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CAPÍTULO 2: A ARTE DO INVENTAR

2.2 UMA CELA PARA CHAMAR DE SUA

12 CALVEIRO, Pilar. Poder e desaparecimento: os campos de concentração na Argentina. São Paulo: Boitempo, 2013,

p. 106 e 107.

13 ARAUJO, Maria Paula Nascimento. A utopia fragmentada: as novas esquerdas no Brasil e no mundo na década de

Um dos primeiros ambientes do Instituto Penal Paulo Sarasate ressignificados pelos

militantes da esquerda armada foram as próprias celas, que ganharam outros objetivos mediante as

invenções e necessidades dos presos políticos. Numa prisão, um dos problemas é o da falta de

individualidade e de privacidade14. Pela descrição dos entrevistados e pelo que pudemos constatar

na ida ao presídio, em março de 2017, o resguardo da intimidade era problemático, por mais que as

celas do IPPS fossem para apenas uma pessoa.

Tratava-se de pequenos cubículos, com cerca de três metros de extensão por dois de

largura. A parede da frente da cela tinha cerca de um metro e meio de altura, e sobre ela se erguia

uma grade vazada. A porta da cela igualmente era com grade vazada. Os cubículos continham uma

cama de cimento com um colchão desconfortável. Apresentavam como divisória um muro de metro

de altura num dos cantos, criando um pequeno banheiro, onde havia um chuveiro e uma privada

turca, ou seja, um vaso sanitário rente ao piso, chamado na gíria prisional de boi – o preso tinha de

ficar de cócoras, sentado sobre os calcanhares. A descarga da privada era externa à cela, pelo

corredor de apoio existente atrás das ruas (um funcionário dava a descarga duas vezes por dia, pela

manhã e à noite). Como a rua dos presos políticos no bloco sete estava contra o sol, o calor a tarde

era por demais forte no ambiente.

As celas eram padronizadas, iguais para todos os internos, os quais não podiam fazer

nenhuma alteração no ambiente, nos primeiros tempos da prisão. Para complicar, ainda nesses

primórdios do presídio, conforme relatado pelos entrevistados, era vedado que os presos políticos

tivessem objetos pessoais nas celas. Em geral, num presídio, busca-se despojar o interno de seus

bens pessoais, com o estabelecimento providenciando alguns outros bens, não raro, padronizados e

de qualidade inferior. Ora, um conjunto de bens pessoais apresenta relevância para o indivíduo.

Despojar, pois, o interno de bens usuais é uma forma de desfiguração pessoal, de atacar sua

identidade e individualidade15.

Encontrar-se num presídio a exemplo do IPPS, conforme expressão de Mário

Albuquerque, é estar num “casamento forçado”, referindo-se aos contatos diuturnos dos ativistas atrás das grades, que podiam provocar indisposições, irritações, pequenos desentendimentos, muitas

vezes. Como lembra Goffman, o contato excessivo em instituições como a prisão é contaminador,

matriz de antipatias, atritos16.

15 GOFFMAN, Erving. Op. Cit. 16 Ibidem.

Imagem 2: na foto de cima à esquerda, Mário Albuquerque lembra que, com as posteriores reformas do presídio, ampliaram o tamanho inicial da parede das celas; na foto de cima à direita, uma visão geral de uma das celas do IPPS, com o banheiro e a cama de cimento (que, nos anos 70, era mais baixa, com cerca de meio metro de altura, segundo Mário). Na foto de baixo à esquerda, a privada turca, percebendo-se os locais para os presos porem os pés ao ficarem de cócoras; na foto de baixo à direita, o corredor de apoio, atrás das “ruas” das celas, de onde os funcionários davam descarga nas privadas.

De modo geral, no IPPS, o militante da esquerda armada quase nunca estava

inteiramente sozinho. Realizava atividades em conjunto com seus companheiros, constatação que se

enquadrava dentro do próprio coletivismo comum às culturas comunistas, e se encontrava numa

situação na qual era visto, percebido ou ouvido por outras pessoas, mesmo que fossem apenas os

colegas de internamento ou os funcionários do presídio, numa espécie de concretização do modelo

do panóptico abordado por Foucault e de internalização da disciplina17.

Assim, o “casamento forçado”, a dificuldades de obter privacidade e a constante vigilância levavam os presos a ficarem com “nervos à flor da pele”, por vezes, gerando algumas

“discussões bobas”, conforme nos revelou Fabiani Cunha, ainda que destacando a convivência respeitosa na maior parte do tempo.

Ante a padronização das celas, a convivência constante dos internos políticos no

pavilhão e as atividades coletivas as quais praticavam ou estavam submetidos, acreditamos que

modelar, individualizar a cela, conforme os desejos pessoais dos presos, apresentava relevância para

melhorar a vida dentro do presídio e as relações entre os próprios ativistas.

Dessa forma, eram necessários, para os presos alguns momentos para se afastar do resto

do grupo, buscar um espaço para si, pensar, estudar, questionar – talvez lamentar, chorar... –, num

exercício que ajudava na reconstrução psíquica dos militantes, dentro de um presídio em que

viveriam forçadamente por meses ou anos. Gravar numa cela uma marca pessoal era firmar uma

identidade, denotar a personalidade daqueles homens que haviam sonhado com a revolução e

conquista do poder institucional, e que foram derrotados e, não raro, humilhados e torturados pela

ditadura, mas que agora necessitavam recomeçar, repensar ou manter seus princípios e sonhos.

Após os primeiros anos de intenso controle e restrições, os presos políticos do IPPS conseguiram

brechas através das quais buscaram firmar a individualidade e a privacidade.

Com o tempo eu fui dando minha cara à cela. Tinha uma mesa para escrever, eu escrevia e lia muito lá. Tinha um rádio, um mosqueteiro, porque tinha inseto. Tinha um mergulhão [aquecedor], para esquentar a água, porque eu tinha problema de calafrios. Coloquei uns quadros na parede, mas eram paisagens, não eram políticos, não. (...) Havia companheiros que botavam papelão na grade toda para obter privacidade18.

Não era apenas tornar a cela mais atraente ou confortável, visando um ambiente, dentro

do possível, melhor de viver e lúdico. Era buscar escapar à descaracterização desejada pela

ditadura, dar uma “cara própria” às celas, firmar a condição de presos políticos e de indivíduos. Por

mais que o ideário comunista apregoasse o coletivismo, não é realístico imaginar uma convivência

contínua, sobremaneira num ambiente limitado como um presídio. A demarcação da

individualidade e da identidade dos presos nas celas do IPPS dar-se-ia de muitas formas. Diz Mário

Albuquerque:

Ao contrário de Itamaracá, a gente podia colocar quadros na parede, até ter algum móvel e objetos. A primeira coisa que fiz foi colocar para dentro uma máquina de datilografia, uma maquinazinha pequena, portátil. Podia decorar a cela, como seu gosto pessoal. Eu até coloquei na cela uma pequena tabuleta, com a frase “Deus proteja este lar”. (...) Depois eu herdei a cela de um companheiro bem decoradinha, até cortina tinha, era um quitinetezinho [risos]19.

Outros internos montariam pequenas estantes de livros, poriam quadros, fotos de

parentes, retratos de mulheres nuas nas paredes e havia ainda os que priorizassem os instrumentos

musicais, discos e rádios20. Houve mesmo quem dividiu a cela com um gato selvagem e uma

criação de pássaros, como foi o caso do ex-militante da ALN, Fabiani Cunha21.

Não obstante, havia limites para a individualização das celas. Pôsteres de líderes

políticos, como de Che Guevara, não eram tolerados, muito menos os livros vermelhos, tido como

comunistas. Vez por outra, agentes penitenciários, policiais federais e membros da Auditoria Militar

18 Entrevista com o ex-militante da ALN, Wiliam Montenegro, a 24 de setembro de 2016. 19 Entrevista com o ex-militante do PCBR Mário Albuquerque, a 14 de abril de 2016. 20 Entrevista com o ex-militante do PCBR, Célio Albuquerque, a 8 de julho de 2016. 21 Entrevista com o ex-militante da ALN, Fabiani Cunha, a 28 de março de 2017.

inspecionavam as celas, confiscando bens dos presos e intimidando-os, denotando a violência e o

autoritarismo do regime e da instituição prisional. Era o mundo real, externo, lembrando aos

militantes da esquerda armada a sua condição de encarcerados políticos.

A única coisa minha que mandaram retirar foi um cartaz que eu tinha pregado na cela, que tinha lá aquela quadrazinha da Raquel de Queiroz [do livro O Quinze], como é? “Cacete quebra costela, mas não muda opinião”. Eles não gostaram, aí mandaram em tirar22. À repressão do regime e da penitenciária, os presos reagiam, escondendo seus pôsteres,

trocando as capas dos livros. Outras vezes, desafiavam abertamente na intenção de manter seus

pertences. Era algo pequeno, mas dava um gosto especial aos encarcerados, sobretudo para aqueles

que defendiam a ação dentro do presídio como forma de fazer o enfrentamento político da ditadura.

Num belo dia, os presos comuns nos disseram que o pessoal da Auditoria Militar ia visitar as celas. Aí começamos a esconder as coisas. Aí uma figura lá, que não vou dizer o nome, tinha lá uma estante, com Marx, Lênin e tal, livros. Ele disse, não vou esconder, não. Vocês não são revolucionários, não? Bora enfrentar a ditadura. Aí chegaram dois caras da Auditoria Militar, olharam assim e disseram “vixe, vocês estão com todo esse material aqui”? Era proibido, né? Aí a figura repetiu o discurso de revolucionário. Os dois caras deixaram ele falar e quando ele terminou, disseram: engraçado, essa coragem toda aqui, mas lá vocês eram frouxos, colaboravam, se cagavam de medo. Mas os livros não foram tomados23.

Seja como fosse, sofrendo ou não com a repressão, os internos imprimiam uma marca

individual aos cubículos. Assim, as celas são espaços públicos e privados ao mesmo tempo,

lembrando os estudos de Pierre Mayol sobre o bairro e cidades. Isso porque tendo objetivos gerais,

estabelecidas para todos pela instituição prisional, acabavam particularizadas pelo uso cotidiano do

espaço. As práticas ali realizadas são decisivas para a identidade de uma pessoa ou grupo, na

medida em que permitem assumir um lugar na rede de relações sociais do ambiente24.

22 Entrevista com o ex-militante da ALN, Wiliam Montenegro, a 24 de setembro de 2016. 23 Entrevista com o ex-militante da ALN e PCBR, José Machado, a 4 de agosto de 2016.

24 MAYOL, Pierre. Morar. O bairro. In: CERTEAU, Michel; GIARD, Luce; MAYOL, Pierre (orgs.). A invenção do cotidiano 2 - Morar, cozinhar. Petrópolis: Vozes, 1996.

As celas do IPPS diziam muito dos presos e do que aspiravam. Ali, os ativistas da

esquerda armada firmavam-se enquanto militantes políticos, mostravam, ainda que implicitamente,

seus desejos, sonhos, faltas, carências, saudades. As mudanças realizadas no ambiente das celas e

suas ressignificações denotavam o afinco – ou não – aos antigos projetos políticos e os novos

desejos pessoais.

Era o espaço mesmo de uma espécie de terapia individual, de ter contato com animais, o

carinho de cuidar e receber atenção, mesmo que fosse de bichos. De colecionar discos. Escrever

cartas sobre a situação do presídio ou versos de amores frustrados. Era um instante de reflexão

sobre tudo que acontecera e o que estavam vivendo ali naquele momento. Era um encontrar consigo

mesmo. Talvez mesmo um instante de fuga, de ouvir uma música ou fumar um cigarro olhando fixo

para a parede vazia.