CAPÍTULO III SAÚDE MENTAL
3.4 Transtornos Mentais Comuns e o Contexto Imigratório
Nas análises das relações entre o fenómeno da migração e saúde, quanto mais se procura compreender o universo complexo da migração, mais ganham destaque as questões relacionadas com a saúde, com os transtornos mentais comuns e com o sofrimento psíquico. No caso dos migrantes internacionais – isto é, pessoas que deixam o seu país de nascimento, para irem viver noutro, nem sempre com culturas semelhantes, – é senso comum que o período de aculturação se define por um período de vivências de sofrimento, e de stress, que colocam o ser migrante num estado vulnerável em relação a sua saúde mental (Sayad, 2000; Ramos, 1993, 2004, 2008; Coutinho, 2005; Franken, Coutinho & Ramos, 2007, 2008).
Em termos de Psicologia e Psiquiatria, vários estudos no Brasil e no exterior têm demonstrado a existência de uma associação entre o fenómeno da migração e o desenvolvimento de distúrbios mentais (Ramos, 1993, 2004, 2008; Lechner, 2007; Achotegui, 2005; Baubet, 2003a; Almeida Filho, 2000).
Torna-se imprescindível assinalar os diferentes graus de vulnerabilidade que existem em distintas experiências da imigração, como existem formas diferentes de ser imigrante em função do tipo de experiências que os sujeitos têm (por exemplo: um migrante estudante, um trabalhador, um migrante legalizado, um ilegal, um exilado, um refugiado), nesta tela, o tipo de resposta individual à situação, pode variar, bem como o grau de vulnerabilidade em seus aspectos de saúde (Lechener, 2007).
Goldberg e Huxley (1992), observam que as mudanças de vida, as crises vitais, quer sejam voluntárias, quer sejam involuntárias, assim como os processos de adaptações, desencadeiam, em alguns indivíduos e populações, sintomas comuns advindos dos variados níveis de sofrimento psíquico, propiciando o aparecimento dos transtornos mentais comuns e provocando uma queda em suas capacidades.
Entre as mudanças de vida, encontram-se as migrações internacionais, voluntárias ou involuntárias, cujos estudos mostram que o processo de aculturação é uma etapa potencialmente propícia ao sofrimento psíquico (Ramos, 2004, Sayad, 2000).
Este sofrimento psíquico pode ampliar o seu grau de complexidade e de extensão, visto que, um dos principais problemas que os migrantes internacionais encontram é o acesso ás estruturas sociais básicas, como é o caso da saúde. Ao migrar o indivíduo enfrenta frequentemente alterações ao nível da saúde, causadas por alterações climáticas, mudanças de estilos de vida, adaptação às diferentes comidas e hábitos, baixo rendimento, afastamento da família e dos amigos entre outros aspectos, que, por estarem excluídos dos serviços de saúde, o prognóstico que poderia ser favorável com uma assistência, fica seriamente comprometido (Ramos, 1993; 2004, 2008; Leshner, 2007).
Segundo Ramos, (2004) e Dias e Gonçalves (2007), as restrições no acesso aos cuidados de saúde imposta aos imigrantes em situação irregular e o receio da denúncia desta condição, podem fazer com que estes evitem os serviços de saúde, o que pode elevar a gravidade de seu estado de saúde, ampliando o tempo e os custos do tratamento.
Mesmo assim, o aparecimento de sinais e sintomas a nível físico, psíquico e social é frequente; diferentes somatizações encaminham o migrante de forma inevitável para a procura de cuidados de saúde e influenciam a sua integração na sociedade de acolhimento. Mais do que subgrupos nosológicos específicos, a somatização refere-se a uma forma de comunicar o sofrimento emocional que pode ser motivado por inúmeros quadros psicopatológicos. Pode, até mesmo, estar presente onde não se verifica nenhuma alteração deste tipo, mas sim em situações de insatisfação, de incapacidade, de tristeza e dor (Botega, 2006).
Almeida Filho (1998, 2000), estudando as consequências económicas e sociais do desenvolvimento capitalista, incluindo a urbanização e os movimentos migratórios, identifica-os como factores que contribuem para o aumento de patologias mentais – tais como o stress, o alcoolismo, a drogo/dependência e as doenças mentais.
Kaplan et al., (1977), em seus estudos sobre as situações produtoras de stress elaboram a teoria que denominam de suporte social. De acordo com essa teoria, as redes sociais, por meio de inter-relações, teriam o efeito de se contrapor e de minimizar o impacto destas situações stressantes. Assim, para um migrante, quanto maior fosse o suporte social recebido no país de acolhimento, maior seria a probabilidade de enfrentar, sem grandes défices em sua saúde mental, o stress da aculturação.
Eaton (1986), ao estudar também o stress, apresentou a teoria dos papéis sociais, considerando a identidade social dos indivíduos como um conjunto de comportamentos associados à posição que ocupam na rede social. Tais comportamentos, chamados de papéis, são padronizados pela cultura. O desempenho insatisfatório desse papel, segundo as expectativas do grupo social no qual o indivíduo se insere, poderia levar à redução da auto-estima. Tal redução produziria stress, o qual seria ou não controlado por forças de suporte social.
Tratando do fenómeno da imigração em população imigrante, Cochrane e Bal (1987) examinaram as taxas de admissão psiquiátrica por esquizofrenia na Inglaterra,
encontrando maior número dessa atribuição diagnóstica entre imigrantes paquistaneses do sexo masculino, irlandeses, indianos e caribenhos.
Souza e Silva (1998) num estudo sobre os riscos de desenvolvimento de distúrbios psiquiátricos menores em motoristas e cobradores de autocarros urbanos da cidade de São Paulo encontraram maior prevalência desses transtornos em sujeitos que haviam migrado da região nordeste.
Pondé e Cardoso (2003) no seu trabalho sobre lazer e saúde mental, refere o suporte social como um factor de protecção para a saúde mental, o que tem estimulado a indicação de práticas de lazer como fonte de apoio social, na medida em que representaria uma extensão desta rede. O lazer pode permitir o encontro entre as pessoas, levando assim ao uso e incremento do apoio emocional cognitivo e instrumental. Verificou-se, além disso, uma associação positiva entre satisfação com o lazer, e a companhia durante as actividades de lazer. Estudiosos avançam na compreensão da relação entre lazer, saúde mental e suporte social, à medida que sugerem que não são as actividades de lazer em si que são positivas ou não para a saúde mental, mas sim algumas características relacionadas com tais actividades que favorecem e sedimentam o suporte social entre os grupos de pertença.
Num estudo desenvolvido por Almeida Filho (2000) no qual trata da relação entre migração e o stress num bairro popular de Salvador, Bahia, com 1.514 participantes, sendo 60,1% migrantes, a análise demonstrou que a pontuação relativa ao stress na população migrante (5,14) era mais elevada do que na população não-migrante (3,21), com relação estatisticamente significante. Outro dado relevante indicou que a população hospedeira pode interpor graus variáveis de dificuldades na sua adaptação ao novo lugar, com consequências directas na saúde física e psíquica, como expressão de uma migração bem ou mal sucedida.
Numa pesquisa, desenvolvida por Boekestijn(1989), sobressai o "dilema do migrante", que consiste na tensão entre adaptação sociocultural e a "preservação da identidade". E os estudos de Guerra & Tezanos (2008) mostram que os processos de aculturação
contribuem para a definição de um quadro de referência relativa ao entendimento do processo do stress associado à migração.
O stress psicológico inerente às mudanças da residência, ao processo de restabelecimento, e à falta de suporte social, tornam o migrante particularmente vulnerável aos riscos de morbilidade diferencial no seu novo ambiente. Ademais, mudanças no ambiente físico e cultural podem alterar os padrões habituais de funcionamento biológico e emocional (Ramos, 2004, 2008; Sayad, 2000; Almeida Filho, 2000).
Segundo Braveman e Gruskin (2003), as desigualdades socioeconómicas que se encontram associados aos contextos das migrações, de pobreza, de exclusão social e de situações laborais precárias, podem traduzir-se em reduzidas oportunidades de acesso à educação, à informação e à utilização dos serviços sociais e de saúde. Estas desigualdades determinam diferentes graus de exposição a factores de risco e de protecção, que levam a um aumento da vulnerabilidade, com consequências ao nível da saúde destas populações.
Considera-se que a pobreza influencia, não só a saúde mental, de um modo geral, mas também e especialmente as desordens mentais que são conhecidas como adaptativas ou secundárias a um estímulo ambiental negativo. Numa favela da cidade de Salvador, estimou-se uma prevalência de 20% de desordens psiquiátricas, com prevalência mais elevada nas mulheres mais velhas de baixa escolaridade e renda ainda mais baixa (Braveman & Gruskin op. cit.). Estes estudos sugerem que as desigualdades sociais e a miséria são fontes de deterioração mental, enfatizando, assim, o processo de sofrimento colectivo, em oposição à perspectiva que se circunscreve ao indivíduo e aos seus processos bio-psicológicos.
Alguns estudos, como o de Miranda (1980) e o de Ferreira Filha (2003) apontam que os próprios índices satisfatórios de crescimento económico de uma sociedade não garantem às pessoas condições de saúde mental, pois, as perversões do sistema de relações interpessoais são as geradoras naturais das perturbações mentais. Acrescenta ele ainda,
que qualquer organização social está fundada sobre dois tipos de sistema: o de cooperação e/ou o de exploração, pois nas sociedades de sistema de exploração, todas as instituições, inclusive as instituições sanitárias, estão voltadas para a tarefa de garantir a manutenção daquele sistema em contraposição às necessidades da comunidade.
Num estudo realizado em Barcelona (Andrés et. al., 2002), sobre a população marginal que incluía imigrantes económicos, detectou-se que 48% dos homens imigrantes e 65,7% das mulheres declararam um estado de saúde regular, mal ou muito mal, cifras superiores àquelas que foram obtidas na população geral do mesmo local. Dentre os imigrantes, 52% declarava uma elevada utilização dos serviços de saúde (visita ao médico no último mês) e um elevado número de transtornos crónicos, entre eles: dor nas costas em 33% e enxaquecas em 37% (prevalência também muito mais alta que na população autóctone); em relação com a saúde mental, 58% dos imigrantes entrevistados manifestou ter apresentado transtornos depressivos.
No Brasil, Almeida Filho e Bastos (1982), comparando prontuários psiquiátricos de pacientes femininos com síndrome depressiva (incluindo quadros de reacção depressiva, neurose depressiva, hipocondria e psicose maníaco-depressiva) com dados de um inquérito de prevalência de doenças mentais realizado na cidade de Salvador, verificaram que o risco de uma mulher migrante desenvolver tais sintomas é 2,5 vezes maior do que uma não migrante.
Achotegui et. all. (2005), em seu estudo sobre saúde mental dos migrantes, destacam que as sintomatologias somatoformes são mais frequentes, entre elas: a fadiga, a cefaleia, e as sintomatologias osteomusculares. Refere que 76,7% dos migrantes com síndrome padeciam de cefaleia. Estas cefaleias são quase sempre do tipo tensional e estão associadas às preocupações recorrentes em que se encontra o migrante.
Jansa e Olalla (2004), em seus estudos relativos aos transtornos mentais que apresentaram aos imigrantes, destacam esta hipótese razoável: as difíceis condições sociais, unidas estreitamente aos aspectos vinculados à migração por causas
económicas, podem dar lugar a conflitos intensos e complexos que influirão negativamente na saúde mental destas populações.
No terreno dos serviços de saúde para migrantes Leshner (2007, p. 85), salienta, que o que é decisivo no desbloquear do mal-estar dos pacientes não é tanto a justeza de um diagnóstico e terapêutica médica – de generalizações baseadas numa dada cientificidade – mas, sim, a relação que se estabelece com os migrantes, baseada em três dimensões:
a) a escuta permeável da diferença do outro na aceitação de uma margem de saber emergente;
b) a validação da experiência dos pacientes, na perspectiva de uma igualdade situacional;
c) a valorização de seu papel de co-construtor de um sentido atribuível à experiência de sofrimento.
Esta relação é instauradora e não tanto reparadora, seguida de uma lógica do diálogo e não da tolerância. (...) Poder agir a esse nível, implica conhecer os idiomas de dor e resiliência das pessoas concretas, bem como das culturas da memória das quais os migrantes são portadores e agentes transmissores (Leshner, 2007, p. 85).
Risso e Böker (1992), no atendimento a imigrantes italianos na Suíça, chama a atenção para a necessidade de uma reflexão por parte dos profissionais da saúde, no que toca o sintoma e cultura, expondo a necessidade de estes se precaverem das tendências culturais na elaboração de diagnósticos de delírios e doenças mentais, tendências estas estimuladas pelas tensões que provocam e pelo poder que se apresenta nas relações profissional/migrante.
Quando se pensa nos factores de risco e na protecção para a saúde mental, deve-se compreender o que significam tais factores nos contextos culturais específicos de cada
indivíduo. Da igual forma, é necessário reconhecer o sintoma e a saúde mental, como categorias que emergem da cultura ocidental, e, especificamente, de um meio científico composto sobretudo pela biomedicina, pela psicologia e pela sociologia, não sendo, portanto, categorias universais. Factores de riscos e de protecção para a doença mental, não podem ser vistos como universais, mas como emergentes da vida quotidiana colectiva e individual e das suas representações sociais. (Lescher, 2007; Braveman & Gruskin 2003; Almeida Filho, 2000).