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4.1 Um quadro teórico para compreensão das migrações

4.1.1 Trabalhadores livres e limitados e trabalhadores sem trabalho

No primeiro tronco teórico proposto, o modelo neoclássico, os movimentos populacionais nascem do desequilíbrio de fatores de produção entre diferentes países e regiões. As regiões de economia mais dinâmica servem de atrativo para os trabalhadores de regiões mais atrasadas. Assim seria explicada a transferência das populações das regiões agrícolas com elevado contingente populacional, baixos salários e abundante oferta de trabalhadores para regiões urbanas e industriais (SALIM, 1992).

A decisão de migrar, para os autores neoclássicos, é um ato soberano do indivíduo e os fluxos migratórios, a soma de decisões individuais. Faz parte do paradigma neoclássico o pressuposto de que o indivíduo pauta sua vida por escolhas racionais que o orientam na busca de melhores empregos, salários, condições de vida.

O migrante detém sua força de trabalho que constitui fator de produção necessário ao processo de desenvolvimento econômico. A liberdade deste trabalhador é também um pressuposto da corrente neoclássica. Ele é um livre limitado, pois, é livre para vender sua força de trabalho no mercado, por princípio, em qualquer lugar do país ou do mundo. Ela lhe pertence como uma mercadoria especial, todavia, como qualquer mercadoria, necessita de alguém que esteja disposto a adquiri-la. Vale aqui lembrar Castel (1998), para quem “a

propriedade de si” sempre e somente foi um privilégio das camadas de cima no espaço social.

No entanto, ao mesmo tempo em que é livre, é também obrigado a vendê-la, porque esta é única mercadoria de que dispõe e a sua venda é a forma legítima no sistema capitalista que pode lhe assegurar a sua sobrevivência, portanto, sua reprodução social.

As migrações são vistas como positivas para este modelo: transferem o excedente de população de áreas estagnadas para setores mais dinâmicos da economia, reequilibrando, pelas próprias forças alocativas do mercado, a oferta de mão de obra nas regiões de origem e destino. Assim, às migrações são atribuídas a capacidade de reorganização produtiva no espaço geográfico e a busca pelo equilíbrio quantitativo da relação entre capital e trabalho, assim expressos, na proposição de Salim, (1992, p. 125):

Sendo consequência das diferenças regionais, a migração tem papel decisivo na eliminação dessas diferenças, atuando como fator corretivo dos desequilíbrios socioeconômico no espaço. É o mecanismo que restaura o equilíbrio, e como tal, otimiza a oferta e a procura entre diferentes setores e subespaços, incidindo positivamente nos níveis de produtividade e, principalmente, nos diferenciais regionais quanto as condições de renda e emprego.

O mercado permite aos trabalhadores, que são tidos como dotados de racionalidade econômica, a possibilidade de locarem da maneira mais adequada o recurso de que dispõem – a mercadoria força de trabalho. E, como nesta teoria, o mercado é reconhecido como o mais eficaz mecanismo para otimização do uso de recursos, toma-se indesejável qualquer intervenção externa, “qualquer tentativa de bloquear o livre jogo de oferta e procura de localizações implicaria em um distanciamento em relação ao ponto ótimo para o equilíbrio espacial, ótimo para o capital e, por conseguinte, ótimo para toda a sociedade” (VAINER, 2005, p. 20).

Segundo Raczynski (1983), citado por Salim (1992, p. 123), as correntes neoclássicas apoiam-se em três fatores determinantes das migrações: (i) os diferenciais de salário e emprego entre regiões; (ii) a análise racional de custos e benefícios (os materiais e os subjetivos) da mudança ou da permanência; (iii) as correntes migratórias originam-se da somatória de decisões individuais de migrar.

As teorias neoclássicas são assim denominadas porque representam:

[...] a continuidade das preocupações dos economistas clássicos com a questão do equilíbrio econômico e da função do trabalho no mesmo. Para eles, a mobilidade do trabalho deveria ser perfeita, acompanhando a tendência geral da circulação de

mercadorias num espaço que tende a homogeneidade (PÓVOA-NETO, 1997, p. 16).

Como posicionamento crítico deve-se chamar a atenção de que, nesta concepção teórica sobre os movimentos migratórios, não passam pelas análises as imperfeições estruturais do mercado e suas variações conjunturais. Para as teorias neoclássicas, o mercado tem a inerente capacidade de regular a movimentação de pessoas livres sobre espaços geográficos homogêneos, que podem estar momentaneamente desequilibrados, mas que tendem sempre ao equilíbrio. Nega-se, assim, a complexidade da realidade social e econômica em seus inerentes conflitos e contradições.

Ademais, no mercado de trabalho capitalista, a venda da força de trabalho é apenas uma possibilidade, não há garantia da sua efetivação, mas há apenas a garantia de um abstrato direito do trabalhador em fazer uso dela. Pode ocorrer, como comumente ocorre nas crises cíclicas do capitalismo, que este vendedor potencial não encontre compradores para a sua mercadoria-força de trabalho e vá engrossar o contingente de “trabalhadores sem trabalho”, na expressão de Hanna Arendt (2007), “vulneráveis, novos inúteis ou desfiliados”, nas expressões de Robert Castel (1998) ou dos “supérfluos”, ou “sem papéis”, ou dos “que simplesmente perambulam pelo mundo” nas de Dieter Heidemann (2004). Estes delineiam uma feição trágica e recorrente nas sociedades modernas atuais em todo o mundo, mas não são apropriadamente contemplados nas análises neoclássicas sobre as migrações.

Esse paradigma explicativo serviu para compreensão dos processos migratórios dominantes que foram as intensivas migrações rurais-urbanas no Brasil, prevalecentes até a década de oitenta do século passado, responsáveis pela imensa transferência dos excedentes populacionais de regiões rurais para os centros urbanos mais dinâmicos do país (BRITO, 2002; 2009). Entre o início da década 1960 e o final da de 1980, migraram do campo para a cidade perto de 43 milhões de pessoas, como constataram Carvalho e Fernandes, (1996).

Contudo, para compreensão das migrações temporárias ou sazonais, das pendulares, de retorno, o modelo se mostra insuficiente, não conseguindo abarcar as dimensões culturais e novos arranjos estruturais das sociedades envolvidas no processo migratório. Os migrantes do café continuam se movendo por razões que as teorias neoclássicas enumeram para as migrações, no entanto, há motivações antigas e atuais que escapam a sua estrita racionalidade. É o que pretende abordar mais adiante.