Para ser transparente, um sistema precisa ter mecanismos de respostas. Nos casos em que a informação desejada não estiver proativamente disponível, o sistema deverá indicar onde e de que maneira o solicitante poderá acessar essa informação – ou, simplesmente, entregar a informação ao solicitante (ANGÉLICO, 2015). O conceito de transparência passiva denota a obrigação a que o Estado deve se submeter para conceder, aos cidadãos que o requeiram, acesso oportuno à informação que esteja em poder dos órgãos públicos. A exceção a essa obrigação se dá para os casos em há uma razão legalmente estabelecida para manter a informação em segredo, como nos casos que envolverem segurança nacional, direito de terceiros, procedimentos em trâmite cuja revelação antecipada prejudique o cumprimento de uma função pública, entre outros. Mesmo assim, deverá a lei assegurar aos cidadãos o direito de questionarem judicialmente a negativa de acesso (YAZIGI, 1999).
A transparência passiva, conforme Raupp e Pinho (2015, p.3), é “aquela em que as informações são disponibilizadas de acordo com as solicitações da sociedade”. A Lei de Acesso à Informação, em seu capítulo III, do procedimento de acesso à informação, detalha as questões envolvendo o exercício da transparência passiva pelos órgãos e entidades públicas, desde o pedido de acesso até a realização dos recursos para os casos em que a informação não for disponibilizada.
Em 16 de maio de 2012 foi publicado o Decreto nº 7.724, que regulamenta, no âmbito do Poder Executivo Federal, os procedimentos para a garantia do acesso à informação e para a classificação de informações sob restrição de acesso, observados grau e prazo de sigilo. O referido decreto traz no capítulo III os aspectos relativos à transparência ativa, como uma relação das informações que devem ser disponibilizadas nos sítios na internet dos órgãos e
entidades e alguns requisitos que esses sítios deverão atender. No capítulo IV são detalhados procedimentos relativos à transparência passiva (BRASIL, 2012).
Tanto a Lei de Acesso à Informação quanto o Decreto nº 7.724 preveem a criação do Serviço de Informações ao Cidadão - SIC pelos órgãos e entidades, com o objetivo de:
atender e orientar o público quanto ao acesso à informação; informar sobre a tramitação de documentos nas unidades; receber e registrar pedidos de acesso à informação; realizar audiências ou consultas públicas e incentivar a participação popular e outras formas de divulgação. Dessa forma, compete ao SIC:
I - o recebimento do pedido de acesso e, sempre que possível, o fornecimento imediato da informação; II - o registro do pedido de acesso em sistema eletrônico específico e a entrega de número do protocolo, que conterá a data de apresentação do pedido; e III - o encaminhamento do pedido recebido e registrado à unidade responsável pelo fornecimento da informação, quando couber (BRASIL, 2012).
O pedido de acesso à informação pode ser realizado por qualquer pessoa, natural ou jurídica. É necessário que o pedido apresente a especificação da informação requerida e a identificação do requerente, sendo que essa identificação não pode conter exigências que inviabilizem a solicitação. Nenhuma informação complementar poderá ser exigida, como os motivos determinantes da solicitação. Os órgãos e entidades do poder público devem viabilizar alternativa de encaminhamento de pedidos de acesso por meio de seus sítios oficiais na internet (BRASIL, 2011).
O artigo 11 da LAI define que assim que o pedido for recebido, o órgão ou entidade pública deverá autorizar ou conceder o acesso imediato à informação disponível. Caso o acesso imediato não seja possível, o órgão ou entidade deverá, no prazo de até vinte dias:
I - comunicar a data, local e modo para se realizar a consulta, efetuar a reprodução ou obter a certidão; II - indicar as razões de fato ou de direito da recusa, total ou parcial, do acesso pretendido; ou III - comunicar que não possui a informação, indicar, se for do seu conhecimento, o órgão ou a entidade que a detém, ou, ainda, remeter o requerimento a esse órgão ou entidade, cientificando o interessado da remessa de seu pedido de informação (BRASIL, 2011).
O prazo para resposta do pedido poderá ser prorrogado por mais dez dias, mediante justificativa expressa, da qual será cientificado o requerente. Se a informação solicitada já estiver disponível ao público em formato impresso, eletrônico ou outro meio, o órgão deverá informar ao requerente o lugar e a forma pela qual se poderá acessar a informação. Esse procedimento desonera o órgão da obrigação de seu fornecimento direto (BRASIL, 2011).
Quando a informação solicitada for total ou parcialmente sigilosa, o requente deverá ser informado sobre a possibilidade de recursos, prazos, condições para sua interposição e indicação da autoridade competente para sua apreciação. Ao receber negativa de acesso ou se não forem fornecidas as razões da negativa de acesso, o interessado poderá interpor recurso, no prazo de 10 dias a contar da sua ciência. O recurso será analisado pela autoridade hierarquicamente superior à que exarou a decisão impugnada, que deverá se manifestar no prazo de cinco dias, contado do recebimento da reclamação. Os procedimentos de revisão de decisões denegatórias proferidas no recurso e de revisão de classificação de documentos sigilosos serão objeto de regulamentação própria dos poderes legislativo e judiciário, em seus respectivos âmbitos. No caso de omissão de resposta ao pedido de acesso à informação, o requerente poderá apresentar reclamação à autoridade de monitoramento, designada pelo dirigente máximo de cada órgão (BRASIL, 2011; BRASIL, 2012).
A negativa de acesso pode ocorrer e estar de acordo com a LAI, pois o direito à informação não é superior a outros direitos. Para Angélico (2015), o direito à privacidade e o direito à segurança constituem-se, de modo geral, os grandes limitadores da liberdade de informação. As legislações e tratados internacionais que versam sobre o assunto abordam a necessidade de estabelecer limites à liberdade de informação. Em 2010, a Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou a “Lei Modelo de Acesso à Informação”, a qual afirma que a restrição do acesso à informação pode ocorrer quando for legítima e extremamente necessária em uma sociedade democrática. Segundo o autor, são duas as hipóteses genéricas de sigilo: a manutenção do direito à inviolabilidade da vida privada e da intimidade e o risco à segurança da sociedade ou do Estado, sendo que cada uma dessas hipóteses pode desdobrar-se em outras mais específicas. Porém, por mais detalhadas que sejam as hipóteses de sigilo, ainda haverá espaço para a discricionariedade. Nesse contexto, Angélico (2015) destaca a importância de promover adequados procedimentos de acesso, apelação e reavaliação para que os entendimentos sejam pacificados e especificados ao longo do tempo, partindo de casos concretos.
As restrições estabelecidas no artigo 23 da LAI dizem respeito à divulgação de informações imprescindíveis à segurança da sociedade e do Estado, cuja divulgação possa:
I - pôr em risco a defesa e a soberania nacionais ou a integridade do território nacional; II - prejudicar ou pôr em risco a condução de negociações ou as relações internacionais do País, ou as que tenham sido fornecidas em caráter sigiloso por outros Estados e organismos internacionais; III - pôr em risco a vida, a segurança ou
a saúde da população; IV - oferecer elevado risco à estabilidade financeira, econômica ou monetária do País; V - prejudicar ou causar risco a planos ou operações estratégicos das Forças Armadas; VI - prejudicar ou causar risco a projetos de pesquisa e desenvolvimento científico ou tecnológico, assim como a sistemas, bens, instalações ou áreas de interesse estratégico nacional; VII - pôr em risco a segurança de instituições ou de altas autoridades nacionais ou estrangeiras e seus familiares; ou VIII - comprometer atividades de inteligência, bem como de investigação ou fiscalização em andamento, relacionadas com a prevenção ou repressão de infrações (BRASIL, 2011).
Essas informações podem ser classificadas como: ultrassecreta, tendo prazo de restrição de 25 anos a partir da data de sua produção; secreta, com prazo de restrição de 15 anos; e reservada, com 5 anos de restrição de acesso à informação. O grau de sigilo das informações é classificado levando-se em consideração: a gravidade do risco ou dano à segurança da sociedade e do Estado; e o prazo máximo de restrição de acesso ou o evento que defina seu termo final. Findo o evento que define o termo final ou decorrido o prazo de classificação, a informação automaticamente se tornará de acesso público (BRASIL, 2011).
As informações pessoais relativas à intimidade, vida privada, honra e imagem, independentemente de classificação de sigilo, terão seu acesso restrito a agentes públicos legalmente autorizados e à pessoa a que se referem, pelo prazo máximo de cem anos. A divulgação e acesso por terceiros poderá ser autorizada legalmente ou por consentimento da pessoa a que se referem (BRASIL, 2011).
A LAI determina as autoridades responsáveis pela classificação, reclassificação e desclassificação dos graus de sigilo de informações, bem como os procedimentos para essa classificação. Os órgãos deverão manter a relação das informações classificadas, com a respectiva data, grau de sigilo e fundamentos da classificação. No que diz respeito à proteção e controle das informações sigilosas, as autoridades públicas deverão adotar os procedimentos necessários para que as normas sejam conhecidas e as medidas adotadas pelo pessoal subordinado hierarquicamente (BRASIL, 2011).
Os agentes públicos irão responder pelas seguintes condutas ilícitas:
I - recusar-se a fornecer informação requerida nos termos desta Lei, retardar deliberadamente o seu fornecimento ou fornecê-la intencionalmente de forma incorreta, incompleta ou imprecisa; II - utilizar indevidamente, bem como subtrair, destruir, inutilizar, desfigurar, alterar ou ocultar, total ou parcialmente, informação que se encontre sob sua guarda ou a que tenha acesso ou conhecimento em razão do exercício das atribuições de cargo, emprego ou função pública; III - agir com dolo ou má-fé na análise das solicitações de acesso à informação; IV - divulgar ou permitir a divulgação ou acessar ou permitir acesso indevido à informação sigilosa ou informação pessoal; V - impor sigilo à informação para obter proveito pessoal ou de terceiro, ou para fins de ocultação de ato ilegal cometido por si ou por outrem; VI - ocultar da revisão de autoridade superior competente informação sigilosa para
beneficiar a si ou a outrem, ou em prejuízo de terceiros; e VII - destruir ou subtrair, por qualquer meio, documentos concernentes a possíveis violações de direitos humanos por parte de agentes do Estado (BRASIL, 2011).
As infrações administrativas cometidas pelo agente público serão avaliadas conforme o disposto na Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, sendo apenadas, no mínimo, com suspensão. Poderá, também, responder por improbidade administrativa. Por sua vez, a pessoa física ou entidade privada que detiver informações públicas e descumprir a LAI, estará sujeita à advertência, multa, rescisão do vínculo com o poder público, suspensão temporária de participar em licitação e contratar com a administração pública e declaração de inidoneidade para licitar ou contratar com a administração pública até que seja promovida a reabilitação perante a autoridade que aplicou a penalidade (BRASIL, 2011).
Uma autoridade, designada pelo dirigente máximo de cada órgão, será responsável por assegurar o cumprimento das normas relativas ao acesso à informação, monitorar e recomendar as medidas indispensáveis à implementação do disposto na LAI, apresentar relatórios periódicos sobre o seu cumprimento, bem como orientar as respectivas unidades quanto ao cumprimento da LAI e seus regulamentos. Os Estados, Distrito Federal e Municípios deverão definir, em legislação própria, regras específicas para a implementação da LAI, especialmente no que se refere ao artigo 9º, da criação do Sistema de Informação ao Cidadão, e na Seção II do Capítulo III, dos procedimentos relativos aos recursos (BRASIL, 2011).
A LAI responsabiliza os órgãos e entidades do poder público a assegurar a gestão transparente da informação, propiciando amplo acesso a ela e sua divulgação. Para cumprir com o disposto na lei, o Estado precisa utilizar ferramenta que oportunize a divulgação dessas informações e facilite o acesso pela população. Esse objetivo pode ser alcançado através da utilização das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). Segundo Silva, Hoch e Santos (2013), as TICs, em especial a internet, permitem que o Estado cumpra seu dever de transparência passiva e os cidadãos exerçam seu direito de acesso à informação, garantindo respostas mais ágeis e menos burocratizadas.
2.4 USO DAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO PARA