CAPÍTULO III SAÚDE MENTAL
3.3 Transtornos Mentais Comuns
Nas últimas décadas, houve forte consolidação, a nível internacional, da pesquisa epidemiológica voltada para a elucidação de determinantes sociais que afectam a saúde e o bem-estar. Os estudos epidemiológicos demonstram que as perturbações psiquiátricas e os problemas de saúde mental se tornaram a principal causa de incapacidade e uma das principais causas de morbilidade nas sociedades actuais. Milhões de pessoas sofrem de algum tipo de doença mental no mundo e este número vem aumentando progressivamente, principalmente nos países em desenvolvimento.
De acordo com o Relatório Mundial de Saúde de 2001, as perturbações mentais são responsáveis por uma média de 31% dos anos vividos com incapacidade, chegando a índices próximos dos 40% na Europa. Segundo o estudo «The global burden of disease», realizado pela Organização Mundial de Saúde e por investigadores da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard (utilizando como medida o número de anos perdidos por incapacidade ou morte prematura) algumas situações, como as perturbações depressivas e as doenças cardiovasculares, estão a substituir rapidamente as doenças infecto-contagiosas como as principais causas da carga das doenças.
O Estudo da Área de Captação Epidemiológica do Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH-ECA), nos Estados Unidos, foi a primeira grande pesquisa epidemiológica (de base populacional) que utilizou critérios diagnósticos padronizados para a definição de
transtornos psiquiátricos (DIS – Diagnostic Interview Schedule). O ECA foi realizado em cinco centros (New Heaven, Eastern Baltimore, St. Louis, Durham e Los Angeles), através de uma amostra total de aproximadamente 20 mil pessoas. O índice de perdas nesse estudo variou de 20% a 25%, e os seus resultados indicam que cerca de um quarto das pessoas, pelo menos em algum momento da sua vida, apresenta algum transtorno de ansiedade de acordo com os critérios do DSM-III (Robbins & Regier, 1991).
Em relação à raça, no ECA não foram encontradas diferenças. Tais diferenças, se as houvesse, poderiam ser explicadas por factores socioeconómicos, sendo o ECA o primeiro estudo que permitiu comparações directas entre brancos, afro-americanos e hispânicos. As diferenças eventualmente encontradas desapareceram, de facto, quando, na análise, foram controlados factores como idade, local de residência e situação socioeconómica.
Vorcaro et. al. (2001) realizaram um levantamento dos estudos epidemiológicos de base populacional referentes à depressão, tendo o cuidado de agrupar os estudos pesquisados pelo aspecto metodológico abordado. Na pesquisa analisaram-se estudos epidemiológicos em diferentes lugares do mundo, o que proporcionou uma forma de se observar o comportamento das variáveis dos estudos em diferentes culturas. Os resultados mais evidenciados foram: o sexo feminino como o mais afectado pela depressão e o predomínio dos episódios depressivos que aumentam proporcionalmente à idade em mulheres até os 45 anos, decrescendo posteriormente. Quanto ao grupo étnico, há controvérsias, pois alguns estudos apontam para uma maior superioridade de depressão nos negros e nos hispânicos do que nos brancos, enquanto outros realizados com mulheres e homens judeus demonstram que o predomínio de depressão nesse grupo étnico é maior. Em relação ao estado civil, essa variável é um factor importante na ocorrência de depressão em homens franceses solteiros.
Realizando estudos nesta área em diferentes países a Organização Mundial de Saúde, (OMS), aponta que na população geral se regista uma prevalência em torno de 7 a 26% de distúrbios não psicóticos, e, sobre a totalidade da morbilidade psiquiátrica, os distúrbios não psicóticos registam 90% de prevalência, afectando pessoas de todas as
idades, de ambos os sexos e de diferentes grupos sociais. Possuem alto impacto nos relacionamentos interpessoais e na qualidade de vida, sendo potenciais substractos para o desenvolvimento de transtornos mais graves. Os eventos da vida, como morte de parente, perda de emprego, divórcio e episódios de violência, também contribuem para a ocorrência de morbilidade psiquiátrica (WHO, 2002).
Sérgio Aguilar-Gaxiola, professor da Universidade Estadual da Califórnia e um dos coordenadores do World Mental Health Survey (Levantamento Mundial sobre Saúde Mental), da Organização Mundial da Saúde (OMS), participando do seminário promovido pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, na Cidade do Panamá, refere que: “[...] As desordens mentais são um problema de saúde pública que não pode mais ser ignorado [...]”, e comenta que uma das razões mais fortes para se dar mais atenção às doenças mentais é a sua elevada prevalência (In: Fioravante, 2005, p. 2).
A prevalência é influenciada por factores biológicos, sociais, económicos e demográficos. Registam-se em alta prevalência os quadros depressivos e outros relacionados aos factores psicossociais e ambientais, como transtornos de ansiedade, transtornos de ajustamento, insónia, stress, transtorno da alimentação e anorexia nervosa. Além das repercussões negativas sobre a saúde implicando adoecimento psíquico, aspectos associados à saúde mental crescem em relevância quando avaliadas as suas repercussões em outras esferas da vida (Goldberg & Huxley, 1992; Araújo, Pinho & Almeida, 2005).
Alguns estudos têm sistematicamente demonstrado que a saúde mental é crucial para o bem-estar geral dos indivíduos, sociedades e países. Os transtornos mentais representam algo à volta de 13% da sobrecarga de doenças no mundo. Apesar dessas constatações, a lacuna entre oferta e demanda de assistência em saúde mental é robusta, com estimativas de até 70% para transtornos de humor e 90% para transtornos por uso de álcool em países desenvolvidos. Os dados para países em desenvolvimento são escassos. Um dos principais factores para essa lacuna é o subdiagnóstico de transtornos mentais. De 25% a 50% dos pacientes que procuram assistência médica em centros de
atendimento primário têm pelo menos um transtorno psiquiátrico ou neurológico. Destes, a não detecção dos casos pode ser de 55% para diagnóstico de depressão e até 77% para transtorno de ansiedade generalizada. Entre as estratégias para modificação desse contexto está a utilização de instrumentos de rastreamento psiquiátrico, que preferencialmente devem ser de fácil aplicação e baixo custo (Gonçalves, Stein & Kapczinski, 2008).
Observa-se que em rastreamentos psiquiátricos, o diagnóstico dos distúrbios não psicóticos enfrenta questões conceptuais e metodológicas – especialmente as que se referem à distinção entre depressão e ansiedade, por exemplo. Aliados à depressão e à ansiedade subsistem sintomas como a insónia, a fadiga, a irritabilidade, o esquecimento, a dificuldade de concentração e as queixas somáticas, definidos por Goldberg e Huxley (1992) como transtornos mentais comuns (TMC).
Alguns estudos têm utilizado categorias diagnósticas mais amplas, designando-as por “Morbilidade Psiquiátrica Menor- MPM”, (Mari, 1987), “Transtornos Mentais Comuns – TMC”, (Goldberg & Huxley, 1992; Coutinho, 1995; Fagundes & Ludermir, 2005; Ludermir, 2005; Costa & Ludermir, 2005) e “Problemas Psiquiátricos Menores – PPM”, (Benvegnú, Deitos & Copette, 1996).
Segundo Coutinho et al (1999), essas terminologias referem-se a sintomas ansiosos, depressivos e somatoformes, com elevada prevalência na população geral adulta e diagnosticada em pelo menos um terço dos pacientes em atendimento em serviços primários de saúde.
Esta multiplicidade de perspectivas e propostas de abordagens, e mesmo os conflitos entre elas, são características da área da saúde mental. Isso é reflexo da riqueza do seu objecto de trabalho (a mente humana) e da intensidade de suas demandas.
Utilizaremos neste estudo a nomenclatura transtornos mentais comuns (TMC), expressão criada por Goldberg e Huxley (1992), para caracterizar sintomas como a
insónia, a fadiga, a irritabilidade, o esquecimento, a dificuldade de concentração e as queixas somáticas, que designam situações de sofrimento mental.
Estes transtornos contribuem ainda para um terço dos dias perdidos por doença no trabalho e um quinto de todas as consultas de atenção primária. Pacientes com transtornos mentais menores apresentam também taxas de mortalidade mais elevadas e prejuízos importantes nas funções social e física. Estes transtornos surgem em situações intensas de stress provocados por eventos que ocorrem regularmente em populações que vivem situações comuns, muitas delas associadas a ritos de passagem como o casamento, o divórcio, o início de um novo emprego, a perda do emprego, o adoecimento e as migrações. Desse modo, a mudança por si só seria produtora de estresse (Bhugra, 1993; Coutinho, 1995).
Ludermir e Melo Filho, (2002), entende por Transtornos Mentais Comuns (TMC) a presença de sintomas como a irritabilidade, a fadiga, a insónia, a dificuldade de concentração, esquecimento, a ansiedade e as queixas somáticas, que revelaram em seus estudos de base populacional, uma prevalência entre 7% a 30%.
No Estado do Rio Grande do Sul, na cidade de Pelotas, em 1994, foi realizado um estudo transversal de base populacional para avaliar a prevalência do consumo de psicofármacos, num período de duas semanas. As variáveis demográficas foram: a situação conjugal, o género, a idade e a raça. Como resultado, pôde-se observar que a ocorrência de Transtornos Psiquiátricos Menores – TPM, é cerca de 50% maior em mulheres e aumenta com a idade. Em relação ao estado civil, os solteiros apresentaram menor prevalência que as demais categorias de estado conjugal, e as pessoas viúvas foram aquelas que mais apresentaram TPM. Para a variável escolaridade e a renda, observou-se uma tendência linear altamente significativa, onde, quanto menor a escolaridade e a renda familiar per capita, maior a prevalência de TPM (Lima, et. al., 1995).
Também na cidade de Pelotas (RS-Brasil), Costa et al. (2002) realizaram, em outro momento, um estudo transversal de base populacional, objectivando determinar a
prevalência de Distúrbios Psiquiátricos Menores – DPM e a sua associação com factores de risco. A amostra foi de 1.967 pessoas, com idade entre 20 e 69 anos, em domicílio, utilizando o Questionário pré-codificado, contendo o Self-Report Questionnaire – SRQ-20, informações socioeconómicas e demográficas, presença de doenças crónicas, uso do serviço de saúde, consumo de álcool, hábito de tabagismo e colecta de medidas antropométricas. Como resultados obtidos, houve a prevalência de 28,5%, com predominância das pessoas inseridas nas classes sociais mais baixas, de menor renda, acima de 40 anos e do sexo feminino.
Em estudos conduzidos em comunidades, Lopes et all (2003) referem que as mulheres têm apresentado consideravelmente mais sintomas de angústia psicológica e desordens depressivas do que os homens.
Ludermir e Melo Filho (2002) destacam que a epidemiologia psiquiátrica tem verificado haver associação entre TMC e variáveis relativas às condições de vida e à estrutura ocupacional. Referem que a redução do poder de decisão e a incapacidade de influenciar o meio, decorrentes do desemprego e da informalidade que impedem o acesso a melhores condições de vida, podem ser danosas à saúde mental.
Em outra pesquisa de base populacional, um estudo transversal, realizado com pessoas entre 16 a 59 anos, residentes em Campinas-SP, foram analisadas variáveis socioeconómicas e a presença de TMC. Os resultados obtidos, através de entrevistas domiciliares, tendo como prevalência de TMC 20,6% e, quando associados à renda familiar per capta menor de 1 salário mínimo, foi de 29,3% e quando a renda familiar per capta é superior a 4 salários mínimos, foi de 13,8%. Quando levada em consideração a escolaridade, a prevalência decresceu com o aumento da escolaridade, sendo menor em jovens (Giulianelli, et. al., 2004).
Rabasquinho e Pereira (2007), desenvolveram um estudo epidemiológico em relação ao género e à saúde mental, e relatam diferenças significativas com percentagens consideravelmente mais altas para as mulheres, para todas as categorias diagnosticadas,
à excepção do álcool e abuso de drogas/dependência, comportamento anti-sociais, e esquizofrenias.
Nos últimos anos, vem crescendo o número de estudos que incluíram a avaliação de aspectos relacionados ao trabalho profissional, decorrente da inserção no mercado de trabalho, e o fenómeno da migração como factor associado, determinante ou contribuinte para a ocorrência de TMC observada (Ludermir & Melo Filho, 2002; Ludermir, 2005; Araújo, Pinho & Almeida, 2005; Coutinho, 1995).
Porém, na bibliografia pesquisada não encontrámos trabalhos que avaliassem os TMC entre brasileiros ou portugueses migrantes internacionais.