Como referem West e Zimmerman (2009, 119) a “revolução feminista na sociologia já não está em falta”. Também os estudos transgénero têm granjeado progressivamente maior visibilidade e interesse na sociologia (Saleiro 2013; Hines e Sanger 2010; Hines 2007; Green 2007; Ekins e King 2006). Há diversos “progressismos” aliados à ideia de igualdade de género (entre homens e mulheres, entre géneros, entre pessoas, etc.)43. Mas, dependendo da igualdade
implícita, há uma inclinação específica que determina os modos como pensamos as transgressões e os limites do género (e o que realmente está a ser contabilizado). Importa por isso posicionarmo-nos face ao panorama encontrado, pormenorizando o nosso horizonte em concreto e as suas implicações para o processo de investigação.
Em primeiro lugar, adotamos uma perspetiva relacional para compreender os modos como as práticas genderizadas (des)fazem e refazem os limites e as transgressões de género. Tomamos o género uma estrutura social – i.e. um elemento constitutivo das relações sociais. Mas não entendemos que o género se baseia ou se constrói somente a partir das diferenças sexuais visíveis. Como diz Scott (2008, 54 [1988]), o género é uma fonte primária das relações de poder. O “parâmetro sexuado” das relações de género permite-nos interpretar, por um lado, a dissimetria entre as posições homem e mulher e, por outro lado, a dissimetria entre a masculinidade e a feminilidade (Collin 2008, 38–39 [1989]). Favorecemos esta perspetiva “diferencialista” porque consideramos que, apesar de interdependentes, há um grau de autonomia relativo entre as categorias homem/macho e mulher/fêmea e as categorias masculino e feminino.
Esta autonomia relativa vê-se na distribuição dos diversos posicionamentos e modalidades para (des)fazer o género. Ou seja, existem diversos níveis de proximidade e de distância no (des)fazer do género44. Consideramos portanto que as relações sociais genderizadas se baseiam
na interface entre homem/mulher e masculino/feminino45. A heterogeneidade existente
enquadra-se numa matriz de interdependência relacional.
43 Que aprofundamos no próximo capítulo.
44 Como iremos ver ao longo do nosso estudo, existem possibilidades alternativas de (des)fazer o género além de uma visão binária ou de exclusividade entre o masculino e o feminino. É aliás, a partir desse intervalo (que intersecta as posições, as categorias, as performances, etc.) que podemos compreender melhor como se constroem, sustentam e transformam as diferenças genderizadas.
45 Hearn (2013; 2012) vem propor o conceito de “gex” (gender + sex) no mesmo sentido. Ao teorizar a não equivalência entre macho/masculinidade/homem (ou fêmea/feminilidade/mulher) desloca os conceitos de sexo e de género da relação causa-efeito; do pressuposto que um preexiste o outro. Apesar de intricados, os conceitos de género, sexo e sexualidade servem propósitos heurísticos distintos porque enfatizam aspetos particulares da
Isso não quer dizer que nos situamos numa perspetiva categórica. Documentar (simplesmente) a multiplicidade de masculinidades, feminilidades ou androginismos com base nos eixos interligados de dominação mascara os processos subjacentes que reproduzem estruturalmente as desigualdades de género (S. N. Davis 2017). Nesse sentido, mais do que descrever as variações, precisamos de testar as explicações de que dispomos (ibid.).
Muitos contributos teóricos têm descurado as relações sociais como objeto de análise per si. O debate sobre a diferença e o género tem de ir além de um tratamento atomizado da realidade social. Não sendo um somatório ou conjunto de atributos individuais, voltamos a sublinhar que as diferenças genderizadas são simultaneamente uma fonte de tensões e o seu fundamento ontológico. Mas a tendência académica em colidir o pensamento binário com o pensamento atomizado não pode ser resolvida somente com a mudança dos parâmetros analíticos (Bastos e Bastos 2010). Como refere Aboim (2010) para pensarmos as diferenças de género não podemos recorrer mais a um pensamento dicotómico (binário) que está historicamente enraizado no pensamento ocidental desde Platão à sociologia funcionalista dos anos 1950. O tratamento monolítico das categorias (como “género”, “mulher”, “homem”, “transgénero”, etc.) impede- nos de as considerar como emergentes de relações sociais, relações de poder e de privilégio que hierarquizam e valorizam certas diferenças em detrimento de outras (Aboim 2010).
As categorias têm de ser encaradas como estando reciprocamente intersetadas em geometrias variáveis. A partir de tensões históricas e sociais que se organizam de uma forma triádica: oposição recorrente entre todos, conivências e alianças (Bastos e Bastos 2010). Importa por isso olhar para as diferenças como mecanismos produtivos que vão além de uma relação dialética entre o Self e o Outro. O reconhecimento da pluralidade de género não basta. É preciso também uma identificação crítica das lógicas de dominação que hierarquizam essas diferenças; dos processos de demarcação e de ordenação das práticas de género. Mas as fronteiras que construímos não dependem só de uma argumentação crítica. Dependem igualmente de alternativas para transformar os hábitos (reflexivos ou não) e as interpretações sobre ela. Aprofundar as relações de género através do nexo limite/transgressão é indagar sobre a sua legitimidade e as alternativas. É mostrar os diferentes matizes em que as diferenças se interligam com o poder. Foi nesse empreendimento que conduzimos este estudo.
formação identitária. O contributo de Hearn é importante porque permite considerar a interseção complexa entre estes conceitos.
Capítulo III
Os campos de nomeação do trans/género
1Há muitas formas de contar a história do fenómeno transgénero. Podemos começar pelos seus desenvolvimentos a partir da medicina como é frequente encontrar na literatura sobre o tema. Também podemos começar pela emergência do ativismo que reivindicou para si uma voz própria a partir do nome transgénero (ou trans*) em detrimento dos usos e abusos de que era alvo. Ou então, podemos revisitar a história e os diversos momentos de nomeação e existência de categorias e sistemas além de uma visão dimórfica ou antagónica. Por último, podemos contar esta história a partir das condições criadas legalmente para o reconhecimento do trans/género e os seus paradigmas dos direitos humanos e da cidadania. Todos estes pontos de partida são válidos. Convergem no aumento da visibilidade e da sensibilização em relação a este fenómeno. Recorrendo à conceção bourdieusiana de campo – revisitada no capítulo anterior – aprofundamos as lógicas e desenvolvimentos da nomeação do trans/género a partir dos espaços e momentos de reconhecimento mais manifestos.