3. O ETHOS, UMA ESTRATÉGIA DO DISCURSO
3.1. ESTRATÉGIAS DO DISCURSO
5.2.2.2. Tradutor Docente B
No Ex. 25-B, o tradutor, ao encontrar a palavra RALEADA, se utilizou de uma estratégia de busca interna, e buscou um sinônimo para melhor explicar. A solução foi encontrada graças a seu conhecimento específico de sua área técnica.
(Ex. 25-B) [Pode ser semeada em canteiros, direto do canteiro em local definitivo para logo ser RALEADA...]
[vou colocar entre parênteses aqui que é o mesmo que desbaste]. Logo ser raleada (desbaste). Necessita água e solos bem drenados, solos drenados.
5.2.2.3. Tradutor Docente C
Abaixo, o tradutor tinha uma ideia do que a palavra significava, e foi ao dicionário apenas para confirmar sua hipótese. Utilizou então da estratégia de busca interna primeiramente, e para confirmar sua hipótese recorre a uma busca externa. As relações que fazemos com o que sabemos e as inferências são pontos cruciais no apoio interno de que dispomos. Assim, Alves (2010:57) afirma que “o conhecimento de mundo é a somatória de todos estes conhecimentos e que podemos chamá-lo de pré-texto, ou seja, o ponto de onde partimos, com as informações de que já dispomos para processar informações novas que recebemos”.
(Ex. 26-C) [Tem a palavra aqui ROTAS que ta no sentido de quebrado, mas vou confirmar porque não é uma palavra usual...] Justamente como eu pensei... quebrada...e completar com a mistura preparada.
No Ex. 27-C, o tradutor, no início do parágrafo, tinha a ideia do que a palavra significava, mas vai ao dicionário para observar mais sinônimos. Entretanto, ao buscar não encontra o significado e utiliza o seu conhecimento de mundo e específico da área, bem como o contexto para deixar sua tradução mais próxima de
seu público, no caso para os alunos que terão acesso ao texto. Este é um exemplo típico de problemas de tradução, que envolve a correspondência entre as línguas.
(Ex. 27-C) [SEGÚN vai no sentido “de acordo”]
e algumas variedades, se cultiva o ano todo. Pode semear no ALMÁCIGO é no sentido de uma... não tem no dicionário tradutor nem no outro , mas é no sentido de sementeira...] na sementeira ou direto no lugar definitivo para logo desbastar. Necessita água e solos drenados.
5.2.2.4. Tradutor Discente D
Neste exemplo a seguir, o tradutor utiliza a busca externa e não tem êxito, mas busca resolver o problema através da adaptação que segundo Barbosa (1990) é o procedimento que se aplica em casos onde a situação extralinguística a que se refere o texto de origem não existe o universo cultural dos falantes da língua de tradução.
(Ex. 28-D) [como LECA não está cifrada no dicionário vamos fazer uma adaptação, seria o quê? Poderia ser base porque essa parte é aquela que fica no fundo do jarro que é a parte que vai escoar a água com mais facilidade, a parte da terra fértil fica sobre ela, onde será depositada as raízes das plantas, então poderia colocar como base]
Abaixo encontramos outro exemplo de adaptação para resolver o problema encontrado, onde o tradutor refinou seu texto através da ativação de seu conhecimento linguístico. Neste momento, percebemos a construção do ethos deste discente, pois buscou mostrar seu entendimento quanto ao processo da tradução, e expôs seus argumentos antes de solucionar o problema encontrado. Assim, no dizer de Maingueneau (2005:98) “por meio da enunciação, revela-se a personalidade do enunciador”:
(Ex. 29-D) [será que é seixo, não consegui a tradução desejada , é um processo demorado, pois se formos observar o processo de tradução é um pouco de falsificação, pois jamais poderemos produzir um texto de uma língua para outra e expressar exatamente o que o texto original quis dizer, sempre vai ter adaptações, como eu não consegui a tradução de PERLITA, coloca-se areia, pois é PERLITA ou areia]
5.2.2.5. Tradutora Discente E
O exemplo abaixo é interessante. Nele a tradutora demonstra ter um problema de compreensão, pois não tem conhecimento da palavra LECA. Primeiramente ela faz uma busca externa, consultando o dicionário, mas não encontra solução para o seu problema, então faz uma busca interna e imagina ter encontrado a solução. Mas continua sua tradução e retoma a palavra novamente através do conhecimento textual e encontra uma melhor expressão para explicar a palavra no TLC.
(EX. 30- E) LUEGO. Logo, colocar UNA CAPA DE LECA, [o que é leca] [não tem a palavra LECA no dicionário, mas eu imagino que seja adubo] uma camada de 2 a 2,5 cm de adubo, [vou deixar esta palavra depois eu vejo]
LECA (também pode ser pedra partida ou pequenas pedras fica melhor do que pedras partidas, pedaços de MACETAS
[o que são macetas, eu procurei? (...)
[Ah! são vasos , então pode ser] pedaços de vaso, é pedaços de tijolo, tijolos...
5.2.2.6. Tradutora Discente F
De início, essa tradutora tem um problema de compreensão solucionado através de uma busca externa e após as acepções apresentadas pelo dicionário continua sua atividade tradutória. PAGANO (2010:39) destaca que “a necessidade, por parte do tradutor, de buscar em fontes de consultas externas informações que não possui é fato inquestionável no exercício da atividade tradutória”, pois por mais experiente que seja o tradutor, terá que contar com pesquisas, leituras acerca de um determinado tema, dicionários monolíngues e bilíngues, outros textos, que possuam termos e expressões que possam servir na produção do TLC.
E em sua versão da tradução, ela utiliza o verbo “recoger” em espanhol para expressar a palavra RASTRILLAR, mas ao traduzir, coloca “recorrer” em português, remetendo ao mesmo som entre as duas línguas em questão.
(Ex. 31-F) [Não sei o que é a palavra RASTRILLAR estou procurando no dicionário on line, e agora vou para o manual...
Recorrer plantas secas para tapar com terra. Regar em forma de chuva fina, sem encharcar.
No exemplo a seguir, a tradutora desconhecia o significado da palavra LECA. Ela vai aos dicionários e não encontra uma tradução, não fica satisfeita e voltando ao texto e a partir do conhecimento textual tenta explicar a palavra pelo próprio contexto. Houve ainda por parte da tradutora um abandono na tradução literal da palavra, e como não foi encontrado o significado, deixou-a na língua de origem e continuou a tradução do parágrafo.
(Ex. 32-F) Vou procurar o que é LECA no dicionário on line e não foi encontrado vou para o manual ... não tem no dicionário manual, vou procurar no dicionário on line...
... não encontrado mas no texto está dizendo um pouco sobre o que seria LECA (também pode ser uma pedra partida, vasos quebrados, pedazos de vidro, canto rodado) As estratégias de tradução envolvem a percepção dos sentidos expressos pelo texto, assim, o leitor do TLP que passa a exercer a função de tradutor deste texto utiliza princípios na reconstrução de um texto mais coeso. Logo, busca em fontes externas e internas conhecimentos que dão subsídios para expressar os termos no TLC.
5.2.3. Estratégias de Produção do TLC
As estratégias de produção do TLC dizem respeito à resolução de problemas relativos à recepção do texto pelo público alvo. Trata-se ainda de um refinamento do texto traduzido.
5.2.3.1. Tradutor Docente A
Este tradutor apresenta em algumas partes do texto a estratégia de refinamento textual, objetivando a melhor compreensão de seu aluno. Ele lê o texto, faz comentários e, quando o traduz de uma maneira simples e didática, substitui termos técnicos da área específica de sua atuação. Assim, o tradutor fez uma busca interna de seus conhecimentos para realizar a atividade. Aqui neste exemplo, o contrato tradutório se realiza entre este professor e seu público alvo, que são os
alunos que esperam um texto mais explicativo e coeso. Para isso, ele utilizou de estratégias discursivas para atingir este seu público, sendo ainda fiel ao TLP.
(EX.29 A) SEMBRAR... esta palavra vou procurar no dicionário é realizar o transplante
vou procurar no dicionário para completar meu raciocínio... [SEMBRAR então refere-se ao semeio das mudas né ao transplante]
semear (transplantar) as mudas
Em outro trecho, (Ex. 30-A) percebemos também bem clara tal característica mencionada acima. Pois, quando pensamos no contrato de comunicação subjacente à atividade que pretendemos analisar, esperamos que os sujeitos (professores) possuam e demonstrem um conhecimento e uma identidade profissional específica da área, que esse participante tenha como objetivo transmitir seus conhecimentos aos sujeitos aos quais se dirige para atingir seus objetivos didáticos, que é um texto traduzido para ser utilizado em sala pelos seus alunos e que este seja compreendido. Então, a palavra RALEAR é traduzida por desbaste, uma palavra mais comum ao seu contexto e um sinônimo de ralear que possui o mesmo significado nas duas línguas.
(Ex. 30-A) LECHUGA: OCUPA POCO ESPACIO Y, SEGÚN LAS VARIEDADES, SE CULTIVA TODO EL AÑO. PUEDE SEMBRARSE EN ALMÁCIGO O DIRECTO EN EL LUGAR DEFINITIVO, PARA LUEGO RALEAR. NECESITA AGUA Y SUELOS DRENADOS. AL COSECHAR, PUEDE CORTARSE LA PLANTA A RAS DEL SUELO O SACAR LAS HOJAS EXTERNAS.
[Então este texto aquí dá uma visão que a alface ocupa pouco espaço e segundo as variedades se cultiva todos os anos e se pode fazer mudas ou colocar direto em lugar definitivo né e depois você pode fazer uma raleação que traduzindo para uma palavra técnica nossa você pode fazer um desbaste que necessita de água e solos drenados você pode arrancar ela do solo e deixar as folhas externas…]
5.2.3.2. Tradutor Docente B
No Ex. 31-B, o tradutor utiliza a estratégia de busca interna e para que seu texto se torne mais explicativo, coloca a palavra mais usual no contexto de sua área específica entre parênteses, de forma que possa ter mais um sinônimo da palavra RALEAR. Segundo Barbosa (1990), dentro do processo tradutório existe o acréscimo, que tem a finalidade de tornar o texto mais claro para o público. O tradutor demonstra que conhecia o assunto e que poderia contribuir acrescentando mais informações.
(Ex. 31-B) Pode ser semeada em canteiros, direto do canteiro em local definitivo para logo ser RALEADA
[vou colocar entre parênteses aqui que é o mesmo que desbaste]
Necessita água e solos bem drenados (...) 5.2.3.3. Tradutor Docente C
No trecho 32-C, o tradutor não encontra o termo ALMÁCIGO no dicionário e então faz uma busca interna a fim de sanar a princípio um problema de tradução, mas tendo resolvido este problema ele procurou tornar seu texto mais próximo de seu público leitor. Utiliza a estratégia de refinamento textual, e a partir do contexto encontra um termo que deixa mais claro o TLC.
(Ex. 32- C) [ ALMÁCIGO é no sentido de uma... não tem no tradutor nem no outro, mas é no sentido de sementeira...] na sementeira ou direto no lugar definitivo para logo desbastar. Necessita água e solos drenados.
5.2.3.4. Tradutor Discente D
No exemplo 33-D, o discente, ao utilizar a estratégia de refinamento de seu texto, buscou um sinônimo para a tradução da palavra MACETAS de forma que não pudesse repetir o que já havia mencionado antes, ativa seu conhecimento de mundo através de uma busca interna e após suas reflexões textuais opta por continuar usando a tradução “vaso” para a palavra.
(Ex. 33-D) [ A primeira tradução que eu vi de MACETAS foi por vaso, vou procurar um sinônimo para isso...vou ao dicionário ...acredito que em português como em espanhol seja igual (...)
[Achei... tá aqui recipiente de barro cheio de terra. Usa-se como na primeira vez como vaso, mas é muito comum na linguagem popular chamar de jarro, a tradução pelo português muito mais próximo e coloquial é jarro. Como preparar o jarro, eu vou optar por vaso porque usei na primeira parte do texto]. No exemplo abaixo, o tradutor, para não deixar seu texto com a mesma palavra do TLP, procura explicá-la de forma que se torne mais clara para o leitor de seu texto. Utilizou a estratégia denominada acréscimo ou explicitação que acontece quando o tradutor insere explicações ou comentários para se ter um texto mais coeso e pertinente para o momento.
(Ex. 36-D) “Deste modo teremos terminado”, [completado.. o CONTENEDOR é aquilo que contém, se eu colocar CONTENEDOR em português não vai dar certo, vou colocar “recipiente para semear e plantar nossas verduras.”
Em outro trecho do texto, o discente foi ao dicionário para buscar a palavra AZADA e há um descontentamento com o resultado, e logo após faz uma busca interna ao procurar através do entendimento da frase, uma resposta à sua dúvida, Para refinar ainda mais seu texto busca um sinônimo para a palavra de forma que seu texto fique acessível e de fácil compreensão ao leitor.
(Ex. 37-D) [Vou procurar AZADA...
ferramenta inteira para perfurar terra
..muito formal....como faria esta tradução, diria plantador? Digamos fazer um sulco com uma ferramenta.
Colocar as sementes no [ como eu utilizei sulco no primeiro vou usar um sinônimo, pois se por acaso a pessoa ler e não entender sulco, não precisa pesquisar, a segunda opção define a primeira] no orifício perfurado.
5.2.3.5. Tradutora Discente E
O interessante no exemplo a seguir é que, ao revisar seu texto, a tradutora se preocupa com o melhor termo de maneira que sua frase fique mais clara e coesa. Esta preocupação faz com que o exemplo abaixo seja incluído nesta categoria de refinamento textual.
(Ex. 38-E) [Dias atrás (...) te damos
é...lhe damos não, fica estranho pode ser] demos algumas dicas sobre como iniciar ou ingressar (...)
Aqui em outro momento da atividade, a discente mais uma vez se preocupa com os elementos linguísticos na frase,um sinônimo da palavra “buraco” e a melhor forma de expressá-lo no TLC.
(Ex. 39-E) “Com sementes fazer um buraco”,
[um buraco não, fica muito feio, a ideia é fazer um pequeno buraco para colocar as sementes. Se eu traduzir do jeito que está fica estranho então é fazer...
tem outra palavra para buraco? ]
No excerto abaixo, a tradutora busca um sinônimo para a palavra, e diz precisar de um dicionário em língua materna para solucionar seu problema e adequar seu texto a um público leitor. Percebe-se aqui também um ethos construído por parte da discente que quer refinar seu texto para que ele fique dentro da norma padrão da língua, pois ela é uma estudante do Curso de Letras e, segundo as estratégias que demonstra adotar, precisa construir um TLC bem coerente e coeso. É o que Charaudeau (2005) denomina ethos de competência onde o sujeito demonstra habilidade do que sabe, no caso, o domínio das palavras e conhecimentos da língua e seus vários aspectos de forma que possa realizar completamente seus objetivos para ter êxito e resultados positivos.
(Ex. 40-E) Regar com jato d’água. Colocar as sementes. RASTRILLAR...como se diz puxar é... é fechar o buraco. Fechá-lo. Fazer o sulco com a ferramenta.
[meu Deus não vem outra palavra senão buraco na cabeça, fechar... que na verdade é... eu precisaria de um dicionário em português pra procurar outro sinônimo para palavra buraco para não ficar tão estranho.]
Outro exemplo de refinamento textual está no excerto abaixo, onde a tradutora busca a melhor forma de dizer no TLC.
(Ex 41-E): Pode-se semear nas sementeiras, [pode-se plantar fica melhor]
5.2.3.6. Tradutora Discente F
Neste exemplo, a tradutora, ao reler seu texto, se deparou com uma expressão que, após fazer sua busca interna e ativar seus conhecimentos linguísticos, deixou como estava por acreditar que o contexto explicava e assim o leitor entenderia. Então houve uma recusa a refinar o TLC.
(Ex. 42-F): Regar em forma de chuva com flor fina, no texto diz com flor fina, vou deixar do mesmo jeito pois eu acho que é pelo contexto.