Capítulo 4. Vigilância em Saúde do Trabalhador e Ambiente: integrando áreas e instituições, o caso do CRST/ Campinas.
4.5. Potencialidades do Projeto dos Postos de Combustível
4.5.2. Trabalho interdisciplinar, intra e interinstitucional
Segundo Dias et al (2009), a ST e a Saúde Ambiental são áreas transversais e, portanto, exigem políticas públicas que articulem os diferentes setores sociais responsáveis pela produção e geração de riscos para a saúde dos trabalhadores, da população do entorno e do ambiente, assim como os setores responsáveis pela atenção integral, vigilância e reparação de danos. Dessa forma, a potencialidade do projeto, relatada pela totalidade dos profissionais entrevistados diz respeito ao caráter articulador com o qual a proposta foi construída, agregando profissionais de diversas profissões, especialidades e de diferentes instituições. O principal aspecto dessa integração, considerado pelos entrevistados, diz respeito ao comprometimento dos profissionais, à medida em que o diálogo permanente, nas capacitações e nas reuniões da equipe do projeto, favoreceu tanto o entendimento do trabalho de cada profissional da rede SUS, quanto a unificação de esforços em comum: “Acho que esse projeto, na verdade, ele já está trazendo muita mudança, muito envolvimento(...). Eu acho essa estratégia inovadora e muito enriquecedora, está ajudando a gente a entender o trabalho de cada um, está integrando mais” (Profissional ST 12). O sentimento de co-autoria da ação é um poderoso instrumento para vincular o profissional a uma dada organização ou projeto (Campos e Amaral, 2007). Portanto, o que parece ter favorecido esse envolvimento é a participação dos profissionais na construção do planejamento das ações, do cronograma da proposta, dos instrumentos a serem usados, com a realização de ações em conjunto e
avaliações periódicas em reuniões específicas, ou seja, os profissionais participaram das diferentes etapas projeto, de modo coletivo e ampliado: “(...) o processo de trabalho a gente tem que construir junto com as pessoas, pras pessoas curtirem participar do projeto, todos” (Profissional VISA 3).
Por isso, para os atores entrevistados que não estão diretamente envolvidos com a execução de todas etapas do projeto, parece haver uma fusão positiva entre a ST e ambiente, de modo a se apresentarem como áreas fundamentalmente integradas:“Eu imaginava um projeto que não fosse da saúde do trabalhador, não fosse da saúde ambiental, não fosse da vigilância sanitária. Essa é a impressão que eu tenho do projeto de Campinas. (...)É um projeto que está bastante integrado” (Profissional CESAT). Assim, se o comprometimento e envolvimento se mostram relevantes, outro aspecto importante considerado por grande parte dos entrevistados diz respeito à integração entre a a ST e a Saúde Ambiental, considerada como alternativa às lacunas ou sobreposições de atribuições entre os setores saúde e ambiente (Barcellos e Quitério, 2006), aparece como fator central e determinante para o projeto de vigilância, o que pode favorecer a potencialização das ações de ambas, para os entrevistados:
Acho que tem este potencial, diferente de boa parte dos outros locais do Brasil, que é de fato você ter essa discussão da saúde ambiental com a saúde do trabalhador. (...) E essa discussão do posto de gasolina está funcionando como um movimento pra fazer essa integração, gerando inclusive do ponto de vista concreto todas as dificuldades que isso tem (Profissional SRT).
A integração entre as áreas, relatada na experiência de Campinas, apresenta-se como importante desafio no cenário contemporâneo (Rigotto, 2003 e Dias et al., 2009). Dessa forma, no projeto nacional, coordenado pela CNBz, um dos objetivos relatados é a integração da ST e ambiente: “(...)esse projeto nacional, se você olhar o projeto acho que um dos objetivos é essa integração mesmo da ocupacional com a ambiental” (Profissional Fundacentro 2).
Outra questão relacionada à integração diz respeito a construção de um olhar interdisciplinar, por um conjunto de profissionais de formações e instituições diferentes, em torno de um mesmo projeto de vigilância, que começa desde a sua elaboração. A ação interinstitucional agrega-se a abordagem interdisciplinar da relação entre trabalho, saúde e ambiente nos Postos, contribuindo para a aprendizagem coletiva. A fala aqui selecionada ilustra essa construção: “Quando você passa a discutir sentado na mesma mesa com a equipe, todo mundo junto, na
mesma roda, você troca definitivamente os olhares. E o que é bem interessante é um objeto totalmente novo pra saúde do trabalhador e pra vigilância ambiental” (Profissional VISA 3). O conhecimento adquirido no processo de construção do projeto sobre como integrar profissionais, trabalhadores e instituições é extremamente referenciado pelos entrevistados. Do mesmo modo, a expectativa dos entrevistados é que o aprendizado coletivo sobre o desenvolvimento de ações integradas, interdisciplinares e interinstitucionais possa contribuir para o desenvolvimento futuro de outras ações integradas na rede do SUS.
Os principais atores da integração entre ST e ambiente estão vinculados aos departamentos de Vigilância em Saúde Municipal, Estadual e Nacional, no próprio CRST de Campinas, nas Comissões do Benzeno, Regional, Estadual e Nacional e no Sindicato dos Frentistas, construindo um saber-fazer com maior potencialidade de alcance dos resultados pretendidos para o projeto. A fala selecionada expressa a posição em relação ao avanço em conhecimento e experiência:
O principal avanço dessa história foi o conhecimento, acho que em primeiro lugar, a potencialização das ações de vigilância, integrando ações de vigilância de saúde do trabalhador e vigilância em meio ambiente, isso é um ganho pra gente essencial: o fortalecimento das parcerias interinstitucionais (...) e o projeto do posto de combustível está propiciando essa integração desde o início (Profissional CVS).
Uma das marcas do projeto é a participação dos trabalhadores e da sua representação, através do sindicato dos frentistas, na construção do projeto, embora não tenham uma atuação direta nas atividades de vigilância executadas no piloto. Devido a consideração da relevância dessa participação, os entrevistados consideram a possibilidade de futuramente organizarem GTBs no comércio de combustível:“Eu espero que pro futuro a gente consiga também criar os GTBs dentro do setor de comércio de combustível” (Profissional Fundacentro 1).
E, finalmente, há de se considerar que a integração de conhecimentos, experiências e competências dos profissionais de diferentes instituições, em torno do mesmo objeto, dá maior eficiência da ação e mobiliza os próprios profissionais de saúde para o enfrentamento de situações, cuja atuação isolada seria insuficiente para transformar a realidade do trabalho na contemporaneidade:
Pela minha experiência de 10 anos em saúde pública no interior do estado de São Paulo vi situações de trabalho que são inimagináveis, de sofrimento, de iniquidade, maldades, de desvalor para a pessoa humana, então essas coisas mobilizam a gente. Se a gente só se apega a isso, a gente esmorece, deprime e não faz nada. Então a gente tem essa ideia de que é uma construção coletiva(...). Você tem uma construção de várias instituições e dentro dessas instituições, pessoas, que tem um olhar, querem trabalhar junto e entendem que não estão ali só pra se aposentar (risos) e sabe que pode ser mais eficiente se você trabalhar integrado (Profissional ST 10).
Essa fala reafirma a concepção de que a construção de redes intra e interinstitucionais é fundamental para potencializar as ações do campo ST (Machado e Porto, 2003).