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1.3 Titularidade do poder de reforma e seu fundamento democrático

1.3.1 Titularidade

Muito da discussão existente quanto à titularidade do poder constituinte originário

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não se aplica ao poder de reforma da constituição, tendo em vista que

160 Embora se valha da teoria de Heller, Hesse a critica por não ficar suficientemente claro de que maneira na relação de coordenação um elemento pode incorporar-se ao outro (HESSE, Konrad.

Limites de la mutación constitucional…, p. 96-97).

161 HESSE, Konrad. Limites de la mutación constitucional…, p. 97.

162 HELLER, Hermann. Teoria do Estado..., p.225.

163 HESSE, Konrad. Limites de la mutación constitucional…, p. 97.

164 BUZANELLO, José Carlos. Constituição política em Hermann Heller..., p. 265.

165 A respeito da titularidade do poder constituinte originário, Schmitt sintetiza que na concepção medieval somente Deus poderia deter uma potestas constituens. Já durante a Revolução

se trata de um poder constituído, limitado e regulamentado. Assim, a própria constituição estabelece quem é competente para desencadear o processo de reforma constitucional e para deliberar sobre a proposta

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Francesa, deu-se com Sieyès o desenvolvimento da doutrina da nação como titular do poder constituinte. Especialmente no caso francês, no qual não surgiu uma nova formação política, um novo Estado (como no caso norte-americano), tratou-se de suscitar e contestar a titularidade do poder 98-99). Sobre a discussão quanto à titularidade do poder constituinte pertencer ao povo, ao príncipe, à oligarquia militar observa, no entanto, Gustavo Just da Costa e Silva que muitos autores parecem constituyente del pueblo: un concepto limite del Derecho constitucional. In: Estudios sobre el estado de derecho y la democracia. Tradução: Rafael de Agapito Serrano. Madri: Trotta, 2000, p. 163). No mesmo sentido: VEGA, Pedro de. La reforma constitucional y la problematica del poder constituyente..., p. 49; QUINTANA, Segundo V. Linares. Derecho constitucional e instituciones políticas..., p. 454-458. No que concerne ao conceito de poder constituinte do povo, conferir:

MULLER, Friedrich. Fragmento (sobre) o poder constituinte do povo. Tradução: Peter Naumann.

São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004; BÖCKENFÖRDE, Ernst Wolfgang. El poder constituyente del pueblo..., p. 165. Ainda sobre este assunto, verifica-se que uma das discussões quanto à criação de uma constituição da União Européia é justamente atinente ao fato de inexistir um povo europeu que legitime a atividade constituinte. Trata-se de uma discussão riquíssima que envolve questões como a redefinição da soberania nacional e do próprio conceito de poder constituinte originário. Sobre o tema: TAMBURINI, Márcia. Perspectivas de uma nova teoria constitucional: reflexos do projeto de constituição européia. In: DUARTE, Fernando; VIEIRA, José Ribas (Org.). Teoria da mudança competência para desencadear o processo de alteração constitucional. A Constituição Dinamarquesa de 1953 prevê que o processo de reforma pode ser iniciado apenas por um órgão especializado integrante do poder legislativo e denominado Folkteing. Contudo, o processo de aprovação é bastante complexo: aprovada a alteração da constituição e, desde que haja interesse da chefia do governo de levar adiante a matéria, o Folkteing se desfaz e são convocadas novas eleições legislativas para um segundo turno de votação da lei. Caso seja aprovada sem emendas – com emendas, é necessária uma nova eleição – dentro dos seis meses seguintes à aprovação definitiva os eleitores do Folkteing são chamados para aprovar ou rejeitar a mudança. Será aprovada desde que compareçam ao menos quarenta por cento dos eleitores inscritos, votando a maioria pela aprovação. Após este processo, a alteração ainda é submetida à sanção do rei. Já a Constituição Portuguesa de 1976 estipula como competente para iniciar o processo de reforma apenas os Deputados e na Constituição da Suíça de 1999 há a previsão do processo de revisão total e parcial ser deflagrado por iniciativa popular. A Constituição Uruguaia de 1967 também confere iniciativa a dez por cento dos cidadãos inscritos no Registro Cívico Nacional para desencadear o processo de reforma, bem como a dois quintos dos membros da Assembléia Geral. Para uma análise minuciosa dos procedimentos de reforma constitucional em vários países, conferir: LOPES, Mauricio Antonio Ribeiro. Poder constituinte reformador..., p. 205-237.

Na Constituição Brasileira de 1988, o Congresso Nacional delibera sobre as emendas e as aprova, assumindo, assim, a função de poder reformador e atribuiu-se competência para propor emendas constitucionais a um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal, ao Presidente da República e a mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação, desde que se manifestem, em cada uma delas, a maioria relativa dos membros

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De fato, teoricamente é possível questionar a legitimidade da atribuição do poder de reforma analisando, por exemplo, se não seria mais democrático atribuir também à iniciativa popular esta competência ou se o fato do Presidente da República ser competente não remonta a certo autoritarismo

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. A questão da possibilidade de alteração dos titulares da competência para desencadear o processo de reforma constitucional será analisada no ponto relativo aos limites implícitos ao poder de reforma. No entanto, há que se pontuar que a titularidade do poder de reforma é um tema que não requer muita discussão teórica quando se tem

167 Na Constituição de 1824, o processo de alteração das cláusulas materialmente constitucionais deveria ser iniciado no Legislativo. A Constituição de 1891 atribuiu a iniciativa ao Congresso Nacional e as Assembléias dos Estados. A Constituição de 1934 conferiu a iniciativa para as emendas constitucionais e revisão constitucional a uma quarta parte, pelo menos, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal e a mais de metade dos Estados, no decurso de dois anos, manifestando-se cada uma das unidades federativas pela maioria da Assembléia respectiva. A Constituição de 1937 atribui a iniciativa do processo de emendas ao Presidente da República e a Câmara dos Deputados. Na Constituição de 1946 a legitimidade foi conferida a uma quarta parte, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal, ou a mais da metade das Assembléias Legislativas dos Estados. A Constituição de 1967 poderia ser emendada por proposta dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal, do Presidente da República e de Assembléias Legislativas dos Estados. Já com a Emenda n.01/69 ou, mais propriamente, da Constituição de 1969, a proposta de emenda cabia apenas aos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal e ao Presidente da República.

168 Vanossi considera que a atribuição de competência para impulsionar a reforma constitucional pode variar entre opções autocráticas e democráticas de criação do direito. A iniciativa exclusiva do órgão executivo tem uma conotação autocrática, ao passo que a iniciativa exclusiva do orgão legislativo tem um compromisso democrático e uma feição pluralista. Já a iniciativa indistinta do executivo e do legislativo se inspira na moderação e no equilíbrio entre os poderes, embora, de fato, verifique-se sempre o predomínio da iniciativa do executivo. A iniciativa conjunta do povo e do órgão legislativo demonstra a inserção de mecanismos de democracia direta no regime representativo.

(VANOSSI, Jorge Reinaldo. Teoría constitucional..., p. 318-320). Sobre esta questão, Pedro de Vega observa que o sistema de reforma constitucional está diretamente ligado ao regime político em que está inserido. Portanto, o critério mais idôneo para explicar e distingüir os tipos de procedimento de reforma é o que parte da distinção entre as diversas formas de governar: autocrática, aristocrática e democrática. Para Vega, é próprio das formas democráticas concentrar os mecanismos de reforma no povo e nos órgãos representativos, ao passo que o comum das formas autoritárias é atribuir a competência para iniciar a reforma no órgão executivo (VEGA, Pedro de. La reforma constitucional y la problematica del poder constituyente..., p. 79-80).

a previsão pelo poder constituinte originário do órgão reformador e de um rol de

legitimados para propor emendas

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