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1   O ENSINO SUPERIOR A DISTÂNCIA 24

1.4  TRANSFORMAÇÕES RECENTES NO ENSINO SUPERIOR 47 

“O Brasil ainda tem uma escola do século XIX, professores do século XX e alunos do século XXI”, afirma o integrante do Conselho Nacional de Educação,

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Mozart Neves Ramos (G1, 2012, p. 1). Refletindo sobre esta afirmação, percebe-se que há um descompasso entre escola, professores e alunos no processo de aprendizagem. De maneira sucinta, é possível dizer que a escola se mantém com uma estrutura rígida, centrada no professor como orador e o aluno como ouvinte. Os docentes apresentam resistência às novas informações, divulgadas por meio das mídias, e ao uso das tecnologias comunicacionais para o ensino. Em contraposição, os discentes, cada vez mais conectados ao mundo virtual por meio da Internet, apontam que o uso das tecnologias para o aprendizado é inevitável.

Considerando a educação em nível superior, Peña et al. (2005) afirmam que, a docência universitária está passando por um processo de transformação, pois de um lado os estudantes se tornam profissionais despreparados para a profissão que devem exercer e os professores estão presos a modelos pedagógicos ultrapassados, que não estimulam a participação ativa do aluno no processo de aprendizagem. Por outro lado, a sociedade toma consciência de que a formação de nível superior é cada vez mais requerida para a entrada no mercado de trabalho. É preciso apresentar a certificação requerida e mostrar competência para o trabalho visado, o que implica articular o conhecimento produzido com as inúmeras situações do cotidiano.

É preciso pensar o ensino superior em bases totalmente novas, nas quais o centro seja o aluno, as suas necessidades efetivas e o seu engajamento profissional, enquanto o professor e o tutor assumem o papel de articuladores e estimuladores da sua aprendizagem, além de mediarem o saber existente e a realidade social em que ele vive. Este é um dos princípios muito estudados na educação a distância, em que a relação entre professor/tutor e aluno passa a ter nova configuração.

Com base no estudo da obra de Lauro de Oliveira Lima (1987), Mutações em

educação segundo McLuhan, publicada na década de 1970, são analisadas nesta

dissertação as questões sobre as tecnologias e os meios de comunicação na educação do mundo contemporâneo. Assim, passado mais de quarenta anos de sua primeira edição percebe-se o quanto é moroso o processo de transformação na educação e como as visões de Herbert Marshall McLuhan permanecem atuais.

Atualmente a rapidez na aquisição e na substituição do saber fazer e dos conhecimentos teóricos altera o papel do professor, pois as informações estão disseminadas por diversos recursos midiáticos e o professor deixa de ser a principal

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fonte de conhecimentos para o aluno. O professor-informador e o aluno-ouvinte são substituídos pelo professor-animador e o aluno-pesquisador, pois a velocidade da substituição do conhecimento elimina a ideia de ensino e desafia a pesquisa em todos os domínios. Assim, a ideia de ensino é substituída por uma autoaprendizagem, em que o professor deve criar situações para que os alunos se disponham a pesquisar, utilizando as informações disponíveis, onde o resultado pode até superar os conhecimentos do professor.

Como corolário é interessante uma discussão ética da autonomia do aluno em educação, onde destacam-se as ideias de Paulo Freire, que defende a necessidade do docente em respeitar a dignidade do educando, sua autonomia e sua identidade. “É que o trabalho do professor é o trabalho do professor com os alunos e não do professor consigo mesmo” (FREIRE, 1996, p. 38). Ele afirma que toda prática educativa demanda a existência de sujeitos, "um que, ensinando, aprende, outro que, aprendendo, ensina" (FREIRE, 1996, p. 77). Os conteúdos a serem ensinados e aprendidos envolvem o uso de métodos, de técnicas, de materiais; e implicam objetivos, sonhos e ideais.

Como consequência da falta de autonomia do aluno, o aprendizado pode ser prejudicado, pois o aluno pode não incorporar o conhecimento de maneira efetiva para aplicá-lo adequadamente em uma solução prática e, concordando-se com Lima (1987), para que o aprendizado ocorra, é necessário que o aluno esteja mobilizado e engajado na sua tarefa:

Ou aluno está engajado na aprendizagem ou não há ensino possível. Não basta, como supõem os devotos da comunicação de massa, saturar o ambiente de informação: se o aluno não estiver mobilizado para recebê-la é como se a informação não existisse. Um banquete não estimula o apetite se o indivíduo não estiver com fome (LIMA, 1987, p. 37).

O modelo atual de escola que enfatiza a memorização de conteúdos engessa e produz o enfraquecimento da inteligência, pois esta é uma função que só se ativa diante da situação problema. Assim, os alunos precisam ser incentivados a pensar, a produzir conhecimento, a pesquisar e não apenas reproduzir informações e fixar soluções, que podem não atender às diversas situações. O modelo de professor recitando textos e escrevendo em um quadro negro, para alunos confinados em uma sala de aula, foi inventado na Idade Média, quando o professor era o único informante disponível. Não havia sequer livro. Apesar de esse ser um processo

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retrógrado, ele ainda permanece nas escolas brasileiras e incrivelmente resiste às críticas (LIMA, 1987).

Contra o modelo tradicional, de professor recitando textos e escrevendo em um quadro negro, Lima (1987) propaga no Brasil a dinâmica de grupo. Considera-se que os padrões atuais levam a individualização e a especialização, quando a automação faz desmoronar estes conceitos, exigindo cérebros cada vez mais globalizados, em que o grupo de trabalho se torna uma necessidade. Enquanto McLuhan (apud LIMA, 1987) supõe o desaparecimento da especialização e da estandardização, Lima prefere supor que se mantenha o especialista, porém este só pode funcionar em grupo, o que elimina a competição a favor da cooperação. Dentro desta visão, Lima (1987) defende a dinâmica de grupo como um processo de engajamento que altera o papel do aluno como mero espectador de uma aula, em que a sua participação nem sempre é interessada. Assim, supõe-se que a atividade educativa, em todos os níveis, seja uma dinâmica de grupo, que tenha a técnica de engajamento mútuo em vista a um objetivo.

Os novos meios ultrarrápidos de comunicação a grande distância – rádio, telefone, televisão [atualmente a Internet] – estão a ponto de ligar o mundo inteiro numa ampla rede de circuitos elétricos, suscitando uma nova dimensão do engajamento do indivíduo face aos acontecimentos (LIMA, 1987, p. 24).

É importante salientar que, diante dos poderosos recursos tecnológicos disponíveis, não se justifica mais um professor propagar a informação para uma pequena turma, quando seu conhecimento poderia ser difundido por meio das mídias para um grande número de alunos no ensino a distância. Essa questão pode ser reforçada pelos apontamentos de Tinoco (2014), de que há uma defasagem de formação de professores brasileiros, o que impacta na qualidade da educação no país. De acordo com Mozart Neves Ramos (apud TINOCO, 2014) o déficit de professores, no ensino médio, chega a ser de aproximadamente 250 mil docentes, o que representa 22% do total. Neste contexto, o ensino a distância mostra-se com grande potencial para elevar a qualidade da formação e a quantidade de docentes.

No ensino presencial, a própria disposição do mobiliário na sala de aula deve mudar para incluir a utilização dos recursos eletrônicos, além de proporcionar as discussões em grupo e a reflexão.

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Não é compreensível que mudem todas as atividades humanas diante do impacto da tecnologia e uma aula continue, basicamente, o passeio peripatético de Aristóteles...[...] É porque as escolas não respondem às solicitações do contexto social, que está aparecendo um sistema escolar paralelo dentro da área da produção (LIMA, 1987, p. 16).

Dessa forma, Lima (1987) afirma que as publicações periódicas substituirão o livro didático tradicional e as informações fornecidas pelos meios de massa são públicas, ou seja, acessada por todos. Além disto, esse autor defende que tudo que é programável será entregue às máquinas (automação), ficando à inteligência humana a função indagadora. Tendo que a discussão só é possível pela diversidade dos participantes e que seu objetivo é criar uma solução original, as fórmulas para as soluções serão objetos de permanente reformulação, gerando plena criatividade num processo lúdico coletivo. Acredita-se que a dicotomia entre trabalho e lazer desaparecerá, pois o engajamento cada vez mais profundo do estudante fará este processo menos estressante e mais natural.

Deve-se combater a aprendizagem padronizada que priva a necessidade de comunicação e de reflexão. Quanto maior a diversidade entre os alunos, maior a possibilidade de transmitir as experiências uns aos outros. O aluno passa a escolher o que lhe convém. O professor não terá que usar a coação para obter resultados, mas será um perito que dará assessoria a um grupo de trabalho, motivando os alunos ao pleno engajamento em suas atividades e a criatividade.

Vive-se num período em que os conhecimentos são substituídos e/ou atualizados rapidamente. Isto gera o surgimento e o desaparecimento de profissões, num ciclo de conhecimentos cada vez mais rápido. Corroborando com esta análise, Pastore (2014) afirma que as tecnologias são evolutivas e que exigem habilidades ainda não existentes. O autor acredita que, dentro de dez anos, a maior parte dos seres humanos vai trabalhar com técnicas que ainda não foram inventadas, e só conseguirão acompanhar a evolução tecnológica os que tiverem bom senso, lógica de raciocínio, capacidade de transformar informações em conhecimentos e souberem trabalhar em grupo. Resumidamente, só os que tiverem flexibilidade mental terão oportunidades, resultado de uma educação de boa qualidade.

Havendo flexibilidade, os trabalhadores conseguirão se ajustar, tirando proveito inclusive das novas formas de aprendizagem como a oferecida pela enorme quantidade de cursos a distância viabilizados pela Internet. Visto desta maneira,

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essa metodologia de ensino constitui uma poderosa resposta para ajudar a superar as deficiências atuais.

A disseminação do ensino por meio da Internet promove, hoje, além de uma formação regular, os cursos livres10 e a possibilidade de uma formação contínua.

Conforme apontado por Peña et al. (2005), as condições da vida moderna pressionam as pessoas no sentido de buscarem uma preparação melhor, que lhes permita ascender socialmente. Na realidade dos dias atuais, a mobilidade social é limitada, assim considera-se também importante o preparo intelectual e técnico, mas como fator de inserção na divisão social do trabalho, que hoje se encontra em forte mutação. Neste sentido, Peña et al. (2005) acredita que a universidade se torna cada vez mais atraente e necessária para ingressar e se manter em um mercado altamente competitivo. Novamente é necessário discutir, pois esta afirmação é simples e o processo de sincronia científica e técnica é mais complexo, onde as empresas cada vez mais guardam conhecimentos específicos, distanciando as estruturas de ensino tradicionais das áreas de fronteira do saber.

Além disto, Peña et al. (2005) afirmam que a consolidação dos ideais democráticos em todo o mundo amplia a demanda por um ensino de nível superior pela sociedade, mesmo pelos segmentos que não eram contemplados em épocas anteriores. Concorda-se com esta constatação e acrescenta-se que este papel da universidade pode ser atendido caso ela retome sua sincronia com a geração do conhecimento. Esta produção é hoje muito rápida e até antevê a sua obsolescência. Para que a universidade faça a atualização contínua do saber é importante estar compatível com as novas tecnologias da informação e comunicação disponíveis. Elas trazem uma potente ferramenta para a capacitação profissional. Nesta perspectiva, a formação superior e contínua passa a ser condição cada vez mais requerida no mercado de trabalho, e o ensino a distância apresenta-se como uma alternativa viável e potencial, pois agrega vantagens ligadas, principalmente, aos menores custos e a maior precisão na transmissão dos conhecimentos. No ensino presencial é realizado um processo pedagógico que possui ao mesmo tempo características artesanais e industriais, em pequena escala, com pouco controle qualitativo e muito dependente do professor. O ensino a distância emprega recursos computacionais que levam a quase supressão e banalização da distância, com

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enormes vantagens em um país continental e de ocupação muito desequilibrada; escalas diferenciadas de ensino, ao mesmo tempo massivas e individuais, além da grande homogeneidade de conteúdos e meio de transmissão da mensagem.

Valenti (2015) afirma que a educação está mudando e se adaptando para a economia digital, assim como o local de trabalho também está mudando. No passado, era comum um empregador contratar um recém-formado que necessitava de algum tempo de treinamento e experiência para se tornar produtivo. No ambiente empresarial de hoje, o ritmo acelerado da produtividade necessita de produção rápida e as instituições de ensino estão sendo convidadas a preparar os estudantes com competências e habilidades "instantaneamente produtivas". Atualmente os empregadores buscam trabalhadores multidisciplinares, capazes de responder de forma criativa às situações inesperadas (VALENTI, 2015).

1.5 AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO NO ENSINO