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Habitualmente, trabalhadores de um mesmo local di-videm diferentes padrões de adoecimento. Em decorrência de sua profissão, os trabalhadores podem adoecer ou morrer por causas ou condições relacionadas ao trabalho ou à for-ma como ele é realizado (BRASIL, 2001). Observamos que fatores mecânicos e agentes físicos e químicos constituem as principais causas dos acidentes e das doenças ocupacionais no setor secundário ou na indústria, enquanto a utilização inadequada ou indevida de defensivos agrícolas, as contami-nações orgânicas, os fatores biológicos e o esforço físico re-presentam riscos para os trabalhadores engajados nas ati-vidades do setor primário (CAMARANO; PASINATO, 2008).

Os acidentes de trabalho acontecem nos diferentes se-tores de atividades e ocupações. Todavia, Bortoleto et al.

(2011) identificam maior prevalência entre profissionais que apresentam mão de obra menos qualificada, menores salá-rios, menor capacidade de decisão, entre aqueles que não possuem uma representação sindical efetiva, que não conhe-cem seus direitos, tanto de cidadãos quanto de

trabalhado-res, e que, na maior parte dos casos, pertencem ao mercado informal. Para Miranda et al. (2012), a maior parte dos aci-dentes atinge homens jovens e produtivos, participantes ati-vos na força de trabalho e em atividades de maior grau de risco. Os autores apontam, ainda, a construção civil e o ramo dos transportes como as atividades com as maiores frequên-cias de acidentes de trabalho fatais.

De outra parte, avaliando a questão de gênero por meio das taxas de absenteísmo-doença, observamos que homens e mulheres estão inseridos em setores com características dis-tintas em níveis de exigência e demandas mentais e emocio-nais, que contribuem para aumentar ou diminuir o risco de incapacidade para o trabalho e, assim, justificar diferenças observadas no afastamento de trabalho por doenças (BEK-KER, 2003; BEKKER; RUTTE; VAN-RIJSWIJKC, 2009). O estudo de Bekker (2003) evidencia que as mulheres apresen-tam maior taxa de absenteísmo por doenças.

A idade é outra variável associada às diferenças de gê-nero nas prevalências de afastamento por doenças: os ho-mens sofrem mais afastamentos na faixa etária compreen-dida entre 55 e 64 anos de idade e as mulheres entre 20 e 54 anos. Ainda, observa-se que os homens apresentam afasta-mentos de longa duração quando comparados com as mulhe-res, que se afastam por períodos de tempo menores (BEK-KER, 2003; BEKKER; RUTTE; VAN-RIJSWIJKC, 2009).

Também, considera-se a idade um importante fator de ris-co para transtornos musculoesquelétiris-cos: quanto mais velho for o trabalhador maior é o risco de desenvolver doenças re-lacionadas ao trabalho (KINES et al., 2007).

Os trabalhadores jovens, com menos de 29 anos de ida-de, por sua vez, estão mais propensos a acidentes típicos de trabalho. No limite, aponta-se a ocorrência de elevada mor-talidade entre trabalhadores com idade até 30 anos e do sexo masculino, com um coeficiente de mortalidade oito

ve-zes maior para os homens em relação às mulheres (MIRAN-DA et al., 2012).

Em termos de setor de atividade, a construção civil re-presenta, no Brasil, um setor com grande absorção de mão de obra, constituindo um setor produtivamente importante no cenário econômico. Em contrapartida, esse setor destaca--se como um dos ramos produtivos de maior risco ocupacio-nal (TAKAHASHI et al., 2012). Vigil et al. (2007) demostram que os transportadores de carga manual, que atuam no setor informal, chegam a carregar cargas de até 150 kg, podendo movimentar diariamente de 10 a 20 toneladas, sem nenhu-ma proteção à saúde e à segurança desse trabalhador. A prá-tica de trabalho desgastante, com movimentos intensos e re-petitivos, reflete uma prevalência de problemas osteomioar-ticulares, destacados por sintomas como lombalgia, cervical-gia e tendinites (ALENCAR; CARDOSO; ANTUNES, 2009).

Já, em relação ao tipo de acidente, as lesões mais pre-valentes entre os beneficiados do auxílio doença do Institu-to Nacional do Seguro Social (INSS) foram as doenças os-teomusculares e os transtornos mentais e comportamen-tais. Entre os grupos da Classificação Estatística Interna-cional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), os mais prevalentes foram os traumatismos do punho e da mão, outros transtornos dos tecidos moles e as dorsopatias (ALMEIRA; BARBOSA-BRANCO, 2011). Costuma-se asso-ciar as doenças de ordem psíquica (depressão, ansiedades, fobias, entre outras) aos sentimentos de inutilidade, resul-tando em uma diminuição da qualidade de vida (GANGO-PADHYAY; DAS, 2012; LAKHANI, 2004). Na mesma dire-ção, condições precárias de trabalho, principalmente entre trabalhadores manuais, apresentam uma maior probabili-dade de desenvolver doenças coronarianas, desordens men-tais e musculoesqueléticas (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2005).

Os empregados do setor privado apresentam taxas sig-nificativamente menores de acidentes e doenças do que os do setor público (BROW, 2011). O tamanho das empresas tam-bém está relacionado à frequência dos acidentes de traba-lho. Empresas com mais de 200 trabalhadores apresentam uma incidência menor de acidentes em comparação com em-presas com menos de 20 trabalhadores (LUND et al., 2008).

Esse fenômeno pode ser explicado pelo fato de que empre-sas maiores contam com uma maior organização dos seto-res, com melhores salários, bem como com maior conscien-tização em relação aos direitos dos funcionários, à saúde e à segurança do trabalhador (BARBOSA-BRANCO; SOUSA;

STEENSTRA, 2011).

A análise realizada por Camarano e Pasinato (2008) em relação ao envelhecimento funcional indica como tendência, em médio prazo, o crescimento das saídas do mercado de tra-balho por doenças osteomusculares, cardiovasculares, respi-ratórias e mentais. Explicam que as exigências do trabalho tendem a aumentar com a idade, principalmente em cená-rios de crescimento econômico e tecnológico. Complementam que, mesmo com o avanço da medicina e da tecnologia mé-dica, as transformações observadas no mercado de trabalho, nos processos de produção, com o aumento da terceirização (e da consequente precarização envolvida), da participação das mulheres nas atividades econômicas e do envelhecimen-to, tanto da população quanto da PEA, tendem a contribuir para o aumento dessas morbidades. Dessa forma, argumen-tam que, ainda que o envelhecimento esteja normalmente associado ao declínio da capacidade funcional, o seu ritmo depende das diferentes categorias ocupacionais e das quali-ficações requeridas para o exercício das atividades.

Conclusão

O estudo destaca que, ainda que o trabalho envolva uma compreensão interdisciplinar, o aspecto econômico tem levado a sociedade a racionalizá-lo no contexto do mercado, da oferta de trabalho e do ciclo econômico de vida, influen-ciando a qualidade de vida, o padrão de consumo e os modos de vida. Essa racionalidade tem demonstrado condições de trabalho díspares, sobretudo em países em desenvolvimen-to, nos quais a precarização dos espaços de trabalho tende a (re)produzir um ambiente de exposição da saúde do traba-lhador. Uma aproximação da hipótese do ciclo econômico de vida, de Modigliani, com os dados empíricos do Brasil indi-ca uma postergação no ingresso e na aposentadoria da po-pulação economicamente ativa. O avanço da idade, associa-do aos agravos decorrentes associa-do meio ambiente, pode gerar sé-rios problemas de saúde aos trabalhadores que envelhecem.

Considerando que o acidente de trabalho pode signifi-car o fim da vida de um trabalhador ou levar à perda e ou à diminuição da capacidade para o trabalho, além do fato de que é afetada não apenas a capacidade física, mas também a dignidade das pessoas, em função da representação social do trabalho, o campo da saúde do trabalhador reveste-se de im-portância crucial. Nesse sentido, o maior desafio que se colo-ca é em relação aos trabalhadores pertencentes ao setor in-formal, número que tende a crescer em função dos processos de terceirização, o que implica um contingente maior de tra-balhadores à margem da fiscalização das condições adequa-das de saúde e segurança do trabalhador.

Constatamos que os acidentes de trabalho acontecem em diferentes setores de atividades e ocupações, mas há pre-valência de acidentes entre os profissionais com menor qua-lificação e desprotegidos em termos de legislação. Predomi-nam os casos de homens jovens e produtivos, participantes

ativos na força de trabalho e em atividades de maior grau de risco, como é o caso da construção civil e do setor de trans-portes. Já, em relação ao tipo de acidente, entre os beneficia-dos do auxílio-doença, a incidência é de doenças osteomus-culares e transtornos mentais e comportamentais, por meio de traumatismos do punho e da mão, transtornos dos tecidos moles e dorsopatias e doenças de ordem psíquica, como de-pressão, ansiedade e fobias.

Por fim, o estudo aponta para a necessidade de avan-çarmos na direção de uma cultura da saúde do trabalhador, de forma a garantir que, para além do processo natural de perda da capacidade funcional resultante do processo de en-velhecimento, possamos preservar as condições biopsicosso-ciais implicadas nos processos de trabalho, implementados nos moldes da racionalidade econômica.

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