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Capítulo 3 A PRESENÇA DO TRABALHO INFANTIL NOS PERIÓDICOS

3.2 Subtemas em relevo

3.2.3 Trabalho Infantil na cidade

Foram reunidos neste 15 artigos: Gouveia (1983); Silva et al. (1983); Woortmann (1984); Spindel (1985); Chaia (1987); Faleiros (1987); De Toni (1996); Corrêa (1996); Marques (1996; 1998); Gomes (1998); Marques (2001); Alves et al. (2002); Facchini et al. (2003); Nogueira (2004). Reunimos também artigos que utilizaram a expressão ‘trabalho nas regiões metropolitanas’.

Destaca-se primeiramente a pesquisa de Gouveia (1983). Na página 56 a autora diz que o trabalho do menor embora “passível de subremuneração e exploração” não mereceu a atenção dos pesquisadores. Para o estudo foram “entrevistados 71 menores do sexo masculino e 25 do feminino, entre os 9 e os 17 anos de idade, que se encontravam em variados tipos de trabalho – de vendedores de rua e empregadas domésticas, funcionárias de escritório e aprendizes do SENAI colocados em fábrica” (p. 59). Entre o total de entrevistados, 20 eram menores de 14 anos.

Revelou que a proporção de menores trabalhadores aumenta à medida que baixa o rendimento da família, não obstante, recebam menos que os adultos. Pois: “Pressionado pela necessidade de ganhar dinheiro, o menor pode aceitar um emprego sem registro e, curiosamente, até mesmo ver certa vantagem nessa situação quando é levado, como se constatou, a acreditar que o empregador dessa maneira poderá pagar-lhe mais” (p. 59). Reforçam a idéia de que a extensão da escolaridade é importante para se obter um bom emprego.

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Na amostra, 66% dos menores do sexo masculino começaram a trabalhar antes dos 14 anos. Quanto às meninas, “o seu dever é ajudar nos serviços domésticos e cuidar dos irmãos menores” (p. 61).

Por fim, “acredita-se, em geral, que ocupando-se no trabalho em vez de vagar pelas ruas, cujos perigos são amplamente divulgados pela televisão, as crianças e os adolescentes ficam mais protegidos” (p. 61). O trabalho adquire visibilidade positiva, e nos entrevistados – com exceção de seis deles – um sentido de auto-realização, ou, como diz Gouveia (p. 61), “é a necessidade transfigurada em virtude”.

Em Silva et al. (1983) o artigo trata de um “estudo exploratório” realizado em quatro feiras de São Paulo. Em cada uma delas foram entrevistados cinco elementos, totalizando vinte carregadores do sexo masculino na faixa etária de 10 a 20 anos. O questionário continha 113 perguntas. Após oferecer um perfil detalhado acerca dos menores: tempo de trabalho na feira e em outras ocupações, escolaridade, renda familiar, tipo de habitação os autores concluíram que:

[...] a equipe observou que os entrevistados sentiram-se prestigiados e valorizados por serem alvo de atenção do entrevistador. Sente-se a preocupação do menor carregador quanto à criação e preservação de sua imagem não só junto à clientela a quem serve como também junto à comunidade em geral, no sentido de ser visto como um trabalhador íntegro e honesto, diferenciado daqueles que apresentam comportamento tido como pernicioso à sociedade (SILVA, et al., 1983, p. 101).

No estudo de Spindel (1985) foram entrevistados 800 menores (considerados as pessoas na faixa etária de mais de 10 e menos de 18 anos) em 8 regiões metropolitanas do Sul e Sudeste no Brasil, no primeiro semestre de 1982. Ressalta a vigência na sociedade de que “o menor pobre sem escola e sem trabalho é um perigo para a sociedade” (p. 27).

A autora afirma que “a incapacidade organizacional e o seu baixo poder de reivindicação são traços, no comportamento do menor, bastante valorizados pelos empresários” (p. 18). Essa observação também é realizada por Faleiros (1987, p. 8) que ao estudar os trabalhadores com idade entre 10 e 14 anos aponta a ausência de organização, através de sindicatos, dessa fração da força-de-trabalho que acaba contribuindo para uma super-exploração dessa parcela pelo capital.

A pesquisa de Chaia (1987) aborda o mercado de trabalho da Grande São Paulo, através de dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), da Fundação SEADE e DIEESE.

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Analisa os menores de idade, entre 10 e 17 anos. No primeiro trimestre de 1987, na Grande São Paulo, encontravam-se trabalhando nos mais diversos setores da economia, cerca de 615 menores de 10 a 17 anos (p. 9).

Depois de detalhar o perfil desse segmento social diz:

Parcelas de crianças e adolescentes da Grande São Paulo vivem o fenômeno do desemprego, que deve colidir com uma dupla necessidade: da família, que precisa aumentar a renda, e do próprio sujeito, que precisa continuar o processo de formação educacional e profissional. Premidos por estes fatores, a criança e o adolescente sofrem a violência que tem origem em uma situação sócio- econômica mais ampla (CHAIA, 1987, p. 16).

O estudo de Marques (1996) recolhe e analisa depoimentos de um grupo de “crianças e adolescentes marginalizados” composto por 11 meninos e 5 meninas com idades variando de 7 a 12 anos. As entrevistas mostraram a forma como vivem uma realidade que exige maneiras de sobrevivência para si e para suas famílias. Na fala de muitos meninos e meninas – o autor não informa o número – o “trabalho apareceu como um desvalor” que não oferece as condições mínimas para se viver como cidadão (p. 153).

Ao analisar os depoimentos, o autor argumenta que essa situação é gerada pela “necessidade de inserção precoce no mundo do trabalho, e em segundo, pelo compromisso dos laços familiares”. E conclui: “... é imprescindível mudar as condições sócio-econômicas, para se garantir a dignidade dessa população” (p. 157).

De Toni (1996) aborda a região metropolitana de Porto Alegre e a inserção de crianças e adolescentes – na faixa etária de 10 a 17 anos, no período de abril de 1992 à março de 1995 - no mercado de trabalho. Utiliza-se de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED).

Quanto ao grau de escolaridade, mais de 60% desse segmento populacional tem no máximo, o 1º grau incompleto. Ao desagregar o grupo em dois segmentos, constata-se que a taxa de participação de crianças entre 10 e 14 anos é de 6,3% e adolescentes de 15 a 17 anos é de 46,1% (p. 289). Para esse mesmo recorte, o desemprego atinge 37,2% e 34,8% respectivamente.

Ao final, a autora enfatiza a necessidade de formular e implementar programas municipais de apoio financeiro às famílias de baixa renda com crianças e adolescentes mantendo o compromisso de colocá-los na escola, ao contrário de projetos de alcance nacional que enfrentam desperdício e desvio de recursos e não atinge seu público alvo.

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O estudo de Gomes (1998) é fruto de mais de uma década de pesquisas sobre trabalho e socialização entre crianças e jovens de camadas populares urbanas da região metropolitana de São Paulo. Visualiza “o trabalho enquanto instrumento familiar de socialização dos mais jovens, sobretudo no nível da pobreza” (p. 50) e dentro desse quadro a existência do “ideal do trabalho enquanto um dos instrumentos essenciais de socialização” (p. 59). Cita as investigações de Antonio Candido “Os parceiros do Rio Bonito” (1964) e as de José de Souza Martins “O massacre dos inocentes” (1991) para mostrar que ao se enfocar os grupos rurais, “a centralidade do trabalho é consensual” e que o trabalho constitui um valor básico desse segmento social. Afirma que a realização de tarefas domésticas não significa necessariamente um impedimento à escolaridade regular, tampouco ao entretenimento das crianças (p. 52).

O enfoque de Marques (2001), que é um autor da Psicologia Social, deu-se em famílias que utilizam o trabalho infantil como “estratégia de sobrevivência”. O cenário foi as ruas do centro da cidade de Belo Horizonte (MG).

O autor sugere que se transponha os aspectos jurídicos, econômicos e demográficos ampliando a discussão do problema do trabalho infantil para os “níveis simbólicos, culturais e históricos”.