPO, 2005)