Capítulo 1. Cenário Histórico e Etnográfico da região do Médio Rio Solimões
2.2 Trajetórias e experiência
2.2.7. Trajetória Orlânio Carvalho
Orlânio Brandão Carvalho, Caixana, 35 anos, nascido em Tefé, atualmente tuxaua e professor bilíngue da comunidade indígena Projeto Mapi. Orlânio é um dos filhos de Seu Paulo e dona Augustinha.
Figura 18Foto Orlânio Brandão Carvalho. Por Hilkiene Alves, 19 de Maio de 2017.
Depois de ter se apresentado, o jovem tuxaua iniciou a sua narrativa a partir de sua experiência enquanto professor bilíngue. Para ele, o ano de 2017 estava sendo melhor que os anos anteriores, pois no ano de 2016, a escola não pôde ofertar o ensino da língua materna.
Segundo ele, em 2017 a comunidade organizou-se em prol dessa reivindicação e felizmente, a escola pôde retomar suas aulas de Nhengatu. No entanto, Orlânio mostrou-se bastante insatisfeito, pois outras comunidades indígenas não tiverem em suas escolas a oferta de professores bilíngues.
Orlânio narrou com bastante entusiasmo, a respeito de uma aluna que estuda na cidade, mas que faz as aulas bilíngues na comunidade. Segundo ele, a professora da escola onde ela estuda (em Tefé, escola Gilberto Mestrinho), perguntou à turma, se na sala havia algum aluno(a)
72 indígena falante de alguma língua materna. Naquele momento, a aluna indígena se identificou e foi convidada para participar do evento em comemoração ao Dia do Índio. O professor de Nheengatu narrou que ficou orgulhoso por vários motivos: 1. Por sua aluna ter se apresentado a todos como indígena; 2. Por ela ser uma adolescente que fala Língua Geral, já que são poucos na comunidade que falam.
Contou que quando criança ele ouvia os antigos falando na língua, mas que ele não falava, somente entendia. Destaca em sua narrativa, que foi em sua juventude que surgiu o interesse em aprender a língua que seu pai falava. Ele usa expressão: “a gente quando é novo não sabe bem das coisas né, eu não me interessava ainda”. Orlânio diz que viveu muito no mundo do branco, estudou o mundo do branco, a língua do branco, na escola do branco, e que por isso foi esquecendo a sua língua.
Em sua narrativa, o professor contou o quanto tem sido difícil para ele continuar dando suas aulas na comunidade. Orlânio afirmou que os alunos aprendem muito mais rápido na prática e que por isso gosta de levá-los para a mata para aprenderem a língua vendo e tocando sobre o que estão aprendendo: pássaros, peixes, árvores. Mas de acordo com o professor, não está sendo mais possível usar essa didática com os alunos, pois as áreas de uso da comunidade estão sendo invadidas por não índios. Para ele, a invasão na área da comunidade tem influenciado de maneira negativa a educação.
Orlânio narrou um episódio de confronto que teve com um médico de Tefé. Segundo ele, o médico afirmou ser dono do igarapé que corta a comunidade. Nesse dia, Orlânio havia levado seus alunos para o igarapé e encontrou-se com esse sujeito. Disse que foi ameaçado, caso não se retirasse do local. O professor afirmou que isso é ruim, pois não pode mais levar seus alunos para essas áreas e ensinar a língua na prática. Segundo ele, as invasões ocorridas não afetam somente o exercício do ensino-aprendizagem, elas também têm afetado outros aspectos como: a caça, a coleta e o livre trânsito em uma área que sempre pertenceu à comunidade. Explicou que o melhor a se fazer, é não confrontar, o melhor é afastar-se da área invadida.
Orlânio chegou onde é a comunidade Mapi em 1982, época em que seus pais chegaram para trabalhar na Empresa Amazonense de Dendê (EMADE). Segundo ele, ainda era pequeno, mas lembra muito bem dessa época. Acompanhava os pais em seus trabalhos, estava sempre ajudando um ou outro. Relembrou dos barracões onde os trabalhadores da empresa eram alojados e frisa que sua família morou por um bom tempo nessas instalações. Destaca que, o
73 momento em que a empresa despediu seus pais, foi muito difícil para a sua família e para os demais trabalhadores.
No decorrer de suas narrativas, ele contou o quanto foi difícil continuar morando naquelas terras. Orlânio disse que na época ainda era pequeno, mas que lembra o quanto os seus pais sofreram para sustentar a família. Era necessário carregar toda a produção nas costas até chegar à Tefé. Relembrou que o prefeito na época entregou um jumento à comunidade para ajudar carregar a produção até a cidade ou até a beira do rio Solimões. De acordo com Orlânio, na área que correspondia às terras da antiga empresa, só moravam a sua família e as demais que resolveram ficar. Afirma que foi a partir da abertura da estrada que as pessoas começaram a ter interesse nas terras que atualmente correspondem à área de uso da comunidade. Orlânio relembra o episódio ocorrido em 2010, segundo ele, todos os agentes indígenas da comunidade pintaram-se e bloquearam a estrada com pneus queimados para impedir a invasão total de suas terras. Ele afirmou que, se não tivessem saído em protesto, teriam perdido todo o território que pertence à comunidade.
A respeito da sua identificação indígena, o jovem tuxaua afirmou que esta é anterior ao pedido de demarcação: “desde pequeno eu já sabia que era índio”. Contou que sempre viu seu pai e seu tio (seu Pedro, irmão do seu Paulo) conversar em Nhengatu. Afirmou que sempre soube que é índio, mas que não se reconhecia como tal por meio de um documento, disse que antigamente, ninguém precisava ter uma carteira da FUNAI para comprovar que é índio. Ele continuou: “a gente é o que nasce, eu nasci indígena né”.
Orlânio considera que a demarcação da terra é a única forma de protegê-la. Afirmou que ela foi solicitada quando o setor imobiliário foi avançando em direção às terras da comunidade.
Por muitos anos, foram os únicos a morarem naquela área: “a gente vivia aqui nessa área sozinho, a gente andava tudo isso aqui e não tinha quase ninguém, só um pessoal que tinha uma rocinha aqui, outra ali. Mas agora, a gente já não consegue mais andar, tudo tem dono”. Segundo ele, a demarcação foi pensada como estratégia de proteção e manutenção das terras. Desse modo, a demarcação daria mais segurança e estes teriam maior respaldo para impedir a entrada de não índios.
Em 2016, Orlânio tornou-se tuxaua da comunidade. Antes dele, o seu pai é quem era. O posto foi passado para Orlânio porque seu pai ficou bastante doente e já não tinha tanto vigor físico para continuar nessa forma de liderança. Ele frisou que está sempre consultando o antigo tuxaua,
74 pois ele continua sendo uma grande liderança dentro e fora da comunidade indígena Projeto Mapi.
Orlânio relembrou os seus primeiros passos dentro do movimento indígena. O pai, Sr.
Paulo, foi descrito como figura principal do seu processo de inserção dentro do movimento. Foi no início de sua juventude, que o professor de Nhengatu começou a acompanhar o pai em seus deslocamentos para as assembleias e reuniões. Seguiu dizendo: “quando eu era novo eu não entendia o que era o movimento né, não ligava muito para luta”. A consciência do que é o movimento indígena lhe foi sendo ensinado na luta do dia-a-dia, na resistência e permanência.