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O estudante, Carlos, era filho de um casal de classe média alta. Seus pais eram servidores públicos e ambos possuíam pós-graduação Stricto Sensu.

Carlos tinha 12 anos e cursava o 8º ano do ensino fundamental no momento da coleta de dados. Era o primogênito da família e tinha uma irmã mais nova, com 09 anos, que não apresentava indicadores de AH/SD.

Pela trajetória escolar de Carlos, descrita por ele e por sua família, percebe-se que, desde muito cedo, a família observava no filho ações diferenciadas comparando-o a outras

crianças da mesma faixa etária. Evidenciou-se tal situação pela precocidade apresentada pelo estudante nos primeiros anos de vida. Apesar de prevalecer na família a desconfiança de potencial superior em Carlos, essa foi confirmada pela avaliação neuropsicológica apenas quando ele tinha 11 anos de idade e cursava o 7º ano do ensino fundamental.

Na educação infantil, Carlos teve um adiantamento escolar e foi alfabetizado com 04 anos, não apresentando dificuldades de adaptação ao contexto escolar. Porém, após a Educação Infantil, sua trajetória escolar foi marcada por muitas mudanças de escolas e necessidades de adaptação, que geraram ansiedade e insegurança em Carlos. As várias mudanças de escolas evidenciaram a dificuldade dessas instituições em incluir um aluno com AH/SD, visto que algumas não conseguiam atender à necessidade educacional de Carlos e foram consideradas fracas pela família; e em outras, Carlos, sofreu discriminação por parte dos colegas devido ao seu desempenho escolar superior.

Observa-se que a família, na medida do possível, acompanhava e estimulava o desenvolvimento da criança, buscando uma escola que atendesse a suas necessidades. No entanto, as buscas, conforme demonstraram os dados, foram de pouca satisfação. Diante disso, considerou-se que, por muitos anos, o estudante deixou de receber, nas instituições escolares que frequentou, atendimento educacional adequado que favorecesse seu desenvolvimento e favorecesse a necessidade de orientação de sua família. Além disso, não lhe foram ofertadas atividades diferenciadas que pudessem suplementar o seu potencial. A seguir, a trajetória escolar de Carlos foi descrita conforme seu relato e de seus pais.

Segundo sua mãe, desde pequeno Carlos dava indícios de ser uma criança à frente das outras. Ela acompanhava o desenvolvimento do filho e recorria a um livro sobre o desenvolvimento e a saúde de bebês, a fim de verificar como estava a evolução da criança. Durante um passeio matinal com Carlos, a mãe relatou ter percebido precocidade no filho ao ouvi-lo nomear “árbore”, por volta dos 09 meses.

[...] eu levei ele pra passear, ele no carrinho deitado e a gente passou embaixo de umas árvores aí ele fez uma carinha de que tava admirando, isso já me chamou a atenção... aí ele fez assim “árbore” [...] quando eu voltei ele olhou de novo e falou “árbore”... falei gente, não é coincidência...fiquei assim impressionada, contei pro pai e pra poucas pessoas. (Mãe)

Antes de um ano, Carlos já falava e andava. Desde bebê, frequentou uma creche particular em Brasília. Antes que ele completasse 03 anos, sua mãe levou-o para conhecer a

escola A4, que é considerada pela família uma boa escola de Educação Infantil. Sabia-se que,

pela idade, Carlos não poderia frequentar o Jardim I (Educação Infantil). Por interesse da família, após diálogo entre a mãe e a coordenadora da escola, Carlos realizou algumas atividades junto à coordenação pedagógica, quando se verificou que o garoto conhecia todo o alfabeto. De comum acordo entre a família e a escola, Carlos foi matriculado no Jardim I. Apresentou bom desenvolvimento e foi um dos melhores alunos da turma, mas, inicialmente, sua coordenação motora não estava boa, o que foi superado rapidamente, alcançando o nível proposto para aquela turma. Já no início do Jardim II, com 04 anos, ele estava alfabetizado, lendo e escrevendo frases. Com 05 anos, cursou o Jardim III, fase que transcorreu normalmente.

Em face ao exposto destaca-se a importância da boa relação entre a escola e a família para o desenvolvimento do estudante com AH/SD. Os dados demonstraram que o diálogo entre o contexto escolar e familiar contribuiu para a adaptação e o desempenho de Carlos na escola regular. Isso se ratifica nas palavras de Bronfenbrenner (1996) quando o autor afirma que a interação entre os diversos ambientes, nos quais o indivíduo está inserido, contribui para impulsionar o processo de desenvolvimento.

Devido a escola A atender apenas a educação infantil, ao término desse segmento o aluno, com 06 anos, foi transferido para outra escola particular de Brasília, a escola M. Nessa instituição, Carlos permaneceu por dois anos, onde cursou o primeiro e o segundo ano do ensino fundamental. No entanto, os pais consideraram a escola fraca e verificaram que Carlos estava desmotivado, conforme retratado na fala a seguir:

[...] a gente ficava com aquela sensação que ele tava marcando passo, assim...não estava gostando porque o conteúdo ele já conhecia, mas também porque a Escola A é uma escola que acelera muito, tem um nível bom... dentro daquilo que a gente acredita que é adequado ... Ele ficava um pouco angustiado com o conteúdo, achava que os colegas estavam indo mal... (Mãe)

Os pais informaram que passaram a procurar uma escola que suprisse as necessidades do filho, assim Carlos foi novamente transferido para outra escola particular, a escola S, quando iniciou o terceiro ano do ensino fundamental, estando com 08 anos de idade. Para os pais, a adaptação de Carlos na escola S foi mais complicada, pois consideraram que Carlos sofreu discriminação dos colegas por tirar boas notas.

Porque ele tirava dez e os colegas, acho que, sofria um pouco pra tirar o mesmo dez ou então tiravam oito, aí ele sofria um pouco... sentia que alguns colegas implicavam com ele, então foi mais sofrido. (Mãe)

4 Foram usadas letras para nomear as escolas A,M,S,AR e C, por questão ética e para preservar a identificação

Novamente, a família foi à procura de outra escola e, no quarto ano, Carlos, com 09 anos, foi estudar na escola AR, outra instituição privada. Para os pais, essa escola era considerada difícil e, durante o período de adaptação, sentiram Carlos meio assustado e se colocaram à disposição para ajudá-lo, caso fosse necessário. No entanto, tudo transcorreu normalmente, ele foi se ajustando e fazendo amizade, demonstrando boa adaptação escolar.

A escola AR era uma instituição de ensino regular que preparava os alunos para o concurso do 6º ano de uma escola pública federal de Brasília, avançando conteúdos com um ritmo severo e acelerado de estudos e realização de atividades. Segundo os pais, os integrantes da escola AR se preocupavam muito com nota, mas para os pais Carlos não era assim, ele demonstrava uma grande preocupação de não parecer “nerd”. Apesar de ganhar alguns certificados de bom desempenho na escola, ele não era considerado o melhor aluno da sala de aula. Entretanto, os pais consideraram que Carlos ficou mais ajustado na escola AR, porque tinha mais exigência, cobrança e promovia adiantamento de conteúdos.

No segundo semestre do ano de 2011, já no quinto ano, Carlos prestou, pela primeira vez, a prova do concurso para o 6º ano do ensino fundamental da escola federal, que chamarei de escola C. Ele conquistou a vigésima colocação, concorrendo com aproximadamente 1200 candidatos para 30 vagas.

Para os pais, a escola C tinha uma educação forte em Português e Matemática, o que para eles era considerado o ponto essencial de qualquer aprendizado. Porém, Carlos, no primeiro momento resistiu a uma nova mudança, mas foi convencido pelos pais a conhecer a Escola C.

Eu não conhecia bem, mas eu fiz a adaptação e acabei gostando. Eu quis fazer a prova e já sabia a matéria e acabei passando. (Carlos)

Mais uma vez houve dificuldades iniciais no processo de adaptação, conforme relato da mãe:

[...] ele até tava conversando isso comigo esses dias, no primeiro dia de aula eu sempre fico muito nervoso... aí eu falei, mesmo quando você já conhece a Escola? E ele falou, sempre fico...aí eu falei... então, o sexto ano deve ter sido uma tensão completa, né? Ele falou, nossa!!!... eu fiquei muito apavorado, muito nervoso...mas ele agora está se soltando mais... mas ele sempre foi muito tímido. [...] agora ele reconheceu o conteúdo, ele mesmo diz que ainda é muito fraco pra ele... pois já veio de concurso e já tinha visto muita coisa na Escola anterior.

A identificação de Carlos como superdotado ocorreu apenas quando ele estava no 7º ano do ensino fundamental, por sugestão da escola C. Segundo a família, após a identificação de AH/SD, a mãe entrou em contato com o órgão competente para que Carlos frequentasse a

sala de recurso do Governo do Distrito Federal (GDF). Fez a inscrição e recebeu orientações de que, assim que houvesse a vaga, a família seria comunicada. No entanto, até o momento da entrevista, Carlos não havia sido chamado, ou seja, estava há mais de um ano aguardando o atendimento.

Carlos relatou que gostava da escola C e considerava que o colégio oferecia um ambiente bom, porém que a escola não atendia sua expectativa de aprendizagem:

Eu acho que o colégio nivela muito por baixo, eles desperdiçam o potencial dos alunos. Por exemplo, Matemática... 6º e 7º anos de Matemática pra alguém que entra por concurso, são parados, não acontece nada de novo. (Carlos)

Na escola C, além das aulas regulares, Carlos participava das aulas de xadrez e das aulas preparatórias para as Olimpíadas de Matemática em contraturno. Também fazia curso de Inglês em uma instituição privada de Línguas. No ano de 2013, participou da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) e da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), classificando-se para a segunda fase das duas.

Observa-se que apenas na Educação Infantil, etapa em que houve uma interação positiva entre a família e a escola, Carlos teve um atendimento adaptado a seu potencial. Nas demais escolas em que estudou, teve que enfrentar várias dificuldades que podem ter interferido no desenvolvimento pleno de suas capacidades. As várias mudanças de escola podem ter impactado em sua socialização e formação de vínculos com seus pares. Nesse relato, verifica-se que não houve movimento das escolas no sentido de se adaptarem para receber o estudante com AH/SD, com exceção da escola da Educação Infantil A; nas demais instituições de ensino, o esforço de adaptação foi apenas do aluno.

Vale ressaltar que a Resolução 02/01(BRASIL, 2001) resguarda que o atendimento aos alunos com necessidades educacionais especiais, entre eles, o superdotado, deve ser realizado em classes comuns do ensino regular, em qualquer etapa ou modalidade da Educação Básica. Em razão disso a escola deve estimular a adaptação do estudante com AH/SD no ambiente escolar e a sua interação social com os professores e pares. Estimular a produtividade, por meio de oportunidades que favoreçam ao máximo o desempenho do potencial superior nas classes comuns, em sala de recursos ou em outros espaços definidos pelos sistemas de ensino, inclusive para conclusão, em menor tempo, da série ou etapa escolar.