1. Empresas Transnacionais e o Desenvolvimento Sustentável
1.2 Empresas transnacionais e a sustentabilidade
1.2.3 Transnacionais, emprego e capital humano 3
As ETNs podem criar oportunidades diretas de melhora social da força de trabalho local por meio da geração de empregos, estimulando a acumulação de capital
humano e por meio de programas sociais que oferecem oportunidades que de outra forma dificilmente os mesmos teriam acesso.
Por meio das suas inversões, as transnacionais geram empregos diretos e indiretos (Radosevic, et al, 2003). Esses últimos são frutos dos encadeamentos para frente e para trás na cadeia produtiva. As ETNs são responsáveis por cerca de 2 a 3% dos empregos no mundo, o que representa aproximadamente 73 milhões de empregos, sendo 12 milhões em países em desenvolvimento. Em termos quantitativos o papel das transnacionais no mercado de trabalho mundial parece pequeno, mas se a análise for feita por indústria, a significância aumenta. As ETNs respondem por cerca de um quinto dos empregos gerados nos setores não agrícolas nos países desenvolvidos e são bastante relevantes nas indústrias intensivas em capital e em tecnologia (Chudnovsky e López, 2002). A UNCTAD (1999) nota que, em alguns países em desenvolvimento, são criados de um a dois empregos indiretos para cada trabalhador empregado em uma filial estrangeira.
Apesar dos benefícios potenciais que os fluxos de IDE podem gerar na criação de vagas de trabalho, Radosevic et al (2003) argumentam que é difícil captar os efeitos líquidos da presença estrangeira no mercado de trabalho. A UNCTAD (1999) levanta uma série de fatores que são importantes na determinação desses efeitos: modo de entrada da ETN na indústria local, finalidade da inversão, capacidade competitiva das empresas locais, qualidade da força de trabalho e a estrutura institucional do mercado de trabalho da economia.
Quanto ao modo de entrada, o número de empregos gerados tende a ser muito maior quando a ETN realiza inversões que expandem a capacidade produtiva local do que por meio de fusões e aquisições. Investimentos que buscam mão-de-obra barata ou se instalam em atividades intensivas em recursos humanos, como serviços, também tendem a ter impactos quantitativos benéficos no mercado de trabalho. A competitividade das firmas domésticas é relevante para que a entrada estrangeira não elimine empresas - e com elas inúmeros postos de trabalho -, possibilitando ainda o estabelecimento de encadeamentos. A maior qualificação da mão-de-obra doméstica é importante na atração de fluxos de IDE e permite que posições mais elevadas sejam ocupadas por locais. Por fim, a eficiência do mercado de trabalho e a qualidade das suas instituições (como o conjunto de leis trabalhistas e os sindicatos) são necessárias para que as informações sobre novas oportunidades de emprego sejam difundidas mais facilmente, bem como para que permita o surgimento de novas formas de arranjos empregatícios.
Em relação aos aspectos qualitativos dos empregos criados pelos fluxos de IDE, destacam-se duas hipóteses: as transnacionais tendem a pagar salários maiores do que as firmas locais e são um importante canal para a formação de capital humano, principalmente nos países em desenvolvimento dadas as deficiências do sistema educacional dessas economias.
Görg e Greenaway (2003), com base em estudos empíricos, concluíram que as transnacionais freqüentemente pagam salários maiores que as firmas locais. Mesmo considerando fatores como tamanho da firma e setor de atuação, ainda permanece um diferencial em termos de salários em favor das filiais estrangeiras. Os resultados obtidos por Almeida (2003) para o caso português são semelhantes. O estudo também aponta que as ETs empregam mão-de-obra com maior nível de educação que as firmas domésticas. A explicação dada para esses fatos é que as ETNs possuem vantagens de propriedade que associadas à contratação de pessoal qualificado, aumentam a produtividade do trabalho e os salários.
Os efeitos das ETNs sobre o desenvolvimento de capital humano, segundo Slaughter (2002), recaem sobre a demanda e a oferta local de mão-de-obra qualificada.
As transnacionais, ao transferir tecnologia para as filiais e permitir a difusão dessa tecnologia (por canais já discutidos) para as firmas domésticas, devem aumentar a demanda de trabalhadores qualificados. Como resposta, a força de trabalho deve procurar formas de adquirir treinamento e maior escolaridade, aumentando assim o estoque de capital humano da economia.
Embora as evidências sobre a transferência de tecnologia das ETNs para as firmas locais sejam mistas, Slaughter (2002) acredita que há dados suficientes para crer na transferência das matrizes para as filias. Ao analisar informações sobre a dispersão das atividades de P&D das ETNs americanas, ele concluiu que em pouco mais de dez anos a parcela da P&D feita nas filiais praticamente dobrou: de 6,4% em 1982 para 11,5% em 1994. O autor observou ainda um aumento entre 1977 e 1994 no número de funcionários das filiais em atividades não ligadas diretamente à produção - de 37,2% para 40,5% -, o que parece indicar aumento na proporção de trabalhadores mais qualificados. Assim, as evidências sobre salários, P&D e composição da força de trabalho, revelariam a transferência de tecnologia da matriz para a filial e o conseguinte aumento da demanda de mão-de-obra local mais educada. Entretanto, Almeida (2003) em seu estudo constata que, a despeito dos grandes influxos de IDE que Portugal recebeu nos anos 90, a correlação entre demanda por qualificação e participação estrangeira se deve à aquisição pelas ETNs das
empresas domésticas que já possuíam uma proporção de trabalhadores qualificados maior que a média da indústria.
Por outro lado, se a economia não tiver a estrutura institucional adequada para que os menos qualificados obtenham as habilidades exigidas pela maior demanda por qualificação, a transferência de tecnologia pode gerar piora na distribuição de renda e distúrbios sociais (Kapstein, 2002). Nesse caso, a diferença entre os salários pagos aos trabalhadores menos qualificados e os mais educados deve aumentar, provocando pressões sociais como aumento da criminalidade e da violência. As autoridades, sendo obrigadas a elevarem os gastos com segurança, reduzem investimentos em educação, em infra- estrutura e em outros programas públicos que poderiam tornar a economia mais competitiva.
Do lado da oferta de qualificação, as inversões estrangeiras têm resultados no curto e no longo prazo. No curto prazo, as ETNs podem contribuir por meio de treinamentos internos e oferecendo apoio material e orientação às instituições locais (Slaughter, 2002).
Segundo Miyamoto (2003), treinamentos recebidos em empresas (enterprise training) é uma importante forma de aquisição de habilidades, pois pode aumentar consideravelmente a produtividade do trabalho. Estudos empíricos revelam que treinamentos aumentaram entre 50 e 75% a produtividade na Indonésia, Nicarágua e Guatemala e de 30 a 45% no México, Malásia e Colômbia (Tan e Batra, 1996 e Batra, 2003 apud Miyamoto, 2003). Ainda com base em Miyamoto (2003), observa-se que as ETNs tendem a realizar mais treinamentos que as firmas locais. O argumento é que essas empresas enfrentam menos restrições que as firmas domésticas, pois têm maior acesso ao mercado internacional de capitais, a maiores informações sobre técnicas e organização de treinamentos e, ainda, conseguem reduzir a probabilidade de o funcionário deixar a empresa após o treinamento porque podem oferecer salários maiores. Entretanto, se o custo de treinar a mão-de-obra local for significativamente maior do que transferir as atividades para outro país com melhores recursos humanos, a ETN deve deixar a economia local. Esse movimento pode ocorrer inclusive em filiais que estão em atividades mais complexas (UNCTAD, 1999).
Slaughter (2002) lembra que as iniciativas educacionais privadas objetivam, em geral, transferir conhecimentos específicos à firma. Portanto, dificilmente as ETNs procurarão desenvolver conhecimentos matemáticos, a capacidade de comunicação ou de resolver problemas - ou seja, habilidades de aplicação geral - dos seus empregados.
Promover o conhecimento em atividades específicas à firma aumenta a apropriabilidade dos ganhos dos treinamentos, pois a criação de habilidades gerais e transferíveis facilita aos trabalhadores a mudança de emprego (UNCTAD, 1999).
Mesmo que secundariamente, as ETNs também têm contribuído com a educação formal na economia hospedeira. As transnacionais têm fornecido bolsas de estudo, infra-estrutura para pesquisas e colaborado com o desenvolvimento de programas de estudos para cursos de graduação e pós-graduação. A Intel e a Toyota se destacam nesse campo. Na China, a Intel participa de joint ventures com universidades para a realização de pesquisas e tem doado bolsas de estudo. A Toyota possui, na Indonésia, a fundação Toyota-ASTRA, a qual fornece bolsas de estudo em todos os níveis da educação formal (especialmente para estudantes de baixa renda). A fundação doa materiais e equipamentos a escolas e universidades, oferecendo também a essas últimas fundos para pesquisas (Miyamoto, 2003). Dentre as razões que levam as ETNs a essas iniciativas pode estar formar um estoque de capital humano com as habilidades requeridas no ramo de atividade da empresa, ou necessárias a seus fornecedores e distribuidores.
No longo prazo, a contribuição das ETNs à qualificação da força de trabalho local pode ocorrer de várias maneiras. Em primeiro lugar, os fluxos de IDE podem estimular o crescimento e aumentar a arrecadação fiscal no país receptor, gerando maiores fundos para a educação. Inversões diretas são também mais estáveis que outros fluxos de capital, o que facilita a condução da política macroeconômica e aumenta a estabilidade econômica, estimulando os investimentos em educação. Por último, essas mudanças em conjunto criam melhores oportunidades de emprego, podendo inibir a saída de mão-de- obra altamente qualificada (brain drain) nos países em desenvolvimento (Slaughter, 2002). Com respeito à qualidade dos empregos oferecidos pelas ETNs, resta discutir as condições de trabalho. Segundo a UNCTAD (1999), as filiais estrangeiras tendem a oferecer condições de trabalho, no mínimo, tão boas quanto as oferecidas pelas grandes empresas nacionais. Freqüentemente, as condições de trabalho nas filiais são melhores que a média local. Em particular, transnacionais grandes, bem estabelecidas e muito conhecidas devem atender aos padrões internacionais ou à legislação do país hospedeiro. Podem, ainda, aplicar um único padrão em toda a companhia, procurando atingir economias de escala, vantagens de marketing ou alcançar a aprovação de acionistas. Em geral, as ETNs aderem ao salário mínimo, pagam horas extras de trabalho, respeitam a legislação quanto à provisão de serviços de saúde, concedem licenças e outras compensações exigidas. Essa é uma forma de atrair e manter trabalhadores qualificados e de proteger a reputação.
Por outro lado, filiais motivadas pela redução de custos e que produzem para os segmentos de menor renda do mercado, freqüentemente, são displicentes com os padrões trabalhistas. Esse tipo de filial tende a aproveitar arranjos como as zonas de processamentos de exportações, onde alguns países permitem que os investidores estrangeiros não adotem a legislação trabalhista aplicada ao resto da economia para reduzir seus gastos com mão-de-obra. Muitos mercados de trabalho são segmentados por fatores éticos e de gênero. Em alguns casos, as ETNs se aproveitam dessa segmentação para poder pagar salários menores. Assim, diferenças de salários entre homens e mulheres – mesmo quando desenvolvem trabalhos similares ou com o mesmo nível de habilidades – têm sido notadas, com as mulheres ganhando menos tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento (UNCTAD, 1999).
Zarsky e Gallagher (2003) aconselham o uso dos padrões da Organização Mundial do Trabalho (OMT) na análise da qualidade das condições de trabalho. Recentemente, a OMT estabeleceu os direitos e princípios fundamentais que devem ser obedecidos pelos empregadores, quais sejam: liberdade de associação, direito dos trabalhadores se organizarem e barganharem coletivamente, respeitar uma idade mínima ao empregar crianças e garantir condições aceitáveis de trabalho. Hopkins (2004) considera como condições básicas de trabalho estabelecer um número máximo de horas de trabalho por semana, ter direito a um descanso semanal, determinar um salário mínimo, respeitar condições mínimas de segurança e de saúde no trabalho e eliminação da discriminação entre empregados.
1.3
Considerações sobre o capítulo
O objetivo desta revisão bibliográfica sobre a relação entre transnacionais e desenvolvimento sustentável foi levantar hipóteses a serem investigadas em um estudo empírico. Como objeto de análise da pesquisa de campo foi eleito o setor de papel e celulose brasileiro. A escolha dessa indústria baseou-se na sua participação no estoque local de IDE e por possuir alto potencial de dano ambiental. Em 2000, segundo o censo de capitais estrangeiros do Banco Central, a indústria de papel e celulose possuía 4,5% do estoque local de IDE, sendo o oitavo setor da indústria de transformação brasileira com maior estoque de IDE. Ainda em 2000, De Negri (2003) apurou que as ETNs eram
responsáveis por 37% do faturamento dessa indústria, o que revela o peso das empresas estrangeiras no setor.
Com base nas três dimensões do conceito de desenvolvimento sustentável – crescimento, eqüidade social e prudência ecológica - foram eleitas as seguintes hipóteses para serem testadas:
(H.1): A presença das transnacionais gera externalidades tecnológicas positivas para as firmas de países em desenvolvimento.
Essa hipótese se refere aos impactos das ETNs no crescimento da economia receptora. Espera-se captar esses impactos por meio da análise da transferência de conhecimento das filiais estrangeiras para as firmas locais. Supõe-se que essa transferência ocorre por canais de transbordamentos, quais sejam: o efeito demonstração, a pressão competitiva gerada pelas filiais estrangeiras; a preferência das ETNs por fornecedores e distribuidores locais; a realização de P&D na filial aqui instalada; a existência de algum tipo de aliança entre as ETNs, empresas e instituições locais para a realização de atividades de P&D em conjunto; e a transferência de mão-de-obra das ETNs para as empresas nacionais. Assume-se que a extensão desses transbordamentos é positivamente relacionada com a capacidade de absorção das firmas nacionais, ou seja, quanto maior a competitividade local, maior a possibilidade da entrada das ETNs gerarem benefícios.
(H.2): As ETNs possuem sistemas de gerenciamento ambiental e tecnologias que lhes asseguram um estágio de controle ambiental superior ao das firmas locais.
Com esta hipótese se pretende avaliar a contribuição das ETNs à eficiência ecológica das empresas locais. Apesar das evidências empíricas não apontarem homogeneidade no desempenho ambiental das transnacionais, ao se assumir que essas empresas geram externalidades tecnológicas positivas, torna-se imperativo supor também que apresentam estágio de controle ambiental superior ao das firmas domésticas. Pretende- se ainda levantar a estratégia corporativa de gerenciamento ambiental das ETNs, fator que pode ajudar na compreensão do desempenho ambiental dessas empresas comparativamente aos das firmas locais.
A terceira e quarta hipóteses permitem avaliar as melhorias sociais que a transnacional gera na economia hospedeira. Para tanto, como parâmetros foram usados os diferenciais de salário e os incentivos à qualificação da mão-de-obra local.
(H.3): As ETNs pagam salários maiores que as firmas locais.
Supõe-se que ao associarem vantagens de propriedade com contratação de mão-de-obra qualificada, as transnacionais alcançam maior produtividade e pagam salários maiores.
(H.4): As transnacionais são um canal de desenvolvimento de capital humano em países em desenvolvimento.
Espera-se que ao transferir tecnologia para as firmas locais - ou mesmo quando essa transferência se restringe à filial – ocorra aumento da demanda por capital humano, o que estimula a força de trabalho local a se qualificar. Ainda, em razão das características específicas às ETNs, essas empresas tendem a oferecer mias treinamentos que as firmas locais e a atuar junto às instituições locais de educação oferecendo bolsas de estudos, máquinas, equipamentos para pesquisa e ajuda para o aprimoramento dos programas de graduação e pós-graduação.
Em razão de limitações metodológicas, não será possível analisar os efeitos de longo prazo dos fluxos de IDE sobre a formação de capital humano. Para tanto, é necessário acesso a uma ampla gama de informações, tais como o impacto das inversões estrangeiras sobre a arrecadação fiscal e o seu papel sobre a entrada e saída de profissionais do Brasil.
No próximo capítulo será feita uma análise geral da indústria brasileira de papel e celulose, enfatizando os seguintes pontos: perfil tecnológico e esforços de inovação no setor; problemas ambientais que afetam a indústria e respostas das empresas brasileiras; e a questão dos salários, qualificação da mão-de-obra e ações sociais. Essas informações darão suporte para a análise dos resultados da pesquisa de campo, a serem apresentados no terceiro capítulo deste trabalho.