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Fukuyama (1999) define capital social como normas ou valores partilhados que

promovem a cooperação social,“not as formal laws but rather as informal norms promoting

cooperative behavior” (FUKUYAMA., 1999, p. 28)

55

.

Nessa perspectiva, capital social pode ser cultivado e transmitido no âmbito dos

valores culturais, pois “la cultura es el ámbito básico donde una sociedad genera valores y los

transmite generacionalmente” (KLIKSBERG, 1999, p. 27).

Para a discussão sobre tolerância, respeito mútuo e a solidariedade entre a juventude,

problematizamos o envolvimento dos jovens em manifestações culturais.

5.4.1 A participação dos jovens em manifestações culturais

A participação em atividades culturais é um importante indicador de capital social e

pode contribuir para desenvolver a tolerância e o respeito mútuo. Kliksberg (1999) sugere o

desenvolvimento de políticas sociais que favoreçam a auto-estima de grupos e pessoas através

da promoção da cultura popular, seu cultivo e a abertura de canais de expressão e, entre os

jovens, a criação de um clima de apreço genuíno por seu conteúdo. Para o autor:

Estos espacios culturales, al mismo tiempo que permitían expresarse y crecer artísticamente a sus miembros, les transmitían amor y valoración por su cultura, y fortalecían su identidad. Asimismo, tenían efectos no previstos. La práctica sistemática de estas actividades fomentaba, de hecho, hábitos de disciplina, culto por

55 Tradução nossa: “não como leis formais, mas algo como normas informais que promovem comportamento

el trabajo y cooperación. Similares experiencias se realizaron en gran escala en períodos recientes en Colombia, y en otros países (KLIKSBERG, 1999, p. 28)

Para compreender a participação dos jovens em manifestações culturais, perguntamos:

“Você costuma participar de manifestações culturais? Por que?”. O conjunto das respostas

pode ser visualizado no Gráfico 9, organizado conforme a organização as quais os

entrevistados estão vinculados.

Gráfico 9 - Participação em manifestações culturais por organização

100,0% 77,8% 22,2% 44,4% 55,6% 0,0% 20,0% 40,0% 60,0% 80,0% 100,0% PJE 100,0% 0,0% EBP 77,8% 22,2% MST 44,4% 55,6% TOTAL 74,1% 25,9% Sim Não

Fonte: Entrevistas em profundidade, 2004 n=27

Uma primeira análise constata um enquadramento diferenciado entre os entrevistados,

conforme seu costume em participar ou não de manifestações culturais. Enquanto 100% dos

entrevistados, vinculados à PJE afirmaram ter o costume de participar e 77, 8% da EBP, nem

a metade dos vinculados ao MST (44% dos entrevistados) afirmaram ter este costume.

Os jovens que têm o costume de participar, assim se manifestaram:

Sim. Principalmente com música. Prefiro os organizados com fins beneficientes

(Iniciante da EBP).

Quando dá sim. Especialmente os organizados ou incentivados pela escola (Iniciante da EBP).

Sim. Especialmente os realizados na comunidade (Militante da EBP).

Até fizemos várias peças. Muitas a partir do Evangelho e apresentamos nas missa. Também temos os shows da paz, durante a jornada da paz (Egressos da EBP). Já contribuí num show, fiz uma peça de teatro que apresentamos nos bairros para arrecadar fundos para o grupo (Militante da EBP).

Mais é shows ou exposições. Cinema não porque não tem por aqui (Iniciante do MST).

Sim. Mas eu participo só das manifestações que acontecem aqui em Encruzilhada – encenações, show, etc. (Egressos do MST)

Participei de shows, palestras, festas de São João. Além disso, todo ano, organizamos também uma festa da comunidade, quando vêm os familiares e amigos donde morávamos antigamente. Acho que isso é bom porque eles vêem como nós estamos e nós ficamos sabendo como é a vida por lá (Egressos do MST).

Participo. Também porque sou músico. Gosto de fazer show. Participei das discussões do Fórum Social Mundial. Anima ver o povo participando e se organizando (Egresso da PJE).

Já os que não têm o costume de participar, justificaram:

Eu nunca fui muito de cinema ou teatro, porque não tenho condições. Até gostaria

muito (Militante da EBP).

Não tenho o costume, porque é muito caro. Mas, de vez em quando eu vou (Iniciante da EBP).

Nunca fui ao teatro. Mas gostaria de ir (Iniciante do MST) Não tenho oportunidades (Militante do MST).

Os jovens que não tem o costume de participar revelaram que a participação na vida

cultural é limitada por situações específicas como a dificuldade de acesso aos espaços

culturais como teatro, cinema e outros. Muitas vezes faltam condições financeiras ou a

distância impossibilita participar mais.

5.4.2 A tolerância e o respeito mútuo entre os jovens

A tolerância e o respeito mútuo foi tema de pesquisa nos grupos de foco, com jovens

participantes de grupos e não participantes. O mote central, orientador do debate foi:

Em geral as pessoa têm dificuldade em respeitar opiniões contrárias. Há pouca tolerância com idéias diferentes das suas.

A partir desta frase procuramos identificar as predisposições dos jovens para a

tolerância e o respeito mútuo, perguntando: “O que vocês pensam desta afirmação? Concorda

com ela? Por que?”. O debate resultou em duas posições: os que se colocaram a favor e os que

se manifestaram contra a afirmação contida na frase.

Os jovens que concordaram com a afirmação, justificaram suas respostas, dizendo:

Concordo, porque cada um quer ser certo. Conheço gente ainda tem aqueles que

ficam teimando, não querem admitir (GrFocPJE).

Concordo. Tem aqueles que sabem que não estão certas, mas não querem admitir

(GrFocPJE).

Os jovens que não concordaram com a afirmação, justificaram com os seguintes

depoimentos:

Sou uma pessoa pouco tolerante. Mas no grupo temos que ceder (GrFocPJE).

Não concordo. Embora cada um tenha sua idéia, é possível aceitar o outro

(GrFocMST).

Não concordo. Acho que somos diferentes e temos que conviver (GrFocSgSL). Os jovens são mais tolerantes que os adultos. Respeitam mais as pessoas e não brigam tão facilmente como os adultos (GrFocSgSL).

Segundo os jovens, o grupo é um espaço de debate de idéias e de construção de

acordos em relação às controvérsias que vão aparecendo na caminhada:

O grupo é o lugar onde aprendemos a respeitar as idéias dos outro. Procuramos

olhar os dois lados e analisar as posições diferentes. Aprendemos a não desistir das

idéias simplesmente porque o outro pensa diferente, mas também não podemos passar por cima dos outros. Ver sempre o que é melhor para todos (GrFocPJE).

Nós procuramos sempre colocar em comum as idéias. Se forem idéias diferentes

somos capazes de fazer um acordo, através do diálogo (GrFocEBP).

Perguntamos então, sobre as conseqüência da intolerância, com a questão: “A que

poderia levar a intolerância?”. Os jovens responderam que a intolerância poderia levar ao

desentendimento e às brigas sugerindo, como processo para a sua superação, a realização de

dinâmicas como a capoeira, fazer encontros na comunidade em que todos pudessem colocar

suas idéias em comum, e que cada pessoa procurasse trabalhar o lado pessoal, no sentido de

manter a calma e respeitar as idéias dos outros.

Perguntados a respeito de que atividades desenvolvem no grupo ou comunidade para

superar a intolerância, os jovens relacionaram as seguintes ações:

- Ao dar o nome ao nosso grupo, havia duas propostas. Depois de uma boa

discussão tínhamos que ceder para acolher o nome que era mais conveniente. Isso

nos fez crescer. Aprendemos que não é bom retroceder logo, contudo, temos que

respeitar as idéias dos outros. O grupo nos ensina que a abertura para o diálogo é

fundamental e não ter uma posição fixa e irredutível. É importante acolher as

opiniões de todos (GrFocPJE).

- As nossas reuniões são sempre momentos de buscas e ver o que é melhor para

- Na assembléia diocesana houve opiniões bem diferentes e discutimos muito. Mas

finalmente chegamos a um acordo e todos se respeitaram (alguns queriam que a

bandeira de luta fosse a paz, outros preferiam a questão do emprego). Vimos que

ambas as bandeiras eram importantes (GrFocEBP).

No entanto, em relação à tolerância e ao respeito mútuo, os jovens afirmaram que

ainda há muita discriminação e que tem um caminho muito grande a percorrer “até chegar a

nos aceitar a todos como realmente somos” (GrFocEBP).

5.4.3 A solidariedade juvenil

A solidariedade é tema recorrente em estudos sobre capital social em autores como

Putnam (1996), Kliksberg (1999) e Baquero (2003). Mas, em Robison, Siles y Schmid (2003)

a própria definição de capital social é equiparada à solidariedade, por ser, conforme estes

autores, o recurso essencial necessário para as relações interpessoais e o poder social.

Segundo estes autores:

Nosotros definimos el capital social como los sentimientos de solidaridad de una persona o un grupo por otra persona o grupo. Esos sentimientos pueden abarcar la admiración, el interés, la preocupación, la empatía, la consideración, el respeto, el sentido de obligación, o la confianza respecto de otra persona o grupo (ROBISON; SILES y SCHMID (2003, p. 57).

Nos grupos de foco pesquisamos sobre a questão da solidariedade juvenil, com jovens

participantes de grupos e não participantes. A frase que nos guiou, através da qual procuramos

identificar as predisposições dos jovens para a solidariedade, foi:

O lema que parece estar sempre presente nas relações é “cada um para si e Deus para todos”.

Perguntamos: “O que vocês pensam dessa afirmação? Concordam? Por que?”.

Os jovens revelaram posições diferentes em relação à afirmação apresentada. Durante

o debate, responderam:

Concordam com a afirmação de que sempre mais cada um se preocupa somente

consigo mesmo. Justificaram sua posição dizendo:

No nosso trabalho e também na escola é bem assim. No começo todos são amigos. Mas na hora “H” é apenas concorrente (GrFocPJE).

Concordo. Embora eu penso que seja natural as pessoas se sentirem instigadas a

colaborar. Mas as disputas são muito grandes e acabam cada um para si.

(GrFocPJE).

Concordo. Acho que as pessoas são muito pouco solidárias (GrFocMST).

Acho que Deus realmente está com todos. E, também acho que as pessoas pensam

sempre mais só em si (GrFocMST).

Discordaram da afirmação de que as pessoas se preocupam apenas consigo mesmos,

justificando:

Eu penso que não é bem assim. Tem muita gente que faz trabalho voluntário. E,

embora não esperamos recompensa, acabamos recebendo (GrFocEBP).

Não dá mais para pensar só em si. As pessoas se ajudam. E, nós temos que ajudar

porque podemos precisar do outro (GrFocSgSL).

Não concordo, porque o outro é importante. Porque ele precisa de mim e também

porque podemos fazer um trabalho em conjunto em que os dois ganham

(GrFocEBP).

Não concordo. Porque é central no grupo a solidariedade. Também a

espiritualidade está ajudando a sermos mais solidários (GrFocPJE).

Outros jovens concordaram, com a afirmação, com ressalvas, justificando com

depoimentos como:

Realmente acho que as pessoas ainda pensam mais em si. Mas muitos estão se

abrindo para as necessidades dos outros (GrFocSgES).

Nós ajudamos o necessitado, porque podemos precisar de alguém um dia

(GrFocSgSC).

A partir destas respostas, perguntamos: “Para vocês, é importante ser solidário?” Ao

que todos responderam afirmativamente, indicando ser muito importante a participação e a

solidariedade. Os jovens referiam como ações de solidariedade: o “sopão da solidariedade”, a

entre ajuda nas colheitas, as coletas de roupas e alimentos para distribuir entre os pobres.

Os cidadãos virtuosos, conforme Putnam (1996) são prestativos, respeitosos e

confiantes uns nos outros, ainda que haja divergência em relação a assuntos importantes. O

autor constata conseqüências da participação social em análise recente sobre iniciativas

comunitárias na América Latina, ressaltando a importância social da cooperação local e da

mobilização política, mesmo quando não se logram resultados práticos imediatos, mas por

contribuírem indiretamente para “combater o isolamento e a desconfiança mútua (PUTNAM,

1996, p. 102).

A formação para a solidariedade também pode ser intensificada através da educação

cidadã, como sugere Valdivieso (2003): “La educación ciudadana puede promover la

participación, mediante el conocimiento y la afirmación de valores positivos para la

convivencia, la responsabilidad, la tolerancia, la solidaridad y el sentido por la justicia”

(VALDIVIESO, 2003, p. 9).

Esta perspectiva de educação vai ao encontro da perspectiva de Humberto Ecco

(2000), sugerindo que a educação para a tolerância comece na “mais tenra infância, antes que

possa ser escrita em um livro, e antes que se torne uma casca comportamental espessa e dura

demais” (ECO, 2000, p.117).

Os jovens afirmaram, nesta pesquisa, os grupos como espaços formativos para a

tolerância, o respeito mútuo e a solidariedade, valores importantes para a conivência humana

e condições essenciais para construção de capital social.