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Transferência interlateral de aprendizagem

No documento Universidade Estadual de Londrina (páginas 39-50)

A prática realizada no presente estudo proporcionou a aprendizagem após a fase de aquisição para ambos os grupos, ou seja, os grupos aprenderam independentemente da prática específica com o lado preferido ou não preferido. Além disso, em ambos os grupos houve um aumento no desempenho do lado contra-lateral homólogo (membro que permaneceu em repouso durante a aquisição) no teste de transferência interlateral. Desta forma, os resultados demonstraram que ambos os grupos apresentaram transferência interlateral de aprendizagem. Tais resultados foram explicados por meio da teoria de transferência dos elementos cognitivos (THORNDIKE, 1914), citado por (MAGILL, 2000) pelo compartilhamento de redes neurais (TAYLOR; HEILMAN, 1980) citado por (TEIXEIRA, 2001) e pela utilização comum aos lados de representações do movimento por meio dos programas motores generalizados (SCHMIDT, 1975) citado por (MAGILL, 2000).

A prática unilateral pode ter levado a uma transferência dos elementos cognitivos que fizeram parte da tarefa aprendida de equilíbrio dinâmico, permitindo que os elementos cognitivos fossem relacionados às metas („como fazer‟) e aos

objetivos („o que fazer‟) da tarefa. Deste modo, a prática com um determinado lado possibilitou ao aprendiz ter experiência procedimental que garantiu vantagem ao desempenhar a tarefa com o lado contra-lateral ou com a nova tarefa (base com ambos os pés). O compartilhamento de redes neurais foi outro fator que pode ser utilizado para explicar tais resultados, nos quais seria possível realizar a transferência de informações entre os hemisférios cerebrais, por meio do corpo caloso e por conexões em níveis inferiores do sistema nervoso central (TAYLOR; HEILMAN, 1980) citado por (TEIXEIRA, 2001). De fato, a possibilidade em aproveitar a informação transposta de um dos lados do corpo para o outro tem sido verificada por meio da ativação contra-lateral em situações de aprendizagem (TEIXEIRA, 2006). Por exemplo, Davis (1942) constatou a existência de atividade eletromiográfica nos quatro membros corporais quando um deles desempenhavam um movimento, no qual, a maior parte da atividade eletromiográfica ocorreu para o membro contra-lateral homólogo, seguida por uma redução de ativação para o membro ipsilateral e uma ativação mais reduzida ocorreu para o membro diagonal.

A transferência de aprendizado também pode ser explicada pela utilização do mesmo programa motor generalizado para realizar a ação. Considerando que a prática fortalece a representação de um determinado programa motor generalizado (GONÇALVES et al., 2007), quando é necessário realizar a tarefa com o membro contra-lateral, esse membro, por sua vez, também utilizaria a mesma representação fortalecida, necessitando apenas ajustar os parâmetros de controle no movimento como visto no trabalho de Schmidt (1975) Por conseguinte, estas três explicações podem auxiliar no entendimento destes mecanismos compensatórios de desempenho entre os hemisférios corporais que permitiram a transferência interlateral de aprendizagem para ambos os grupos.

Contrapondo os resultados do presente estudo, alguns pesquisadores não têm verificado a transferência interlateral de aprendizagem. Karni e colaboradores (1995) analisaram as modificações corticais durante a prática de toques sequenciais rápidos repetidos de dedos, por meio de ressonância magnética e de modificações comportamentais no desempenho da tarefa. Estes autores demonstraram apenas que o ganho de desempenho foi específico à mão de prática, ou seja, sem a manifestação da transferência de aprendizado. Teixeira (1993) também não encontrou efeito da transferência interlateral em tarefa de impulsionar um pequeno disco com o dedo indicador em direção a um alvo espacial horizontal. Este autor

propõe que a transferência de aprendizagem ocorreria, principalmente, em situações nas quais há maior demanda cognitivas ou perceptivas nos elementos a serem aprendidos na tarefa (TEIXEIRA, 1993). Faquin e colaboradores (2011) também não verificaram a transferência interlateral em tarefa de arremesso de dardo de salão em direção a um alvo. Estes autores sugeriram que, para que a transferência interlateral ocorresse, seria necessário haver grande melhora no desempenho e no aprendizado do lado que realizou a prática, pois apenas uma pequena parte dos elementos aprendidos seriam transferidos para o membro contra-lateral (FAQUIN et al., 2011). Apesar desta ausência no efeito da transferência interlateral nos estudos acima citados, a tarefa do presente estudo parece possuir também uma importante característica perceptivo-motora (ou percepção-ação) que demanda do aprendiz acoplar suas respostas à percepção de equilíbrio-desequilíbrio proporcionado pela perturbação imposta pela plataforma instável. Deste modo, atendendo à característica acima citada por Teixeira (1993). Também, a prática fornecida no presente estudo pareceu ter sido suficiente para garantir a melhora no desempenho e no aprendizado sugerida por Faquin e colaboradores (2011). Assim, permitindo que quantidade expressiva de transferência interlateral e intertarefa ocorresse.

A transferência de aprendizado, no presente estudo, ocorreu de forma simétrica. Isto é, a magnitude de transferência foi igual para ambos os sentidos (do lado preferido para o não preferido e do lado não preferido para o preferido). Portanto, a hipótese de que a transferência interlateral de aprendizagem teria maior magnitude na transferência do lado não preferido para o lado preferido foi refutada. Os resultados do presente estudo, também divergem dos estudos encontrados na literatura que analisaram a magnitude do sentido da transferência lateral.

Wang e Sainburg (2004) mostraram que apenas a prática com o membro preferido, na tarefa de sair de um círculo em direção ao alvo em uma linha reta o mais rápido possível, apresentou melhora na transferência para o lado não preferido. Por outro lado, Kumar e Mandal (2005) apresentaram melhor transferência interlateral do lado não preferido para o preferido, em tarefa de contornar uma figura de estrela com seis pontas por meio de um aparelho que utiliza a imagem invertida com um espelho. Pinho e colaboradores (2007) demonstraram transferência de aprendizado do lado não preferido para o preferido em tarefa de digitar uma sequência de teclas pré-determinadas; e, transferência de aprendizado do lado preferido para o não preferido em uma tarefa de soltar uma chave pressionada e

transportar duas bolas de tênis em uma sequência pré-determinada entre quatro recipientes. Os resultados do presente estudo, e dos estudos acima citados, foram explicados pelo fato da transferência de aprendizado, ou de sua magnitude, ser influenciada pela restrição da tarefa praticada (STODDARD; VAID, 1996).

Stoddard e Vaid (1996) analisaram a transferência de aprendizado, por meio de uma tarefa de rastreamento de uma trilha com uma das mãos. Estes autores utilizaram diferentes tarefas com pequenas modificações entre elas, tais como: a utilização de um percurso idêntico ao da prática, um percurso com formato espelhado e um percurso invertido no eixo vertical (de cabeça para baixo). Foram verificados melhores índices de transferência interlateral de aprendizagem no sentido da mão preferida para a não preferida quando o percurso foi idêntico ou invertido no eixo vertical. Ao passo que, a transferência interlateral de aprendizagem na direção oposta foi expressivamente maior na direção contraria. Isto é, da mão não preferida para a preferida, quando foi empregada um percurso espacialmente invertido. Portanto, esses estudos reforçam a noção de que a transferência interlateral de aprendizagem não é uma característica universal entre as diferentes tarefas motoras (TEIXEIRA, 2001).

Estes estudos demonstraram que ocorre maior magnitude de transferência interlateral de aprendizagem do lado preferido para o não preferido ou vice-versa. Os resultados do presente estudo mostraram que esta transferência interlateral é indiferente em ralação à magnitude de direção da transferência, o que pode levar profissionais de Educação Física, Esporte e Reabilitação a iniciar a prática com o lado preferido ou com o lado não preferido, pois, qualquer lado que inicie esta prática irá transferir o conhecimento aprendido para o lado que não realizou a prática.

6 CONCLUSÃO

A prática com o membro não preferido foi capaz de mudar a preferência lateral de destro moderado para indiferente (ambidestria) e a prática com o membro preferido manteve a preferência lateral (destria). Deste modo, a mudança da preferência lateral, em função da prática específica pode ser utilizada para evitar lesão por esforço repetitivo no esporte, em tarefas do cotidiano e no trabalho. Além disso, a preferência lateral indiferente também pode ser uma vantagem no esporte, pois um atleta ambidestro tem um maior repertório motor no jogo, tanto para defesa quanto para o ataque.

A transferência interlateral de aprendizagem foi verificada para ambos os sentidos, ou seja, do lado preferido para o não preferido e do lado não preferido para o lado preferido. Portanto, a transferência de aprendizagem foi explicada pelos mecanismos compensatórios que previnem um desenvolvimento motor unilateral, conforme as habilidades motoras são praticadas. A transferência interlateral simétrica verificada no presente estudo foi explicada pelas restrição específica da tarefa utilizada.

Foram sugeridos mais estudos que investiguem o efeito de diferentes restrições da tarefa sobre a magnitude da transferência interlateral entre o lado preferido e não preferido.

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