CAPÍTULO V DESVENDANDO O ETHOS DO COLÉGIO BETA DA POLÍCIA
5.3 Trajetória escolar dos estudantes e professores
A maioria dos estudantes não cursou todo o ensino básico em Colégios da Polícia Militar, 42 (Tabela 7) alunos realizaram parte de seus estudos eu outras escolas.
Tabela 7: Formação escolar dos estudantes.
Quesitos pesquisados Proposições e opções Estudantes
nº %
Realização do Ensino Fundamental e Médio Totalmente no Colégio Militar 11 21 Parcialmente no Colégio Militar 42 79
Total 53 100
Predominância do tipo e escola Particular 37 70
Pública 16 30
Total 53 100
Início dos estudos no Ensino Médio Outros Colégios (públicos e privados) 31 59 Colégio da Polícia Militar 22 41
Total 53 100
Fonte: Pesquisa de campo - questionário.
Verificou-se que a maioria, 38 estudantes, realizou algumas das séries iniciais em instituições particulares. A considerar que as matrículas ocorrem por processo seletivo, por meio de provas ou sorteios, e são destinadas à fase inicial do ensino fundamental, é possível inferir que há uma quantidade significativa de matrículas por transferência.
Tal procedimento consta das Diretrizes Operacionais da Rede Pública Estadual de ensino de Goiás 2011/2012, da SEE, orientando para a necessidade de transparência e igualdade de oportunidades, sempre que houver processo de transferência. Entretanto, como aborda o Capítulo IV desta tese, os gestores do Colégio Beta da Polícia Militar não adotam
essas orientações.
Veja-se que 31dos estudantes (59%) participantes da pesquisa iniciara seus estudos em outras escolas. Este resultado, comparado àquele relativo ao processo seletivo, que não foi realizado com regularidade nas respectivas séries do ensino fundamental e médio, denota a consistência dos resultados. A alta frequência de estudantes originados de outras escolas, sem participar de processo seletivo.
O desejo de concluir o ensino médio no Colégio Beta pode-se justificar pela ótima performance de seus alunos nas provas que calculam índices nacionais e provas para aprovação em vestibulares. Um desses parâmetros de qualidade é o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) definido pelo governo federal, e que envolvem dois conceitos básicos sobre qualidade da educação: aprovação e média de desempenho em língua portuguesa e matemática, em escala de zero a dez, conforme estudado no Capítulo I desta tese. Em 2009 a meta prevista pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) foi a de alcançar 3,5, em uma escala de 0 a 10; as escolas localizadas em Goiás consolidaram índice de 3,6. O Colégio Beta obteve 5,2 de pontuação e as ações neste Colégio foram intensificadas para conquistarem melhorias no desempenho dos alunos com vistas à superação dessas metas.
O Ideb é instrumento de diagnóstico da realidade escolar, cujo cálculo é feito com base na aprovação, reprovação e abandono, nas escolas das redes estaduais e municipais de ensino, mensurados pelo Censo Escolar do MEC. Agrega-se ao resultado do desempenho dos estudantes avaliado pelo Sistema de Avaliação da Educação (Saeb) e pela prova Brasil. A medida de posição “quanto maior melhor”, com pontuação de 1 a 10, possibilita que as escolas busquem ações de melhoria para alcançar resultados satisfatórios.
O monitoramento dos processos que envolvem a avaliação permite às escolas traçarem estratégias para implementação de práticas e métodos pedagógicos mais eficientes, para atingir as metas estabelecidas nos planos educacionais. No ranking de classificação, em Goiás, os colégios militares alcançaram notas bem acima das metas, em todos os anos, desde o primeiro ciclo de avaliação, em 2006.
No Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), em 2008, 2009 e 2010, o Colégio Beta se posicionou na lista das vinte escolas públicas do Estado de Goiás com o melhor desempenho, seus estudantes alcançaram média superior à média nacional e bem acima da média estadual, com aproveitamento médio acima de 56,0 em todos os anos, enquanto a média das escolas esteve abaixo de 5,0 nos mesmos anos.
Nacional de Ensino Médio (Enem), somado ao sucesso na aprovação em processos seletivos, como concursos vestibulares, muito contribuíram para a crescente demanda de estudantes, tanto na forma de sorteio quanto transferência, o que se confirma pela análise dos dados da Tabela 9, neste capítulo.
A formação continuada não é exigida no Colégio. Os professores entrevistados revelaram que possuem formação na área de conhecimento na qual atua, à exceção das disciplinas filosofia e sociologia, ministradas por profissional com graduação em Ciências Sociais. A Tabela 8 mostra que a maior titulação da maioria dos professores é a pós- graduação lato sensu, na modalidade especialização.
Tabela 8: Formação do corpo docente.
Quesitos pesquisados Proposições e opções Professores
nº %
Graduação Na área em que atua como docente 8 89 Ministra uma disciplina sem a formação específica 1 11 Pós-Graduação lato sensu Cursou especialização 8 89 Não realizou especialização 1 11 Pós-Graduação stricto sensu Não cursou mestrado/doutorado 9 100 Fonte: Pesquisa de campo - entrevista.
Nas entrevistas com os professores, ficou claro que não tiveram incentivos por parte do Colégio Beta da Polícia Militar e, menos ainda, do Sistema Estadual de Educação, para cursos de pós-graduação stricto sensu.
A formação continuada dos professores foi apontada no Plano Estadual de Educação (2008-2017) como um dos graves problemas que afligem o ensino médio, bem como a educação básica como um todo. Esse descuido dos definidores de políticas exige medidas urgentes, de cunho social e político, considerando a importância da “promoção da cidadania, bem como a elevação do ensino médio à sua dimensão estratégica para o desenvolvimento científico, tecnológico e humano” (PEE, 2008-2017).
Os planos definiram as metas com foco na formação de professores e educação continuada, mas o que se constatou foi que não se implementaram ações para beneficiar os professores lotados no Colégio Beta da Polícia Militar, assim como nas demais UEBs da rede estadual de ensino de Goiás.
Os professores que atuam nas turmas do 3º ano do ensino médio do Colégio Beta e que participaram das entrevistas são contratados pela SEE por tempo indeterminado. É notável a falta de incentivos para a continuidade dos estudos, conforme preconizado na constituição e nos planos educacionais.
melhor formação também é realidade nas demais escolas públicas de Goiânia e de Goiás, apesar de significativa a oferta de cursos de especialização na capital e em toda a região metropolitana e também e outros municípios goianos. Esta realidade foi apontada por Ruiz, Ramos e Hingel (2006), como grave ameaça, possível de gerar “um Apagão do Ensino Médio”, se medidas emergenciais e estruturais não forem adotadas. São sérios os riscos decorrentes do insucesso, até o momento, dos vários planos educacionais, nacionais e estaduais.
Os cursos de mestrado e doutorado são uma realidade mais distante. De nada adiantará a elaboração e publicação de metas e prazos para o seu cumprimento se, em todos eles, é notável a falta de esforço do poder público para o cumprimento do mínimo planejado.
5.4 Percepção de professores e estudantes sobre a materialização do Projeto Pedagógico