PARTE I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO
3. ADMISSÃO DA PESSOA COM EAM NO SU
3.1. TRIAGEM DE MANCHESTER
3. ADMISSÃO DA PESSOA COM EAM NO SU
3.1. TRIAGEM DE MANCHESTER
Os serviços de urgência são confrontados diariamente com um avultado número de pessoas com as mais variadas patologias. Tanto o número de pessoas, como o estado que apresentam é muito inconstante, tornando indispensável que exista um sistema de triagem implementado para assegurar que as pessoas sejam observadas por ordem de necessidade clínica.
De acordo com o Grupo Português de Triagem (GPT), a triagem no SU tem como objetivo facilitar uma resposta mais eficaz, otimizando os tempos de espera de acordo com a urgência de atendimento do ponto de vista clínico (GPT, 2002).
A maioria dos SU nos países desenvolvidos utiliza algum tipo de sistema de triagem. Todos permitem classificar as pessoas em 3 a 5 níveis de prioridade de atendimento, sendo o sistema de triagem com cinco níveis o mais usado (GPT, 2002).
Em Portugal o sistema mais disseminado é o sistema de triagem de Manchester (STM). Foi criado em Manchester em 1997. Está testado internacionalmente e é entendido como mais um passo para melhorar o atendimento das pessoas, exigindo rapidez na proporção da gravidade. Em Portugal, foi implementado e colocado em prática no ano de 2000. Este sistema caracteriza-se pelo estabelecimento de prioridades de atendimento e a definição do tempo máximo recomendado que cada pessoa pode esperar por assistência diferenciada (GPT, 2009).
No nosso país a triagem é executada por enfermeiros devidamente qualificados com formação específica em triagem. A principal função do enfermeiro é fazer uma priorização clínica correta, num espaço de tempo limitado, baseada numa avaliação inicial da pessoa, o que requer qualidades importantes, tais como a experiência, o conhecimento e a intuição. Segundo Anderson, Omberg e Svedung (2006) na realização da triagem, o enfermeiro deve possuir: capacidade assertiva de orientar as pessoas a partir de pequenas informações sobre a história clínica, os dados clínicos e o exame físico orientado para a queixa; conhecimento sobre lesões graves e determinadas patologias e intuição desenvolvida com a experiência, adquirida com a prática da triagem.
O enfermeiro identifica a queixa principal de admissão, seguindo a partir daí um de 52 fluxogramas para conduzir uma entrevista estruturada com resposta dicotómica que
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correspondem a discriminadores de gravidade resultando na atribuição de um nível de prioridade a partir de 1 até 5, sendo que, para cada um está estabelecido um tempo alvo para a primeira observação médica (POM). De modo a facilitar a comunicação dentro do SU a cada nível de prioridade corresponde uma cor. Como se pode observar na Figura 4, os termos prioridade e cor são sinónimos (GPT, 2002).
Figura 4- Sistema de Triagem de Manchester
Número Prioridade Cor Tempo alvo
(minutos)
1 Emergente Vermelho 0
2 Muito urgente Laranja 10
3 Urgente Amarelo 60
4 Pouco Urgente Verde 120
5 Não urgente Azul 240
Fonte: Grupo Português de Triagem. (2002) Triagem no Serviço de Urgência, Manual do Formando. Lisboa: Grupo Português de Triagem.
O STM ao definir tempos alvo de espera para o primeiro atendimento, pode ser utilizado como indicador de qualidade dos cuidados prestados no SU, porque permite saber facilmente se o atendimento está a decorrer dentro do tempo preconizado, determinar o número de pessoas admitidas por nível de prioridade e orientar a distribuição dos recursos pelas várias áreas de atendimento, assim como verificar à posteriori se a triagem foi assertiva, tendo em conta a queixa da pessoa (Matias et al., 2008).
No STM preconiza-se que a triagem seja efetuada num período de tempo de dois a cinco minutos. É fundamental que o enfermeiro seja experiente na categorização das prioridades de atendimento de modo a evitar sub-categorização, pois a pessoa corre o risco de deteriorar o seu estado durante o tempo de espera, ou a sobrevalorização das queixas, aumentando consequentemente o tempo de espera das outras pessoas. (GPT, 2002).
A presença de dor pré-cordial, dispneia, pulso anormal ou até dor severa sem características estritamente cardíacas é classificada segundo o STM com a cor laranja, logo, preconiza-se que o tempo máximo até à POM seja de 10 minutos (GPT, 2002). Porém, quando a pessoa com SCA recorre a um SU com um quadro de sintomas não sugestivo desse diagnóstico, apresentação atípica, a execução da triagem pode conduzir
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ao encaminhamento inadequado da situação clínica, podendo promover classificação incorreta pelo STM, resultando em atraso na POM e naturalmente na terapêutica de reperfusão com consequências graves para a pessoa (Trigo et al., 2008).
Pinto, Lunet e Azevedo (2010), elaboraram um estudo com o objetivo de apurar a sensibilidade e especificidade do sistema de Manchester na triagem de pessoas com SCA e concluíram que a utilização da triagem de Manchester (TM) por enfermeiros no SU é um instrumento com elevada sensibilidade. Contrariamente ao verificado por Matias et al. (2008), no seu estudo TM nas SCA em que apenas 63,2% das pessoas internadas com diagnóstico de SCA foram triadas com a prioridade emergente ou muito urgente e que dos EAMCST, 26% foram triados com a cor amarela ou verde.
O quadro atípico frequentemente apresentado pela pessoa com SCA pode ser um entrave na realização de uma triagem assertiva. O enfermeiro deve ser perspicaz e estar atento a um grupo diferenciado de pessoas, que são os idosos e os diabéticos. Nos idosos, o perfil típico apresenta ausência de dor, sendo a dispneia o sinal mais importante. Nos diabéticos, a neuropatia que acompanha a doença pode interferir com os neuroreceptores, mascarando a perceção da dor pela pessoa (Souza, Da Silva, Barbosa & De Campos Júnior, 2014).
Na maioria das vezes o enfermeiro é o primeiro profissional de saúde a contactar com a pessoa no SU, sendo por isso imprescindível que possua conhecimentos para distinguir os sinais e sintomas do EAM de outras emergências, uma vez que os sinais e sintomas se assemelham entre si e o tempo é um fator determinante para o prognóstico destas pessoas (Santos & Piaggi, 2010). Também Delfin, Melo, Chaves, Duarte e Brito (2012), evidenciam a necessidade de existirem profissionais capacitados, com formação e treino para o acolhimento e atendimento inicial da pessoa, no sentido de melhorar a qualidade, sistematização e padronização do atendimento. A assistência de enfermagem é primordial durante o atendimento, sendo indispensável o conhecimento das patologias cardiovasculares e os sinais e sintomas que as distinguem entre si, assim como as condutas adequadas a cada situação. É crucial que o enfermeiro possua conhecimento, agilidade e capacidade de tomada de decisões rápidas (Souza et al., 2014).
Nesta conformidade, o enfermeiro especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica, é por inerência, o profissional mais qualificado para integrar equipas de atendimento em contexto extra e intra-hospitalar à pessoa em situação crítica, sendo uma das suas competências clínicas especializadas, cuidar da pessoa a vivenciar processos complexos de doença critica e ou falência orgânica. Os cuidados de enfermagem especializados à pessoa com doença de início súbito, em que o risco de falência das funções vitais pode conduzir a pessoa à morte, são cuidados altamente qualificados. São prestados de forma contínua como resposta às necessidades afetadas e permitindo manter as funções
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básicas de vida. Previnem complicações e limitam incapacidades tendo em vista a sua recuperação total. Estes cuidados impõem observação, colheita e procura contínua de dados com o objetivo de conhecer a situação da pessoa, de prever e detetar precocemente complicações e de assegurar uma intervenção precisa, concreta, eficiente e em tempo útil (Regulamento nº 361/2015, Ordem dos Enfermeiros (OE)).
Conclui-se portanto, que quanto maior for o nível de conhecimento do enfermeiro perante as DCV, melhor será o prognóstico e a recuperação da pessoa (Souza et al., 2014). O enfermeiro especialista em enfermagem em pessoa em situação crítica assume-se como uma mais-valia no Sistema Nacional de Saúde Português para a implementação de cuidados especializados de qualidade e exigência cada vez mais complexa e mais diversa (Regulamento nº 361/2015, OE).