CAPÍTULO 2: A ARTE DO INVENTAR
2.3 TODO PODER À COZINHA!
Estando os presos políticos separados dos demais internos e sendo seu número pequeno,
havia celas vazias nas ruas dedicadas a eles no pavilhão sete. Com isso, algumas dessas celas,
lugares destinados, a priori, ao cumprimento de uma pena, foram transformadas, conformes as
necessidades cotidianas e pretensões e projetos políticos dos internos, em cozinha, despensa,
oficinas, biblioteca, discoteca e sala de aula, sem falar nas salas da burocracia que viraram espaços
para encontros íntimos com namoradas e esposas. Ou seja, as práticas cotidianas dos presos, suas
necessidades e aspirações, deram outros sentidos às celas.
O presídio apresentava uma cozinha, chamada de rancho, onde trabalhavam alguns
presos comuns de melhor comportamento. Ali também eram servidas as refeições. Numa prisão, os
internos são obrigados ou veem-se obrigados a consumir os alimentos dados pela instituição, por
menos agradável que sejam. A qualidade da comida no IPPS não era das melhores, motivo de
reclamação dos presos. De início, igual aos demais internos, os militantes da esquerda consumiam
essa alimentação, servida em suas celas e rua, onde estavam reclusos. Não por acaso, estariam os
presos comuns, que levavam as refeições, entre primeiros a se aproximarem dos “subversivos” do
IPPS.
Ante o processo de acomodações, pressões, embates e negociações que desenvolveram
ao longo dos anos junto à direção do presídio, os presos políticos conseguiram, após algum tempo,
permissão para prepararem seus alimentos à parte. Para a direção do presídio, não deixava de ser
vantajosa a concessão, afinal, não precisava mais se preocupar com a logística de ter funcionários ou presos comuns para levar as refeições dos “terroristas”, recolher pratos, etc.
Para os militantes de esquerda encarcerados, afora a possibilidade de ter refeições de
melhor qualidade, era uma vitória, um tento na busca de alguma autonomia dentro de uma estrutura
autoritária. Numa prisão, a alimentação é fundamental e, agora, eram os presos políticos que se
responsabilizavam por ela. Não era apenas um trunfo momentâneo. Constituía-se uma vitória que
ensejava lutar por outras melhorias e reivindicações. Se fosse um sucesso a experiência de produção
de alimentos pelos presos política, também seria se trabalhassem em outras ocupações,
estudassem...
(...) Quem fazia era preso comum, ia, lavava, passava, levava comida, tirava as bandejas. Mas a comida do presídio era muito ruim, horrível. Aí depois nós começamos a pressionar a direção, que a gente podia fazer a comida e tal. Foi uma luta e eles [integrantes da direção] liberaram pra gente. Aí não sei como, arranjaram um fogão e aí nós passamos a fazer nossa alimentação. O presídio dava alimentação, in natura, feijão, arroz, carne. Mandavam toda semana. Davam o gás. A família trazia também. Aí fazíamos a comida em nossa cozinha. Aí o coletivo organizou a divisão de tarefas. A cada dia duas pessoas faziam a alimentação, aí outros faziam a limpeza, começamos a fazer a divisão de tarefas, questão da lavagem de roupa também25.
A autorização para uma cozinha dos militantes de esquerda não era extensiva aos
demais internos do IPPS, denotando mais uma vez o tratamento peculiar que a própria ditadura
ofertava aos presos políticos, ainda que, no discurso oficial, não os reconhecesse como tais.... É
possível ponderar se uma cozinha para os presos comuns seria viável, visto que o funcionamento
daquele espaço entre os militantes de esquerda foi possibilitado pela proximidade pessoal entre os
mesmos e o ideário comunitário das culturas políticas das esquerdas.
Os ativistas passaram a receber do presídio porções dos produtos crus (feijão, arroz,
macarrão, carne), os quais eram juntados com os mantimentos trazidos pelos parentes nos dias de
visita e postos em uma cela, até então vazia. Tal cela, assim, virou dispensa e cozinha dos militantes
de esquerda, sob o controle e administração do coletivo. Era chamada simplesmente de a cozinha,
um dos ambientes de maior relevo dentro do pavilhão dos presos políticos do IPPS.
Na cozinha havia um fogão pequeno, de duas bocas, trazido por um dos parentes (os
entrevistados não souberam dizer qual dos familiares o trouxe). Os alimentos eram preparados sobre
uma pequena mesa improvisada, inclusive havendo manipulação de facas caseiras, outra
particularidade dos presos políticos e geralmente tolerada em presídios apenas para internos de
extrema confiança da direção26. Verdade que os ativistas não eram violentos no trato cotidiano com
os agentes prisionais e nem tramavam revoltas ou realizaram fugas. Mas por suas peculiaridades,
entenda-se, a condição de inimigos políticos do regime, não apresentavam também a confiança
plena da direção, tanto que permaneciam isolados dos demais internos.
Dentro dos jogos de pressões, concessões e acomodações, porém, que militantes e
direção institucional foram realizando ao longo dos anos, o coletivo de ativistas políticos acabou
por obter o direito, ainda que tacitamente, de manusear facas. Como dissemos, acreditamos que o
sucesso de uma experiência servia de base para novas concessões. É um exemplo do patchworks
citado por Certeau27, as montagem que os indivíduos fazem no cotidiano, rompendo regras e
criando outras práticas e significações.
A gente tinha algumas coisas, sim, umas faquinhas usadas para cortar verduras na cozinha. Sabe, é aquele negócio, é proibido, mas tem um jeitinho, né? Eu acho que uma faca de mesa não era problema, não. A não ser que um funcionário visse. Mas no fundo, eles sabiam. A gente cortava as verduras, né? Eles sabiam, não que a gente pedisse licença, mas eles toleravam, né?28.
Geralmente era feita uma escala: a cada dia da semana, os mesmos presos políticos
iriam se ocupar da cozinha. Nesses dias, os militantes escalados não desciam para o banho de sol,
visto que as ocupações não se restringiam apenas a cozer, mas também diziam respeito a tudo
relacionado ao espaço “doméstico” (limpeza do ambiente e utensílios, armazenamento de água, café
da manhã, lanches, etc.).
De início, o desjejum (café e pão) era entregue aos presos políticos, bem cedo, nas celas
por carcereiros ou por um preso comum usado nos serviços do presídio – havia no IPPS, nos
primeiros anos, uma padaria. Depois, os ativistas passaram a fazer igualmente o café, recebendo
apenas os pães do presídio. Os pratos e colheres, também presenteados por parentes, eram lavados
no banheiro da cela∕cozinha, junto à privada turca. Punham pedaço de mangueira encaixado no cano
do chuveiro para fazer escoar a água. Ficava patente a precariedade das instalações improvisadas
para o preparo das refeições e certa falta de higiene.
A cozinha era umas das primeiras celas do corredor. O fogão era assim pequeno, de duas bocas. Eu não sei se o fogão foi obtido oficialmente [entregue pelo presídio]. (...) A comida era razoável, porque a gente fazia uma melhora, melhorava o padrão. A gente recebia de nossas famílias nas visitas dia de sábado, a gente recebia alimentos, verduras, frutas e tal. A gente recebia uma comida do presídio, feijão, arroz e temperava. (...). O meu dia, eu acho, era na terça-feira, junto com o Fabiani Cunha. Nesse dia, a gente não ia para o recreio, ficava na ala mesmo, porque sabia que tinha coisa para fazer. A gente lavava o prato na cela
27 CERTEAU, Michel de. Op. Cit.
da cozinha mesmo. Como não tinha pia, a gente usava um torçalzinho para pegar a água do chuveiro e lavar os pratos29.
Tão importante aquela cela transformada em cozinha que havia um regulamento
específico para a mesma, determinado pelo coletivo. No regulamento, encontravam-se as
obrigações das duplas de presos que se responsabilizavam em seus respectivos dias pelo preparo das
refeições e limpeza. Revirando as pastas da Associação 64-68 encontramos esse documento,
intitulado Regulamento para a cozinha.
Manuscrito, feito à caneta numa folha de papel ofício, sem data, o documento apresenta
uma mancha branca na parte superior direita, o que torna trechos ilegíveis ou incompreensíveis. O
Regulamento estabelecia que:
1º Os cozinheiros devem levantar às 6 horas [ilegível]
2º Verificar o grau de limpeza da cozinha, comunicando qualquer anormalidade à comissão [ilegível]. Fazer café em quantidade suficiente para as duas garrafas.
3º Ato contínuo, encher os depósitos e [ilegível – colocar?] as garrafas nas geladeiras e as formas de gelo.
4º Varrer o corredor pela manhã e à tarde, exceto na sexta-feira, que fica a cargo dos lavadores [presos comuns].
5º Fazer o café e manter a vasilha com água quente, no fogão. 6º Esforçar-se para manter a cozinha sempre limpa (...).
7º O almoço deve ser servido às 12h e o jantar às 17h e, havendo recursos, deve ser feita uma sopa que deve ser servida às 20h.
8º Forrar com Bombril as velas do filtro às segundas-feiras.
9º As 20:30 encerra-se as tarefas da cozinha, após a lavagem dos últimos utensílios. 10º A comissão deve supervisionar rigorosamente o cumprimento deste regulamento30. Chama a atenção no documento a linguagem impositiva, com verbos no imperativo e
infinitivo (deve, verificar, encher, esforçar-se), a precisão dos horários e a obrigação de cumprir as
normas, sob a inspeção de uma comissão do coletivo. Denota o senso rígido de disciplina e
obediência, comum às culturas políticas comunistas e presente já em organizações como o Partido
29 Entrevista com o ex-militante do PCBR, Célio Miranda, a 8 de julho de 2016. 30 Regulamento para a cozinha, sem data. Acervo da Associação 64-68.
Comunista Brasileiro (PCB)31, um senso que foi intensificado pela tendência militarista dos
agrupamentos revolucionários, sobremaneira nos momentos finais da luta armada e de maior
repressão, quando as organizações se fecharam ainda mais e exigiam dos militantes obediência sem
questionamentos no cumprimento das missões32.
De qualquer forma, no detalhamento das atividades transparece, mais uma vez, a
importância da cozinha para os internos. Que ficasse claro o que a dupla de presos escalados
deveria cumprir, sob pena de sofrer advertência dos demais companheiros. Não é difícil imaginar
que, como a cozinha foi uma das primeiras conquistas obtidas pelos ativistas, seu funcionamento a
contento tinha relevo para mostrar a capacidade de organização do coletivo de presos políticos e
reivindicar perante a direção do presídio outras concessões e direitos.
O Regulamento traz também detalhes sobre o cotidiano e alguns problemas a serem
enfrentados na cozinha improvisada. O consumo de água potável num filtro de barro (o Bombril era
para ajudar a limpar as velas), e não a água da torneira do presídio. O documento dá a entender que
a quantidade de alimentos por vezes deixava a desejar (sopa “se houvesse recursos”). Mesmo com
os militantes políticos limpando sua rua diariamente, ainda havia a limpeza realizada por um preso
comum do presídio – o que significava que os contatos com os internos comuns persistiam,
havendo mesmo alguma proximidade e realização de pequenos favores por estes aos “subversivos”.
A higiene era uma preocupação. Sabe-se que uma das formas de depreciação do
indivíduo dentro de uma prisão está na sujeira e na desordem do ambiente33. Daí porque, pra
minorar tal problema, a necessidade da limpeza se manifesta em vários artigos do documento, pela
própria improvisação da cela e riscos advindos dessa condição. Pelo que os entrevistados falaram,
havia temores com resto de comida, água molhando o piso, óleo derramado, má higienização dos
31 FERREIRA, Jorge. Prisioneiros do Mito. Niterói: EdUFF; Rio de Janeiro: MAUAD, 2002.
32 RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista,
1993.
produtos e utensílios... Temores que o espaço atraísse (mais) insetos e ratos, os quais eram visitas
comuns nas celas do IPPS. Temores que a água de beber e alimentação fossem contaminadas
provocando doença nos internos, cuja necessidade de tratamento médico e dentário seria pauta de
várias reivindicações feitas à diretoria do presídio.
A cozinha trazia desconfortos vários para os ativistas de esquerda. Desconfortos
vinculados, por exemplo, à origem e condição social dos militantes, gente vinda, com exceções, da
classe média, e não muito afeita a realizar serviços domésticos ou a valorizar quem lidava com os
afazeres da cozinha e limpeza.
Desconforto também político, afinal, aqueles homens estavam presos porque haviam
participado de agrupamentos guerrilheiros, eram rebeldes que desejavam mudar o mundo, revolucionários que antes haviam empunhado armas e, agora, faziam “trabalhos simples”, humilhantes para uns, manuseando panelas e vassouras. Desconforto porque faziam nos cárceres “trabalho de mulher e gay”, reproduzindo o machismo da sociedade e do qual a esquerda não escapava.
Você sabe que no nordeste, tradicionalmente homem não vai para a cozinha. Quem vai para a cozinha é gay, veado. Eu fui mudando de visão sobre isso, na prisão, e já antes mesmo. Quando eu militava no PORT [Partido Operário Revolucionário Trotskista], minha família recebeu um companheiro do sul, ele era catarinense, de origem polonesa, com aqueles sobrenomes complicados, Rui não sei bem o que [Rui Pfutzenreuter], depois morto sob tortura. Ele foi almoçar lá em casa e pra surpresa geral, de todos, quando terminou o almoço, ele pegou seu prato e foi lavar. Todo mundo ficou assim... Isso não era coisa de homem! Daí eu fui mudando. Entendi que serviço doméstico não é coisa de mulher ou homem, mas de quem está disponível34.
Bem de acordo com a cultura política comunista, defensora de tratamentos igualitários e
responsabilidades solidárias35, todos os presos deveriam trabalhar na cozinha, mesmo que não
possuíssem lá muita habilidade. Alguns dos militantes, se não tinham como se livrar daqueles
34 Entrevista com o ex-militante do PCBR, Mário Albuquerque, a 14 de abril de 2016.
35 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. A cultura política comunista. In: ________; NAPOLITIANO, Marcos; CZAJKA,
Rodrigo. Comunistas brasileiros: cultura política e produção cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013, p. 22 e seguintes.
afazeres, apelavam para soluções inusitadas para minorar a falta de dotes culinários. Era o inventar
em cima do inventado.
Com a história da igualdade, era levada ao nível cômico e extremo. Todo mundo tinha que passar pela cozinha. Só que tinham gente que não tinha o menor jeito. Lá em Recife, ficou conhecido um companheiro como “bife mergulhão”. Por quê? O que ele fazia? Botava água no fogo, pegava a carne, tacava dentro da água, punha um tempero e pronto. Era um sabor horrível [risos]. Aqui, o Auto Filho, intelectual, o que que ele fazia no dia da cozinha dele? Ele mandava comprar feijoada enlatada [risos]. Ele servia. Todo mundo tinha que cumprir a norma de ir para a cozinha36.
Com internos sem dominar bem as lides culinárias, não surpreende que a qualidade das
refeições não fosse das melhores em algum dos dias ou que acontecessem problemas inesperados:
O Waldemar [Menezes] estava encarregado de fazer a coalhada. Aí a gente tinha um potinho... o soro, para colocar no leite e fazer a coalhada todo dia. Ele simplesmente colocou a tampa cheia. Rapaz, quase mata todo mundo [risos], foi uma disenteria geral. Eu como fui logo direto na coalhada... Ela [a coalhada] tava sobrecarregada, eu passei mal37. Podia ocorrer de eventualmente um dos militantes permutar o dia com os colegas, com
alguns mesmo até pagando para que outro trabalhasse em seu lugar. Tais práticas, não obstante, por
afrontarem as regras do coletivo e, porque não, aos ideais socialistas de igualdade, foram logo
repreendidas.
Tinha cara que pagava para outros trabalharem na cozinha, na horta (...) pagavam em dinheiro mesmo. Alguns dos presos políticos eram pobres, precisavam mesmo. O governo dava um salariozinho simbólico, como se fosse vinte reais hoje, eu não lembro o valor, mas era pouco. Era dado a todos os presos, não só os políticos. Isso [presos políticos pagando dinheiro a outros] foi denunciado e começou a ser combatido depois38.
Assim, com certo incômodo ou falta de habilidades para aquelas atividades manuais e uma qualidade a desejar das refeições, o dia na cozinha poderia ser “terrível” tanto para quem
36 Entrevista com o ex-militante do PCBR, Mário Albuquerque, a 14 de abril de 2016. 37 Entrevista com o ex-militante da ALN, Fabiani Cunha, a 28 de março de 2017. 38 Entrevista com o ex-militante da ALN e PCBR, José Machado, a 4 de agosto de 2016.
preparava os pratos e como para quem os consumia... Ao longo dos anos, não obstante, os internos
foram dominando a labuta, os parentes, especialmente as esposas e irmãs, nos dias de visitas davam
dicas, levando os ativistas a não só melhorarem as refeições, como também perceberem com outro
olhar a importância do trabalho doméstico. As necessidades da existência dos presos políticos
levaram-nos a novas práticas e, porque não, a outras concepções de mundo.
Hoje eu sou um razoável chef de cozinha graças à prisão. Eu ocupava meu tempo experimentando fazer comida. Bolava jantares de madrugada. Aprendi a fazer vários pratos: frango, peixe, tudo, qualquer coisa. Minha preferência era peixe e mariscos. Na prisão, a gente recebia a comida in natura39.
Eu aprendi [a cozinhar] mesmo no IPPS. O feijão. Você não taca logo o feijão na panela. Não faça isso. Antes, você ferve a água, deixa [o feijão] de molho uma hora ou mais na água quente. Aí ele fica bem amolecido e aí você pode fazer seu feijão. Meu irmão [Swami Cunha, também preso político] tem orgulho de ter aprendido a cozinhar no IPPS. (...) Havia a contribuição das famílias, né? Eu fazia café e dava pras famílias [nos dias de visita]. De tanto eles tomarem, darem opinião, “tá frio”, “tá forte”, eu fui melhorando e acertei40. Por vezes, chegavam novos presos políticos, garçons, cozinheiros, donos de pequenos
restaurantes, etc., ensinando e difundido novos pratos. Os contatos possibilitados pela prisão e as
necessidades cotidianas ajudavam no viver e nas reconstruções das identidades dos revolucionários
mantidos no IPPS. O citado Fabiani Cunha confessaria em sua entrevista que saiu do presídio
sabendo prepararam um ótimo café e cozinhando muito bem, para o que foi fundamental o contato
com outros internos do pavilhão político:
O Arrais era mestre [na cozinha] porque ele tinha, era dono desse negócio de lanchonete. Havia os garçons ligados ao PCB, que eram os melhores cozinheiros. O José Ferreira Lima, líder metalúrgico e artesão, me ensinou como preparar um café maravilhoso. Ele ensinou a não fazer em vasilha de alumínio o café, porque o alumínio deixa um gosto do café. Tem que fazer numa vasilha de ferro (...)41.
39 Entrevista com o ex-militante do PCBR, Mário Albuquerque, a 14 de abril de 2016. 40 Entrevista com o ex-militante da ALN, Fabiani Cunha, a 28 de março de 2017. 41 Entrevista com o ex-militante da ALN, Fabiani Cunha, a 28 de março de 2017.
As precariedades ou limitações da quantidade de alimentos estimulavam os presos a
inventarem novos pratos, o que, afora buscar melhorar a qualidade das refeições, era uma forma de
terapia, de estimular a criatividade e preencher o tempo atrás das grades e até possibilitar a
sociabilidade dos internos. Como diz Janaina Teles42, o trabalho criativo era importante maneira de
recuperação de identidade e da sanidade física e mental. As mentes que antes se ocupavam com a
revolução agora se voltavam igualmente para a culinária.
Eu sou um cozinheiro que não segue receita. Eu faço [pratos] conformem os ingredientes disponíveis. Porque na prisão não tinha muita coisa disponível para usar. (...) Eu usava o tempo para fazer experimentações de prato. Era uma boa forma de ocupar tempo, era uma boa terapia, até de diversão. E você também comia bem (...). Dia de sexta-feira tinha um peixe que até hoje eu não descobri [o nome]. O bicho era escuro, a gente dizia que era cobra [risos]. Dia de sábado, as visitas traziam comida e muitas vezes sobrava para gente jantar à noite. E esse peixe da sexta, ninguém gostava, ninguém comia. Aí um dia eu preguei uma peça nos companheiros. Eu peguei esse peixe, tirei pele, tirei espinha, deixei só a carne. Botei tempero, fiz um prato, tipo uma fritada e levei para o sábado. Aí eu disse ao pessoal que as famílias tinham trazido um prato especial: truta, a gente ia comer truta. Aí eu servi esse maldito peixe como truta. O povo comeu, acho bom, elogiavam, repetiam [o prato]. Que truta boa [risos]. Aí depois eu fui dizer que não era [truta], ninguém acreditou [risos]. Foi uma risada geral43.
Uma das primeiras conquistas dos presos políticos do IPPS foi o direito de produzirem
as próprias refeições. Além de melhorar a qualidade da comida e ocupar o tempo, a cozinha
denotava um espaço de autonomia para os ativistas dentro da estrutura prisional da ditadura, base