Ainda não é consenso na literatura qual seria a rotina de treinamento mais indicada para hipertensos. Duas linhas de pesquisa se destacam neste aspecto. A primeira sugere o uso de cargas leves/moderadas (40 à 60% carga máxima dinâmica – CMD) e números elevados de repetições (10 à 25) (AHA, 2000; ACSM, 2000; POLLOCK e cols., 2000; NEGRÃO e BARRETO, 2005). Essa sugestão parte do princípio que a PA seria mais dependente da intensidade do peso (quilos movimentados). Portanto, especulava-se que o peso leve, não influenciaria na intensidade do treino, prevenindo assim, picos de pressão durante a sessão.
Numa segunda linha, outros autores perceberam que a carga relativa (intensidade do treino) parecia ser mais significativa para o aumento da PA do que a carga absoluta (intensidade do peso) (McCARTNEY, 1999; POLLOCK e cols., 2000; FARINATTI e ASSIS, 2000;
McCARTNEY, 1998). Logo, começou-se a dar mais valor à carga relativa e com isso estudos recentes passaram a sugerir cargas mais elevadas e um número menor de repetições durante as sessões de treino. O volume de treino é muitas vezes denominado com imprecisão levando-se em consideração somente a duração da sessão (De La Rosa, 2006). Entretanto, o volume do treinamento de força compreende o número total de séries e repetições por sessão ou por
6 semana, como também o número de exercícios realizados (ACSM, 2002; KRAEMER e RATAMESS, 2004). Segundo De La Rosa (2006) a intensidade do treinamento de força pode ser definida por quilogrametro (1Kg levantado a 1 metro contra a resistência da gravidade), juntamente com o volume e a densidade, resultando em um dos componentes mais importantes do treinamento. Sendo assim, inicialmente uma das formas de se aumentar a sobrecarga (intensidade) de uma sessão de treinamento de força é com o aumento do volume de treino (KRAEMER e RATAMESS, 2004). Vale ressaltar que a intensidade ainda pode ser classificada em absoluta (porcentagem de 1RM ou intensidade do peso) e relativa, que é o produto da intensidade absoluta pelo volume total da sessão ou microciclo (De La Rosa, 2006). Além disso, também não se pode descartar a influência do tipo de exercício (uniarticular vs. multiarticular) na intensidade do treino, haja visto, que exercícios multiarticulares são considerado mais efetivos para o aumento da sobrecarga muscular devido ao fato de ser mais adequado para a realização de movimentos com maior carga (peso – kg) (BIRD e cols. 2005; ACSM, 2002 e 2009)
De fato, segundo BIRD e cols (2005) e HASS e cols (2001) existem muitas variáveis que interferem diretamente na intensidade da sessão de treino dentre elas: número de séries e repetições, intervalo entre as séries, tamanho dos grupos musculares utilizados e tipo de exercícios, e por conseqüência podem exercer papel marcante na hemodinâmica da PA.
Assim, estudos foram publicados com intuito analisar a magnitude destas interferências. No estudo realizado por FARINATTI e ASSIS (2000) foi observada maior cardiovascular em exercícios com números maiores de repetições (carga baixa), quando comparados com menos repetições (carga alta), corroborando assim, com as relações entre intensidade do peso e intensidade do treino.
Vale destacar ainda o estudo realizado por GORDON e cols. (1995) que não observaram nenhuma intercorrência cardiovascular após aplicação do teste de carga máxima
7 dinâmica (1RM) nos exercícios supino, leg press e extensão de joelhos em 6653 indivíduos entre 20 e 69 anos, normotensos e hipertensos nível grau I. No entanto, vale ressaltar que o ER com cargas elevadas aumenta a participação do componente isométrico durante o trabalho muscular, o que contribui para a realização da manobra de Valsava. A manobra de Valsava é caracterizada pela expiração forçada contra uma glote fechada e seta condição habitualmente é percebida durante o ER com cargas elevada, como também no exercício isométrico (MAcARDLE e cols., 1998; NEGRÃO e BARRETO, 2010). Nesta condição, o retorno venoso é reduzido e a PA sobe bruscamente, podendo proporcionar vertigens e até mesmo desmaios (MAcARDLE, 1998). É por esta razão que hipertensos deveriam abster-se de realizar a contração muscular voluntária máxima além de exercícios com alta participação do componente isométrico.
Além disso, a PA aumenta também devido à duração do exercício (número de repetições), atingindo seu pico durante as últimas repetições e próximo a falha concêntrica. É nessas condições que geralmente se observa o aumento do componente isométrico e a realização da manobra de Valsalva (McDOUGALL e cols., 1985; LAMOTTE NISET e BORNE, 2005; NERY e cols., 2010). Estas situações são contra-indicadas nos programas destinados a hipertensos (FLECK e DEAN, 1987), pois nestas condições, podendo levar ao rompimento de aneurismas (McCARTENEY, 1999).
O intervalo entre as séries também pode alterar a dinâmica da PA durante a realização do ER. Este tempo varia muito entre os estudos, mesmo a PA baixando rapidamente após o exercício e atingindo seus valores de repouso em aproximadamente em dez segundos (McDOUGALL e cols., 1985), essa pode sofrer um efeito acumulativo caso o intervalo entre as séries não seja suficiente para proporcionar uma recuperação efetiva (LAMOTTE, NISET e BORNE, 2005). No estudo realizado por LAMOTTE e cols. (2005), com voluntários em processo de reabilitação cardíaca e hipertensos, no qual foi respeitado um intervalo de um
8 minuto entre as séries e no estudo de POLITO e cols. (2004), que investigaram normotensos frente ao ER com um intervalo de dois minutos entre as séries, o aumento gradual da PA foi obsevado com o passar das séries. Dessa forma, intervalos mais longos entre as séries seriam recomendados para os hipertensos (POLITO e FARINATTI, 2003; ACSM, 2000). Intervalos mais longos favorecem uma recuperação física mais efetiva, evitando assim, o acúmulo de fadiga e, consequentemente, aumento da carga relativa com o passar das séries. No entanto, esse assunto é bastante controverso. Segundo KELLY e KELLY (2000) intervalos que variam desde quinze a vinte segundos foram verificados em estudos científicos publicados.
Outro fator que influencia a resposta da PA é a massa muscular envolvida durante o exercício. As alterações da PA para os ER são proporcionais a massa muscular envolvida e ao esforço (WALLACE, 2003). Portanto, os exercícios que deveriam ser escolhidos para pacientes com comprometimentos cardiovasculares devem abranger pequenos grupos musculares, proporcionando assim, menores cargas pressóricas. De acordo com McCARTNEY e cols. (1999) os maiores picos de pressão sistólica (PAS) e diastólica (PAD) (PAS:320 mmHg e PAD:250 mmHg) ocorrem quando exercícios envolvendo grandes massas musculares (leg press) são realizados. De fato, nesse estudo as respostas da PAS e PAD foram significantemente maiores no leg press unilateral quando comparadas com a flexão do cotovelo unilateral, independente da carga (80, 90, 95, e 100% da carga máxima dinâmica). Já POLITO e cols. (2004)não observaram alterações significantes na resposta da PA durante a realização da cadeira extensora unilateral e bilateral. Corroborando com estes achados, D’ASSUNÇÃO e cols. (2007) também não observaram diferença significante na reposta pressórica quando compararam o exercício rosca bíceps e cadeira extensora. Já MONTEIRO e cols. (2008) verificaram respostas cardiovasculares sistematicamente maiores para as execuções unilateral e alternada quando comparada a execução bilateral de extensão de joelhos, principalmente em séries múltiplas. Apesar de ainda controverso na literatura, a
9 relação da resposta da PA com a massa muscular envolvida parece ser mais pronunciada quando grupos musculares diferentes são recrutados (POLITO, ROSA e SCHARDON, 2004;
McARDLE, KATCH e KATCH, 1998).
Ainda vale ressaltar que o método utilizado (direto ou indireto) para a mensuração da PA, como também a população (hipertenso e normotenso ou sedentário e treinado) investigada nos estudos podem ter influenciado os resultados.
1.4 EXERCÍCIO FÍSICO EM INDIVÍDUOS COM HISTORICO FAMILIAR