• Nenhum resultado encontrado

TERRITÓRIO

Mapa 06: Trem Ambiental três percursos oferecidos

Fonte: ANTT, 2016. Base: Google Earth, 2019. Editado pela autora.

144 Para a obtenção da autorização para implantação de uma ferrovia turística no Brasil, a ANTT exige da entidade interessada a apresentação dos documentos abaixo listados:

• Requerimento para a prestação do serviço, com a indicação do trecho, devidamente assinado pelo representante legal da pessoa jurídica interessada; • Proposta técnico operacional contendo: memorial descritivo da operação de transporte ferroviário de passageiros; previsão de demanda e potencial turístico; comprovação de capacidade técnica do pessoal especializado em operação e manutenção de ferrovias; relação do material rodante a ser utilizado, acompanhada de laudo técnico idôneo comprovando o atendimento às normas de segurança necessárias ao transporte de passageiros; e relação detalhada da infra e superestrutura a ser utilizada, compreendendo a relação de estações e pátios;

• Estudos sobre os benefícios econômico-financeiros decorrentes do empreendimento, contendo a repercussão econômica e social nas comunidades e

na região abrangida, bem como no

desenvolvimento turístico e cultural;

• Manifestação formal da concessionária quanto à operação do trem turístico no trecho solicitado; • Comprovação de qualificação jurídica e

qualificação econômico-financeira, necessárias à assunção do serviço, demonstrada pelos seguintes documentos autenticados: ato constitutivo, estatuto ou contrato social em vigor devidamente registrado, em se tratando de sociedade comercial e, no caso de sociedade por ações, documentação referente à eleição de seus administradores; inscrição no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica – CNPJ; documento comprobatório de regularidade fiscal para com a Fazenda Nacional, Estadual ou do Distrito Federal e Municipal da sede requerente, na forma da lei; prova de regularidade junto à

145

Seguridade Social e ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS, demonstrando situação regular no cumprimento dos encargos sociais instituídos por lei, além do balanço patrimonial e demonstrações contábeis do último exercício social, exigíveis na forma da lei.

• Proposta de apólice de seguro de responsabilidade civil e acidentes pessoais.

Esta resolução regulamenta a obrigatoriedade do autorizatário de encaminhar à ANTT um exemplar do Contrato Operacional Específico firmado entre este e a concessionária detentora das operações da linha férrea em questão, o qual deve conter a descrição dos trechos ferroviários envolvidos, o valor acordado entre as partes para a remuneração do uso da infraestrutura ferroviária e das instalações, fluxos estimados e roteiros previstos para a circulação dos trens, composição dos trens, indicações das estações ferroviárias a serem utilizadas, responsabilidade pela operação e manutenção dos equipamentos e instalações, responsabilidade por eventuais acidentes e sanções em caso de interrupção, atraso ou descumprimento contratual, bem

como determina que o transporte de passageiros, não regular e eventual, com finalidade histórico-cultural, poderá se caracterizar pela implantação de museu estático e dinâmico, com o objetivo de contribuir para a preservação do patrimônio histórico e memória das ferrovias.

A análise das determinações da Resolução nº 359 da ANTT mostra uma inconsistência de intenções, visto que nas documentações exigidas para a obter a autorização de implantação de uma ferrovia turística, exige-se apresentar a repercussão econômica e social nas comunidades e regiões abrangidas, e no desenvolvimento turístico e cultural por meio de estudos econômico- financeiros. Porém, na efetivação contratual há apenas o acordo de contrapartida pelo uso da infraestrutura com a empresa concessionária, não demonstrando quaisquer vínculos de efetiva responsabilidade junto aos municípios, visto que a forma de concessão tradicional – Lei nº 8.987/95 que rege as concessões da rede ferroviária brasileira –, não atende adequadamente às necessidades atuais do Estado, evidenciadas pela sobreposição do interesse privado sobre o público no transporte de carga versus passageiros. O mesmo pode ser observado pelo pouco investimento

146

na preservação e manutenção do patrimônio ferroviário, o que evidencia uma visão que considera como cerne das ferrovias turísticas apenas o processo de concessão e contratação sob a perspectiva das contrapartidas almejadas pelas entidades concessionárias, sem dar a devida prioridade ao desenvolvimento socioeconômico dos municípios e regiões envolvidos.

Além da mobilidade e extensão de um roteiro ferroviário e o fato de alcançarem um conjunto expressivo de cidades e regiões, outros fatores relacionados à presença dos roteiros e que sugerem o potencial destes ao desenvolvimento local incluem a oferta de hospedagem e acesso fácil ao destino. A oferta e a qualidade do serviço turístico, junto a disponibilidade de renda do consumidor, impactam o turismo local e regional. Para o sucesso de um roteiro ferroviário, é preciso criar as melhores condições para uma cultura turística de fruição do patrimônio ferroviário. O desenvolvimento de roteiros turísticos vinculados às ferrovias e ao patrimônio histórico, ambiental e cultural correlato podem ser uma forma de fomentar atividades intermunicipais de alcance regional, envolvendo a formulação de políticas públicas e gestão pública.

Desta forma, salienta-se que, apesar da caracterização dos trens turísticos e culturais como um transporte não regular de passageiros com o objetivo de agregar valor aos destinos turísticos, configurando-se como atrativos culturais e produtos turísticos das cidades, estes não reúnem as condições necessárias para transformar determinada localidade em um verdadeiro destino turístico, sequer para exercer o papel articulador e de estímulo ao desenvolvimento.

Nos dias atuais, uma articulação entre poder público e a iniciativa privada se tornou um meio para a garantia de funcionamento das linhas turísticas. As concessões privadas passaram a gerenciar as ferrovias e os trechos em que vem se implementando roteiros turísticos. Por sua própria condição de capital privado, a gestão das concessionárias dificulta a aplicação das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento regional.

Por outro lado, dificuldades de gestão pública da regionalização também se evidenciam. A premência de um planejamento de desenvolvimento integrado se impõe como fundamental para a obtenção dos resultados de regionalização esperados. Ressalta-se que o conflito de interesses é notório na

147

operação das linhas férreas, verificando-se lacunas nos contratos de concessão relativas à preservação dos bens patrimoniais, assim como ainda é possível verificar o privilégio do transporte de cargas frente ao de passageiros, nas viagens de Curitiba a Morretes e de Belo Horizonte a Vitória35, devido ao interesse direto das concessionárias

que visam ao melhor desempenho dos serviços prestados, acarretando o privilégio aos interesses particulares.

Esse privilégio representa um conflito inerente à gestão das concessionárias dos trens de turismo, revelada pelas interrupções dos roteiros turísticos e pelo privilégio concedido à passagem de comboios de carga e evidencia a negligência destas às bases legais regidas pelo Regulamento dos Transportes Ferroviários, aprovado pelo Decreto nº 1.832 de 04 de março de 1996, que define:

[...] as administrações ferroviárias são obrigadas a operar em tráfego mútuo ou, no caso de sua impossibilidade, permitir o direito de passagem a outros operadores (BRASIL, 1996, Cap. I, Art. 6).

35 Estas viagens foram realizadas pela autora onde observou-se que nos dois

percursos ocorreram atrasos devido a algumas paradas do trem para a passagem do comboio de carga. No caso do trajeto de Vitória a Belo Horizonte, a viagem

Os trens de passageiros terão a prioridade de circulação sobre os demais, exceto os de socorro (Op. Cit., Cap. III, Art. 34).

Observa-se que os roteiros turísticos ferroviários se apropriam da representação cultural local como forma de comercialização do espaço urbano. A questão principal desta discussão, no entanto, é a importância de planos ou projetos de implementação do turismo regional, nota-se que há a intenção da inter-relação socioeconômica dos municípios para a criação de uma rede fortificada e autossustentável.

Uma das funções das ferrovias turísticas pode ser a efetiva integração dos municípios, valorizando os seus respectivos atrativos turísticos; assim, a ferrovia articula os municípios, proporcionando novos usos ao patrimônio cultural. Também é notório que, para que as relações entre a vizinhança e as diversas formas de atividades comunitárias se desenvolvam além do nível superficial, é preciso que tenham um significativo denominador comum: interesses ou problemas em comum, ou um eixo transformador em comum.

ultrapassou o tempo estimado em duas horas, totalizando quatorze horas de viagem, devido à redução de velocidade e pequenas paradas para o escoamento do minério de ferro – principal atividade da ferrovia

148

As ferrovias turísticas diferenciam-se pela gama de serviços e forma de comercialização agregados, envolvendo a realização de visitas monitoradas com a distribuição de material promocional e distribuição de folhetos, além da venda de souvenires. Elas dependem de um plano de marketing e canais de comercialização diferenciados que lhes garantam uma inserção no mercado do turismo – produtos turísticos, tais como atrativos naturais e patrimoniais, dentre outros.

Sendo a atividade turística produto da sociedade capitalista industrial, desenvolvida sob motivações diversas, incluindo o consumo de bens culturais, o turismo cultural associado às ferrovias torna-se questionável quando interpretado como uma forma de atividade turística que se apropria de algo que possa ser caracterizado como bem cultural.

As preocupações quanto as correlações do turismo cultural e ambiente aparecem em meados dos anos de 1970 com a Carta sobre o Turismo Cultural36, que traz como princípio:

36ICOMOS, Bruxelas, 8 e 9 de novembro de 1976.

O Turismo, […], é um fenômeno que exercerá uma influência extremamente significativa sobre o ambiente humanizado em geral, e sobre os sítios e monumentos em particular. Para poder ser controlada, esta influência deverá ser cuidadosamente estudada e ser objeto, a todos os níveis, de uma política concertada e efetiva. Sem pretender abordar todos os aspectos desta necessidade, considera-se que o presente documento, limitado ao turismo cultural, constitui um elemento positivo para a necessária situação global.

Na observação dos roteiros turísticos associados às ferrovias evidenciou-se a falta de interação do turista com os locais visitados e de passagem, não permitindo que as pessoas vivenciem por completo as experiências paisagísticas e ambientais. Em vários pontos de interesse e trajetos não é possível descer do trem, o que prejudica a apreciação das paisagens naturais e do próprio patrimônio ferroviário (edificado), que é realizado exclusivamente através das janelas e vidros fechados que impedem de sentir os cheiros, temperaturas e sons, além de impactar na percepção de cores e na incidência de luz.

149

Ressalta-se que a Cartilha de Orientação para Proposição de Projetos de Trens Turísticos e Culturais traz como diretriz a implantação deste produto em uma região turística demarcada pelo PRT e que os municípios envolvidos sejam categorizados, o quadro 15 abaixo demonstra a vulnerabilidade desses planos e programas, principalmente pela mudança das regiões turísticas a cada dois anos – conforme explicado anteriormente, resultando em 17% do total dos municípios que fazem parte de um roteiro turístico ferroviário não estão inseridos nas regiões turísticas e, consequentemente, não são categorizados.

O valor agregado aos elementos arquitetônicos e urbanísticos, enquanto suporte da memória social e sua representatividade regional, é reflexo do intercâmbio econômico e social engendrado pela ferrovia e suas conexões territoriais no final do século XIX e início do século XX (RIGON et. al., 2014), contrapondo-se ao abandono e deterioração do patrimônio, além da estagnação do desenvolvimento local. Grande parte desta problemática refere-se a pouca efetividade das políticas públicas orientadas ao reconhecimento e preservação do patrimônio cultural edificado em nível local.

150

Quadro 15: Relação das Ferrovias Turísticas com o Mapa do Turismo do Brasil 2019 - 2021

Trem Turístico Trecho Estado Municípios

Região Turística - PRT 2019/2021

Viação Férrea Campinas – Jaguariúna Campinas/ Jaguariúna SP Campinas Bem Viver

Jaguariúna Águas e Flores Paulistas

Trem do Imigrante Brás / Moóca SP São Paulo Capital

Trem dos Ingleses Paranapiacaba SP Santo André ABC Tur - Rota da Natureza e da Indústria

Trem de Guararema Guararema / Luiz Carlos SP Guararema Nascentes do Tietê

Trem Moita Bonita Assis/ Paraguaçu Paulista/ Quatá SP

Assis Não pertence a nenhuma região

Paraguaçu Paulista Circuito das Nações

Quatá Não pertence a nenhuma região

Trem Caipira São José do Rio Preto/ Eng. Schmitt SP São José do Rio Preto Não pertence a nenhuma região

Eng. Schmitt Estrada de Ferro Campos do Jordão

Pindamonhangaba/ Campos do Jordão SP

Pindamonhangaba

Mantiqueira Paulista Campos do Jordão

Estação da Luz/ Paranapiacaba Estação da Luz/ Paranapiacaba SP São Paulo Capital

Santo André ABC Tur - Rota da Natureza e da Indústria Rio Grande da Serra/ Paranapiacaba

Rio Grande da Serra/ Paranapiacaba SP

Rio Grande da Serra

ABC Tur - Rota da Natureza e da Indústria Santo André

Estação da Luz/ Jundiaí Estação da Luz/ Jundiaí SP São Paulo Capital

Jundiaí Circuito das Flores

Estação da Luz/ Mogi das Cruzes Estação da Luz/ Mogi das Cruzes SP São Paulo Capital

Mogi das Cruzes Nascentes do Tietê

Estrada de Ferro Perus – Pirapora Cajamar SP Cajamar Não pertence a nenhuma região

Trem das Montanhas Capixabas

Estação de Viana/ Estação de Araguaia ES Viana Metropolitana

Estrada de Ferro do Corcovado Morro do Corcovado RJ Rio de Janeiro Metropolitana

Trem da Estrada Real Paraíba do Sul / Cavaru RJ Paraíba do Sul Vale do Café

SESC de Grussaí Linha exclusiva do SESC de Grussaí RJ São João da Barra Costa Doce

Trem das Águas São Lourenço/ Soledade de Minas MG São Lourenço Águas

Soledade de Minas

Trem da Serra da Mantiqueira Passa-Quatro/ Coronel Fulgêncio MG Passa-Quatro Terras Altas da Mantiqueira São João Del-Rei / Tiradentes São João Del-Rei / Tiradentes MG São João Del-Rei Trilha dos Inconfidentes

Tiradentes

Ouro Preto/ Mariana Ouro Preto/ Mariana MG Ouro Preto Ouro

151

Trem das Cachoeiras Rio Acima MG Rio Acima Ouro

Estrada de Ferro Caminho das Águas Ipatinga MG Ipatinga Mata Atlântica de Minas

Trem do Pantanal Indubrasil/ Corumba MS Campo Grande Caminho dos Ipês

Corumbá Pantanal

Campo Grande/ Corumbá Campo Grande/ Corumbá MS Campo Grande Caminho dos Ipês

Corumbá Pantanal

Trem da Serra do Mar Rio Negrinho/ Rio Natal SC Rio Negrinho Caminho dos Príncipes

São Bento do Sul

Estrada de Ferro Santa Catarina Apiúna SC Apiúna Vale Europeu

Trem Rubi Imbituba/ Tubarão/ Urussanga SC

Imbituba Encantos do Sul

Tubarão Encantos do Sul

Urussanga Não pertence a nenhuma região

Trem União da Vitória Estação Ferroviária União/ Estação Engenheiro Melo

SC / PR

Porto União Caminhos do Contestado União da Vitória Terra dos Pinheirais

Trem das Termas Piratuba/ Marcelino Ramos SC / RS Piratuba Vale dos Imigrantes

Marcelino Ramos Termas e Lagos

Morretes – Antonina Morretes / Antonina PR Morretes Litoral do Paraná

Antonina Trem da Serra do Mar Paranaense Estação Rodoferroviária Curitiba/

Marumbi/ Morretes PR

Curitiba Rotas do Pinhão

Morretes Litoral do Paraná

Ponta Grossa/ Guarapuava/ Cascavel Ponta Grossa/ Guarapuava/ Cascavel PR

Ponta Grossa Campos Gerais Guarupava Terra dos Pinheirais

Cascavel Riquezas do Oeste

Trem da Serra Gaúcha Bento Gonçalves/ Carlos Barbosa RS Bento Gonçalves Uva e Vinho Carlos Barbosa

Rio Pardo/ Cachoeira do Sul Rio Pardo/ Cachoeira do Sul RS Rio Pardo Vale do Rio Pardo

Cachoeira do Sul Central

Montenegro/ Guaporé/ Estrela Montenegro/ Guaporé/ Estrela RS

Montenegro Vale da Felicidade

Guaporé Uva e Vinho

Estrela Vale do Taquari

153

‘Pedro pedreiro penseiro esperando o trem Manhã, parece, carece de esperar também

Para o bem de quem tem bem De quem não tem vintém Pedro pedreiro fica assim pensando Assim pensando o tempo passa E a gente vai ficando para trás Esperando, esperando, esperando Esperando o sol Esperando o trem Esperando o aumento

Desde o ano passado Para o mês que vem Pedro pedreiro penseiro esperando o trem

Manhã, parece, carece de esperar também Para o bem de quem tem bem De quem não tem vintém Pedro pedreiro espera o carnaval E a sorte grande no bilhete pela federal Todo mês Esperando, esperando, esperando Esperando o sol Esperando o trem Esperando o aumento Para o mês que vem Esperando a festa Esperando a sorte E a mulher de Pedro Esperando um filho Pra esperar também Pedro pedreiro penseiro esperando o trem

Manhã, parece, carece de esperar também Para o bem de quem tem bem

De quem não tem vintém

Pedro pedreiro tá esperando a morte Ou esperando o dia de voltar pro norte Pedro não sabe, mas talvez no fundo Espere alguma coisa mais linda que o mundo Maior do que o mar

Mas pra que sonhar

Se dá o desespero de esperar demais Pedro pedreiro quer voltar atrás Quer ser pedreiro pobre e nada mais Sem ficar esperando, esperando, esperando Esperando o sol

Esperando o trem

Esperando o aumento para o mês que vem Esperando um filho para esperar também Esperando a festa

Esperando a sorte Esperando a morte Esperando o norte

Esperando o dia de esperar ninguém Esperando enfim nada mais além Da esperança aflita, bendita, infinita Do apito de um trem

Pedro pedreiro pedreiro esperando Pedro pedreiro pedreiro esperando

Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem

Compositor: FRANCISCO BUARQUE DE HOLLANDA

M

AP

AS

F

ERR

O

VIAS

T

U

RÍS

TICAS

155