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Capítulo 1. Cenário Histórico e Etnográfico da região do Médio Rio Solimões

2.2 Trajetórias e experiência

2.2.6. Trajetória Marcela Curintima Balieiro

2.2.6. Trajetória Marcela Curintima Balieiro

Marcela Balieiro Carvalho, Caixana, 35 anos, nascida em Tefé. Em sua narrativa Marcela começa contando sobre as experiências de seus pais antes e após mudarem para o município de Tefé. Os pais de Marcela, antes de mudarem para Tefé moravam na zona rural do município de São Paulo de Olivença, mas anterior a isso, eles residiram em uma outra localidade situada no rio Jandiatuba. Foi em um sítio, situado nesse rio que seus pais se conheceram e casaram-se. Depois de casados, seus pais mudaram-se para São Paulo de Olivença, e passaram a morar com os seus avós paternos. Ela conta que nessa época, seu pai trabalhava como seringueiro.

A convite de um de seus tios, e com o desejo de ter sua casa própria, seus pais mudaram-se para Tefé, com a promessa de que no município encontrariam melhor oportunidade de vida.

Para Marcela, esse foi o grande erro cometido pelos seus pais. Ela acredita que teriam sofrido menos se tivessem continuado em São Paulo de Olivença. Foi nesse período que Marcela nasceu mais precisamente no ano de 1981.

Marcela e sua mãe se identificam como Caixana, no entanto ela frisa que seu pai e seus irmãos são Cocama. Ela afirma que a sua identificação enquanto Caixana se dá pelo vínculo a família de seu esposo Geceoglâneo Brandão de Carvalho e a partir da luta que viveram na comunidade indígena Projeto Mapi.

Quando seus pais mudaram para Tefé, estes foram morar junto com o seu tio que lhes havia falado das oportunidades na cidade. Marcela conta que seus irmãos cresceram e que o seu tio não estava satisfeito com as atitudes de seus irmãos mais velhos. Ela conta que seus irmãos começaram a se envolver com bebidas alcoólicas e que a partir daí, começou o conflito de seus pais com o seu tio. Marcela se emociona ao falar dessa época. Ela conta que seus pais foram pessoas sofridas.

68 Ela narra que ainda não tinha nascido, mas que teve um prefeito cujo nome ela não lembrou, que começou a abrir o bairro de Jerusalém em Tefé. Seus pais conseguiram um terreno e foram construindo a casa aos poucos. Foi nessa casa que a Marcela nasceu. Marcela chegou à atual comunidade quando tinha 10 anos de idade. Ela conta que seus pais trabalharam durantes muitos anos para a Empresa Amazonense de Dendê (EMADE) e durante esse tempo moraram no alojamento da empresa. O seu pai trabalhou de cozinheiro, e a sua mãe trabalhava limpando ao redor dos pés de dendê.

Em sua narrativa, Marcela conta, que quando a empresa faliu eles tiveram que voltar para a cidade, e com o pouco dinheiro da indenização, o seu pai pode concluir a construção da casa do bairro de Jerusalém. Ela afirma que eles passaram por muitas dificuldades na cidade.

Um de seus irmãos que continuou na antiga terra da empresa foi visitá-los e contou para a sua mãe que as terras estavam desocupadas e perguntou a ela se não gostaria de retornar e plantar. Nessa época, somente a Marcela e seus pais retornaram para as antigas terras da EMADE. Ela frisa que lá foi o único lugar que eles encontraram para retirar o sustento da família. A maior dificuldade encontrada foi conseguir as sementes de maniva. Marcela narra que tiveram que carregar feixes de maniva de mandioca por nove quilômetros para construírem seus roçados. Segundo ela, a caça era farta, mas no início não tinham farinha para acompanhar, sendo assim, plantaram banana que produz mais rápido para servir de acompanhamento em suas refeições. Depois que passaram a produzir farinha, ela afirma que a dificuldade foi fazer com que a produção chegasse até Tefé. Ela conta que escoavam a produção com a ajuda de uma carroça puxada por burro.

Marcela afirmou que por conta da distância da área da comunidade até a cidade ninguém apresentava interesse pelas terras. Contou que quando foi morar na área que pertenceu à antiga empresa, não existia estrada, só havia a estrada que ia para a beira do rio Solimões. Segundo ela, continuar nas terras foi um desafio, e mesmo com todas essas dificuldades, a sua família, juntamente com a do seu Paulo, permaneceram. Ela frisa que, diferente da família dela, a do seu Paulo não saiu daquelas terras quando a empresa faliu.

Marcela conta que em 2017 esteve na comunidade uma equipe do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), solicitando que todos ali assinassem alguns documentos, no entanto, em reunião, a comunidade decidiu que nenhum documento seria assinado. Segundo ela, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) já esteve na comunidade e afirmou ter terras dentro daquela área. Marcela relaciona a procura por imóveis

69 dentro da área de uso da comunidade com a abertura da estrada. Segundo a interlocutora, foi a partir desse momento que foi pensada a demarcação da área como terra indígena. Ela conta que quando decidiram pela demarcação ainda era solteira. O seu pai, João Baleeiro que também já foi uma grande liderança, se juntou ao o seu Paulo, seu sogro, e levaram a demarcação à diante juntamente com o restante dos outros moradores.

Por ser uma pessoa de idade avançada, seu pai não está mais a frente da luta pela demarcação. Marcela afirma que esse é também um dos motivos para ela continuar. Segundo ela, seu pai lutou muito para ficar naquelas terras e para garantir que seus filhos também ficassem.

Em sua narrativa a respeito da demarcação da terra, Marcela afirma que já perderam diversas castanheiras em decorrência das invasões. A coleta de castanha é uma das fontes de renda da comunidade, e segundo ela, houve um episódio, no qual, as castanheiras da comunidade estavam sendo vendidas a 200 reais cada. No ano de 2016, a safra da castanha diminuiu consideravelmente. Normalmente, cada família, tira em média de uma a duas caixas de castanha por semana, mas no ano de referência, a coleta ficou abaixo da estimativa. Marcela relembra que quando entraram para aquelas terras, a área que utilizavam para caça, pesca e coleta era grande, mas por conta das invasões, atualmente, eles mal conseguem se mover dentro dessa área.

Em relação à sua identidade indígena, Marcela afirmou está sempre sendo questionada pelas pessoas de fora da comunidade. Segundo ela, os agentes da comunidade estão sempre sendo acusados de mentir a respeito da identidade indígena do grupo. Ela descreveu a semana em que a comunidade inteira se mobilizou e tomou a estrada em protesto às invasões. Segundo ela, foram dias de luta em defesa de suas terras. Marcela é uma liderança na comunidade Projeto Mapi, ela é uma das pessoas que mais viaja para participar das assembleias, reuniões, entre outros eventos do movimento indígena. Atualmente, está trabalhando no turno da noite como merendeira na escola da comunidade. Afirmou que no último ano se afastou da linha de frente com relação aos problemas enfrentados pela comunidade. Segundo ela, essa decisão foi tomada para a sua própria segurança, já que é uma das pessoas mais marcada e ameaçada pelos não índios. Marcela também já trabalhou na União dos Povos Indígenas do Médio Solimões e Afluentes (UNIPI/M.S.A), mais precisamente no Setor de Terra. Acompanhava as comunidades indígenas envolvidas com conflitos de terra. Segundo ela, seu trabalho era acalmar os ânimos tanto das comunidades indígenas que estavam sofrendo as invasões, quanto dos acusados de

70 invasão. Seus aconselhamentos eram para prevenir futuros confrontos que pudessem por a vida de ambos os lados em risco.

No Acampamento Terra Livre (ATL) realizado ano de 2017, Marcela foi uma das representantes dos Povos Indígenas da região do Médio Solimões.

Figura 17Marcela Curintima participando do ATL. Fonte: Fonte: www.facebook.com/fabio.fabiopereira.3/photos

Ela afirmou ter sido uma experiência gratificante, pois lá, ela pôde confraternizar com outros grupos indígenas que vivem a mesma situação da sua comunidade. No ATL ela pôde ouvir o testemunho de luta dos grupos indígenas de diferentes estados. Todos esses relatos funcionam “como uma injeção de ânimo, um sacolejo”. No entanto, ela também narrou a imensa tristeza que presenciou durante toda a semana do acampamento. Ela diz não compreender o porquê de tanta violência contra os povos indígenas. Ela narra um episódio no qual estavam cercados pelos policiais:

“E eles estavam colocando os parentes parecendo um animal, querendo domar o pessoal com os cavalos, com arma, né. Aí no último dia, quando a gente tava lá, que cercaram o congresso, cercaram com aquelas grades e os policiais em carreira na rua, né. Eu fiquei olhando e falei bem baixo para eles assim: infelizmente, nós ainda somos tratados como animais. Falei pra ele: porque olhe o meu povo que tá pra cá e olha vocês... Vocês estão com cassetetes, vocês estão com armas e quando vocês foram lá no nosso acampamento, disseram que nós não podíamos trazer nem flecha para nós defender. E quem defende nós?? O que tem pra nós? Nada, só bala de borracha, spray de pimenta. Eles ficavam calados, ficavam olhando... daí eu dizia: isso que é triste, ver que nós votamos nessas pessoas e que eles deveriam está aí dentro pra nós defender, e hoje o meu povo é batido, é escorraçado...”

Marcela disse sentir-se privilegiada ao viajar para participar das reuniões, assembleias, encontros. É a contribuição que ela pode oferecer em defesa do território da comunidade. No

71 entanto, ela não pôde deixar de mencionar o sacrifício que se deve fazer para continuar resistindo e permanecendo: “eu deixo os meus filhos, o meu esposo e a minha casa para fazer esse trabalho, e tudo isso é para garantir que meus filhos fiquem lá”. Afirma que é uma luta que quem ganha não é ela, e sim a comunidade.