Nessa se¸c˜ao, R ser´a sempre uma k-´algebra de dimens˜ao finita.
Consideremos o funtor homR(−, R) : modR → modRop, que denotaremos por (−)t por
uma quest˜ao de praticidade. Notemos que se P ´e um R-m´odulo projetivo `a esquerda, ent˜ao (P )t = hom
R(P, R) ´e um R-m´odulo projetivo `a direita. De fato, se P = Re, com e ∈ R
um idempotente primitivo, ent˜ao (P )t = hom
R(Re, R) ≃ eR, e nossa afirma¸c˜ao segue da
aditividade de (−)t. Al´em disso, o homomorfismo avalia¸c˜ao ε
M : M → (M )tt definido por
εM(z)(f ) = f (z), para z ∈ M e f ∈ (M )t, ´e funtorial em M , e ´e um isomorfismo, sempre
que M for projetivo. Assim, o funtor (−)t induz uma dualidade, tamb´em denotada por (−)t,
entre as categorias P(R), de R-m´odulos finitamente gerados projetivos `a esquerda, e a categoria P(Rop) de R-m´odulos finitamente gerados projetivos `a direita. Usaremos essa dualidade para
definir uma dualidade sobre um certo quociente de modR, e essa ser´a chamada de transposi¸c˜ao. Seja, assim, P1
d1
//P0 d0 //M //0 uma apresenta¸c˜ao projetiva minimal de M , isto ´e,
uma sequˆencia exata tal que d0 : P0 → M e d1 : P1 → N ucd0 s˜ao coberturas projetivas.
Aplicando o funtor contravariante exato `a esquerda (−)t, obtemos uma sequˆencia exata de
R-m´odulos `a direita 0 //(M )t (d0) t //(P0)t (d1) t //(P1)t //Conuc(d1)t //0 .
Denotamos o con´ucleo Conuc(d1)t por T rM , e o chamamos de transposto de M .
Observemos que o R-m´odulo `a direita T rM ´e unicamente determinado a menos de isomor- fismo; isso segue do fato de que as coberturas projetivas (e, logo, as apresenta¸c˜oes projetivas minimais) s˜ao unicamente determinadas a menos de isomorfismos.
Resumiremos atrav´es da proposi¸c˜ao seguinte as principais propriedades de transposto T r. Proposi¸c˜ao 1.61 Seja M um m´odulo indecompon´ıvel em modR.
1. O R-m´odulo `a direita T rM n˜ao possui somandos projetivos.
2. M ´e projetivo se, e somente se, T rM = 0. Se M n˜ao ´e projetivo, ent˜ao T rM ´e indecom- pon´ıvel e T r(T rM ) ≃ M .
3. Se M e N s˜ao R-m´odulos indecompon´ıveis n˜ao-projetivos, ent˜ao M ≃ N se, e somente se, T rM ≃ T rN .
4. Se M n˜ao ´e projetivo, ent˜ao a sequˆencia
Pt 0
dt 1
//P1t //T rM //0
induzida da apresenta¸c˜ao minimal projetiva P1 d1
//P0 d0 //M //0 de M ´e uma apre-
senta¸c˜ao projetiva minimal do R-m´odulo `a direita T rM .
Prova: 1. Se T rM tem um somando projetivo n˜ao-nulo, o homomorfismo dt
1 tem um somando
da forma (0 → E), com E projetivo. Mas, isso implicaria que d1 tem um somando direto
(Et→ 0), o que contradiz a minimalidade de d 1.
2. Se M ´e projetivo, ent˜ao o termo P1 na apresenta¸c˜ao projetiva minimal de M ´e zero, e,
assim, T rM = 0. Reciprocamente, se T rM = 0, ent˜ao dt
1 ´e um epimorfismo que cinde, uma
vez que (P1)t ´e projetivo. Assim, d1 ´e um monomorfismo que cinde, e M ´e projetivo.
Para completar a prova de 2 consideremos a apresenta¸c˜ao projetiva minimal de T rM Pt
0 dt
1
//P1t //T rM //0
e apliquemos nela o funtor (−)t. Obtemos, assim, o seguinte diagrama comutativo
P1 d1 // εP1 ≃ P0 d0 // εP0 ≃ M //0 Ptt 1 dtt 1 //P0tt d tt 0 //T rT rM //0
com linhas exatas. Logo, existe um isomorfismo M ≃ T rT rM , fazendo com que o quadrado direito comute.
3. Se M e N s˜ao R-m´odulos n˜ao-projetivos, tais que M ≃ N , ent˜ao temos P′ 1 d′ 1 // ≃ P′ 0 d′ 0 // ≃ N // ≃ 0 P1 d1 //P0 d0 //M //0
Aplicando (−)t nas duas apresenta¸c˜oes projetivas, obtemos
P′t 1 d′t 1 // ≃ P′t 0 d′t 0 // ≃ T rN // ≃ 0 Pt 1 dt 1 //P0t d0 //T rM //0 , e, portanto, T rM ≃ T rN .
Analogamente, se prova a volta.
4. Suponhamos que M n˜ao ´e projetivo. Ent˜ao, T rM ̸= 0. A sequˆencia Pt
0 dt
1
//P1t //T rM //0
´e certamente uma apresenta¸c˜ao projetiva do R-m´odulo `a direita T rM . Afirmamos que ´e minimal. De fato, se n˜ao fosse, existiriam as decomposi¸c˜oes n˜ao-triviais em somas diretas Pt
0 = E0′ ⊕ E0′′, P1t = E1′ ⊕ E1′′ e um isomorfismo v : E0′′ → E1′′, tais que essa sequˆencia seria
E′ 0⊕ E0′′ u 0 0 v //E1′ ⊕ E1′′ //T rM //0 , onde u : E′
0 → E1′ ´e um homomorfismo de R-m´odulos `a direita. Mas, aplicando (−)t, obter´ıamos
uma apresenta¸c˜ao projetiva de M da forma
E′t 1
ut
//E0′t //M //0 ,
o que contradiz a minimalidade da apresenta¸c˜ao projetiva de M .
Mostramos que o transposto T r leva m´odulos de modR em m´odulos de modRop, mas n˜ao
define uma dualidade modR → modRop, uma vez que anula os projetivos. Para que este seja
uma dualidade, precisamos anular os projetivos de modR e modRop. Assim, descreveremos a
seguinte constru¸c˜ao.
Para dois R-m´odulos M , N , seja P(M, N ) o subm´odulo de homR(M, N ) consistindo de
todos os homomorfismos, que se fatoram atrav´es de um R-m´odulo projetivo. Afirmamos que esse subm´odulo define um ideal P na categoria modR. Com efeito, para dois m´odulos M, N , o conjunto P(M, N ) ´e um subespa¸co do k-espa¸co vetorial homR(M, N ). De fato, se f, f′ ∈
P(M, N ), ent˜ao f e f′ podem ser, respectivamente, escritos como f = hg, com g : M → P ,
h : P → N e P projetivo, e f′ = h′g′, com g′ : M′ → P′, h′ : P′ → N′ e P′ projetivo. Logo,
f + f′ = hg + h′g′ =( h h′ ) (
g g′
)
se fatora atrav´es do projetivo P ⊕ P′. Por outro lado, se α ∈ k e f ∈ P(M, N ), ent˜ao
αf ∈ P(M, N ). Al´em disso, se f ∈ P(L, M ) e g ∈ homR(M, N ), ent˜ao gf ∈ P(L, N ), e,
analogamente, se f ∈ homR(L, M ) e g ∈ P(M, N ), ent˜ao gf ∈ P(L, N ). Portanto, P ´e um
ideal como quer´ıamos demonstrar.
Consideremos, assim, a categoria quociente modR = modR/P chamada de categoria
projetivamente est´avel. Seus objetos s˜ao os mesmos de modR, mas o k-espa¸co vetorial homR(M, N ) de morfismos de M em N em modR ´e definido pelo espa¸co vetorial quociente homR(M, N ) = homR(M, N )/P(M, N ) de homR(M, N ), com a composi¸c˜ao de morfismos in-
duzido da composi¸c˜ao de modR. Existe um funtor modR → modR, que ´e a identidade sobre os objetos e a associa¸c˜ao entre um homomorfismo f : M → N em modR na sua classe residual modulo P(M, N ) em modR.
Dualmente, podemos construir um ideal I em modR, considerando, para cada par (M, N ) de R-m´odulos, o k-subespa¸co vetorial I(M, N ) de homR(M, N ), que consiste de todos os
homomorfismos que se fatoram atrav´es de um R-m´odulo injetivo. A categoria quociente modR = modR/I ´e chamada de categoria injetivamente est´avel. Seus objetos s˜ao os mesmos de modR, mas o k-espa¸co vetorial homR(M, N ) de morfismos de M em N em modR ´e dado
pelo espa¸co vetorial homR(M, N ) = homR(M, N )/I(M, N ) de homR(M, N ) com a composi¸c˜ao
Assim, temos o seguinte resultado.
Proposi¸c˜ao 1.62 A correspondˆencia M → T rM induz um funtor dualidade T r : modR → modRop.
Prova: Ver [1], cap´ıtulo IV , proposi¸c˜ao 2.2.
A dualidade definida na proposi¸c˜ao anterior ´e chamada transposi¸c˜ao. Transforma os R- m´odulos `a esquerda em R-m´odulos `a direita, e vice-versa.
Apesar da transposi¸c˜ao T r ser definida sobre a categoria quociente modR ´e bastante ´util considerar o funtor T r entre os objetos modR e modRop, definido anteriormente.
Considerando, ent˜ao, D = homk(−, k) a dualidade usual entre R-m´odulos `a esquerda e
R-m´odulos `a direita, podemos definir a dualidade induzida D : modR → modRop. E assim,
temos a seguinte defini¸c˜ao:
Defini¸c˜ao 1.63 Os transladados de Auslander-Reiten s˜ao definidos como as composi¸c˜oes de D com T r, ou seja, τ = DT r e τ−1 = T rD.
Observe que o transladado de Auslander-Reiten τ : modR → modR ´e uma equivalˆencia de categorias com inversa τ−1 : modR → modR.
Nesse trabalho, muitas vezes iremos trabalhar com o transladado de Auslander-Reiten sobre m´odulos que n˜ao pertencem a categoria quociente modR. Assim, definiremos τ : modR → modR como a composi¸c˜ao de T r : modR → modRop, definido anteriormente, e a dualidade usual D : modRop → modR.
Com base no funtor que acabamos de descrever, podemos definir o seguinte.
Defini¸c˜ao 1.64 Seja R uma ´algebra de Artin. Um R-m´odulo indecompon´ıvel n˜ao-projetivo M
´e dito τ -peri´odico, se τnM ≃ M , para algum n > 0.
Seja R uma ´algebra de Artin. Definimos um funtor Ω : modR → modR, chamado de
funtor syzygy, da seguinte forma. Para cada M em modR, escolhemos uma cobertura projetiva
h : P (M ) → M , e definimos Ω(M ) como sendo o N uch. Suponhamos que f : M → N est´a em modR. Ent˜ao, existe um diagrama comutativo exato
0 0 Ω(M ) t // Ω(N ) P (M ) g // h P (N ) h′ M f // N 0 0
Agora, o morfismo t : Ω(M ) → Ω(N ), obtido dessa maneira, depende da escolha de g. Se mudarmos g para um morfismo g′ : P (M ) → P (N ), obtemos um novo morfismo
t′ : Ω(M ) → Ω(N ), e t − t′ est´a em P(Ω(M ), Ω(N )). Dessa forma, temos um morfismo
homR(M, N ) → homR(Ω(M ), Ω(N )). J´a que f ∈ P(M, N ), segue que t ∈ P(Ω(M ), Ω(N )), e
obtemos o morfismo Ω : homR(M, N ) → homR(Ω(M ), Ω(N )). Assim, temos que a aplica¸c˜ao Ω : modR → modR, que leva cada m´odulo M em Ω(M ) e cada morfismo f : M → N em Ω(f ) : Ω(M ) → Ω(N ), ´e um funtor.
No decorrer de todo esse trabalho, estaremos tratando, sobretudo, de ´algebras de Artin autoinjetivas. Para tais ´algebras, algumas coisas funcionam de forma particular.
Proposi¸c˜ao 1.65 Seja R uma ´algebra de dimens˜ao finita autoinjetiva. Ent˜ao os funtores τ , Ω2ν e νΩ2 de modR em modR s˜ao isomorfos.
Prova: Seja P1 −→ P0 −→ A −→ 0 uma apresenta¸c˜ao projetiva minimal de A em modR.
Aplicando o funtor homR(−, R), obtemos a sequˆencia exata
0 −→ homR(A, R) −→ homR(P0, R) −→ homR(P1, R) −→ T rA −→ 0,
onde T rA ´e o con´ucleo da aplica¸c˜ao homR(P0, R) → homR(P1, R). Em seguida, aplicamos o
funtor dualidade D, e obtemos a sequˆencia
0 −→ τ A −→ D(homR(P1, R)) −→ D(homR(P0, R)) −→ D(homR(A, R)) −→ 0,
onde τ A = DT rA.
Como R ´e autoinjetiva, D(homR(Pi, R)) ´e um R-m´odulo projetivo, para cada i = 1, 2, e
D(homR(P1, R)) −→ D(homR(P0, R)) −→ D(homR(A, R)) −→ 0 ´e uma apresenta¸c˜ao projetiva
minimal de D(homR(A, R)) = ν(A). Logo, segue que τ ≃ Ω2ν.
Vamos mostrar agora que esse isomorfismo ´e funtorial. Sejam B ∈ modR e f : A → B um morfismo. Consideremos o seguinte diagrama
A f τ A ηA // τ f Ω2ν(A) Ω2ν(f ) B τ B ηB //Ω2ν(B)
onde ηA´e o isomorfismo entre τ A e Ω2ν(A), e ηB ´e o isomorfismo entre τ B e Ω2ν(B).
Observe que
ηBτ (f )(τ A) = ηB(τ B) = Ω2ν(B) = Ω2ν(f )(Ω2ν(A)) = Ω2ν(f )(ηA(τ A)).
Logo, o diagrama acima ´e comutativo, e η : A 7→ ηA ´e um isomorfismo natural. O que
implica que τ A ≃ Ω2ν(A), como quer´ıamos demonstrar.
Finalmente, vamos mostrar que Ω2ν ≃ νΩ2. Consideremos, novamente, P1 −→ P0 −→ A −→ 0
uma apresenta¸c˜ao projetiva minimal de A em modR. Dessa apresenta¸c˜ao, obtemos a sequˆencia exata
0 −→ Ω2(A) −→ P
1 −→ P0 −→ A −→ 0.
Aplicando o funtor homR(−, R), e, em seguida, o funtor dualidade D, obtemos a sequˆencia
νΩ2(A) −→ νP
1 −→ νP0 −→ νA −→ 0,
lembrando que ν = D(homR(−, R)).
Como R ´e autoinjetiva, νPi ´e projetivo, para cada i = 1, 2, e νP1 −→ νP0 −→ νA −→ 0 ´e
apresenta¸c˜ao projetiva minimal de νA. Logo, νΩ2(A) ≃ Ω2ν(A).
Vamos mostrar, para finalizar essa demonstra¸c˜ao, que esse isomorfismo ´e funtorial. Sejam, ent˜ao, B ∈ modR e f um morfismo de A em B. Consideremos o seguinte diagrama
A f νΩ2A µA // νΩ2f Ω2ν(A) Ω2ν(f ) B νΩ2(B) µB //Ω2ν(B)
onde µA´e o isomorfismo entre νΩ2(A) e Ω2ν(A), e µB ´e o isomorfismo entre νΩ2(B) e Ω2ν(B).
Observe que
µBνΩ2(f )νΩ2(A) = µBνΩ2(B) = Ω2ν(B) = Ω2ν(f )Ω2ν(A) = Ω2ν(f )µAνΩ2(A).
Logo, o diagrama acima ´e comutativo, e µ : A 7→ µA ´e um isomorfismo natural. Portanto,
νΩ2(A) ≃ Ω2ν(A) ´e um isomorfismo funtorial.
Assim, o resultado anterior nos garante que se M ´e um R-m´odulo n˜ao-projetivo e inde- compon´ıvel e R ´e autoinjetiva, o transladado de Auslander-Reiten τ ´e dado por τ M = νΩ2M .
Temos tamb´em, nesse caso, que τ e Ω comutam. De fato, seja 0 //ΩM //P0 ϕ //M //0
uma sequˆencia exata, onde P0 ´e projetivo e φ ´e uma cobertura projetiva de M . Aplicando o
funtor de Nakayama nessa sequˆencia, temos a seguinte sequˆencia exata 0 //νΩM //νP0 ϕ //νM //0 .
Como ν ´e uma equivalˆencia, νP0 ´e projetivo, e νφ ´e cobertura projetiva de νM . Assim,
νΩM = ΩνM .