Sobre o trabalho, Osmar, relatou:
Tem uma parede da dona Maria aí, ó, o cara vai me chamar aí ó, vai dar pra pegar um dinheiro aí, vou lixar lá pra ela lá...
(...) tem tudo isso, tem a casa de Penha pra lixar, tem o portão... tem tanta gente que me chama pra lixar uma casa, uma parede, uns negócio...
(...) tem uns serviços pra mim, tem essa não, trabalho, levo as coisas pros outros aí, ganho o meu dinheiro... Uma vez eu fui levar os azulejos pro cara, e ele me pagou tudo em dinheiro assim pra mim. Me pagou todo o dinheiro pra mim.
(...) e aí, o que você fez com a grana, você lembra? (entrevistadora) Eu lembro. Não gastei.
[riso] que eu fiz? Explica.
(...) [pausa] Não gastei. ...Dei tudo. ...Pra minha mãe, tudo. Fiquei sem nada no bolso. Não quero ficar com mais nada no bolso não. Eu não compro doce, não faço nada (Osmar, 21).
Rosa relatou sobre sua primeira experiência de trabalho, aos 24 anos, quando foi contratada como auxiliar de limpeza no Hospital das Clínicas de São Paulo. Após crises (epiléticas) foi readaptada para o cargo de recepcionista na creche da instituição.
(...) Da creche, só saí agora, depois de aposentada.
Era gostoso, né... Inclusive as crianças que passou por mim, quando era bebezinho, tornaram outras criança! O que eu vejo são duas meninas aqui que são de lá... que passavam por mim que tão maiores do que eu!
Porque, era uma coisa que eu tava gostando. Fazia bem pra mim, sair de casa, ir pro serviço, voltar. Fazer as coisas dentro de casa... Tava fazendo bem pra mim. Agora eu tô inútil! (novamente bate as mãos contra as pernas).
A mãe de Rosa, Iraci, também se recordou do período em que a filha trabalhava, organizava a casa e cuidava do bebê, rotina que foi interrompida pelas crises epiléticas:
Porque tá certo que esse negócio dela ficar muito parada, porque ela sempre foi ativa né, ela levava a menina, ia pro serviço, trabalhava lá, chegava, ainda ia lavar roupa na mão porque não tinha nem máquina, né, passava as roupa dela, que a roupa dela sempre foi bem passadinha, a cama ela sempre forrou, que era muito pesada... tudo isso ela fazia direitinho (Iraci, 72 anos).
Para os entrevistados, com exceção de Marisa, que nunca realizou atividade remunerada, o trabalho foi uma das esferas do cotidiano de maior relevância. Em nossa sociedade, a inserção no trabalho é a expectativa de todo jovem e adulto, sinônimo de independência financeira, autonomia, autorealização, maturidade, reconhecimento social e poder. O processo de aquisição da deficiência, condição enfrentada por três sujeitos entrevistados, teve como consequência importante o afastamento do trabalho, o que gerou sofrimento e acentuação do sentimento de desvalorização social. No caso de Antonia, Rosa e Adriano o processo de ruptura com o trabalho foi efetivo e a reapropriação da vida cotidiana ocorreu de modo singular para cada entrevistado de acordo com as habilidades remanescentes, a aquisição de benefícios previdenciários e apoio familiar e social, com o qual cada sujeito pôde contar para reestruturar o cotidiano. Para Osmar, jovem com deficiência mental, o trabalho também tem importância central em sua vida, porém é uma atividade que exerce a partir de contradições e conflitos, dadas as condições sociais e cognitivas que possui além do contexto onde desenvolve as atividades.
Para Osmar, trabalhar é essencialmente ganhar dinheiro, embora não usufrua deste recurso e ofereça todo dinheiro à mãe. Na fala de Osmar observou-se que é através do trabalho que ele se relaciona e é reconhecido socialmente. D. Maria, D. Penha, o “cara dos azulejos” são figuras importantes na vida dele, que solicitam seu trabalho e em troca o remuneram, lhe dão comida e atenção. Porém, moradores e familiares afirmam que Osmar é ingênuo, não reconhece o valor do dinheiro e, por
vezes, é explorado por alguns de seus contratantes, sendo sub-remunerado. Nesse sentido, a comunidade é ambígua: ela é provedora de oportunidades, mas também se caracteriza como um espaço de exploração, reproduzindo as relações sociais de dominação e humilhação em detrimento das relações pautadas na solidariedade e na ética.
Para Antonia, que teve a vida produtiva interrompida pela aquisição da deficiência, o trabalho é lembrado de modo saudoso, embora a descrição das atividades realizadas indique um cotidiano penoso no que se refere ao desgaste físico e emocional ao cuidar de pessoas idosas e dependentes. Antonia, ao relatar esse momento de sua vida, empregou os verbos no presente (às vezes eu tô na lavanderia,
às vezes eu tô na limpeza...), como se ainda estivesse trabalhando neste local.
Embora nos dias atuais exerça funções como a de cuidadora de senhora idosa e de faxineira, referiu que, após o emprego no asilo, nunca mais trabalhou. Talvez para Antonia a realização de atividades no mercado informal não tenha status de trabalho, sendo as atividades domésticas realizadas pela mulher pouco valorizadas socialmente.
No caso de Rosa, a reestruturação da vida cotidiana após o afastamento do trabalho mostrou-se inconsistente, dada a condição de sofrimento psíquico e do isolamento social. A função que exercia na creche, de controlar a entrada e não permitir que nenhum homem (pai) retirasse as crianças, pareceu uma função de controle, que correspondeu às suas competências e ao perfil pessoal. Porém a crise epilética, que segundo ela provocou medo em suas colegas, bem como a fragilidade psíquica, a afastaram do trabalho. Recebeu a notícia do mau prognóstico pelo médico e permaneceu “tocada”, escondida em uma toca, onde parece permanecer até os dias
atuais. Rosa sente falta das ações do cotidiano que realizava no período em que trabalhava: levantar, arrumar o bebê, sair, ir para o serviço, voltar, fazer as coisas dentro de casa. Diante desta ruptura sente-se inútil, incapaz de retomar as atividades mais elementares para sua própria sobrevivência.
Os entrevistados apresentaram as contradições presentes no campo do trabalho e da pessoa com deficiência em suas diferentes dimensões e possibilidades. As experiências de trabalho apresentadas dizem respeito a uma conjuntura econômica, social e política na qual o corpo humano tem sido compreendido como uma máquina de produção, totalmente alienado ao trabalho e sequestrado de seu aspecto subjetivo, sendo alvo de sofrimento psíquico e físico, de humilhação social e opressão. Essas são as vivências de trabalho impostas à maioria dos trabalhadores moradores de áreas periféricas da cidade de São Paulo, e que podem estar relacionadas aos processos de adoecimento e de aquisição de deficiências relatadas pelos entrevistados. Embora o trabalho tenha sido abordado a partir da demanda de participação comunitária e de sobrevivência, as experiências também o indicam como fonte de sofrimento e alienação, uma característica importante da vida cotidiana.
Contudo, o sonho de um futuro melhor ainda está relacionado à esfera do trabalho. Para Marlene, ao pensar no futuro de Osmar, ela evoca a lógica da ordenação social e do mérito individual: por se tratar de um menino bom, trabalhador, “eu tenho certeza que mudar pra pior ele não vai”. Ser trabalhador é a qualidade que o afastaria do risco social da delinquência e da violência. Ela reconhece que, no futuro, possam existir políticas de trabalho para pessoas com
deficiência, o que para O. seria uma oportunidade de trabalho e, consequentemente, patamar para a cidadania:
(...) porque eu sei que ele não pode trabalhar (Osmar), mas, diante das alternativas que aparecer, e o governo constatar que doente mental pode trabalhar, quero que trabalhe também, porque nada vem, passa se não tiver do suor do seu rosto. Você concorda? É o que eu quero pro Osmar, que, graças a Deus eu não tenho o que dizer, não é um moleque que fica pra lá e pra cá, não é um moleque que fica com mau andamento pra lá e pra cá, as amizades dele pode ser erradas, mas não se mistura, né, todas as pessoas que dão coisas pra ele são pessoas boas, então eu acho que quem se mistura com uma safra de uva boa, vai dar colheita boa (Marlene, 45).