Capítulo 3 A PRESENÇA DO TRABALHO INFANTIL NOS PERIÓDICOS
3.2 Subtemas em relevo
3.2.1 Trabalho Infantil no campo
Nesse subtema foram categorizados 12 artigos: Antuniassi (1981); Luppi (1982); Ribeiro (1983); Paulilo (1985); Cecílio (1998;1999); Moreira et al. (1998); Moreira (1999); Cadoná (2001); Hillesheim (2001); Neves (2001); Campos; Francischini (2003). Foram identificados os seguintes termos: ‘trabalho do menor no campo’; ‘na agricultura’; ‘na zona rural’.
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O trabalho de Antuniassi (1981) é desenvolvido em 47 páginas e baseia-se na sua tese de doutorado “O trabalhador mirim na agricultura paulista” defendida na Universidade de São Paulo. Não é informado o ano de defesa.
A autora estuda o trabalho infanto-juvenil (menores de 15 anos de idade) e busca compreender “as condições de sua existência e o significado social de sua participação numa agricultura em processo de tecnificação e de transformação das relações de trabalho” (p. 75). O objeto é agricultura paulista nos meses agrícolas de março de 1970/71 e abril 1974/75 com dados sobre a mão-de-obra volante. Como informa a autora, os dados analisados – correspondentes as oito culturas mais importantes do Estado de São Paulo: algodão, amendoim, arroz, café, cana-de- açúcar, feijão, milho e soja – foram cedidos pelo Instituto de Economia Agrícola da Subsecretaria da Agricultura do Estado de São Paulo.
Afirma que os estudos sobre o trabalho infanto-juvenil em geral e particularmente no meio rural não têm motivado a preocupação dos cientistas sociais no Brasil. Apóia sua afirmação no número de trabalhos publicados a esse respeito. Nesse sentido cita o estudo de Clóvis Caldeira “Menores no meio rural” (1960) que realiza uma pesquisa em 132 municípios brasileiros, onde descreve as atividades de trabalho das crianças e jovens no meio rural que são incorporados à força de trabalho seja na unidade familiar, sob diversos regimes de posse de terra (proprietários, arrendatários, parceiros, colonos) seja no trabalho assalariado.
Quanto ao fato de poucos estudos se voltarem ao trabalho assalariado infantil afirma seguindo Caldeira que este se dá em uma quantidade muito inferior. Em 1975, o trabalhador infanto-juvenil representava 18% do total da força de trabalho residente nas propriedades rurais do Estado de São Paulo com maior incidência entre os trabalhadores por unidade familiar que entre os assalariados. Verifica que a participação infanto-juvenil cresce de maneira mais perceptível que a adulta.
Onde predominam culturas como a soja, a laranja, a cana-de-açúcar, hortifrutigranjeiros a participação da mão-de-obra mirim é maior que nas demais regiões. E, nas regiões pecuaristas que também cultivam algodão e café, os trabalhadores mirins não assalariados (arrendatários) têm maior participação. Nas regiões de maior incidência de pequenas propriedades existe grande participação da mão-de-obra familiar de proprietários. O trabalhador volante mirim tem maior participação relativa nas regiões de maior área cultivada e agricultura mais tecnificada que
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cultivam produtos tais como: cana-de-açúcar, soja e laranja. Nessas regiões “a polarização das relações capital/trabalho assalariado aparece de forma mais efetiva” (p. 92).
No que se refere aos produtos cultivados, a autora (p. 98) diz que a participação relativa do trabalhador é maior onde as categorias de trabalhadores familiares proprietários, arrendatários, parceiros e colonos é maior no total da força de trabalho, como acontece no cultivo do feijão e no algodão.
O fato do cultivo da cana-de-açúcar apresentar grande quantidade de trabalhadores volantes mirins, cerca de 41%, significa que a modernização da agricultura paulista “não está liberando de forma significativa a mão-de-obra infantil” (p. 103), ainda que, como ressalta Antuniassi, o fato desta modernização não se realizar de maneira homogênea, seja pelos diversos produtos, seja pelas fases do processo produtivo. Pois as tarefas de plantio e colheita por serem realizadas em grande medida de forma manual – e nesse particular, a mão-de-obra temporária, entre os quais, os trabalhadores infanto-juvenis – requerem esse trabalhador. Para a autora, isso reflete os níveis de exploração a que são submetidos os trabalhadores” (p. 106). Constata que a liberação dos trabalhadores mirins da família de proprietários corresponde a uma maior utilização destes como força de trabalho assalariada temporária.
O estudo de Ribeiro (1983) foi realizado na Zona da Mata Pernambucana com trabalhadores infantis da agricultura canavieira. Mostra que o assalariamento – permanente e temporário – predomina como forma de organização do trabalho e de remuneração dos trabalhadores (p. 48). A autora afirma que o uso da “fração infantil da força de trabalho” evidencia um processo de expropriação e submissão ao capital.
O trabalho de Paulilo (1985) traz a idéia de “trabalho leve” – plantar, adubar, arrancar - realizado por mulheres e crianças, portanto, mais barato ao empregador.
Com uma lacuna de 13 anos tem-se o artigo de Cecílio (1998) que aborda o trabalho de crianças e adolescentes no “setor rural” do norte e nordeste do Estado do Paraná, na monocultura de exportação – cana-de-açúcar e algodão -. Devido às longas jornadas diárias há um “impedimento da permanência da criança na escola” (p. 127).
O trabalho de Cadoná (2001) foi fruto de uma intervenção realizada junto a 253 crianças e adolescentes inseridos na produção agrícola do fumo nos municípios gaúchos de Santa Cruz do Sul, Venâncio Aires e Candelária. O autor mostra que o trabalho assume um valor educativo, pois “trabalhando se aprende alguma coisa e assim se prepara para o futuro” (p. 55, depoimento
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colhido não especificado). Já Hillesheim (2001) percebe o trabalho como “uma prática social” de grupos (p. 113).
Moreira (1999) aborda a presença do trabalho infantil nas olarias da região de Bragança Paulista (interior de São Paulo) que abastece de tijolos a cidade de São Paulo, o grande ABC e a região de Jundiaí e Campinas. A maior parte da força de trabalho nas olarias é constituída por mulheres, adolescentes e crianças. As olarias surgiram no município no final do século XIX com os imigrantes italianos. Com o processo de urbanização, o setor oleiro praticamente se tornou autônomo, porém ainda guarda, em Bragança Paulista, vínculos com a economia agrária, seja pelas condições de uso da terra, seja pela atividade mista das trabalhadoras e dos trabalhadores envolvidos na atividade.
Na página 107 o autor informa que em Bragança Paulista – segundo levantamento de 1997 – existiam cerca de 250 olarias incluindo as clandestinas e as registradas agregando 2 mil pessoas na produção direta de tijolos no município.
A organização do processo produtivo é feita de modo que o homem executa as tarefas tidas como “pesadas” (retirar o barro do barreiro, jogá-lo na prensa para ser amassado, enfornar e desenfornar o tijolo, queimá-lo e carregá-lo no carrinho). As mulheres, adolescentes e as crianças são responsáveis pela execução de tarefas que requerem menor esforço físico (cortar o tijolo, levantá-lo na prensa, colocá-lo no carrinho e transportá-lo até as pilhas para secagem). Mas, durante as visitas de campo, Moreira constatou que as funções se misturavam o que significou que mulheres, adolescentes e crianças também realizavam tarefas que demandavam maior esforço físico.
O objetivo do estudo foi “analisar a situação específica da infância na olaria, integrando cultura, visão de mundo, linguagem e imaginários próprios das crianças neste estrato social marginalizado”, onde o trabalho das crianças principalmente é considerado “invisível”, uma “ajuda” ao adulto (p. 104). Além disso, trata-se de um universo que se situa os mecanismos sócio-econômicos de produção e reprodução do capital, e as crianças, com seus interesses, suas necessidades e as formas de resistência que elaboram.
Com base na cultura, no grau de pobreza ou condição econômica (mas não exclusivamente) e nos valores estabelecidos no interior da família, é ela que em geral toma as decisões relativas ao ingresso da criança no mundo do trabalho. [...] Desse modo, percebe-se que a entrada das crianças e adolescentes no mercado de trabalho pode ser entendida como uma estratégia de sobrevivência
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da família, adotada graças às péssimas condições de remuneração do trabalho vigentes (MOREIRA, 1999, p. 109).
Foram entrevistadas 69 crianças e adolescentes na faixa etária de 5 a 17 anos e colhidas informações, tais como: idade em que começaram a trabalhar; se houve interrupção ou não dos estudos; se sim, quantas vezes; desejo de estudar – se sim, se não; por quê; atividades de lazer; sonhos futuros; profissão.
Ao mesmo tempo em que as entrevistas mostraram que essas crianças e adolescentes acreditavam no valor do trabalho, como disse Nilmar (9 anos, 3ª série, p. 116) “Eu gosto, porque daí eu vou ganhando dinheiro, vou juntando e vou aprendendo as coisas da olaria que a gente faz, carregá caminhão” elas denunciaram o desgaste físico que ele proporcionava: “Eu canso quando tem um carrinho assim, eu encho, dou umas dez viagens, aí eu não agüento mais” (Onésio, 12 anos, p. 117).