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TRIBUTO E SUAS LIMITAÇÕES CONSTITUCIONAIS

3 ELEMENTOS COMPONENTES DA NORMA QUE VEDA O TRIBUTO COM EFEITO DE CONFISCO

3.1 TRIBUTO E SUAS LIMITAÇÕES CONSTITUCIONAIS

O Estado necessita visceralmente da tributação para existir, sendo-lhe inerente o poder de impor que seus membros, dentro das suas capacidades81, concorram para as despesas contraídas para satisfação das necessidades coletivas82.

Constitui o tributo a parcela da riqueza particular que é transferida ao Estado para que este tenha capacidade de atuar e concretizar os fins constitucionalmente tutelados.

Nessa esteira, a imposição fiscal representa um ônus que recai sobre o direito de propriedade do indivíduo que vive em sociedade, sendo a referida transferência de bens particulares a tal ente o “preço” pago para participar da sua estrutura organizacional.

O tributo afigura-se, assim, “a contribuição patrimonial individual que permite o convívio coletivo organizado através de uma entidade chamada Estado83”.

81 A Constituição brasileira de 1824 já consignava em seu texto a norma segundo a qual “ninguém será isento de

contribuir para as despesas do Estado em proporção aos seu haveres” (art. 179, nº 15).

82 Para José Casalta Nabias: “[...] o imposto não pode ser encarado nem como um mero poder para o Estado, nem

como um mero sacrifício para os cidadãos, constituindo antes o contributo indispensável a uma vida em comunidade organizada em estado fiscal. Um tipo de estado que tem na subsidiariedade da sua própria acção (econômico-social) e no primado da autoresponsabilidade dos cidadãos pelo seu sustento o seu verdadeiro suporte”. (NABIAS, José Casalta. O dever fundamental de pagar impostos. Coimbra: Almedina, 1998, p. 679).

83 PONTES, Helenílson Cunha. Direitos fundamentais do contribuinte. In: MARTINS FILHO, Ives Gandra da

Silva (Coord.). Direitos fundamentais do contribuinte. São Paulo: Centro de Extensão Universitária: Revista dos Tribunais, 2000. Coleção Pesquisa tributária, Nova Série – 6. p. 366-367.

Do ponto de vista de tal ente, o tributo consubstancia um meio de obter recursos econômicos necessários à efetivação dos fins para cuja realização o Estado surge e se mantém84.

Deveras, o total de recursos que cada indivíduo deve suportar para custear as despesas gerais do Estado é fixado historicamente, a partir do processo político vivido por cada sociedade.

Com efeito, a apropriação pelo Estado dos bens dos indivíduos que revelam aptidão para contribuir oscila ao sabor das opções políticas adotadas, razão pela qual a imposição tributária resulta indissociável do contexto em que ela se insere.

Nessa esteira, Aliomar Baleeiro85 ressalta que a tributação no curso do tempo:

[...] aperfeiçoa-se do ponto de vista moral, adapta-se às cambiantes formas políticas, reflete-se sobre a economia ou sofre reflexos desta, filtra-se em princípios ou regras jurídicas e utiliza diferentes técnicas jurídicas para execução prática.

Assim, a tributação de um país adquire contornos diversos a depender, por exemplo, do modelo de Estado adotado.

No Brasil, o Constituinte de 1988 conferiu papel de relevo ao Estado, atribuindo-lhe o dever de assegurar inúmeros direitos individuais, sociais e econômicos, bem como de efetivar a justiça material.

Nesse afã, traçou como alguns dos seus objetivos basilares: a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades sociais (art. 3º da CF de 1988).

Ademais, erigiu como fundamentos da República Federativa do Brasil, no seu art. 1º, dentre outros, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, bem como nos arts. 5º e 6º garantiu aos residentes no país, como direito fundamental86, o direito à vida, à liberdade, à segurança, à educação, à saúde, à moradia, ao lazer e à segurança.

84 VANONI. Natureza e Interpretação das leis tributárias. Rio de janeiro: Financeiras, s/d., p. 133 apud

TORRES, Ricardo Lobo; SCHOUERI, Luís Eduardo; ZILVETI, Fernando Aurélio (Coord.). Direito Tributário: estudos em homenagem a Brandão Machado. São Paulo: Dialética, 1998. p. 195.

85 BALEEIRO, Aliomar. Limitações ao poder de tributar. 7. ed. Rio de janeiro: Forense, 1999. p. 1.

86 Embora haja doutrinadores que sustentem que somente os direitos individuais preconizados no art. 5º da

Diante da vasta gama de prestações positivas e diretrizes políticas plasmadas no texto Constitucional de 1988, instituiu-se no Brasil não só um Estado Democrático de Direito, pautado na soberania popular e nas instituições democráticas, mas verdadeiro Estado Social, fundado na síntese dualista do bem-estar social e desenvolvimento econômico.

Ao introduzir no seu texto normas que asseguram os direitos sociais e balizam a economia, a Carta Política de 1988 chancelou, de vez, a intervenção do estatal nestes campos, afastando- se, pois, do Estado Liberal, abstencionista.

Ressalte-se, todavia, que tal opção política por um Estado Democrático de cunho Social, como já advertia o mestre Baleeiro, tem impacto direto na tributação do país, já que, para fazer face às inúmeras intervenções e compromissos assumidos em favor da coletividade, é necessária significativa transferência de riqueza particular para os cofres públicos87, a qual é justificada pelo dever de solidariedade, consubstanciado na construção de uma sociedade justa, como objetiva a Lei Maior no mencionado art. 3º.

Contudo, tal permissão para interferir na esfera individual não é absoluta, já que o constitucionalismo social adotado pela Lei Maior, como já ressaltado, implica também na proteção dos direitos individuais clássicos, como a liberdade e a propriedade privada.

da Constituição também o são, neste sentido são válidas as lições do professor José Souto Maior Borges: “Sem embargo dessas considerações, os direitos sociais do art. 6º da CF, são também eles, direitos fundamentais. Não será admissível que os direitos à educação, saúde, trabalho, etc. possam ser supressos via reforma constitucional. Aceitá-los seria o mesmo que admitir-se a degradação e a descaracterização do Estado Democrático de Direito, outro princípio fundamental (CF, art. 1º). Atentaria contra a federação, tal como constitucionalmente estruturada (CF, art. 1º, caput)”. (FISCHER, Octavio Campos. Tributos e direitos fundamentais. São Paulo: Dialética, 2004. p. 218).

87 DERZI, Misabel Abreu Machado. Nota de atualização a BALEEIRO, 1999. “[...] a Constituição Federal

constitui a República dos marcos intervencionistas do século XX em um Estado Democrático de Direito, que tem como metas não só garantir o desenvolvimento nacional, como erradicar a pobreza, a marginalização, reduzir as desigualdades sociais e regionais, na construção de uma sociedade livre, justa e solidária (art. 3º).

Indubitavelmente, a expressão Estado Democrático de Direito é amplíssima. Não pode ser mera concepção formal, no sentido que Pontes de Miranda atribui a palavra democracia, ou seja, forma de governo na qual o povo, detentor primário e originário de poder, se auto-ordena a ordem jurídica, diretamente, ou por meio de representantes que escolhe periodicamente (cf. Democracia, liberdade e Igualdade (Os Três Caminhos), 2ª ,. São Paulo, Saraiva, 1979, pp.140-146). Ao lado da forma (primado da lei), estão outros dados necessariamente integrantes do conceito constitucional, como a estrutura econômica e social, o desenvolvimento, a justiça, a igualdade, enfim, metas a alcançar e os meios materiais utilizáveis. Estado Democrático de Direito é antes noção de sistema político, o qual abrange não só as instituições governamentais formalmente consideradas, como ainda valores e diretrizes adotadas pela Constituição.

Ora, são exatamente tais valores e diretrizes que tornam um Estado tão caro, sendo de se esperar uma elevação da carga tributária”.

Em verdade, é característica marcante do constitucionalismo social88 a tensão gerada em virtude de se albergar diversos interesses contrapostos. É impossível não haver conflito quando se contempla, a um só tempo, a proteção a direitos individuais e o dever de solidariedade, permitindo que se busque compulsoriamente recursos particulares para custear as despesas coletivas assumidas pelo Estado.

Assim, no campo tributário, em que o impacto do constitucionalismo social é direto, a Lei Maior, com vistas a compatibilizar todos os interesses presentes num Estado de Direito Democrático, fruto de uma sociedade plural, cuidou de definir normas de competência e limitações ao poder de tributar.

Com efeito, foi traçado minuciosamente o âmbito de competência outorgado a cada ente arrecadante, restando discriminados todos os tributos que podem ser instituídos e a forma que deve ser observada por cada pessoa tributante.

Nesse compasso, a União, os Estados e os Municípios, que, devido à forma federativa de Estado adotada, foram designados como sujeitos ativos da relação tributária, tiveram seu âmbito de atuação demarcado pela Constituição Federal, primordialmente, através de regras jurídicas que cuidam de descrever taxativamente os contornos da intervenção na esfera individual em que é permitida.

Voltando-se, ainda, à contenção ao poder de tributar, foram instituías inúmeras regras e princípios gerais no texto constitucional, impedindo, por exemplo, a tributação que não respeitasse as forças da riqueza particular, desobedecesse aos deveres de igualdade, legalidade, anterioridade e não confisco, ou ainda, que incidisse sobre bens, pessoas e fatos imunes.

Sobre as limitações ao poder de tributar, assim, preleciona Luciano Amaro89:

88 O professor Paulo Roberto Lyrio Pimenta, revela com precisão os elementos que desencadeiam a tensão no

constitucionalismo social, próprio das constituições pós-primeira guerra mundial: “Assegurando os direitos sociais dos indivíduos, as Cartas Constitucionais desse período passam a incorporar também os direitos econômicos. Em conseqüência, o constitucionalismo clássico erigido com o escopo de garantir as liberdades individuais e políticas e os direitos civis, cede lugar ao constitucionalismo social. As constituições abandonam, então, o modelo tradicional, fulcrado no liberalismo clássico, passando a representar um compromisso entre grupos sociais em choque (progressistas e conservadores). A instabilidade e o compromisso caracterizam, pois, o

constitucionalismo social. (Grifos do autor). (PIMENTA, 1999, p. 135).

O que fazem, pois, essas limitações é demarcar, delimitar, fixar fronteiras ou limites ao exercício de tributar. São, por conseguinte, instrumentos definidores (ou demarcadores) da competência tributária dos entes políticos no sentido de que concorrem para fixar o que pode ser tributado e como pode sê-lo [...].

Tais amarras, típicas de um Estado de Direito, deixam claro que o poder de tributar Estatal não é irrestrito, devendo ser exercido dentro das limitações que lhe foram impostas.

Vale reforçar a idéia de que o perfil democrático da Constituição de 1988 impede que a análise dos citados mecanismos de defesa dos contribuintes por ela criados sejam interpretados de forma apartada dos fins constitucionais por ela contemplados.

Assim, num Estado que é regido pelo Direito e é democrático, não basta que a imposição fiscal atenda aos requisitos formais e materiais, próprios de um Estado regido pelo Direito, devendo no plano concreto estar voltada à construção de uma sociedade livre, justa e solidária, que persegue um Estado Democrático.

Nesse contexto, a tributação, para se alinhar aos diversos valores contemplados pelo ordenamento jurídico, fruto de uma sociedade plural, deve adequar-se aos ditames da proporcionalidade.