5. O TRABALHO CLÍNICO E INSTITUCIONAL – ESPAÇOS DE SOMA
5.3. TRATANDO DE QUEM TRATA 20 : A SAÚDE DOS “PSIS”
Quando realizei a visita institucional para conhecer o serviço ambulatorial na FAMERP, lá ouvi algo que me chamou a atenção, mas sobre o que não pensei naquele momento. Na ocasião, o coordenador dizia aos residentes algumas palavras que tentarei recuperar aqui, tanto quanto me for possível e concorrendo o risco de alguma infidelidade. “O trabalho de um psicólogo, psiquiatra, psicanalista e de um médico, é de alta insalubridade, oferece muitos riscos e pouca proteção, pois usamos a nossa subjetividade como instrumento e, para isso, não há muito como se proteger. O tempo todo estamos nos contagiando”. Se não eram literalmente as palavras, a essência e o sentido apontavam nesta direção. Partindo da premissa de que a afirmação seja verdadeira, fui inundada por ela em um momento determinado da escrita. É complexo organizar em palavras a experiência que, apenas muito tempo depois e com a união de diversos elementos, ganha contorno. Como um insight. Sou invadida por lembranças e associações. Enfim, quer sustentar proposições sobre o tratamento e as contribuições que a psicanálise pode oferecer aos pacientes nos quais os conflitos psíquicos são expressos no corpo sob a forma de sintomas. Reconhece-se assim que não é possível
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O título deste item, retoma um artigo publicado por Moretto et al (2013), “Cuidando de quem cuida”: Assistência Psicológica ao Trabalhador da Saúde, onde os autores discutiram o sofrimento psíquico dos profissionais e a atenção necessária à saúde mental dos que atendem na instituição hospitalar. Cabe assinalar que, há ainda, o trabalho de Benevides-Pereira & Alves (2003) intitulado, Quem cuida também merece cuidados: conhecendo e prevenindo o burnout, que se ocupa de questões similares, relativas ao estresse laboral que leva a esta modalidade de sofrimento.
ignorar a saúde mental dos profissionais que assistem a esta população. Diante disso, recordo um pouco mais o percurso no SOMA.
Nos nove anos de trabalho no ambulatório muitas turmas passaram por lá, sobretudo porque durante um período os alunos permaneciam apenas por seis meses. Aumentar o tempo do estágio para um ano foi algo pelo qual lutamos e argumentamos com a coordenação do programa de residência. De todo modo, como era de se esperar, pessoas muito diferentes estagiaram, algumas mais interessadas que outras, alunos com mais afinidades ou não com a psicanálise, enfim, foram experiências variadas. Mas, por diversos anos, e até hoje inclusive, é possível ouvir exemplos que ilustram o quanto o trabalho junto a esses pacientes é difícil e exige muito, mesmo entre os mais interessados. As formas e as tentativas de elaboração também variaram: houve os que logo após o dia de ambulatório iam direto para a análise, os que na sequência atendiam pacientes com outros quadros clínicos e funcionamento psíquico e ainda outras que iam direto se encontrar com amigos para dar risada. Mesmo entre os colegas mais experientes era possível ouvir o quanto saiam exaustos, “mas uma exaustão diferente de ter atendido vários pacientes o dia todo”. Um esforço de interagir com a equipe, dar supervisão, transpor em palavras comuns a experiência vivida entre os dois campos de conhecimento, ouvir a entrevista do caso novo etc.
É inegável como algo invade a subjetividade destes profissionais e os recursos disponíveis para descrever a experiência não parecem suficientes. Cabe assinalar que não foi apenas uma vez que tivemos alunos desistindo o estágio. Deve-se acrescentar que nem sempre a decisão estava relacionada ao SOMA. Sabe-se que a carga horária, o volume de trabalho, as exigências impostas, as expectativas, dentre outras variáveis, contribuem para o abandono. Também se tem conhecimento de que em alguns casos a escolha de sair da residência dizia respeito ao serviço e às experiências consideradas por eles como “pesadas”. Nos últimos meses, talvez já pela imersão na escrita da tese ou por maior proximidade com a turma, admite-se que alguns alunos, ao exporem o caso e suas angústias, deixam nítida a necessidade de um espaço adicional para compartilhar a experiência e as implicações existentes a partir dos atendimentos. Entre alguns membros da equipe tem-se conversado sobre a maneira mais adequada para indicar aos alunos, quando necessário, uma análise ou uma psicoterapia, de acordo com o interesse de cada um. Para além das situações dos residentes, é preciso sublinhar um fato ocorrido há alguns anos no ambulatório e que, mesmo que não totalmente esquecido, pouco foi objeto de reflexão. Parece bastante pertinente retomá-lo nesse momento em que se
escreve acerca da saúde dos profissionais e a respeito do trabalho no SOMA. Convém assinalar que, no artigo de Moretto et al. (2013), os autores ao entrevistarem profissionais da instituição hospitalar descobriram que o sofrimento decorria dos relacionamentos estabelecidos com pacientes, colegas de trabalho, chefes ou gestores.
Em 2011, quando eu já integrava a equipe e ainda realizava formação em Psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae, havia uma colega que partilhava do mesmo percurso. Ingressara há pouco no ambulatório por intermédio de uma das psiquiatras. Sua permanência não foi duradoura e, na realidade, meu vínculo com ela não foi muito estreito, embora tenhamos feito supervisão juntas dos casos atendidos e conversado algumas vezes. No Sedes, ela teria suspendido algumas vezes o curso e quando retomou a formação, na época de seu falecimento, realizávamos um seminário juntas. Chamava a atenção, pois diferentemente de outras três colegas psicólogas, ela optara por atender cinco casos ao mesmo tempo, número superior ao que fazíamos. Eram casos graves e complexos e ela ficava bastante mobilizada, ainda que não demonstrasse nenhuma intenção de interromper, encerrar ou encaminhar algum dos atendimentos. Na ocasião, o envolvimento era tamanho que ela relatava conversar com os pacientes nos finais de semana, em ligações de longa duração. Nas supervisões feitas em grupo, o esforço era auxiliá-la nos casos e tentar discriminar o que dizia respeito às angústias dos pacientes e às dela, mas era nítido um excesso ali presente e uma dificuldade em lidar com os casos. Ainda assim, pouco se pensou a respeito, ela estava em análise e não se considerava que o espaço proporcionava abertura suficiente para que muitas outras coisas pudessem ser conversadas. Além disso, tinha-se conhecimento de que ela passava por um momento delicado, uma separação litigiosa que vinha se estendendo há muito tempo. Naquele ano a equipe era bem menor que hoje, contando com duas psiquiatras, quatro psicólogas/analistas, um neurologista e dez residentes. Em uma quinta-feira chegou a notícia de falecimento da colega: no dia anterior ela havia se suicidado, saltando da janela de seu consultório. Era uma quarta-feira e ela fora ao hospital, atendera todos os pacientes agendados e deixou uma carta em seu consultório antes de cometer o suicídio. Soube-se depois que já existiam tentativas prévias. O fato foi algo que mobilizou bastante os integrantes da equipe mas, ao mesmo tempo, pouco se conversou a respeito21. Cobranças sobre o que poderia ter sido feito e não foi, ponderações sobre ter
21 Tal observação se faz necessária, principalmente pela teoria a respeito do trauma e de suas implicações para o psiquismo. Acredita-se que, em sendo uma relação, a subjetividade dos profissionais aqui também está em ação e a exclusão de um evento importante ou a tentativa de não se faz referência ao fato, não é entendida como simples
se observado uma atitude um tanto inadequada nos atendimentos, integravam os diálogos posteriores. Restou uma sensação de culpa, impotência e falha por parte da equipe. Na semana seguinte algumas decisões tiveram que ser tomadas, inclusive no sentido de comunicar aos pacientes de sua morte. Optou-se por uma explicação breve e parcialmente verdadeira, ao meu ver, hoje questionável. Foi dito a eles que “ela tivera uma morte inesperada e repentina”. As reações foram diversificadas, desde pacientes que os abandonaram o tratamento por um tempo, mesmo que os tivéssemos procurado e telefonado para conversar, quem solicitou um outro profissional para elaborar aquele momento e seguir em terapia, quem se negou a acreditar e riu compulsivamente e, ainda, um paciente que disse: “bem que ela falou que o que foi dito aqui ficaria apenas entre nós”.
Hoje, creio que o trabalho de elaboração seria conduzido de outra forma, com maior possibilidade de pensar sobre a perda, talvez de falar mais a respeito do ocorrido, pois, de algum modo, isso envolve segredos e discursos velados e traumáticos, como a própria literatura psicanalítica aponta. Considera-se talvez pudesse ter sido mais detido o diálogo com os pacientes a respeito da perda e do luto e enfatiza-se também que a comunicação, sobretudo, quando se refere a temáticas tão delicadas quanto esta, poderia ser mais valorizada. Mas, mesmo entre os profissionais pouco se discutiu. De tempos em tempos o assunto retorna, muito rapidamente, inclusive porque a maioria dos membros da equipe não está mais presente, restam apenas três pessoas daquela época. O que ainda se mantém é uma aula acerca de suicídio para os residentes, que apesar da utilidade e importância do tema, como os alunos mesmos reconhecem, parece ainda, ser muito uma tentativa de assimilação e elaboração do evento para os que pertenciam à equipe.
Restam ainda questões que, no meu entendimento merecem ser pensadas, tais como: o que fazer pelos profissionais que atendem? Em que medida eles devem ser encaminhados também a tratamento psicológico? Será que é possível prevenir sofrimentos de tal natureza? Como cuidar de quem está a todo o momento em contato com casos tão complexos na instituição? O que fazer pelos residentes? Deve-se insistir com eles na necessidade de uma análise? Estas e outras indagações servem de estímulos para o que se pretende desenvolver aqui a respeito do tema do sofrimento e dos cuidados. No anseio de dar conta parcialmente destas e outras questões advindas do
coincidência ou mero detalhe. Pode-se dizer que se inscreve na ordem do traumático, do irrepresentável, de algo que, ainda que recusado, produz efeito no espaço e nas relações em que se encontra inserido.
estágio no serviço, criou-se em 2018, por recomendação da coordenadora, o trabalho de mentoria. Trata-se de uma ferramenta de desenvolvimento profissional que conta com o auxílio de alguém no serviço com maior tempo de experiência. Consiste então, conforme descrito por Bruna Bartorelli, na carta de apresentação aos residentes, num espaço adicional de conversas e debates que podem ou não se relacionar aos atendimentos. De todo modo, a ideia é proporcionar suporte ao longo do estágio dos residentes no SOMA que pode render experiências e trocas frutíferas, bem como um amparo psíquico para dar conta, ainda que parcialmente, das injunções presentes na relação profissional.
É mais importante saber que tipo de pessoa tem uma doença do que saber que tipo de doença a pessoa tem. (Markle et al., citando Hipócrates, 2015, p.217)
Tão importante quanto conhecer a doença que o homem tem, é conhecer o homem que tem a doença. (Lopes & Lichtenstein citando Osler, p.187, 2007).
6. A PSICANÁLISE E OS MODOS DE NOMEAR E NARRAR OS SOFRIMENTOS: AS