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PAC PROGRAMA DE ACELERAÇÃO DO CRESCIMENTO

6. Trajetória

A sequência de circunstâncias e escolhas irreversíveis no passado (“path dependence”) explica porque o Brasil não pode ser considerado um modelo energético mundial devido a dois aspectos do contexto histórico de curto e de longo prazo. O primeiro que o diferencia é a dimensão única, sem réplica possível em outros lugares, de sua oferta agroindustrial que combina gente, plantas e a vastidão de um território cientificamente transformado em abundância produtiva em plena riqueza da biodiversidade tropical. Paralelamente, a urbanização e a atividade industrial levaram ao crescimento do parque automotivo do paìs. O setor foi alvo dos efeitos de “délocalisation”, um fenômeno que criou a figura do “global supplier”, onde uma montadora tem dois ou três fornecedores de autopeças em países distintos. Em outros setores industriais, essa transformação transferiu do hemisfério norte para o sul linhas de produção inteiras, desempregando pessoas e mesmo desativando cidades, concentrando na Ásia desde canteiros navais até fabricantes de vestuário e bens de consumo doméstico.

No setor automobilístico, apesar da abertura das importações do mercado brasileiro, com a penetração de veículos diferenciados, o Brasil atingiu o posto de sexto maior produtor mundial em 2010, registrando um crescimento de 14,6% sobre 2009, ofertando 1,3 milhão de novos veículos para passageiros e 505 mil veículos comerciais a mais do que fazia em 2001 Outra marca: também em 2010, a produção brasileira veículos de

172 passageiros ultrapassou em 90 mil unidades aquela dos EUA (APÊNDICE 2) .134 Aspectos sobre os mercados de automóveis e cana-de-açúcar foram considerados na avaliação do sucesso do etanol brasileiro pela equipe de estudos sobre eficiência energética do Departamento de Transporte da Universidade da Califórnia, Davis. Concluíram que pela impossibilidade de réplica dessas condições contemporâneas em outros países do nosso hemisfério, como a Austrália ou paìses africanos, anulando o conceito de “modelo” substituído por uma espécie de excepcionalismo brasileiro. (Sperling, Gordon, 2009).

“Mas este momento, embora o possamos circunscrever com relativa precisão, não é senão um elo da mesma cadeia que nos traz desde o nosso mais remoto passado” (Caio Prado Junior, “Formação do Brasil Contemporâneo: colônia”, pag. 18)

O segundo aspecto sobre estratégia de Estado tem um horizonte de cinco séculos. A evidência original começou com a intencionalidade portuguesa de romper pelo mar os monopólios comerciais para ir organizar no Brasil a maior empresa agrícola das Américas, feitos marcaram a história econômica da Era moderna. A produção do açúcar de cana deu o sentido da colonização, entendida como povoamento nas zonas tropicais inicialmente hostis. A capacitação com os recursos científicos de seu tempo foi distribuída entre ilhas do Atlântico abrindo em duas frentes tecnológicas.

A primeira é ligada à pioneira seletividade de produtos através da aclimatação em território soberano de espécies de alto valor comercial; a segunda é ligada ao método de produção em escala comercial, um empreendimento que tomou a forma de extensas lavouras de monoculturas expandidas pelo trabalho intensivo especializado (as “corporate plantations”), simultaneamente amparado pela mercantilização da mão-de-obra cativa entre as populações indígenas e africanas.135 O pioneirismo estava no fato de uma só unidade

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Comparativamente a 2001, a produção brasileira totalizava 1,817 milhão, sendo 1,501 milhão de veículos de passageiros e 315 mil veículos comerciais. No mesmo ano a China produzia 2,3 milhões (703 milhões de veículos passageiros e 1,6 milhão de veículos comerciais), enquanto os EUA lideravam a produção mundial com 11,4 milhões (na proporção de 4,9 milhões para 6,5 milhões). Além da Espanha, aproximam-se da produção brasileira tradicionais mercados como Canadá, França e México.

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“Plantation” é inspiração de diversos estudos de tipologias das empresas rurais, sobre classes socais e o meio rural por Arthur Stinchcombe e, também, sobre o capitalismo agrário no Brasil e mudança social por Florestan Fernandes. A produção especializada estruturou o engenho - palavra substituìda por “fazenda” no século XIX quando a unidade rural se destacou da “usina”-, expandiu-se no hemisfério nas costas do Pacífico, do Caribe até a Flórida. O modelo de “plantation” é a matriz da agricultura comercial contemporânea, em

173 produtora reunir a grande propriedade com a grande exploração, que são duas coisas distintas.136 Logo, do somatório da riqueza do empreendimento com a força empregada no árduo e insubstituível esforço humano da ceifa da cana-de-açúcar resultaram anos de relações entre os indivíduos que gradualmente construíram características nacionais entre os habitantes.

“O sentido da evolução brasileira que é o que estamos aqui indagando, ainda se afirma por aquele caráter inicial da colonização.”(Caio Prado Junior, Ibid., pág. 30)

Até os nossos dias, a história nacional seguiu os passos do quotidiano do engenho. Para extrair o açúcar era preciso ferver o caldo da cana produzido pela moenda. À superfície emerge uma escuma ou cachaça, que é fermentada para depois destilar-se e, daí, apurar-se uma aguardente. É assim que se fazia a “água da vida”, a inspiração da história com suas respectivas variações de qualidade. Portanto, uma semelhante sucessão de gotejamentos, seguidos de prova e seleção como em um alambique, irrigou a vida pública no Brasil em todo esse tempo.

Em 1759, o Estado pombalino interveio para encerrar o regime de capitanias hereditárias sob o qual apenas Pernambuco e São Vicente haviam sido exceções de povoamento e prosperidade devido ao açúcar. Distribuiu monopólios e baniu a escravidão dos índios no Brasil, em 1757, na metrópole e Índia, em 1761, restringindo a oferta de trabalho no engenho em declínio. Transferiu o governo geral para o Rio de Janeiro, em 1763, para intervir sobre a queda das entradas da derrama do quinto do ouro, instituído em

prática a partir da segunda metade do século XX na Califórnia (EUA). No auge da chamada “revolução verde”, em 1965, o geógrafo Howard Gregor, da Universidade da Califórnia, Davis, assim se pronunciou: “the more industrialized plantation is simply another developmental stage, or “subculture”, of the plantation. The most impressive precedent for a vigorous and dynamic plantation form, however, is in the present agricultural revolution, a process that is spurring all agricultural forms to acquire many of the characteristics already considered most typical of the modern plantations. So well recognized has this process become, that several scholars have formulated steps in its operation. (…) Andreae deals with another major trend in agricultural modernization that is already widespread among plantations: specialized production. (…) But specialization is still held to be inevitable. Haushofer stress the growing emphasis on division of labor, leading to an ultimate stage that is even now practiced by many plantations, the contracting of people in neaby cities and towns for various farming operations”. GREGOR, H. “The Changing Plantation” in “Annals of the Association of American Geographers”, vol. 55, Nº 2 (Jun, 1965), pp. 236.

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174 1751. Entre o fim do absolutismo, em 1777, a inconfidência mineira em 1792 e a abertura dos portos, em 1808, o vendaval contra o Estado do Antigo Regime modificou o Brasil:

“Até 1769 não havia em Campos [dos Goytacazes] mais de 56 usinas de açúcar; em 1778 esse número subiu a 168; de 1779 a 1801 aumentou para 200; 15 anos mais tarde ele cresceu para 360 e enfim em 1820 havia no distrito 400 engenhos e cerca de 12 destilarias (St.-Hilaire, 1941: 398, apud PARANHOS). 137

Inevitável para esta pesquisa registrar a estratégia para o Brasil de Dom João VI aplicada em duas etapas.138 Primeiro, ao manter a soberania da Dinastia, mudando a Corte para o Rio de Janeiro, em 1807; e, depois, antes de partir, ao nomear seu filho Príncipe Regente do Brasil, em 1821, garantindo a segurança do Estado monárquico num continente cercado de repúblicas em construção. O café e o tabaco, mas não o açúcar139, foram os símbolos de riqueza do novo Império, estampados na bandeira adotada em 1822, possivelmente por razões estéticas de seus criadores. 140

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SAINT-HILAIRE, Auguste de. “Viagens pelo distrito dos diamantes e litoral do Brasil”. São Paulo: Nacional, 1941. (Brasiliana, v. 210) apud PARANHOS, P. “O Açúcar no Norte Fluminense”, disponìvel em http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao08/materia02/ Original disponível no acervo da Biblioteca Central da UnB.

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Parte do projeto de Dom João VI surgiu no reinado de seu avô. Segundo Maxwell, uma carta aberta anônima ao rei Dom José I, intitulada “Punch‟s Politiks”, publicada em Londres, em 1762, alertava para, no caso da aliança entre os Bourbons de Espanha e de França assumir o controle de Lisboa, para garantir um primeiro bloqueio continental (o segundo seria com Napoleão, em l807), “os ingleses poderiam satisfazer-se mediante a concessão do acesso direto ao Brasil, devendo o monarca português ser transferido, com toda a segurança, para o outro lado do Atlântico (...). Se o comércio inglês fracassar, encorajando o da França e Espanha, adeus à liberdade de seu paìs”. Os conquistadores da Metrópole seriam deixados “com a concha para subsistir, enquanto o núcleo seria levado embora”. (pág. 120). Portugal não acatou o ultimato para fechamento dos portos aos navios ingleses. A Espanha invadiu territórios na Europa e no Brasil, rechaçados por aliança com os britânicos. A paz foi selada por tratados de Madri (1750), Paris (1763) e Santo Ildefonso (1777). MAXWELL, Kenneth. “Marquês de Pombal: paradoxo do Iluminismo”-Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. Pág. 120-125.

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“No período imperial três produtos agrícolas que tinham sido importantes no período colonial continuaram a ter grande relevância na pauta de exportações, o açúcar, o algodão e o fumo, mas o café ultrapassaria definitivamente o açúcar como o principal produto exportado, em termos de valor, no início da década de 1830. Entre o início e o fim do Império, a participação das exportações de café nas exportações totais aumentou de menos de 20% para mais de 60%%. (...). Embora a participação das exportações de fumo nas exportações totais se tenha reduzido durante o Império, o seu volume aumentou gradativamente de cerca de 7 mil toneladas nos anos 1850 para mais de 20 mil toneladas nos anos 1880”. ABREU, Marcelo; LAGO, Luiz A. C. do “A economia brasileira do Império, 1822-1889”. Texto para Discussão nº 584. Rio de Janeiro: PUC Departamento de Economia – Versão preliminar do capìtulo 1 de nova edição, de “A Ordem do Progresso”. Data não disponível. Disponível em http://www.econ.puc-rio.br/pdf/td584.pdf acessado em 27/01/2012.

175 Segundo o Marquês de Abrantes relatou em 1834, a revolução industrial levou o mundo ao surto de produzir oito vezes mais açúcar do que cem anos antes.141 A participação do açúcar nas exportações totais diminuiu durante o Império, passando de cerca de 30% para 10%. O setor era liderado por Pernambuco com um terço das vendas externas, cabendo à Bahia perto de 30%, ao Rio de Janeiro um quarto e a São Paulo um oitavo do total. No início da década de 1850, o volume havia praticamente triplicado. Pernambuco respondia por 43% do valor exportado e a Bahia por 36%, cabendo aos demais estados 3 a 4% cada. Afetaram o nordeste as grandes secas de 1877/1879, 1888/1889 e 1898/1900, redirecionando a produção de açúcar para o sudeste, que até então atendia o consumo interno.

Todavia, o marco institucional relacionado à revolução industrial no setor canavieiro no Brasil foi a edição do Decreto nº 2.687, 06/11/1875.142 O governo foi autorizado a prestar garantia e aplicar juros de 7%, no prazo de 5 a 30 anos, “ao Banco de Crédito Real que se fundar” para fins de atendimento de propostas “até 30 mil contos de réis” para :

“Art. 2º (...) às Companhias que se propuzerem a estabelecer engenhos centraes para fabricar assucar de canna, mediante o emprego de apparelhos e processos modernos os mais aperfeiçoados (...)

§ 3º; No capital a que se conceder garantia de juros ficará comprehendido o valor de 10%, que constituirá um fundo especial destinado a ser dado pela empreza, sob sua responsabilidade, por emprestimos, a curto prazo e a juro de até 8% ao anno, aos plantadores e fornecedores de cannas, como adiantamento para auxilio dos gastos da producção. O emprestimo assim feito a qualquer plantador, não excederá de dous terços do valor presumível da sua safra, e terá para fiança do reembolsos, não sómente os fructos pendentes, como também certa e determinada colheita

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O Visconde de Taunay e variadas fontes apontam o francês Jean Baptiste Debret como seu criador, mas há igualmente referências à participação de D. Pedro I e a José Bonifácio Andrada. http://www.jackbran.com.br/lumen_et_virtus/numero4/PDF/DEBRET%20E%20OS%20FUNDAMENTOS% 20DA%20AMBIGUIDADE%20NACIONAL.pdf .

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ALMEIDA, Miguel Calmon Du Pin e (Marquês de Abrantes). “Ensaio sobre o fabrico do açúcar”. - Salvador: FIEB, 2002, pág. 44.

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Muito antes que o Brasil de 2011 fosse informado de que o etanol, em meio a uma crise de abastecimento, é combustível equivalente aos demais fósseis (Medida Provisória 532, de 28/04/2011 ), o Conselho Nacional do Petróleo, já em pleno vigor do Proálcool, em 1978, havia consolidado numa série intitulada “Legislação Energética”. Nela, toda a “Legislação Nacional sobre Álcool” foi juntada aos volumes sobre carvão e petróleo.

176 futura, instrumentos de lavoura e qualquer outro objecto não comprehendido em escriptura de hypotheca”.

O decreto foi firmado pelo Senador João Maurício Wanderley, o Barão de Cotejipe, um homem de engenho na Bahia, que acumulava no gabinete as pastas da Fazenda e dos Negócios Estrangeiros. Demitido após expressar o único voto contrário à Lei Áurea, em 1888, vaticinou que a abolição da escravatura representava o fim do trono imperial, o que de fato ocorreu um ano e meio depois. O decreto refere-se ao Banco do Brasil. A história oficial do banco considera como data de criação o ano de 1808 e a refundação pelo Barão de Mauá, em 1851. No segundo império, foi presidido pelo próprio Barão de Cotejipe, mas sua forma atual foi redefinida já na república em 1893. O custo operacional de um engenho central com tecnologia de difusão é indicado no Decreto nº 98, de 27/12/1889, que escapou à coletânea do CNP. Trata da concessão de empréstimo ao indivíduo Joaquim Ignácio Pereira no valor de 1.150:000 (hum mil cento e cinquenta contos de réis), à taxa de 6% a.a. No ano de publicação, tal montante equivalia a £ 123,00 (cento e vinte e três libras esterlinas), valor proporcionalmente vultoso em termos atuais considerando tratar-se apenas de uma operação de crédito. 143

Estavam evidentes duas variações de ordem tecnológica e institucional que caracterizavam uma nova realidade canavieira: primeiro, introduzia a futura divisão do trabalho entre o canavial e a usina, segregando a população dirigente e suas estruturas de propriedade e de produção que vinham concentradas num só engenho desde o século XVI; e, por outro lado, a introdução de valores da escala capitalista impondo o risco do investimento, pois importantes somas de recursos eram necessárias para enfrentar desafios

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O decreto ausente da obra do CNP compõe o acervo de legislação informatizada do Palácio do Planalto. Para fins de cálculo do valor atual, identificou-se que, em 1889, a paridade legal oscilou entre 25 e 27 pences de libra por mil-réis (ds/1.000) para os anos setenta do século XIX (cfe. Furtado, C. “Formação Econômica do Brasil”. Cia. Editora Nacional. 1970, pág. 163). O valor atualizado calculado a preços ao consumidor de dezembro de 2010 corresponderia a um poder de compra em libras esterlinas de £ 9.750,00 (ou US$ 15.035,00). Tal valor seria ainda mais expressivo, equivalente em libras a £ 49.000,00 (US$ 75.560,00), se calculado em termos de rendimentos médios acumulados ao longo dos anos. Por outro lado, tomando por parâmetro a cotação de £ 4,24/onça-fina de ouro da época, o capital concedido corresponderia à quantidade física de 29,1641 onças-finas. Convertendo-as a preços correntes do mercado de Londres em dezembro de 2010 (1 onça= US$ 1.224,53), então, o capital corresponderia a aproximadamente, US$ 35.700,00. Base de dados utilizada elaborada por Officer, Lawrence H.; Williamson, S. H., “The Price of Gold” e “The Annual RPI and Average Earnings for Britain 1209 to 2010 (New Series)”, Chicago: MeasuringWorth (University of Illinois), 2011. Disponível em http://www.measuringworth.com/gold/, acessada em 17/01/2011.

177 em meio à proximidade da extinção da mão-de-obra escrava, fato que, por si só, encareceria a relação de trabalho e reduzia os ganhos.

Ao deixar de interferir no preço final de exportação, os antigos proprietários haviam sido transformados em intermediários supridores de matéria prima aos usineiros, que tinham o último contrato de venda. Associações reuniram-se em torno do “engenho central” em busca de organizar a captação de recursos financeiros para enfrentar tecnologias, a concorrência e a autosuficiência gerada pela beterraba na Europa Central (apenas a Grã-Bretanha e o sul da Europa seguiriam dependentes do açúcar de cana). A propósito, na segunda metade do século XIX, o suprimento era conduzido por holandeses com produtos das Antilhas (Caribe) e Java (Indonésia). Depois da primeira extração de açúcar de beterraba na Alemanha em 1747, o bloqueio continental fez o crescimento da indústria na França, incentivada por isenção tributária em 1812. A par disso somaram-se novas técnicas para otimização do conteúdo de sacarose no tubérculo. O uso de máquinas a vapor para aproveitamento da sacarose foi igualmente exportado para extração de açúcar de cana nas Antilhas. A moagem (compressão mecânica por rolamentos) foi substituída pelo método da difusão térmica e lixiviação (com tubos, caldeiras e centrífugas), cujo princípio é válido ainda hoje. A extração do caldo da cana-de-açúcar através da difusão deu escala industrial à produção açucareira.

Por esse motivo, o Decreto 10.393, de 09/10/1889, firmado pelo liberal Lourenço Cavalcanti de Albuquerque, oficializou a distinção entre engenhos centrais voltados “para fomentar a expansão da indústria sacarìfera” e os demais estabelecimentos ligados à agroindústria e dedicados ao “amanho da terra e ao aumento e aperfeiçoamento da cultura da cana”. Apartaram-se as tarefas de plantar e de fabricar “assucar e alcool de canna”. O modelo de engenho central e palavra “usina” foram importados da França, cujas máquinas também faziam parte do negócio, que incorporaram no Brasil seus próprios canaviais, mas distinguiam a indústria da agricultura dos engenhos banguês em latifúndios escravocratas e monarquistas. 144

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COSTA FILHO, Miguel. “Engenhos Centrais e Usinas”. Revista do Livro. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura. Instituto Nacional do Livro, vol. 19, Ano V. setembro, 1960 pag. 83-91. Segundo o “Le Trésor de la Langue Française Informatisée (”, o vocábulo francês “usine” é documentado desde 1798 e deriva do valão “occhevine”, “oe(u)chine” e “wisine”, para descrever uma oficina artesanal instalada junto a um curso d‟água (“eau”).

178 O canavial tinha custos de produção próprios, com novas mudas e técnicas de manejo, enquanto a usina tinha outro nível de custos, exigia mais capital. O poder de influência passou da aristocracia rural para o capital financeiro dos usineiros. Um número de 87 unidades centrais foi autorizado entre 1870 e 1890, embora apenas 12 tenham iniciado suas atividades. Não foi só a transformação causada pela tecnologia e mudança de valores institucionais que afetaram a realidade rural brasileira, mas, também, o crescimento da produção de café em São Paulo.145

7. Intervenção

O Decreto n. 1.053, de 22/09/1903, assinado pelo Presidente Rodrigues Alves autorizava-o a despender 200 mil contos de réis com a “Exposição Industrial de Apparelhos a Alcool”, promovida na capital do paìs pela Sociedade Nacional de Agricultura, que previa a publicação dos trabalhos com o intuito de “vulgarizá-los no paìs”. Em 19/12/1913, o Decreto nº 10.076, aprovou o regulamento das estações experimentais de cana-de-açúcar sob a jurisdição da pasta dos Negócios da Agricultura, Indústria e Comércio. Competia às estações “estudar a cana-de-açúcar sobre (sic) todos os pontos de vista, biológico, químico, agronômico, procurando os meios para elevar o seu rendimento cultural e técnico e melhorar o seu aproveitamento em geral”. Em 1919, o “álcool motor” foi adotado para toda a frota de veículos na cidade de Recife (PE). Em 1920 é instalada Estação Experimental de Combustíveis e Minérios e o Serviço de Geologia dentro do Ministério da Agricultura.

Foi a riqueza das exportações de café que nas duas primeiras décadas levou as famílias à construção de usinas de açúcar, pois conheciam os equipamentos de secagem do grã, caso das famílias Ometto e Dedini(Eisenberg apud Vian, 2003, 69). Contudo, a maior intervenção do Estado ocorrerá a depois da crise de 1929, quando houve um desequilíbrio entre a superprodução de café e a queda das vendas com repercussão em todo o resto da

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O café é sem dúvida o item de maior representatividade no estudo do relacionamento comercial entre o Brasil e os EUA. Os cafeicultores brasileiros, com custos de mão-de-obra superiores aos usineiros e plantadores de cana-de-açúcar, exportavam um produto sem concorrentes destinado aos EUA, um mercado em crescimento desde a segunda metade do século XIX, onde o chá era fornecido por britânicos a um preço elevado, cujo consumo era associado à elite, enquanto o café era a bebida popular.

179 economia com a falta de renda. Também houve a queda do consumo interno, dominado pelos produtores nordestinos, que entraram em conflito de interesses com os paulistas que haviam atingido a autosuficiência. Surgiu o Estado como mediador, materializando sua intervenção em 1931 pela falta de mecanismos financeiros e custos não-competitivos no