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1. INTRODUÇÃO

2.6. Processo de Desenvolvimento de Produtos (PDP)

2.6.4. Tipos

Há uma variedade de processos de desenvolvimento de produto disponíveis para as empresas (UNGER e EPPINGER, 2009). Esta seção apresentará e descreverá os dois tipos mais comuns de PDP: em estágios e espiral.

2.6.4.1. PDP em estágios (também conhecido como stage-gate, cachoeira ou sequencial)

Segundo Unger e Eppinger (2009), este tipo de PDP é dominante na indústria americana, sendo utilizado por empresas de manufatura como Ford e Siemens. Assim como mostrado no Modelo Unificado de Desenvolvimento de Produtos, neste tipo de PDP o processo de desenvolvimento é considerado uma sequência de atividades ou passos, a serem completados (OTTO e WOOD, 2001).

A maioria das empresas conta com o desenvolvimento de novos produtos para seu crescimento e lucratividade e Cooper (1990) aponta que o mais forte previsor do valor do investimento é o grau de inovação da organização. Este modelo reconhece a inovação do produto como um processo que pode ser gerenciado e divide o processo de inovação em um conjunto pré-determinado de estágios, os quais são compostos por um grupo de atividades.

Cooper (1990) afirma que o stage-gate é um modelo conceitual e operacional para deslocar um produto novo da fase da ideia para a fase de lançamento ao mercado consumidor. Os estágios (ou stages) são os locais onde o trabalho é realizado e os portões (ou gates) são os pontos de controle periódicos que avaliam se o estágio anterior foi completado com sucesso. As entregas pré-especificadas de cada gate se tornam os objetivos para o próximo horizonte de tempo. Já as saídas de cada gate ajudam a definir o projeto e direcionar seu líder.

O PDP em estágios considera que a linearidade do processo, bem como sua continuação, são determinadas pela avaliação positiva do portão anterior (decisão “matar-ir”). Em cada marco do PDP, os riscos são rigidamente avaliados e monitorados. O progresso para o estágio seguinte é garantido quando perguntas cruciais do projeto são respondidas (questionamentos técnicos, de mercado...). Caso o projeto seja avaliado positivamente, o trabalho prossegue para o estágio seguinte. Do contrário, o projeto é repetido dentro do estágio, até que possa passar pela revisão de forma bem-sucedida. Ou, então, pode-se decidir que o melhor a fazer é interromper o desenvolvimento do produto (OTTO e WOOD, 2001; SKEC, STORGA e MARJANOVIC, 2013). Uma representação deste tipo de PDP pode ser visualizada na Figura 2.4.

Figura 2.4 – Visão geral do Processo de Desenvolvimento de Produtos em estágios (sistema stage-gate) Fonte: Cooper (1990)

Para Cooper (1990), este modelo disciplina o PDP e leva a melhores decisões, maior foco, menos falhas e desenvolvimentos mais rápidos. Os gates certificam que nenhuma atividade crítica está sendo omitida, o que resulta em um processo completo, sem lacunas. Como as avaliações são feitas com base em revisões com uma lista de critérios pré-estabelecidos, isso assegura que todos os projetos estão sendo analisados de forma justa e consistente, evitando que algum projeto seja negligenciado.

Produtos de sucesso estão ligados à qualidade de execução, haja vista que a maioria dos produtos fracassa por falta de avaliação do mercado, defeitos do produto, esforços inadequados de lançamento etc. Portanto, as atividades de pré-desenvolvimento e aquelas orientadas para o mercado são necessárias para aumentar as chances de sucesso do produto, graças à melhor definição do projeto, apontando antecipadamente pontos de mudanças inevitáveis no conceito do produto, à medida que o projeto evolui. Assim sendo, o alcance de especificações precisas de forma antecipada pode ser uma vantagem deste tipo de PDP (COOPER, 1990). Por conseguinte, segundo Unger e Eppinger (2009), o stage-gate é adequado para projetos dominados por requisitos de qualidade, e não requisitos de custo ou prazo. Logo, quando as prioridades são qualidade e anulação de erros, a trajetória mais atraente é aquela direta, com especificações sólidas determinadas tão cedo quanto possível, de modo a evitar alterações subsequentes que possam aumentar a probabilidade de erros.

Em contrapartida, a inflexibilidade é a maior desvantagem: é difícil definir requisitos no começo de um projeto sem que estes possam vir a ser alterados à medida que outros estágios do processo de desenvolvimento vão sendo atravessados. As especificações e suposições podem se provar errôneas quando o produto for submetido a testes de mercado ou prototipagem – o que aumenta os riscos (UNGER e EPPINGER, 2009). Ademais, este modelo condensa o ciclo de desenvolvimento do produto graças ao paralelismo das atividades. Porém, isso significa que as entradas em cada gate são multidisciplinares, tornando o processo mais complexo e mais exigente que um processo em série, por exemplo. Por esta razão, algumas mudanças organizacionais são exigidas: (1) uma abordagem de time de projeto, para organizar os projetos de novos produtos; e (2) envolvimento da gerência sênior como revisores (ou gatekeepers) para aprovar recursos necessários para o projeto, revisar a qualidade das entradas e tomar decisões sobre o futuro do projeto (COOPER, 1990).

Portanto, este tipo de PDP demanda planejamento e funciona bem quando os requisitos do cliente são estáveis e as tecnologias são bem conhecidas, como, por exemplo, projetos de melhorias ou atualizações em produtos existentes. Do contrário, onerosas repetições interfases serão exigidas (SKEC, STORGA e MARJANOVIC, 2013).

2.6.4.2. Modelo Espiral

De acordo com Unger e Eppinger (2009), este tipo de PDP é mais recente e tem sido comumente usado em empresas do setor de software, como a Microsoft, nas quais há grandes incertezas e o tempo de entrada no mercado é uma preocupação dominante. Otto e Wood (2001) mencionam que a proposta do modelo espiral é desenvolver algo para buscar antecipadamente o feedback do usuário – antes que revisões maiores tenham sido feitas e partes do design sejam consolidadas. Logo, este modelo não é tão comum para empresas automotivas, por exemplo. Considere um carro: ele não transportará nenhuma pessoa caso tenha apenas um motor ou um volante, já que desenvolver apenas parte de um hardware, não é desenvolver um veículo completo que funcione.

A principal diferença deste modelo em comparação ao tipo anterior é sua ênfase em flexibilidade, por incorporar iterações compreensíveis e planejadas, que abrangem várias fases do desenvolvimento. A Figura 2.5 representa as espirais que permitem “repetir passos regulares, como desenvolvimento do conceito, design em nível de sistema, design detalhado, e integração e testes” (UNGER e EPPINGER, 2009, p. 386).

Em tempo, é válido apresentar o significado técnico de Unger e Eppinger (2009, p. 389) para iteração: “repetição de uma ação ou processo. Esta definição pode ser interpretada como positiva (como em renovação e aprimoramento) ou negativa (caso de repetições desnecessárias)”. Os autores afirmam que o grau de planejamento de iterações entre as fases de um PDP pode variar em três sentidos: as iterações podem ser não planejadas, antecipadas ou programadas. As iterações não planejadas (caso presente no tipo de PDP em estágios) ocorrem quando erros ou curvas de feedback inesperadamente exigem a volta a um estágio anterior, geralmente na forma de retrabalho. Iterações antecipadas são aquelas que são esperadas e planejadas, porém não têm uma programação específica e podem não ocorrer, eventualmente. Por fim, as iterações programadas são aquelas que são antecipadas e

planejadas, e o número de ciclos pode estar sujeito a restrições de tempo e orçamento, ou pode ser dependente da satisfação do consumidor e da garantia da qualidade.

Figura 2.5 – O Processo de Desenvolvimento de Produtos espiral Fonte: Unger e Eppinger (2009)

O tipo espiral de PDP exige que os gestores do projeto avaliem os riscos antecipadamente, quando os custos ainda são relativamente baixos. Exemplos de riscos neste contexto são: arquitetura e requisitos compreendidos pobremente, problemas de desempenho, mudanças de mercado, e problemas no desenvolvimento de tecnologias específicas. Tal avaliação antecipada torna possível assegurar o desenvolvimento de um produto competitivo, dentro do prazo e do orçamento (UNGER e EPPINGER, 2009).

Este tipo lida melhor com os riscos, pois as modelagens do estágio e da atividade são combinadas, de modo a garantir múltiplas repetições e flexibilidade na revisão dos riscos, mesmo em fases mais tardias do processo (SKEC, STORGA e MARJANOVIC, 2013). Segundo Unger e Eppinger (2009), o tipo espiral de PDP permite um vislumbre de fases futuras ao passar por muitos estágios com expectativas de retornar a eles, à medida que o processo progride. Isso traz informações de estágios avançados, as quais podem ser incorporadas a estágios anteriores, alterando especificações, requisitos e conceitos – por conseguinte, reduzindo riscos.

Contudo, por se tratar de um processo mais sofisticado que outros, o tipo de PDP espiral demanda uma gestão mais atenta e é, por esta razão, mais adequado para projetos mais complexos – já que projetos simples podem lançar mão de um PDP mais simples, como o PDP em estágios. Ademais, atrasos podem ocorrer devido à ausência, a princípio, de especificações rígidas (UNGER e EPPINGER, 2009).