Afirmar que o vestido fora feito para ser usado em ocasião especial ou especí- fica no Brasil, bem, isto não é possível fazer. Fato é que em algum momento posterior a meados da década de 1920 ele cruzou o oceano até encontrar São Paulo.92 A viagem deve ter sido feita de navio e a travessia deve ter durado
cerca de vinte dias,93 dos quais pouca luz deve ter atingido o vestido, posto que
roupas viajavam em valises fechadas que serviam, por vezes, de guarda-roupa transitório para seus conteúdos.
Mas a luz não é o único agente que interfere sobre a relativa estabilidade das roupas. O clima – a umidade e a temperatura – são igualmente irascíveis. Materiais sensíveis como seda tendem a sofrer muito com a impetuosidade do clima tropical e não seria diferente para tecidos de seda franceses de um vestido que chega ao Brasil. É muito curioso observar alguns resultados des- sas ações climáticas sobre os tecidos e as roupas. Anúncios feitos na Revista
Feminina ao longo da década de 1920 dão conta do lançamento de produtos
desenvolvidos especialmente para dar cabo da transpiração nas axilas. Com o mote “Moça chic usa Magic”, o Laboratório Malhado de São Paulo anunciou em 1925 (Figura 51):
O MAGIC é um preparado líquido que suprime a transpiração das axillas, pés, mãos, etc. evitando as manchas dos vestidos e o uso dos horríveis suadores de borracha, fazendo desaparecer até o mais pequeno odor que, as vezes, com o excessivo calor, póde dar a transpiração. MAGIC é o único garantido, inoffensivo à saúde, pelos Drs. Miguel Couto, Austregésilo, Aloysio de Castro e Werne- ck Machado. Será possível ter maior garantia que os nomes destes médicos? Assim pois não há nenhum receio em usal-o. Experimen- te hoje mesmo. Deixe secar senão não faz effeito. [...] Vende-se nas pharmacias e perfumarias do Brasil.94
92 Carmem da Silveira Bettenfeld viveu em São
Paulo, cidade onde moravam seus pais. Sua residência, na Rua São Luís, foi desapropriada durante o governo de Prestes Maia, para dar lugar ao Edifício Itália. Depois disso, Carmem vai morar na França com o marido, que era francês. Parte da casa (escadaria, mobiliário, material de construção) foi levada para a casa de sua filha, Carmencita da Silveira Bettenfeld Jullien, no Morumbi, casa que a Profa. Maria José conheceu. Dados colhidos em conversa com a Profa. Maria José Elias, ex-funcionária do Museu Paulista e amiga pessoal de D. Carmencita, em 10 de março de 2008.
93 Já existia a aviação comercial, mas era muito
recente e a viagem de navio ainda era a mais comum. No final da década de 1920 são criadas no Rio Grande do Sul a Sindicato Condor, de origem alemã, e a Varig. Os primeiros vôos comerciais levavam basicamente cargas e as malas postais (correio) e ligavam o Brasil ao Hemisfério Norte. “Viajar de avião, ou melhor, de hidroavião, era sinônimo de aventura e poucos ainda se arriscavam. Para se ter uma idéia, a Varig fechou o ano de 1927 tendo transportado 652 passageiros, em 85 viagens e 210 horas de vôo”. Disponível em: http://www.abav. com.br/historia_turismo.asp (Associação Brasileira de Agências de Viagem) Acesso em: 15 fev. 2008.
94 Anúncio “Moça
Chique usa Magic”. Revista Feminina, n. 133, ano 12, jun. 1925, s.p. O mesmo anúncio sob o título “O que é Magic?” fora publicado na mesma revista, n. 101, ano 9, out. 1922, s.n.p. Acervo: AESP. FIGURA 51. — Anúncio “Magic”. Revista Feminina, n. 133, ano 12, junho de 1925, s.n.p. Acervo do Arquivo do Estado de São Paulo.
A transpiração pelas axilas aparenta ter sido – como ainda é – um desafio à elegância feminina. Isso porque o suor deixa suas marcas nas roupas, espe- cialmente o suor excessivo produzido pelo calor abundante de um país tro- pical. Em roupas feitas com manga longa, havia ainda alguma alternativa de preservar a área das axilas do contato com o tecido. Um anúncio do Mappin Stores de 1920 apresenta uma rodela feita em algodão para ser usada debaixo dos braços, presa pelo auxílio de suspensórios atados aos ombros, uma peça masculina.95 Uma engenhoca elaborada na tentativa de minimizar os danos
do corpo à elegância da aparência. De qualquer maneira, ela não serviria para ser usada com roupas cavadas, como é o caso do vestido Boué Soeurs, ao me- nos não sem deixar à vista parte dos subterfúgios necessários à empreitada. As marcas de corrosão nas cavas do vestido não deixam dúvida do poder de ação dos líquidos corpóreos sobre tecidos de seda (Figura 52 A e B). O estado atual do tecido não é resultado de uma ação isolada e imediata. O tempo e a passagem dele, as condições de armazenagem e o clima agiram sobre esse tecido por cerca de oitenta anos, acentuando e alterando seu aspecto e seu estado físico. São marcas de suor, marcas de uso. É improvável que o vestido tenha sido lavado muitas vezes, ou os fios metálicos teriam oxidado bem mais do que aparentam.96 É igualmente improvável, no entanto, que ele te-
nha sido vestido apenas uma vez. Vestidos especiais eram usados por vezes em ocasiões de natureza variada e em épocas distantes entre si.
95 Notas pessoais coletadas pela leitura
dos anúncios do Mappin Stores em 1998 (não referenciado), no Arquivo Histórico do Mappin, quando este ainda pertencia à empresa e funcionava à Rua Xavier de Toledo, no centro de São Paulo. Faço um agradecimento especial a Iracy, então conservadora responsável pelo acervo, extremamente receptiva e gentil com os pesquisadores.
96 Roupas de tecidos lisos devem ter sido mais lavadas que as bordadas. Em suas
memórias de São Paulo de 1895 a 1915, Jorge Americano escreveu: “uma vez por semana a dona de casa escolhia um dia de sol para mandar escovar as roupas de casemira, esvaziar gavetas, e pôr o linho ao sol para evitar môfo” (p. 64). A manutenção das roupas (lavar, passar e engomar) assim como as pequenas costuras eram desempenhadas por funcionárias diaristas ou contratadas em período integral, sendo o controle das tarefas de responsabilidade da dona da casa ou de uma governanta. Dos serviços ligados às roupas, a lavagem era o mais dependente de um serviço de água que até o início do século XX em São Paulo ainda não era encanada (MATOS, 2002: 132-139).
FIGURA 52 AEB.
— Figura 52 A e B. Vestido Boué Soeurs RG7091. Fotografia: Hélio Nobre. Acervo: Museu Paulista da USP. Cavas do vestido onde o tecido está desgastado e rompido pela ação do vários agentes como tempo, umidade, costuras, suor, peso.
FIGURA 53 A
— Retrato de Tarsila do Amaral na Galerie Percier, em sua primeira exposição individual em Paris (1926). Fonte: Amaral, 2003: 236. Aqui ela usa um vestido xadrez possivelmente confeccionado por Paul Poiret; modelos semelhantes foram confeccionados por outras maisons (ANDRADE, 2000). Tarsila usou o mesmo vestido em outras ocasiões durante uma década.
97 A couture francesa desenvolveu uma série de modelos de vestidos
confeccionados em tecido de seda xadrez entre o verão do biênio 1924 e 1925. É provável que o vestido de Tarsila fosse da maison Poiret, mas outras casas como a Louiseboulanger lançaram modelos muito semelhantes à época (Andrade, 2000).
Tarsila do Amaral, por exem- plo, vestiu-se com um modelo feito em tecido xadrez (prova- velmente de seda) ao menos em três situações distintas em que foi fotografada – em 1926 na Galerie Percier, em Paris, por ocasião de sua 1ª exposição individual na cidade; em 1933, na Conferência sobre ‘a arte em cartaz na União Soviética’que proferiu ao Clube dos Artistas Modernos em São Paulo; e em 1936, no seu retrato de títu- lo de eleitor (Figuras 53 A-C) (AMARAL, 2003).97
FIGURA 53 B.
— Figura 53 Tarsila em São Paulo, 1933, numa conferência no Clube de Artistas Modernos. Fonte: Amaral, 2003: 370.
FIGURA 53 C.
— Retrato de Tarsila em seu título de eleitor de 1936. Fonte: Amaral, 2003: 384.
Reutilizar criações específicas de coleções de couture era uma prática relativamen- te comum até a década de 1930,98 quan-
do a formação de coleções de indumentária em museus históricos e de arte na Europa e Estados Unidos começavam a incentivar a doação de roupas com etiqueta dos gran- des couturiers franceses (TAYLOR: 2004). A reutilização poderia acontecer com o uso do mesmo vestido, talvez feitas pequenas alte- rações de acabamento, descosturas, botões, ou pelo rearranjo das partes que constituíam o vestido original. Isso se dava especialmen- te porque os materiais usados pela couture eram caros, especiais e distintos, se compa- rados aos tecidos e outras matérias-primas produzidas em grandes quantidades.
No caso do vestido de Carmem, não sabere- mos quantas vezes ele fora vestido. É possí- vel que tenha sido usado mais de uma vez e que deve ter sido inferido de um certo valor sentimental que impediu o rearranjo de suas partes, como de certo aconteceria com um outro vestido, hoje preservado em partes se- paradas no Museu Paulista (Figuras 54A-B). A coleta de roupas que sofreram algum tipo de alteração em sua constituição original (e, às vezes, alterações sobre alterações) hoje é reconhecida por curadores como um modo revelador da história e cultura da sociedade (TAYLOR, 2002: 15-18).
Em algum momento depois de sua confecção original, a barra da última camada de saias deve ter rasgado e precisou ser alterada pela costura de uma renda de algodão que inter- rompeu o processo de desfiar do tecido.
98 Assim se forma, por exemplo, em 1937 o Costume
Institute, ligado ao Metropolitan Museum of Art de Nova York. O Costume Institute possui um acervo de mais de 70.000 objetos entre roupas e acessórios. Nasceu como The Museum of Costume Art, através das doações de Irene Lewisohn e sua irmã Alice Lewisohn Crowley, além de outras doações como as dos figurinistas de teatro Aline Bernstein e Lee Simonson. Disponível em: www.costumeinstitute.org. Acesso em: 4 mar. 2008.
Em 1948, a Union Française des Arts du Costume é fundada por profissionais do setor sob a liderança de François Boucher com o objetivo de criar um museu de indumentária e graças à curadora envolvida no projeto, Yvonne Deslandres, o acervo cresce rapidamente, tornando-se um dos mais importantes do
mundo em sua érea específica. No início da década de 1980, essa coleção é transferida para o Musée des Arts Décoratifs no Louvre, para a criação de um grande museu de moda, o Musée de la Mode et du Textile. Atualmente o museu possui cerca de 19.000 roupas, 36.000 acessórios de moda e 31.000 peças de tecido do século XVII a nossos dias. A coleção de roupas e tecidos no Victoria and Albert de Londres foi formada paulatinamente desde a abertura do museu em 1852. Ela é constituída por peças de moda que vão do século XVII até o presente, com ênfase nos designs mais influentes dos centros de moda europeus. Informação disponível em: http://www.vam. ac.uk/collections/fashion/index.html. Acesso em: 4 mar. 2008; http://www.lesartsdecoratifs.fr/fr/02museemode/01presentation/ page01.html . Acesso em: 4 mar. 2008.
FIGURAS 54AEB.
— Partes de um Vestido RG 7722 da coleção de Carmencita da Silveira Bettenfeld Jullien. Imagens do banco de dados do Setor de Objetos. Acervo: Museu Paulista da USP. Não sabemos se o vestido fora desfeito ou se estava em processo de confecção. De qualquer maneira, estudar objetos assim ajuda a entender técnicas de modelagem, decoração e costura. Ver detalhes sobre dimensões e materiais no Anexo A.