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Transladado de Auslander-Reiten

No documento Complexidade de Módulos (páginas 38-43)

Nessa se¸c˜ao, R ser´a sempre uma k-´algebra de dimens˜ao finita.

Consideremos o funtor homR(−, R) : modR → modRop, que denotaremos por (−)t por

uma quest˜ao de praticidade. Notemos que se P ´e um R-m´odulo projetivo `a esquerda, ent˜ao (P )t = hom

R(P, R) ´e um R-m´odulo projetivo `a direita. De fato, se P = Re, com e ∈ R

um idempotente primitivo, ent˜ao (P )t = hom

R(Re, R) ≃ eR, e nossa afirma¸c˜ao segue da

aditividade de (−)t. Al´em disso, o homomorfismo avalia¸c˜ao ε

M : M → (M )tt definido por

εM(z)(f ) = f (z), para z ∈ M e f ∈ (M )t, ´e funtorial em M , e ´e um isomorfismo, sempre

que M for projetivo. Assim, o funtor (−)t induz uma dualidade, tamb´em denotada por (−)t,

entre as categorias P(R), de R-m´odulos finitamente gerados projetivos `a esquerda, e a categoria P(Rop) de R-m´odulos finitamente gerados projetivos `a direita. Usaremos essa dualidade para

definir uma dualidade sobre um certo quociente de modR, e essa ser´a chamada de transposi¸c˜ao. Seja, assim, P1

d1

//P0 d0 //M //0 uma apresenta¸c˜ao projetiva minimal de M , isto ´e,

uma sequˆencia exata tal que d0 : P0 → M e d1 : P1 → N ucd0 s˜ao coberturas projetivas.

Aplicando o funtor contravariante exato `a esquerda (−)t, obtemos uma sequˆencia exata de

R-m´odulos `a direita 0 //(M )t (d0) t //(P0)t (d1) t //(P1)t //Conuc(d1)t //0 .

Denotamos o con´ucleo Conuc(d1)t por T rM , e o chamamos de transposto de M .

Observemos que o R-m´odulo `a direita T rM ´e unicamente determinado a menos de isomor- fismo; isso segue do fato de que as coberturas projetivas (e, logo, as apresenta¸c˜oes projetivas minimais) s˜ao unicamente determinadas a menos de isomorfismos.

Resumiremos atrav´es da proposi¸c˜ao seguinte as principais propriedades de transposto T r. Proposi¸c˜ao 1.61 Seja M um m´odulo indecompon´ıvel em modR.

1. O R-m´odulo `a direita T rM n˜ao possui somandos projetivos.

2. M ´e projetivo se, e somente se, T rM = 0. Se M n˜ao ´e projetivo, ent˜ao T rM ´e indecom- pon´ıvel e T r(T rM ) ≃ M .

3. Se M e N s˜ao R-m´odulos indecompon´ıveis n˜ao-projetivos, ent˜ao M ≃ N se, e somente se, T rM ≃ T rN .

4. Se M n˜ao ´e projetivo, ent˜ao a sequˆencia

Pt 0

dt 1

//P1t //T rM //0

induzida da apresenta¸c˜ao minimal projetiva P1 d1

//P0 d0 //M //0 de M ´e uma apre-

senta¸c˜ao projetiva minimal do R-m´odulo `a direita T rM .

Prova: 1. Se T rM tem um somando projetivo n˜ao-nulo, o homomorfismo dt

1 tem um somando

da forma (0 → E), com E projetivo. Mas, isso implicaria que d1 tem um somando direto

(Et→ 0), o que contradiz a minimalidade de d 1.

2. Se M ´e projetivo, ent˜ao o termo P1 na apresenta¸c˜ao projetiva minimal de M ´e zero, e,

assim, T rM = 0. Reciprocamente, se T rM = 0, ent˜ao dt

1 ´e um epimorfismo que cinde, uma

vez que (P1)t ´e projetivo. Assim, d1 ´e um monomorfismo que cinde, e M ´e projetivo.

Para completar a prova de 2 consideremos a apresenta¸c˜ao projetiva minimal de T rM Pt

0 dt

1

//P1t //T rM //0

e apliquemos nela o funtor (−)t. Obtemos, assim, o seguinte diagrama comutativo

P1 d1 // εP1 ≃  P0 d0 // εP0 ≃  M //0 Ptt 1 dtt 1 //P0tt d tt 0 //T rT rM //0

com linhas exatas. Logo, existe um isomorfismo M ≃ T rT rM , fazendo com que o quadrado direito comute.

3. Se M e N s˜ao R-m´odulos n˜ao-projetivos, tais que M ≃ N , ent˜ao temos P′ 1 d′ 1 // ≃  P′ 0 d′ 0 // ≃  N // ≃  0 P1 d1 //P0 d0 //M //0

Aplicando (−)t nas duas apresenta¸c˜oes projetivas, obtemos

P′t 1 d′t 1 // ≃  P′t 0 d′t 0 // ≃  T rN // ≃  0 Pt 1 dt 1 //P0t d0 //T rM //0 , e, portanto, T rM ≃ T rN .

Analogamente, se prova a volta.

4. Suponhamos que M n˜ao ´e projetivo. Ent˜ao, T rM ̸= 0. A sequˆencia Pt

0 dt

1

//P1t //T rM //0

´e certamente uma apresenta¸c˜ao projetiva do R-m´odulo `a direita T rM . Afirmamos que ´e minimal. De fato, se n˜ao fosse, existiriam as decomposi¸c˜oes n˜ao-triviais em somas diretas Pt

0 = E0′ ⊕ E0′′, P1t = E1′ ⊕ E1′′ e um isomorfismo v : E0′′ → E1′′, tais que essa sequˆencia seria

E′ 0⊕ E0′′   u 0 0 v   //E1⊕ E1′′ //T rM //0 , onde u : E′

0 → E1′ ´e um homomorfismo de R-m´odulos `a direita. Mas, aplicando (−)t, obter´ıamos

uma apresenta¸c˜ao projetiva de M da forma

E′t 1

ut

//E0′t //M //0 ,

o que contradiz a minimalidade da apresenta¸c˜ao projetiva de M .

Mostramos que o transposto T r leva m´odulos de modR em m´odulos de modRop, mas n˜ao

define uma dualidade modR → modRop, uma vez que anula os projetivos. Para que este seja

uma dualidade, precisamos anular os projetivos de modR e modRop. Assim, descreveremos a

seguinte constru¸c˜ao.

Para dois R-m´odulos M , N , seja P(M, N ) o subm´odulo de homR(M, N ) consistindo de

todos os homomorfismos, que se fatoram atrav´es de um R-m´odulo projetivo. Afirmamos que esse subm´odulo define um ideal P na categoria modR. Com efeito, para dois m´odulos M, N , o conjunto P(M, N ) ´e um subespa¸co do k-espa¸co vetorial homR(M, N ). De fato, se f, f′ ∈

P(M, N ), ent˜ao f e f′ podem ser, respectivamente, escritos como f = hg, com g : M → P ,

h : P → N e P projetivo, e f′ = hg, com g: M→ P, h: P→ Ne Pprojetivo. Logo,

f + f′ = hg + hg=( h h′ ) (

g g′

)

se fatora atrav´es do projetivo P ⊕ P′. Por outro lado, se α ∈ k e f ∈ P(M, N ), ent˜ao

αf ∈ P(M, N ). Al´em disso, se f ∈ P(L, M ) e g ∈ homR(M, N ), ent˜ao gf ∈ P(L, N ), e,

analogamente, se f ∈ homR(L, M ) e g ∈ P(M, N ), ent˜ao gf ∈ P(L, N ). Portanto, P ´e um

ideal como quer´ıamos demonstrar.

Consideremos, assim, a categoria quociente modR = modR/P chamada de categoria

projetivamente est´avel. Seus objetos s˜ao os mesmos de modR, mas o k-espa¸co vetorial homR(M, N ) de morfismos de M em N em modR ´e definido pelo espa¸co vetorial quociente homR(M, N ) = homR(M, N )/P(M, N ) de homR(M, N ), com a composi¸c˜ao de morfismos in-

duzido da composi¸c˜ao de modR. Existe um funtor modR → modR, que ´e a identidade sobre os objetos e a associa¸c˜ao entre um homomorfismo f : M → N em modR na sua classe residual modulo P(M, N ) em modR.

Dualmente, podemos construir um ideal I em modR, considerando, para cada par (M, N ) de R-m´odulos, o k-subespa¸co vetorial I(M, N ) de homR(M, N ), que consiste de todos os

homomorfismos que se fatoram atrav´es de um R-m´odulo injetivo. A categoria quociente modR = modR/I ´e chamada de categoria injetivamente est´avel. Seus objetos s˜ao os mesmos de modR, mas o k-espa¸co vetorial homR(M, N ) de morfismos de M em N em modR ´e dado

pelo espa¸co vetorial homR(M, N ) = homR(M, N )/I(M, N ) de homR(M, N ) com a composi¸c˜ao

Assim, temos o seguinte resultado.

Proposi¸c˜ao 1.62 A correspondˆencia M → T rM induz um funtor dualidade T r : modR → modRop.

Prova: Ver [1], cap´ıtulo IV , proposi¸c˜ao 2.2.

A dualidade definida na proposi¸c˜ao anterior ´e chamada transposi¸c˜ao. Transforma os R- m´odulos `a esquerda em R-m´odulos `a direita, e vice-versa.

Apesar da transposi¸c˜ao T r ser definida sobre a categoria quociente modR ´e bastante ´util considerar o funtor T r entre os objetos modR e modRop, definido anteriormente.

Considerando, ent˜ao, D = homk(−, k) a dualidade usual entre R-m´odulos `a esquerda e

R-m´odulos `a direita, podemos definir a dualidade induzida D : modR → modRop. E assim,

temos a seguinte defini¸c˜ao:

Defini¸c˜ao 1.63 Os transladados de Auslander-Reiten s˜ao definidos como as composi¸c˜oes de D com T r, ou seja, τ = DT r e τ−1 = T rD.

Observe que o transladado de Auslander-Reiten τ : modR → modR ´e uma equivalˆencia de categorias com inversa τ−1 : modR → modR.

Nesse trabalho, muitas vezes iremos trabalhar com o transladado de Auslander-Reiten sobre m´odulos que n˜ao pertencem a categoria quociente modR. Assim, definiremos τ : modR → modR como a composi¸c˜ao de T r : modR → modRop, definido anteriormente, e a dualidade usual D : modRop → modR.

Com base no funtor que acabamos de descrever, podemos definir o seguinte.

Defini¸c˜ao 1.64 Seja R uma ´algebra de Artin. Um R-m´odulo indecompon´ıvel n˜ao-projetivo M

´e dito τ -peri´odico, se τnM ≃ M , para algum n > 0.

Seja R uma ´algebra de Artin. Definimos um funtor Ω : modR → modR, chamado de

funtor syzygy, da seguinte forma. Para cada M em modR, escolhemos uma cobertura projetiva

h : P (M ) → M , e definimos Ω(M ) como sendo o N uch. Suponhamos que f : M → N est´a em modR. Ent˜ao, existe um diagrama comutativo exato

0  0  Ω(M ) t //  Ω(N )  P (M ) g // h  P (N ) h′  M f //  N  0 0

Agora, o morfismo t : Ω(M ) → Ω(N ), obtido dessa maneira, depende da escolha de g. Se mudarmos g para um morfismo g′ : P (M ) → P (N ), obtemos um novo morfismo

t′ : Ω(M ) → Ω(N ), e t − test´a em P(Ω(M ), Ω(N )). Dessa forma, temos um morfismo

homR(M, N ) → homR(Ω(M ), Ω(N )). J´a que f ∈ P(M, N ), segue que t ∈ P(Ω(M ), Ω(N )), e

obtemos o morfismo Ω : homR(M, N ) → homR(Ω(M ), Ω(N )). Assim, temos que a aplica¸c˜ao Ω : modR → modR, que leva cada m´odulo M em Ω(M ) e cada morfismo f : M → N em Ω(f ) : Ω(M ) → Ω(N ), ´e um funtor.

No decorrer de todo esse trabalho, estaremos tratando, sobretudo, de ´algebras de Artin autoinjetivas. Para tais ´algebras, algumas coisas funcionam de forma particular.

Proposi¸c˜ao 1.65 Seja R uma ´algebra de dimens˜ao finita autoinjetiva. Ent˜ao os funtores τ , Ω2ν e νΩ2 de modR em modR s˜ao isomorfos.

Prova: Seja P1 −→ P0 −→ A −→ 0 uma apresenta¸c˜ao projetiva minimal de A em modR.

Aplicando o funtor homR(−, R), obtemos a sequˆencia exata

0 −→ homR(A, R) −→ homR(P0, R) −→ homR(P1, R) −→ T rA −→ 0,

onde T rA ´e o con´ucleo da aplica¸c˜ao homR(P0, R) → homR(P1, R). Em seguida, aplicamos o

funtor dualidade D, e obtemos a sequˆencia

0 −→ τ A −→ D(homR(P1, R)) −→ D(homR(P0, R)) −→ D(homR(A, R)) −→ 0,

onde τ A = DT rA.

Como R ´e autoinjetiva, D(homR(Pi, R)) ´e um R-m´odulo projetivo, para cada i = 1, 2, e

D(homR(P1, R)) −→ D(homR(P0, R)) −→ D(homR(A, R)) −→ 0 ´e uma apresenta¸c˜ao projetiva

minimal de D(homR(A, R)) = ν(A). Logo, segue que τ ≃ Ω2ν.

Vamos mostrar agora que esse isomorfismo ´e funtorial. Sejam B ∈ modR e f : A → B um morfismo. Consideremos o seguinte diagrama

A f  τ A ηA // τ f  Ω2ν(A) Ω2ν(f )  B τ B ηB //2ν(B)

onde ηA´e o isomorfismo entre τ A e Ω2ν(A), e ηB ´e o isomorfismo entre τ B e Ω2ν(B).

Observe que

ηBτ (f )(τ A) = ηB(τ B) = Ω2ν(B) = Ω2ν(f )(Ω2ν(A)) = Ω2ν(f )(ηA(τ A)).

Logo, o diagrama acima ´e comutativo, e η : A 7→ ηA ´e um isomorfismo natural. O que

implica que τ A ≃ Ω2ν(A), como quer´ıamos demonstrar.

Finalmente, vamos mostrar que Ω2ν ≃ νΩ2. Consideremos, novamente, P1 −→ P0 −→ A −→ 0

uma apresenta¸c˜ao projetiva minimal de A em modR. Dessa apresenta¸c˜ao, obtemos a sequˆencia exata

0 −→ Ω2(A) −→ P

1 −→ P0 −→ A −→ 0.

Aplicando o funtor homR(−, R), e, em seguida, o funtor dualidade D, obtemos a sequˆencia

νΩ2(A) −→ νP

1 −→ νP0 −→ νA −→ 0,

lembrando que ν = D(homR(−, R)).

Como R ´e autoinjetiva, νPi ´e projetivo, para cada i = 1, 2, e νP1 −→ νP0 −→ νA −→ 0 ´e

apresenta¸c˜ao projetiva minimal de νA. Logo, νΩ2(A) ≃ Ω2ν(A).

Vamos mostrar, para finalizar essa demonstra¸c˜ao, que esse isomorfismo ´e funtorial. Sejam, ent˜ao, B ∈ modR e f um morfismo de A em B. Consideremos o seguinte diagrama

A f  νΩ2A µA // νΩ2f  Ω2ν(A) Ω2ν(f )  B νΩ2(B) µB //2ν(B)

onde µA´e o isomorfismo entre νΩ2(A) e Ω2ν(A), e µB ´e o isomorfismo entre νΩ2(B) e Ω2ν(B).

Observe que

µBνΩ2(f )νΩ2(A) = µBνΩ2(B) = Ω2ν(B) = Ω2ν(f )Ω2ν(A) = Ω2ν(f )µAνΩ2(A).

Logo, o diagrama acima ´e comutativo, e µ : A 7→ µA ´e um isomorfismo natural. Portanto,

νΩ2(A) ≃ Ω2ν(A) ´e um isomorfismo funtorial.

Assim, o resultado anterior nos garante que se M ´e um R-m´odulo n˜ao-projetivo e inde- compon´ıvel e R ´e autoinjetiva, o transladado de Auslander-Reiten τ ´e dado por τ M = νΩ2M .

Temos tamb´em, nesse caso, que τ e Ω comutam. De fato, seja 0 //ΩM //P0 ϕ //M //0

uma sequˆencia exata, onde P0 ´e projetivo e φ ´e uma cobertura projetiva de M . Aplicando o

funtor de Nakayama nessa sequˆencia, temos a seguinte sequˆencia exata 0 //νΩM //νP0 ϕ //νM //0 .

Como ν ´e uma equivalˆencia, νP0 ´e projetivo, e νφ ´e cobertura projetiva de νM . Assim,

νΩM = ΩνM .

No documento Complexidade de Módulos (páginas 38-43)

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