CAPÍTULO I: Acidentes de Trânsito
3.3. Trânsito picoense
Varão (2007) informa-nos que o primeiro automóvel a rodar pelas ruas de Picos pertenceu ao senhor José Raimundo, e que teria se transformado em atração para a comunidade. As pessoas deslocavam-se para apreciar a novidade que chegou a Picos em 1922. No ano de 1925, segundo o mesmo autor, o coronel Francisco de Sousa Santos tornou-se o proprietário do primeiro veículo comprado por um morador de Picos.
Passados quase cem (100) anos das andanças do primeiro automóvel em Picos, a situação é, obviamente, bem diferente. Nos cálculos do presente estudo, trafegam em Picos diariamente, apenas no trecho observado para a pesquisa, trinta e cinco mil
trezentos e oitenta e quatro (35.384) veículos durante os dias “da semana” [segunda a sexta] e vinte dois mil e oitocentos (22.800) durante os dias do “final de semana” [sábado e domingo].
Para determinar o comportamento e os quantitativos dos veículos no fluxo do trânsito apresentados acima, foram feitas várias observações em momentos diferentes, nomeados nesta pesquisa como intervalos de tempo, e identificados como “i”, os quais variam de 1 a 8 do seguinte modo: i1, i2, [...], i8. Essas observações iniciais objetivaram descrever o comportamento do trânsito da cidade em um espaço de tempo de vinte e quatro horas (24 h). Repetiu-se a estrutura observacional para o trânsito em duas categorias, as quais foram chamadas de blocos, a saber: bloco Final de Semana e bloco Semana. Essa diferenciação foi empregada por entender que entre os blocos haveria heterogeneidade significativa de comportamento de fluxo, vinculado ao quantitativo de veículos circulando.
Portanto, a metodologia empregada para entender essa subdivisão, que nada mais é que a quantidade de veículos por intervalo de tempo trafegando em um espaço observacional ficou assim determinada: o primeiro bloco compreendido como o fluxo no trânsito em um dia de Semana, e o outro bloco como o fluxo no trânsito em um dia de Final Semana. Com as observações por intervalos, intentava-se determinar o comportamento desse fluxo, com base na quantidade de veículos por intervalo de tempo nos dois blocos.
Para coletar os dados e determinar os padrões de comportamento do fluxo do trânsito em Picos, foi criado um modelo matemático para ser alimentado com as quantidades de veículos observados em cada intervalo de tempo determinado. A construção dos intervalos (i) a serem observados foi realizada com o auxílio de várias consultas a agentes de trânsito, populares e motoristas, para tentar determinar os espaços temporais em que o fluxo de veículos tendia a ser mais homogêneo em Picos. Desse modo, com os horários com mais frequência em termos de homogeneidade do fluxo, ou seja, com pouca variação na presença de veículos, determinaram-se os intervalos a serem criados para a observação. As intercessões das opiniões, que foram muito parecidas, produziram oito (8) intervalos, por isso numerados de i1 a i8. Como o critério principal para determinar tais intervalos foi a homogeneidade no fluxo, produziu-se intervalos de tempo com tamanhos diferentes, tendo duração de duas (2), três (3) e
quatro (4) horas. Para termo de comparação, os intervalos foram os mesmos para o bloco Final de Semana e para o bloco Semana. Os intervalos, seus respectivos horários e duração estão descritos na Tabela 4148.
Tabela 41: Intervalo de tempo para os blocos Semana e Final de Semana.
ESTRUTURAS DE INTERVALO DE TEMPO
INTERVALO HORÁRIO DURAÇÃO
i1 00h às 04h 4h i2 04h às 06h 2h i3 06h às 08h 2h i4 08h às 11h 3h i5 11h às 14h 3h i6 14h às 17h 3h i7 17h às 20h 3h i8 20h às 00h 4h
Fonte: Elaborada pelo autor.
Em cada intervalo, foi observado um quarto de hora (15 min) como período temporal amostral, pois partiu-se do princípio que dentro desse intervalo a variação do número de veículos seria pequena, desse modo o período amostral de cada intervalo poderia ser escolhido aleatoriamente. Feita a observação e o registro, a quantidade média de veículos por intervalo foi determinada através da multiplicação da quantidade de veículos observados no período temporal amostral pela quantidade de quinze minutos (15 min) existentes nas horas de duração de cada intervalo. Exemplificando: durante o intervalo i1 no bloco Semana, foram observados oitenta (80) veículos trafegando durante o período amostral. Como esse intervalo conta com quatro horas (4 h), totaliza-se dentro desse intervalo dezesseis (16) “tempos” de quinze minutos (15 min), sendo, portanto, o dezesseis (16) um dos fatores da multiplicação e o outro fator a
48 Observa-se que há correspondência do minuto final e inicial de cada horário, por exemplo, 04h00min marca o início do intervalo i2 e o final do intervalo i1. Esta correspondência se deu para obedecer aos intervalos sugeridos pela maior parte das pessoas questionadas sobre as horas em que haveria regularidade no quantitativo de veículo no fluxo do trânsito em Picos.
quantidade de veículos registrados, ou seja, oitenta (80), tendo como resultado a presença média de mil duzentos e oitenta (1.280) veículos trafegando nesse intervalo. A escolha do horário para o registro do período amostral dos blocos ocorreu de modo aleatório, com a ressalva de não ser a transição de um intervalo ao outro.
O cálculo para o intervalo i1 para o bloco Semana é exemplificado na Tabela 42.
Tabela 42: Cálculo de intervalo de tempo.
EXEMPLO DE CÁLCULO DE VEÍCULOS POR INTERVALO Intervalo Veículos observados em 15 min de
(i)
Cálculo Total médio
i1 80 80 x 16 = 1.280
Fonte: Elaborada pelo autor.
Desse modo, a fórmula que determina o número médio de veículos no espaço de todos os intervalos, ou seja, vinte e quatro horas (24 h) fica assim determinada de acordo com a Equação 01.
N= ∑8i=14. ni. hi Equação 01
Onde:
N = veículos por bloco observado;
∑8i=1= somatório do número de veículos observados por intervalo; ni = número de veículos no período temporal amostral;
hi = número de horas em cada intervalo.
Após construir o modelo matemático para determinar o comportamento do quantitativo veicular do fluxo no trânsito picoense, o próximo passo metodológico foi escolher um local para observação e coleta dos dados. A escolha foi feita pelo fator de menor possibilidade de “perda” de veículos na contagem, que chamamos de fator de perda, essa perda era caracterizada pela possibilidade do veículo após entrar no espaço amostral convergir em algum local antes do ponto de observação e não ser contabilizado.
Picos é constituída por um eixo principal composto pela BR 316 convergindo na Transamazônica, a qual na altura da parte urbana do município atravessa a cidade de ponta a ponta. Esse eixo contém três (3) rotatórias que podem redirecionar, para vários sentidos, os veículos que percorrem parte desse trecho. Tendo como referência o sentido Picos/Teresina, tem-se respectivamente: a rotatória localizada no bairro Junco, popularmente conhecida como “Balão do Junco”, a qual pode direcionar os veículos que circulam pela BR 316 para as regiões sul e sudoeste do Piauí através da BR 407, bem como servir de conector dessas regiões com a BR 316. Posteriormente, há a rotatória que dá acesso ao centro da cidade, conhecida em Picos como “Balão do Centro”, localizada próximo à única passarela existente na cidade, essa rotatória pode redirecionar os veículos que circulam pela BR 316 para o centro da cidade ou para a Rodovia Estadual PI 238, dando acesso às cidades que ficam a nordeste de Picos. A última rotatória, no final do núcleo urbano, pode redirecionar os veículos também para o centro da cidade pela Avenida Severo Eulálio ou para a rodovia estadual PI 379, que dá acesso aos munícipios que ficam a noroeste de Picos, como Aroeiras do Itaim e Paquetá. Para resolver o problema de qual local seria escolhido para ponto de observação, construiu-se a seguinte metodologia: um trecho da BR 316, que notoriamente é a “artéria” principal do trânsito de Picos, foi escolhido como ponto inicial e ponto final de fluxo de um veículo hipotético. A determinação desse trecho ocorreu por meio de indagação a um morador antigo e respeitado na região, que mora às margens da BR citada há mais de trinta (30) anos, e que realizou durante a sua vida constantes viagens saindo e retornando constantemente a Picos, o Senhor Antônio Vieira. A pergunta feita ao Sr. Antônio foi: “Onde teria Picos seu início e seu fim, tendo como referência a Rodovia Federal 316 para quem está chegando ou saindo da cidade?”. A resposta remeteu primeiro a um conjunto de postos de combustível e a um posto fiscal próximo a uma churrascaria de nome Churrascaria do Irmão, localizada no bairro Morrinhos, esse local foi informado, portanto, como um desses pontos limites. A Comunidade de Fátima do Piauí, já a certa distância da zona urbana, foi apontada como outro ponto limite. De um ponto ao outro destes pontos, o trecho contabiliza um total de vinte e quatro quilômetros e cem metros (24,1 km), atravessa totalmente Picos e é o referencial espacial para a observação das possibilidades de um veículo se manter (ou não), percorrendo (ou não) todo o trecho na trajetória imaginária criada entre os dois limites aqui apresentados e determinados. O ponto no bairro Morrinhos foi considerado como
ponto de partida, portanto, Ponto “A”. Os desvios mais prováveis foram nomeados por ordem alfabética até a entrada para a Comunidade de Fátima do Piauí, chamada de Ponto “G”. No sentido contrário, ou seja, do Ponto “G” ao Ponto “A”, foram considerados os mesmos desvios.
Seguindo na estrutura de determinação quantitativa do fluxo do trânsito picoense, passou-se a mensurar a possibilidade do veículo se manter ou não na trajetória. Após a escolha hipotética de alguns pontos para a observação, foram desenhadas as principais possibilidades de desvios de percurso e escolhido hipoteticamente o melhor ponto para observação. São indicadas na Figura 09 as principais possibilidades as quais o veículo, na trajetória imaginária, poderia seguir ao adentrar no sentido “A” ao “G”. Portanto, desse modo tínhamos o modelo matemático e o espaço amostral para a descrição matemática das características do trânsito picoense, tão importante para a formação das características urbanas da cidade.
Segundo Mendonça; Leitão (2008) existe uma miríade de fatores que podem tornar os grupos humanos suscetíveis a impactos de diversos riscos variados presentes nos espaços urbanos. Identificamos o trânsito como um dos fatores potenciais para a ocorrência desses impactos, bem como seu entender, como vertente que facilita o enfrentamento destas ocorrências quando se tornam negativas por meio de ações coordenadas para minimizar ou por fim a alguns dos impactos gerados como custos causados por acidentes, poluição, congestionamentos, resgate de vítimas, atrasos, stress, violência, bem como outros fatores mais difíceis de captar, como, por exemplo, desordem de stress pós-traumático ao testemunhar um acidente, custo por atraso devido no trabalho causado pelo trânsito.
Seguindo na estrutura de determinação quantitativa do fluxo do trânsito picoense, passou-se a mensurar a possibilidade do veículo se manter ou não na trajetória hipotética construída. O intervalo espacial escolhido também serviu de referência para a coleta de dados para outras variáveis que apareceram posteriormente na pesquisa. Após a escolha hipotética de alguns pontos para a observação, foram testadas possibilidades de esse veículo ser ou não contabilizado na observação. Desse modo, um esboço bem simples das possibilidades de um veículo se manter ou não na trajetória imaginada no sentido Picos/Teresina ou Morrinhos/Fátima foi construído e analisado para a escolha do ponto de observação. Após muitas possibilidades de convergências, entradas e saídas
pela BR 316 e possibilidades de tomadas de ruas alternativas referente ao fluxo doméstico – de quem não está de passagem pela cidade - do trânsito de Picos identificamos o Ponto “C” embaixo da passarela, próxima ao “Balão do Centro” como ponto possível de menor perda, e, portanto, como ponto de observação49. A Figura 09 indica as possibilidades de sentidos que o veículo na trajetória imaginária poderia seguir.
Figura 09: Esboço da possibilidade de manutenção de veículo na BR 316.
Fonte: Elaborada pelo autor50 em 2016.
Escolhido o ponto de observação, passou-se a coleta amostral e a contabilização média dos carros por intervalo “i” para, desse modo, descrever o fluxo no trânsito de Picos, os dados obtidos para os dois blocos foram tabelados e analisados.
A análise referente ao comportamento do fluxo no trânsito no bloco Semana apontou um comportamento variante entre os intervalos, condizente com fatores sociais que interferem no comportamento do trânsito como: ida ao trabalho, saída e entrada de
49 Elaboramos um trabalho posterior contabilizando o fator de perda do Ponto “C” e observamos que esse fator de perda é negativo, ocorrendo na verdade um ganho nos números de veículos quando contabilizamos os carros que entraram na trajetória no Ponto “B” e os que passaram pelo Ponto “C”. Já estamos com os resultados e o trabalho será publicado em 2018.
50 A Figura 09 é meramente representativa, não segue uma relação de proporcionalidade em relação às vias.
alunos nas instituições educacionais (i3), saída e retorno de trabalhadores para o almoço (i5), retorno dos trabalhadores para casa no fim da tarde e deslocamento de alunos para as instituições de ensino superior e cursinhos que funcionam à noite (i7). A Tabela 43, referente ao bloco Semana, apresentou os seguintes dados e resultados.
Tabela 43: Bloco Semana, e os intervalos, tipo de veículos, quantidade de veículos observados em quinze minutos (15 min) por intervalo e média de veículos por intervalo em vinte e quatro horas (24 h).
NÚMERO DE VEÍCULOS REGISTRADOS EM 15 MINUTOS POR INTERVALO (I) NO
BLOCO SEMANA