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Translação da experiência: o parto na água como evento positivo

CAPÍTULO III. ESTUDO EMPÍRICO

A EXPERIÊNCIA DO HOSPITAL DE SÃO BERNARDO, SETÚBAL, PORTUGAL

A.9) Translação da experiência: o parto na água como evento positivo

Todas as entrevistas realizadas evidenciaram vivências positivas com a experiência do parto na água, tanto para a mulher/casal, como para o recém- nascido. Como se fosse a concretude de um sonho planeado e realizado, que superaram as próprias expectativas idealizadas.

Trazer a experiência do parto na água para a sociedade e perpertuar a acessibilidade para todas as mulheres, que por sua vez têm o direito de escolher a forma que sonham para o nascimento do seu bebé é conferir-lhe o direito humano do poder de escolha. O parto na água, como evento seguro e positivo (Camargo et al., 2018; Lathrop, Bonsack, & Haas, 2018; Cluett & Burns, 2012), têm evidências científicas, além de experiência portuguesa (Varela, Santos, & Rodrigues, 2014; Camargo et al., 2018; Gonçalves, et al., 2019) que cooperam para que seja inserido no Sistema Nacional de Saúde de Português. O poder biomédico precisa ser descontruído para que as evidências científicas possam

ser aplicadas em Portugal, como foi aplicado no Reino Unido. Em 1980 o parto na água teve início no Reino Unido e em 1992 o comité de saúde declara que deveria haver uma banheira/ piscina para que as mulheres pudessem utilizar no processo de nascimento. Posteriormente em 1993 todas as maternidades do Reino Unido já tinham colocados banheira/piscina para que as mulheres pudessem optar em usufruir da água no processo do parto (House of Commons, 1992; Alderdice et al., 1995; RCM, 2012). A mulher tem liberdade de escolha no Reino Unido, e pode usufruir da água no processo do parto.

Segundo o Canadian Institutes of Health Research [CIHR] (2004), adaptado pela OMS, knowledge translation, translação de conhecimento, é defenido como um processo dinâmico, interativo e que inclui a síntese, a difusão, o intercâmbio e a aplicação eticamente sólida de conhecimentos para melhorar a saúde, prestar serviços mais eficazes e fortalecer o sistema de saúde. Dessa forma, o objetivo de se produzir evidência científica é destacar a criação de novos conhecimentos e traduzir esse conhecimento do ambiente de pesquisa para aplicações do mundo real a fim de melhorar a saúde da população (CIHR, 2004).

Entendemos que o Movimento Mães d’ Água, é um grupo cívil que nasceu como resultado da união de um grupo de mulheres que vivenciaram o parto na água em Portugal e tiveram uma vivência positiva com a experiência do nascimento. A satisfação de tal experiência, o bom desfecho materno e neonatal do parto na água apontam para a segurança do parto na água, tanto para a mulher, como para o bebé (Camargo et al., 2018).

Como translação do conhecimento, o grande desafio é a implementação de boas práticas, que estão apoiadas em boa evidência científica. O parto na água, têm revelado boas práticas em Portugal, e essa experiência revelaram boa evidência para segurança do parto na água, com bom resultado neonatal, por meio do índice do Aqua Apgar, presente no estudo feito em Portugal com o Projeto de Parto na Água (Camargo et al., 2018), que foi viável e acessível às mulheres que foram assitidas no Sistema Nacional de Saúde no período entre 2011 a 2014.

Dessa forma, o Mães d’ Água representam aqui um grupo que proporcionou e permanece a proporcionar a translação da experiência/

conhecimento a toda população portuguesa, com engajamento ideológico e efetivo baseado em evidência científica, conforme observa-se nas falas a seguir:

Quando ouve suspeitas que o parto na água iria acabar em Setúbal, houve então um conjunto de mulheres que fizeram o parto na água, incluindo eu, que se juntaram para reverter essa situação, e portanto, as mães d’água, é um movimento pelo parto na água em Portugal. A partir desse momento me senti ainda mais mulher, mais ativa, com mais vontade de lutar, mais vontade de informar, de apoiar mulheres e acho que era necessário haver essa emancipação das mulheres, das mulheres de se juntarem para fazer alguma coisa por elas, pois era um serviço que estava disponível, nunca ninguém pensou que iria fechar, mas também as mulheres nunca pediram fervorosamente e, quando o centro de todas as mulheres que pariram na água, pelo menos aqui em Setúbal, onde nos conhecemos, sentíamos muito da mesma forma, e portanto, foi como se estivessem a roubar um bocadinho de nós, e nós tínhamos mesmo que fazer alguma coisa para que não fechasse. Então, acho que o grupo foi muito importante e neste percurso de dois anos que está fechado, sinto que já influenciei positivamente muitas mulheres, que já conseguimos informar, já conseguimos ter o testemunho de mulheres que agradeceram e por meio de do movimento conseguiram encontrar a pessoa certa, conseguiram o parto que queriam, seja em clínica privada ou domicilio, e isto pra nós é muito bom, porque os partos na água continuam a acontecer em Portugal. Mulher_5

Eu acompanhei as mães d’ água, mas já na fase final da minha gravidez, fui acompanhando no “facebook” mas ainda não estavam numa fase tão ativa como estão agora. Eu penso que de um ano para cá deram um salto significativo, na alturas não estavam tão ativas mas a minha parteira também me foi mostrando, inclusive cedeu-me alguns vídeos dos partos dela, de outras mulheres que tiveram parto na água, que esta já era uma realidade há muitos anos noutros países e estes relatos de parto na água das mães foram, sem dúvida, muito importantes para me transmitir a segurança, que é uma coisa mais intrínseca, aquela segurança, aquele á vontade de alguém que passou pelo mesmo e não só a segurança dada pela evidência científica. Portanto, sim acho que estes grupos são importantíssimos nomeadamente os relatos de parto são importantíssimos para transmitir segurança às mães. O movimento cívico das “ Mães d’ água “ acho que é excelente nesse aspeto porque acho que de facto há mais mulheres a usufruir e acho que devia haver um bocadinho mais de força ou ser reconhecido mais, força às parteiras. Porque o parto ainda é muito uma área de obestetras, se calhar até cada vez mais, nós vemos as cesarianas a aumentarem, o número de intervenções aumentarem e as enfermeiras parteiras não conseguem muito ganhar terreno porque de facto o mais habitual hoje em dia é terem estes partos muito intervencionados, hospitalares, acompanhado pelo obstetra. Acho que a própria Direção de Saúde e não só, deviam ter o cuidado de delegar mais normas, mais indicações com basa em evidência científica, por exemplo nomeadamente às induções. Acho que realmente se começarem a ter como base a evidência científica, incluindo otras opções, nomeadamente outros métodos de alívio da dor, que não a epidural, é uma forma

da classe dos obstetras e das parteiras serem de alguma forma obrigados a perceber que a realidade pode ser diferente. Também falarem disso ás mulheres.

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Participo nas atividades das Mães d’ água em que posso e divulgo a minha experiencia positiva de parto na água por todo o lado em que consiga.

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Eu associei-me ao movimento “Mães d'Água” (no facebook) após ter assinado a “Petição pela Manutenção dos Partos na Água no Hospital de São Bernardo e a extensão desta opção a outros hospitais públicos. O aspecto em que mais nos identificamos com este grupo é o desejo que haja uma mudança de mentalidade em relação ao papel dos pais no que diz respeito a um momento único e marcante que é o nascimento de um filho, e a esperança de que a realização de partos na água em Hospital Público volte a ser uma opção disponível, não só em Setúbal, mas em todo o país. Mulher_16

Desde que o movimento foi criado (Mães d' água), estudam os ensinamentos do parto na água, e tem sido uma exposição não só em nível de internet e também midiática... Tem sido bastante positiva, existe a possibilidade de inserir mais mães nesta possibilidade do parto no setor privado ou em casa a partir desse conhecimento. Eu estou com elas, não fui ao primeiro encontro, não tive oportunidade. Mas agora fui a este último na casa da Fábrica Braço de Prata... E estava mais perceptiva neste movimento, o que me agrada bastante. Eu tive minha filha dentro d’água e quero que mais mães tenham dentro d’água também... Para mim faz todo sentido existir Mães d' Água, não só para conhecer outras mães, mas para contar nossas experiências, não há nada como o boca a boca, para termos bons conhecimentos e boas experiências. Mulher_17

A representação social é a representação dos saberes sociais, e a teoria das representações sociais é uma teoria sobre a produção dos saberes sociais. Saber, aqui se refere a qualquer saber, mas a teoria está especialmente dirigida aos saberes que se produzem no cotidiano, e que pertencem ao mundo vivido (Jovchelovitch, 1998). No caso do parto na água, a representação social transmitida por meio de das Mães d’ água, transferem a translação do conhecimento como um parto positivo e seguro.

As demais falas também revelam o benefício do grupo Mães d´Água:

Desde que o movimento foi criado (Mães d' água), estudam os ensinamentos do parto na água, e tem sido uma exposição não só em nível de internet e também midiática... Tem sido bastante positiva, existe a possibilidade de inserir mais mães nesta possibilidade do parto no setor privado ou em casa a partir desse conhecimento. Eu estou com elas, não fui ao primeiro encontro, não tive oportunidade, estive a trabalhar no fim-de-semana, não consegui mesmo ir. Mas agora fui a este último na casa da Fábrica Braço de Prata... E estava mais

perceptiva neste movimento, o que me agrada bastante. Eu tive minha filha dentro d’água e quero que mais mães tenham dentro d’água também... Para mim faz todo sentido existir Mães d' Água, não só para conhecer outras mães, mas para contar nossas experiências, não há nada como o boca a boca, para termos bons conhecimentos e boas experiências. Mulher_19

Gostaria que muito mais famílias tivessem uma história de parto positivo, mesmo que fosse em terra, mesmo que fosse numa cesariana se necessário, mas é tão maquina que parece que os técnicos de saúde são... Eu lembro de haver um livro da Constancia Cordeiro que fez um livro que se chama os bebés também choram, e tenta explicar o ponto de vista do porque os bebés chorarem e é muito interessante, ainda não li todo, e ela comentou uma vez uma fotografia que alguém tirou e nota-se que é um bloco de cesariana e o médico tira o bebé e o bebé está ali em sofrimento, porque não está a ser respeitado e o comentário dela fez muito sentido que estava a dizer que os recém-nascidos são tratados como objetos, mas a maneira como pegam nele e tudo, parece que é um objeto. Não pode ser, as famílias têm direitos que é muito importante na vida delas, tem que ser um momento maravilhoso, e eu adoro aquela frase da Mariana que li num texto e diz que as enfermeiras receberam o momento cheio de amor, e é isso, desde a pessoa que está no guichê, sei que as pessoas estão cansadas, que elas também tiveram um dia de conflito, tem problemas pessoais, mas é um momento tão importante na vida de um casal, acho que deveria haver mais amor e mais ternura, por parte até dos desconhecidos. Portanto, me considero uma ativista porque acho necessário que o amor que eu senti possa ser sentida por mais casais e eu prático isso nas mães d’água.” Mulher_21

Assim, o Mães d’ Água, tem proporcionado às famílias de Portugal a diminuição da lacuna entre a prática clínica e a investigação científica, por meio da articulação em expor as evidências de pesquisa e suas aplicações práticas com intuito de melhorar os desfechos de saúde, as qualidades dos cuidados e dos sistemas de cuidados de saúde, seja por meio de dos eventos que têm feito, como através da divulgação das pesquisas e dos relatos das mulheres que vivenciaram o parto na água, no seu site29.

As Mães d’ Água procuram dar vozes às mulheres, empoderá-las, conscientizá-las, por meio de de um trabalho organizado, e, em parceria com a Associação Portuguesa pelos Direitos das Mulheres na Gravidez e Parto, formada por uma equipa voluntária, perita e especialista em diversas áreas do saber, para que em Portugal as mulheres possam ter experiências positivas na gravidez, parto e puerpério, conforme se apresenta na fala abaixo:

Acho que cada vez mais as mulheres da sociedade civil têm consciência, têm muito poder mas que não aplicam, são muito passivos, muito à espera que os outros façam e os outros são sempre os mesmos, e são minoria, portanto, essa é a mensagem que é importante passar, nós estamos a lutar como um movimento pelos direitos das mulheres, mas nós precisamos de muitas mulheres, precisamos da voz, precisamos que elas vão aos hospitais, que elas peçam aquilo que querem, falem as suas preferências, façam seus planos de parto, façam as suas reclamações e isso é tudo que não existe ainda, Portugal há violência obstétrica porque não há testemunho, não há queixas, parece que é um mar de rosas e no fundo não é nada disso. Vemos cada vez mais nos pós parto, nas depressões pós parto, problemas em restabelecer a vida com o companheiro, problemas de vínculo com os bebés, uma série de problemas que tem a ver com isso mesmo. Elas não têm noção da forma como vivem o parto, como vivem a gravidez e a experiência muda o resto da vida delas. Mais informação elas viveriam o parto de maneira diferente, eles não fariam metade do que hoje fazem nos hospitais e no fundo tudo teria uma história diferente, portanto, falta um bocadinho da sociedade civil ter consciência de fazer as coisas acontecerem. Mulher_5

A organização das mulheres pode ser a forma de sinalizar a sociedade portuguesa, que as iniquidades de poder entre medicina e a enfermagem, estão de tal modo institucionalizadas, que são aceites como norma, sendo um aspecto de reflexão profunda. Já existe um clamor das mulheres que vivenciaram o parto na água com muito amor e respeito em Portugal, e por isso elas se uniram em Mães d’ Água para que todas as mulheres portuguesas possam ter o direito de escolher um parto positivo em Portugal.