• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3 – EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA

3.1 A IMPORTÂNCIA NO DESENVOLVIMENTO DO EMPREENDEDORISMO

3.1.1 Triple Helix

O processo de inovação é complexo e varia, não sendo, em geral, representado exatamente como ocorre (ROGERS, 2003); tradicionalmente é representado de forma linear, da universidade para a empresa (WESTHEAD; STOREY, 1995). Entretanto, o processo de inovação pode ser “visto como um fenômeno sistêmico e irreversível, durante o qual o

ambiente formata a empresa inovadora, assim como a empresa formata seu ambiente, não como um projeto isolado de inovação” (AUTIO, 1997, p. 264).

Assim, a inovação não é percebida necessariamente como um processo linear, mas como o resultado de uma complexa interação entre vários atores e instituições. Estes atores e instituições e suas interconexões constituem um sistema de agentes fortemente interdependentes. De acordo com a OECD (1999, p. 11):

Dentro de um sistema de inovação, ou de uma rede de inovação, vários tipos de transformação de conhecimento podem estar acontecendo em qualquer ponto do tempo. Ao invés de ocorrerem sequencialmente, esses processos podem acontecer em paralelo. Os processos podem ter lugar entre diferentes atores ligados dentro do sistema, e eles também podem ter lugar dentro dos atores, especialmente dentro de grandes empresas [...]. Isto está em contraste com a visão sequencial do processo de inovação tecnológica, uma visão que se reflete na visão linear do processo de spin-

off de novas empresas baseadas em tecnologia.

Essa interação entre atores é reforçada por Etzkowitz (2003, p. 299), na conceituação do próprio termo inovação, que “mais do que o desenvolvimento de novos produtos nas empresas, é também a criação de novos arranjos entre as esferas institucionais que propicia as condições para a inovação”. Assim sendo, destaca-se a cooperação tecnológica Universidade- Empresas como uma forma de gerar inovação.

Essa cooperação é um tema que tem sido abordado e muito discutido. Com o passar do tempo e o aumento da completude do conhecimento, na medida em que este vai sendo construído, novas abordagens surgem para questões que ainda persistem no contexto atual. Pode-se mencionar o trabalho de Jorge Sábato como um dos primeiros sobre a temática, da importância e da forma como deveriam ocorrer os processos de cooperação U-E, especificamente, para a América Latina. Seu artigo trabalhou a visão de três instituições sociais: o governo, as empresas e a universidade, como três elementos que deveriam interagir para o desenvolvimento tecnológico.

Com base no triângulo de Sábato, verificam-se três tipos de relações: intrarrelações, que são as que ocorrem entre os componentes de cada vértice; inter-relações, que são as que se estabelecem deliberadamente entre pares de vértices; e extrarrelações, que são as que se criam entre uma sociedade, na qual funciona o triângulo das relações, e o exterior (PLONSKI, 1994).

As inter-relações que acontecem horizontalmente, na base do triângulo, são de mais difícil estabelecimento (PLONSKI, 1994). Essas relações, denominadas aqui especificamente de cooperação tecnológica U-E, são caracterizadas por Plonski (1994, p. 364) como:

[...] modelo de arranjo interinstitucional entre organizações que têm natureza fundamentalmente distinta. Esse arranjo pode ter finalidades variadas – desde interações tênues, como no oferecimento de estágios profissionalizantes, até vínculos extensos e intensos, como nos grandes programas de pesquisa cooperativa – e formatos bastante diversos.

Apesar da validade das proposições acerca do conceito de cooperação U-E, à época, ele tem sido atualizado a partir de recentes perspectivas, principalmente sob a ótica do estudo de Etzkowitz (1998), que têm como um de seus diferenciais a percepção de uma maior aproximação entre os objetivos e posicionamentos distintos de universidade e empresa, atenuando os reflexos da “natureza distinta” comentada por Plonski (1994). Nesse sentido, Sutz (1997, p. 12) declara que:

de fato, [...] não é apenas o contato direto entre os mundos acadêmico e empreendedor [que] aumentou, mas tal contato está cada vez mais e mais se parecendo um diálogo entre parceiros iguais. Isso não é como há pouco tempo atrás: os interesses, objetivos e estilos dos dois mundos eram distintamente diferenciados, e aquelas diferenças eram vistas como legitimadas. Hoje em dia as universidades são mais e mais consideradas tanto por empresas quanto por governos como instituições que seriam devotadas para o “bem nacional” da competitividade econômica do que ao “bem universal” do conhecimento. Na extensão que essa perspectiva vai sendo socialmente aceita, os limites entre academia e indústria se tornam apagados.

Assim sendo, diferentes formas de cooperação U-E são abarcadas dentro do denominado modelo de “tripla hélice”, o qual “funciona como um modelo analítico que adiciona à descrição de uma variedade de arranjos institucionais e modelos de política uma explicação de sua dinâmica” (ETZKOWITZ; LEYDESDORFF, 2000).

Etzkowitz e Leydesdorff (2000) apresentam uma visão da evolução dos sistemas de inovação e os conflitos potenciais nas relações entre a Universidade e as empresas, abordando as variações nos arranjos institucionais nas relações Universidade-Empresa-Governo (U-E-G). A Figura 6 apresenta o modelo estadista de relação U-E-G, onde o governo se envolve e dirige as relações entre as empresas e a Universidade.

Fonte: Etzkowitz e Leydesdorff (2000) A Figura 7 apresenta o modelo “laissez-faire” de relação UEG, onde há a clara separação institucional entre as esferas, com forte delimitação de cada uma, no entanto, estando o governo no vértice superior do triângulo, ele mantém o papel de incentivador da relação, o que possibilita sua atuação como direcionador do desenvolvimento. Esse modelo também pode ser visto como a tripla hélice II, chamado, como mencionado anteriormente de modelo laissez-faire de relação universidade-empresa-governo devido à separação feita entre as esferas.

Figura 7 – Modelo “Laissez-Faire” da relação UEG

Fonte: Etzkowitz e Leydesdorff (2000)

A Figura 8 apresenta o modelo da tripla hélice, que gera uma infraestrutura de conhecimento em termos de sobrepor à ação dos atores e, nesta intersecção, estabelecer as condições de desenvolvimento de uma relação verdadeiramente produtiva. O objetivo é desenvolver um ambiente propício à inovação, envolvendo empresas surgidas de spin-off acadêmico, iniciativas trilaterais de desenvolvimento econômico e social, alianças estratégicas entre empresas, laboratórios de pesquisa acadêmicos e governamentais atuando em conjunto, etc. O papel do governo passa a ser o de articular e estimular estas parcerias e não de controlar as relações. No espaço de inter-relações entre os três atores surge um ambiente de rede trilateral e de organizações híbridas.

Fonte: Etzkowitz e Leydesdorff (2000) Além de se constituir em um modelo de relações entre U-E-G, o Modelo da Tripla Hélice envolve também uma nova visão dos atores envolvidos. A Universidade transforma-se de uma instituição centrada basicamente no ensino, em uma instituição que combina seus recursos e potenciais na área de pesquisa com uma nova missão, voltada ao desenvolvimento econômico e social da sociedade onde atua, estimulando o surgimento de ambientes de inovação e disseminando uma cultura empreendedora. Neste sentido, as Universidades passam a vivenciar uma tensão entre seu papel na sociedade enquanto uma instituição que apresenta uma tripla missão: ensino, pesquisa e desenvolvimento econômico e social.

Existem, segundo Audy e Morosini (2006), quatro processos relacionados com as mudanças baseadas no conhecimento que o Modelo da Tripla Hélice identifica:

 mudanças internas em cada hélice, tais como o desenvolvimento de estratégias de alianças entre empresas concorrentes (cooperação) e a incorporação do desenvolvimento econômico e social como missão da Universidade e o papel de articulador (e não de dirigente e controlador da relação) do Governo;

 reconhecimento da influência de cada ator nas ações dos demais, tais como as legislações governamentais nas áreas de propriedade intelectual, transferência de tecnologia e inovação (Lei Bayh-Dole nos Estados Unidos e Lei da Inovação no Brasil);

 criação de novas formas de relacionamento entre os atores, redes de cooperação, alianças estratégicas e outras formas de cooperação que visam estimular a criatividade e a coesão regional (Joint Venture Silicon Valley nos Estados Unidos,

como criação de ambientes de inovação (Parques Científicos e Tecnológicos, Incubadoras de Empresas);

 efeito recursivo gerado pelas redes de relações interinstitucionais que representam a academia, as empresas e os governos, ampliando suas ação junto à sociedade.

Ao ter em consideração a importância da educação para o empreendedorismo, bem como das interações entre empresas, universidades e governo, destina-se o ponto seguinte à evolução histórica da educação para o empreendedorismo no ensino superior.

3.2 EVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO PARA O EMPREENDEDORISMO NO ENSINO

Documentos relacionados