3. Capítulo 2 – Trabalho docente
3.3. Trabalho docente e saúde
As discussões que procuram relacionar trabalho e saúde/doença têm uma longa história na área das ciências sociais como no campo da saúde e suas especialidades (Souza & Leite, 2011). As análises de Marx em O Capital contribuíram na compreensão das condições de trabalho e suas implicações para a qualidade de vida e saúde dos trabalhadores, desvelando a lógica da exploração do trabalho assalariado com suas extensas jornadas, insalubridade, alienação do trabalhador em relação ao produto e processo de trabalho, baixos salários pela existência de um exército industrial de reserva, etc.
Na virada do século XIX para o XX, com a nova organização do trabalho inaugurada pelo taylorismo e fordismo, que aprofundou a alienação do trabalho pela divisão mais pronunciada entre trabalho manual e intelectual, controle rígido da gerência sobre o processo de trabalho, intensificação laboral, dentre outros, houve aumento das discussões sobre o tema da saúde no trabalho, embora as produções se voltassem em sua maioria para o interesse das empresas, concentradas nas áreas de medicina do trabalho, administração de empresas e engenharia de produção (Souza & Leite, 2011). Foi a partir dos anos de 1960, quando o próprio movimento operário passou a criticar mais incisivamente as condições de trabalho, que a discussão ganhou outros campos: sociologia, economia, antropologia, história, psicologia, etc., sendo marcada pela multidisciplinaridade (Souza & Leite, 2011). Na década de 1970 ocorreram mudanças no mundo do trabalho relacionadas a um novo modo de acumulação do capital denominado de flexível (Harvey, 2003, como citado em Souza & Leite, 2011), caracterizado por outro nível de internacionalização do capital, diminuição do Estado, regulação pelo mercado, novas exigências de conhecimento e qualificação, etc.
As experiências do pós-segunda guerra bem como as lutas dos trabalhadores e transição a outro modo de organização do trabalho inspiraram novas formas de conceber a relação entre saúde e trabalho, das quais se destacam a ergonomia da atividade e a psicopatologia do trabalho, ambas marcadas pela interdisciplinaridade (Silva & Ramminger, 2014; Souza & Leite, 2011). A ergonomia surgiu a partir do desafio, após a segunda guerra, de reunir profissionais de diferentes disciplinas com o objetivo de adaptar o trabalho ao homem, e não o contrário (Silva & Ramminger, 2014). A tradição francesa da ergonomia privilegiou a análise da atividade ao invés de centrar-se no componente humano, como fez a tradição inglesa, estabelecendo diferenças entre trabalho prescrito e trabalho real: o primeiro relativo a condições e exigências de execução, e o segundo referente ao modo de apropriação das tarefas, levando em conta as diversas possibilidades e imprevistos diante da ação (Silva & Ramminger, 2014). A ergonomia interessa- se pela atividade enquanto interação dinâmica entre o sujeito e sua tarefa, levando em conta o prescrito bem como as variabilidades a serem geridas pelo trabalhador.
Por sua vez, a psicopatologia do trabalho apontou para a relação entre determinadas ocupações e o adoecimento psíquico, compreendendo a organização do trabalho capitalista enquanto nociva à saúde mental dos trabalhadores (Silva & Ramminger, 2014). Souza & Leite (2011) colocam que a perspectiva inaugurou um novo paradigma teórico de referência, cujos princípios são: A consideração da organização do processo de trabalho e sofrimento imposto aos trabalhadores; As situações de saúde e doença percebidas como um continuum saúde/doença ao invés de opostos; Por outro lado, cabe mencionar a percepção de uma dimensão dinâmica do sofrimento, capaz de ensejar processos criativos de transformação, compreendendo o trabalhador e seus coletivos enquanto participantes de seu processo saúde/doença e não apenas receptores
passivos. A ergonomia e a psicopatologia do trabalho constituíram a base para a clínica do trabalho francesa (Silva & Ramminger, 2014).
As contribuições de Esteve (1999) aludem ao trabalho docente e às mudanças no mundo do trabalho, explorando a dinâmica das possibilidades e constrangimentos profissionais que afetam o trabalho dos professores, cunhando o termo “mal-estar docente”, cuja maior contribuição é o destaque às condições sociais do trabalho, colocando o professor na organização e em seu entorno social ao invés de isolado na sala de aula (Souza & Leite, 2011). O mal-estar docente é definido por Esteve como desencadeado pela desvalorização concomitante às constantes exigências profissionais, violência, indisciplina, etc., que podem gerar uma crise de identidade em relação à escolha da profissão e questionamento sobre o seu sentido.
Sobre a relação saúde e trabalho docente, existem diversas pesquisas que abordam o tema na perspectiva do estresse emocional e da síndrome de “burnout” (Souza & Leite, 2011). Particularmente em relação a esta última o professor é uma das categorias mais estudadas e suscetíveis, considerando que a síndrome costuma ocorrer em profissões que envolvem relações interpessoais intensas, maior investimento no cuidado e dedicação ao trabalho, além de discrepâncias entre expectativas e realidade (Souza & Leite, 2011; Cruz & Lemos, 2005; Carlotto, 2002). O burnout designa sofrimento por exaustão física e emocional pela exposição contínua a situações estressantes no contexto de trabalho, sendo sua definição mais aceita a proposta por Maslach e colaboradores, fundada na perspectiva social-psicológica, compreendendo três dimensões: a exaustão emocional/redução de energia, a despersonalização, que envolve o distanciamento e a frieza do trabalhador em relação a usuários de seus serviços e colegas, e realização profissional reduzida, relativa à auto avaliação negativa (Souza & Leite,
2011; Batista, Carlotto, Coutinho & Augusto, 2010; Carlotto, 2002). O burnout é um fenômeno complexo e multidimensional que resulta da interação entre aspectos individuais e o ambiente de trabalho, este considerado para além da sala de aula e da instituição, levando em conta fatores macrossociais (Carlotto, 2002).
A perspectiva de compreensão da relação entre saúde e trabalho adotada na presente pesquisa fundamenta-se no referencial teórico da clínica da atividade, uma abordagem de clínica do trabalho de origem francesa que será mais bem explicitada e aprofundada no capítulo seguinte, alinhando-se com uma visão dinâmica da atividade e do processo saúde/doença, levando em consideração a centralidade do trabalho para o desenvolvimento da subjetividade, seus atravessamentos históricos e sociais, além da posição ativa e potencialmente transformadora do trabalhador e dos seus coletivos sobre a própria atividade.