Capítulo 2. Considerações sobre o mundo do trabalho contemporâneo e os desafios para o campo Saúde do Trabalhador e a atenção à saúde dos trabalhadores no SUS.
2.2. Vigilância, Saúde do Trabalhador e Ambiente.
Com o processo de industrialização, os riscos ambientais modificam-se em sua natureza, magnitude, intensidade, distribuição e nocividade (Rigotto, 2003) e traz um aumento significativo do volume de resíduos, muitos deles altamente tóxicos. Quase a totalidade das poluições ambientais de grandes proporções têm como principal origem os processos produtivos, nos quais os trabalhadores são os mais afetados pela exposição direta (Tambellini e Câmara, 1998). Assim sendo, os trabalhadores acabam sendo os primeiros a sofrer o impacto das fontes de danos ambientais gerados nos sistemas produtivos (Vasconcellos, 2007), sendo que na contemporaneidade, os riscos tendem a se universalizar, afetando moradores, consumidores e ecossistemas regionais ou mesmo globais (Porto e Freitas, 1997).
Frente à questão ambiental, em São Paulo, na década de 1970, são criadas a Companhia Estadual de Tecnologia em Saneamento Ambiental (Cetesb) e a Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), sem vínculo com o sistema de saúde (Tambellini e
Câmara, 1998). A partir de 1980, com a emergência do campo ST fica mais perceptível a relação entre produção, saúde e ambiente, mas é na década de 1990 que aumentam as preocupações dos problemas de saúde e ambiente, sob influência da Conferencia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e desenvolvimento (UNCED), no Rio de Janeiro, em 1992, com o crescimento do movimento ecológico, Organizações Não-Governamentais (ONGs), etc (Tambellini e Câmara, 1998).
Com a atual mundialização do capitalismo, as relações entre trabalho, saúde e ambiente se complexificam: “A crise ambiental global tem obrigado todos os setores da sociedade a rever conceitos e valores, explicitando conflitos de interesse e evidenciando a insustentabilidade do modelo de desenvolvimento” (Barcellos e Quiterio, 2006). Nessa crise configura-se um processo de exportação dos riscos para os paises subdesenvolvidos (Rigotto, 2003; Rigotto e Augusto, 2007). Em geral, os processos mais consumidores de recursos naturais, mais geradores de poluentes, com processos de trabalho mais insalubres e mais perigosos são deslocados para locais com legislações ambientais e trabalhistas menos rigorosos, com reduzido aparato de vigilância, trabalhadores mais fragilizados pelas condições de vida e dispostos a “aceitar qualquer coisa” em troca de fonte de renda, com a sociedade civil menos organizada para defesa de seus interesses (Rigotto, 2003). Desse modo, Barcellos e Quitério (2006) retomam a idéia de Breilh de que a exposição, nesses casos, não deixa de ser uma imposição, ou seja, uma situação involuntária produzida pela organização da produção.
A saúde e a qualidade do ambiente sofreram com o processo de modernização forçada, na medida que se manteve uma das piores distribuições de renda do mundo, com uma significativa população vivendo abaixo da linha de pobreza, com um baixo crescimento econômico, elevados índices de desemprego (Rigotto e Augusto, 2007, p. s480)
No Estado neoliberal, com a redução da sua função social e a forte subordinação aos interesses econômicos do mercado criam-se condições para aprofundar e ampliar os impactos negativos do processo de desenvolvimento do capitalismo avançado. Assim, os danos ambientais e à saúde não são internalizados pelos agentes econômicos e inexistem mecanismos de proteção para que não sejam repassados aos consumidores (Rigotto e Augusto, 2007). Nesse cenário, nos países subdesenvolvidos somam-se aos problemas
tradicionais, como ausência de saneamento básico, os perigos modernos relacionados à aceleração do crescimento e à introdução de novas tecnologias (Rigotto, 2003).
Os riscos tecnológicos e ambientais gerados pelos processos de produção e consumo, assim como a degradação ambiental e os agravos à saúde que causam são distribuídos de forma desigual (Rigotto e Augusto, 2007). As injustiças ambientais recaem principalmente sobre a população de baixa renda, grupos sociais discriminados, povos étnicos tradicionais, bairros operários e populações marginalizadas e vulneráveis (Cartier et al, 2009). Desigualdades expressas na condição de vulnerabilidade socio-ambiental, pela coexistência ou sobreposição espacial da moradia e circulação dessas populações em áreas de risco e de degradação ambiental. Desde 2001, movimentos sociais e acadêmicos foram mobilizados para a criação da Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA), de resistência aos efeitos nefastos do capitalismo globalizado (Porto, 2005), que dentre outras atividades divulgou recentemente o site contendo o mapa da injustiça ambiental e de saúde no Brasil (Mapa da injustiça ambiental e saúde no Brasil, 2010).
No que tange aos produtos químicos produzidos, por exemplo, as inovações tecnológicas tem colocado disponível no mercado entre 1000 e 2000 novas substâncias por ano, numa velocidade muito maior do que a capacidade científica e institucional de analisá-los (Porto e Freitas, 1997). Com isto, as enormes quantidades de produtos químicos disponíveis: “(...) têm resultado em níveis de poluição em escala tal que vem alterando a composição química das águas, do solo, da atmosfera e dos sistemas biológicos do planeta, colocando em risco não só o bem estar, mas também a sobrevivência do planeta” (Freitas et al., 2002, p. 251). Para esses autores, no Brasil houve um crescimento dos problemas relacionados à segurança química em proporção muito maior do que o Estado tem apresentado capacidade de enfrentar. Nesse sentido, os riscos decorrentes da própria industrialização são acrescentados às fragilidades sociais, institucionais e técnicas existentes, caracterizando uma maior vulnerabilidade da sociedade frente aos riscos tecnológicos ambientais (Porto e Freitas, 1997; Porto, 2005). A utilização indiscriminada dos recursos naturais e sua contaminação pela coexistência de modos de produção arcaicos com os de tecnologia avançada, resultaram em diferentes formas e níveis de inserção social e da poluição química, o que impõe a necessidade de intervir sobre os velhos e novos problemas (Barcellos e Quitério, 2006).
Diante da complexidade da relação produção, saúde e ambiente e da lacuna no conhecimento científico, as questões de ST e Ambiente exigem no plano da intervenção um trabalho integrado e interinstitucional, envolvendo o SUS, Ministério da Saúde, Meio Ambiente, da Previdência, do Trabalho, entre outros (Tambellini e Câmara, 1998). Integração essa que demandam um enfoque transdisciplinar e sistêmico, que permita articulações e proposições alternativas, seja através de soluções técnicas localizadas ou por meio de propostas públicas de políticas mais globais (Porto e Freitas, 1997). Frente ao desafio da segurança química no Brasil, por exemplo, há acordo entre os autores que: “O desenvolvimento de metodologias integradas, contextualizadas aos nossos problemas e participativas, assim como processos decisórios mais transparentes e democráticos estão entre os desafios a serem enfrentados” (Freitas et al., 2002, p. 250)
Assim sendo, a ST e a Saúde Ambiental (SA), entendida como campo de conhecimento da relação entre o ambiente e o padrão de saúde de uma população, são apontadas como dimensões técnicas do campo produção, saúde e ambiente, que: “Possibilita encontros disciplinares produtivos, criando novos enfoques teóricos e pontes metodológicas para uma mesma questão, no plano da saúde” (Tambellini e Câmara, 1998, p. 52). Nesse sentido:
Trabalhar integradamente as questões relacionadas à saúde do trabalhador e ao meio-ambiente é um passo fundamental para se desenvolver novas abordagens teórico-metodológicas que possibilitem avançar nos processos de análise e intervenção sobre as situações e eventos de riscos que são colocados para os trabalhadores, populações vizinhas às indústrias e ao meio ambiente como um todo (Porto e Freitas, 1997, p. 60).
Historicamente a questão do ambiente, no âmbito da saúde esteve vinculada ao saneamento básico e à água, portanto, a incorporação da Vigilância Ambiental no Brasil é recente (Barcellos e Quiterio, 2006). A Vigilância Ambiental em Saúde se configura como:
(...) um conjunto de ações que proporcionam o conhecimento e a detecção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes do meio ambiente que interferem na saúde humana, com a finalidade de recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle dos fatores de riscos e das
doenças ou agravos relacionados à variável ambiental (Ministério da Saúde19
apud Augusto, 2003, p. 181).
Rigotto (2003) também sinaliza a importância de estudos e pesquisas para avaliação de riscos, implantação de programas de monitoramento ambiental pelas autoridades locais, construção do aparato legal e institucional para o controle da ação sobre o ambiente. Para ela, as políticas de desenvolvimento deveriam estar preocupadas com o trabalho, saúde e ambiente, o que não é simples, por envolver grandes interesses econômicos e grupos de poder, muitas vezes internacionalizados. Por isso, a importância de priorizar a prevenção na fase estrutural dos processos produtivos, com análise prévia do projeto tecnológico e produtivo das empresas (Porto20 apud Rigotto, 2003). Dessa maneira, as decisões dos processo produtivos deveriam ser deslocados da ponta final para a inicial (Augusto e Freitas, 1998), assim as políticas públicas de saúde poderiam servir de eixo estruturador do paradigma do desenvolvimento sustentável (Augusto, 2003; Vasconcellos, 2007).
A interface entre ST e SA pode ser um caminho promissor, visto que: “(…) podem se nutrir de uma mesma cosmovisão, de um olhar abrangente que contemple estas férteis e complexas inter-relações, para com ele iluminar a pesquisa, a formação dos profissionais, as políticas públicas e a ação política da sociedade” (Rigotto, 2003, p. 400). A possibilidade de sucesso dessa integração depende da capacidade tanto da escolha das áreas e especialistas que melhor respondam ao problema (Porto e Freitas, 1997), quanto dos atores envolvidos compreenderem a complexidade sistêmica das relações em foco, numa perspectiva transetorial e transdisciplinar.
Sendo assim, o conceito de Vigilância em Saúde do Trabalhador (VISAT) pode auxiliar essa aproximação. Para Machado (1996 e 1997), a Vigilância em Saúde pode ser entendida como um processo dinâmico que, através da construção de instrumentos epidemiológicos de investigação dos agravos, deve fornecer elementos para uma intervenção organizada sobre aqueles fatores que constituem em riscos à saúde, objetivando modificar os padrões de morbi- mortalidade da população. Assim, a Vigilância em Saúde pode ser definida enquanto ação em torno de um objeto, no caso da VISAT, em torno de objetos que alteram, no sentido positivo, a relação entre o processo de trabalho e a saúde (Machado, 1996). De acordo com o modelo de VISAT proposto por Machado (1996), a relação das investigações com processos de
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Porto MFS, 2000. Considerações sobre a dinâmica de regulação dos riscos industriais e a vulnerabilidade da sociedade brasileira. In: Herculano S, Porto MFS, Freitas CM (org.). Qualidade de vida e riscos ambientais. p. 147-70. Niterói: EDUFF.
tomada de decisão no nível das empresas e do poder executivo dependem da forma e da força com que se estabelecem interligações entre academia, os órgãos de vigilância, as empresas e representações de trabalhadores, assim como das relações entre os poderes executivo, legislativo e judiciário.
A VISAT constitui-se como uma prática interinstitucional e transdisciplinar, visando a construção de processos articulados de intervenção sobre os processos de trabalho na relação com a saúde (Machado, 2005a). Para isto é necessária a participação efetiva dos trabalhadores na definição de prioridades, na preparação das inspeções sanitárias, na análise e na avaliação dos resultados, na definição de propostas, no balanço das atividades, como forma de controle social, transparência institucional, garantia da qualidade e da implementação das propostas fundamentadas pela incorporação do saber e da força política dos trabalhadores (Machado, 1996). A VISAT se distingue, então, das idéias tradicionais de fiscalização, com caráter pontual, para a verificação do cumprimento das normas estabelecidas e da inspeção, como atividade de intervenção técnica para verificação de irregularidades (Vilela, 2003).
Esses processos foram incorporados em algumas experiências nos serviços de saúde e institucionalizados na Instrução Normativa de Vigilância em Saúde do Trabalhador (Portaria 3.120 de 01/07/98), em que a abordagem da VISAT implica na superação dos limites conceituais e institucionais das ações dissociadas de vigilância epidemiológica e sanitária. A VISAT é conceituada como:
(...) uma atuação contínua e sistemática ao longo do tempo, no sentido de detectar, conhecer, pesquisar e analisar os fatores determinantes e condicionantes dos agravos à saúde relacionados aos processos e ambientes de trabalho, em seus aspectos tecnológico, social, organizacional e epidemiológico, com a finalidade de planejar, executar e avaliar intervenções sobre esses aspectos, de forma a eliminá-los ou controlá-los (Portaria 3.120 de 01/07/98).
A perspectiva da VISAT, contempla a integralidade das ações na organização dos serviços, por meio do trabalho em equipe multiprofissional, na relação complementar e integrada de vários serviços dentro do próprio SUS ou em relação a outros órgãos relacionados à saúde dos trabalhadores, como Universidades, SRT, Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Fundacentro e Sindicatos, num trabalho interinstitucional (Spedo, 1998).
No campo da atenção à saúde, a implantação das ações de VISAT é bastante recente e resulta de uma diversidade de experiências, cujo elemento comum corresponde ao seu entendimento como uma prática que integra: "(...) um processo de articulação de ações de controle sanitário no sentido de promoção, proteção e atenção à saúde dos trabalhadores" (Machado, 1997, p. 34). Sabe-se que, apesar das dificuldades colocadas, influências da prática cotidiana da VISAT, desenvolvidas pelos Centros de Saúde do Trabalhador em vários estados e municípios, trouxeram uma mudança no perfil e na magnitude das estatísticas de certas doenças profissionais no Brasil, como o benzenismo em trabalhadores siderúrgicos na década de 80 e as Lesões por Esforços Repetitivos/ Distúrbios Ósteo-musculares Relacionados ao Trabalho (LER/DORT) na década de 90 (Machado, 1996; Lacaz, 1996), sendo apontada como premissa da área (Dias, 1994). Além disso, as experiências em VISAT incorporaram denúncias de trabalhadores e casos mais graves de acidentes e doenças como eventos sentinelas deflagradores de ações de vigilância em ambientes de trabalho (Costa et al, 1989; Sato et al, 1993; Wunch Filho et al, 1993). Nesse sentido, a visão integrada da VISAT permite um novo enfoque sobre a atenção à saúde dos trabalhadores, no âmbito da Saúde Pública.
De acordo com Pinheiro (1996) a VISAT no SUS não nasceu nas estruturas de vigilância sanitária e epidemiológica, embora mantivesse com elas uma relação de vizinhança, nem das ações de inspeção dos ambientes de trabalho, desenvolvidas pelo MTE. Para ele, a VISAT emergiu como proposta e prática no interior do setor saúde, junto aos PSTs na década de 1980. Apresenta-se como uma prática contra-hegemônica, no interior do Estado, que estimula o controle social e a participação dos trabalhadores, visando uma atuação sobre os determinantes e condicionantes do processo saúde-doença-trabalho, numa perspectiva de transformação social.
Embora tal perspectiva inovadora da VISAT, esteja presente desde o início de sua concepção (Lacaz, Machado e Porto, 2002), observa-se uma grande dificuldade de inserção e relacionamento intra-institucional, dada a fragmentação das estruturas de vigilância em saúde do SUS, cada qual compartimentada em sua especificidade, como a vigilância epidemiológica, sanitária e ambiental, com recortes específicos de objeto de controle e intervenção (Porto, Freitas e Machado, 2000, p. 2):
Na vigilância epidemiológica, pelo controle das doenças, a definição de eventos sentinelas, a implementação de medidas emergenciais de tratamento
e isolamento dos pacientes, bem como o direcionamento das ações de vigilância sanitária e ambiental. Na vigilância sanitária, enfoca-se o controle dos serviços de saúde, dos fármacos e dos produtos gerais de consumo humano, como alimentos e os produtos de uso doméstico. Por fim, na vigilância ambiental privilegia-se o controle de fatores ambientais biológicos e não-biológicos como vetores, animais transmissores da raiva, àgua de consumo humano e, mais recentemente, fatores físicos e químicos relacionados à contaminação ambiental.
Portanto, a integração entre ações de VISAT e Ambiente apresenta-se como um desafio fundamental para as intervenções no âmbito do campo produção, saúde e ambiente. Desafio esse vivenciado por profissionais de saúde e trabalhadores, na experiência do Projeto de Vigilância dos Postos de Combustível, iniciado pelo CRST de Campinas, que será objeto de análise do Capítulo 4.