49.
Introdução
A criação das comunidades fez nascer um direito novo, autónomo, destinado a reger, no quadro multinacional da União Europeia, as relações recíprocas dos cidadãos, das Instituições e dos Estados-membros.
O direito comunitário é, antes de mais, integrado pelo corpo de normas constantes dos tratados – direito comunitário originário; mas também, constituído pelas disposições dos actos normativos emanados das Instituições Comunitárias – direito comunitário derivado.
Este ordenamento jurídico é comum a todos os Estados da comunidade. Aos tribunais nacionais em geral foi atribuída competência para interpretar e aplicar o direito comunitário. Mas sentiu-se a necessidade de confiar a uma jurisdição especializada a missão de garantir em última instância a correcta interpretação das normas comunitárias, comuns a uma colectividade de
Estados, e bem assim de controlar e sancionar os comportamentos – tanto dos órgãos da comunidade como dos seus Estados-membros e eventualmente dos próprios particulares – atentatórios do respeito devido à ordem jurídica
comunitária.
Essa jurisdição especializada é o Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias – competente nos termos do art. 220º TCE, para assegurar “o
respeito do direito na interpretação e aplicação do presente tratado”.
50.
A posição do Tribunal de Justiça na estrutura institucional das comunidades: um órgão jurisdicional
O Tribunal de Justiça surge na estrutura orgânica das Comunidades Europeias como uma instituição de primacial importância.
O exame das disposições do seu estatuto permite afirmar que este é um verdadeiro tribunal – órgão inteiramente independente das restantes instituições comunitárias e dos Governos dos Estados-membros, com jurisdição própria e competência exclusiva em determinadas matérias que aprecia na rigorosa conformidade do direito comunitário.
Para poder exercer plenamente e com a necessária independência o seu poder jurisdicional, o Tribunal de Justiça intervém a requerimento de qualquer das partes interessadas no litigio, julga sem recurso, algumas das suas
decisões, têm força executória nos territórios dos Estados-membros, funciona com carácter de permanência e a nacionalidade dos juízes do Tribunal de Justiça nada tem a ver com o exercício independente das suas funções. 51.
A função jurisdicional do Tribunal de Justiça no quadro comunitário Como instituição jurisdicional comum às três comunidades [28] , o Tribunal de
Justiça foi colocado em posição de poder exercer uma influência considerável – que efectivamente tem exercido – no processo de intervenção europeia:
Como jurisdição constitucional: tem contribuído em larga medida para a manutenção de um salutar equilíbrio no plano institucional e, em geral, para o integral respeito das regras dos Tratados de paris e de Roma, encarados como “constituição da comunidade” em relação à qual se deve aferir da validade dos actos das instituições comunitárias;
Como tribunal administrativo: tem podido impor às instituições comunitárias o rigoroso respeito pela legalidade comunitária;
Como tribunal cível: julga da responsabilidade extracontratual das comunidades emergentes das actuações dos seus órgãos e agentes;
Como tribunal de trabalho: cumpre-lhe decidir em litígios de carácter laboral que oponham as comunidades aos seus funcionários e agentes;
Como jurisdição responsável pela interpretação e aplicação uniformes do direito comunitário tem logrado assegurar satisfatoriamente a unidade, coerência e eficácia do “corpus iuris” que a ordem jurídica comunitária constitui.
52.
Composição do Tribunal de Justiça
a)
Juízes e advogados-gerais
O Tribunal de Justiça é constituído por quinze juízes ( “um juiz por Estado-
membro” ) – que designam entre si um Presidente – e assistido por oito
advogados-gerais. O número de advogados-gerais poderá ser aumentado, se o Tribunal de Justiça o solicitar, por decisão unânime do Conselho (arts. 221º e 222º TCE).
Os juízes e os advogados-gerais são – art. 223º TCE – nomeados de comum acordo pelos Governos dos Estados-membros, por um período de seis anos, de entre personalidades que ofereçam todas as garantias de independência e reúnam as condições exigidas, nos respectivos países para o exercício das mais altas funções jurisdicionais, ou que sejam jurisconsultos de reconhecida
competência.
De três em três anos, proceder-se-á a uma substituição parcial dos juízes que incidirá de cada vez em oito juízes. Também de três em três anos ocorrerá a substituição parcial dos advogados-gerais que incidirá de cada vez em quatro advogados-gerais (art. 223º TCE).
b)
Advogado-geral
Não é representante de certos interesses, mas um membro independente do próprio Tribunal de Justiça.
Teve-se em vista, ao criá-lo, levar ao processo a informação minuciosa e fundamentada de um jurisconsulto liberto tanto da pressão dos interesses das partes como das responsabilidade do julgador, capaz de carrear para o
processo, com inteira liberdade e independência, quaisquer elementos úteis que os juízes não possam recolher e que as partes não tenham fornecido.
53.
Funcionamento do Tribunal de Justiça
O Tribunal de Justiça reúne normalmente, em secções de três ou cinco juízes; reúne em grande secção sempre que um Estado-membro ou uma Instituição comunitária que seja parte na causa lho solicite; e reúne como tribunal pleno em certos casos particularmente delicados ou em causas de excepcional
54.
Competência do Tribunal de Justiça
Ao Tribunal de Justiça foram atribuídas competências em processos que se poderia chamar de jurisdição voluntária em processo de jurisdição
contenciosa. Cabe ainda ao Tribunal de Justiça conhecer, em recurso de
decisões proferidas em Tribunal de Primeira Instância instituído no quadro comunitário.
a)
Jurisdição voluntária
Em processo não contencioso, o Tribunal de Justiça pode ser solicitado a fornecer a correcta interpretação do direito comunitário ou a julgar da validade dos actos das instituições da comunidade; e ainda, a título consultivo, a
pronunciar-se sobre a compatibilidade de certos actos com a constituição comunitária.
Os tratados facultam ao juiz nacional um processo seguro de resolver a sua dúvida: os tribunais de cujas decisões não haja recurso podem e os tribunais superiores são obrigados a solicitar ao Tribunal de Justiça que lhes forneça a correcta interpretação da norma comunitária ou que se pronuncie sobre a validade do acto comunitário em causa – o que o Tribunal de Justiça fará através de um acórdão vinculativo do juiz nacional que tenha formulado essa questão prejudicial de interpretação ou de apreciação de validade (art. 234º TCE).
O Tribunal de Justiça exerce também competência consultiva:
Nos termos do art. 300º/6 TCE o Tribunal de Justiça pode ser solicitado a pronunciar-se sobre a compatibilidade do tratado com qualquer projecto de acordo que a comunidade em vista concluir com terceiros Estados ou com uma organização internacional.
Art. 95º CECA não permite que a chamada “pequena revisão” do tratado prevista neste artigo possa ter lugar sem prévio parecer favorável do Tribunal de Justiça.
a)
Competência contenciosa
O Tribunal de Justiça garante “o respeito do direito na interpretação e
aplicação dos tratados” (art. 20º TCE).
O tribunal salvaguarda a ordem jurídica comunitária quando exerce a função consultiva; mas salvaguardando-a, sobretudo, quando exerce a sua
competência jurisdicional em processo contencioso: arts. 226º a 228º, 237º-a, 88º/2 e 292º TCE quando é chamado a julgar acções por incumprimento; arts.
230º e 232º TCE em recurso de anulação, omissão, conflitos de competência entre instituições, ou controlar a conformidade dos actos ou das abstenções; arts. 225º/1 230º, 232º, 236º e 241º TCE – como jurisdição administrativa e laboral; como tribunal cível e criminal, com competência para julgar de certos comportamentos dos operadores de mercado comum – ex. arts. 81º e 82º TCE – para aplicar sanções pecuniárias – arts. 228º/2 e 229º TCE e para apurar e decidir da responsabilidade contratual da comunidade – arts. 235º e 228º TCE.
Além das competências consultiva e contenciosa a que lhe são atribuídas pelos tratados, o Tribunal de Justiça pode ainda – ao abrigo dos arts. 238º e 239º TCE – ser chamado a julgar os litígios que lhe sejam submetidos quer em virtude de uma cláusula compromissória, quer por força de um acto unilateral da autoridade comunitária ou de uma convenção concluída pela comunidade.